Um Estudo Comparativo da Doutrina da Trindade das Igrejas Católica Romana e Adventista do Sétimo Dia: Implicações para As Visões Antitrinitárias no Adventismo

Um Estudo Comparativo da Doutrina da Trindade das Igrejas Católica Romana e Adventista do Sétimo Dia: Implicações para As Visões Antitrinitárias no Adventismo


Autor: Tony Ogouma

Tradutor: Hugo Martins


Resumo

Nos últimos anos, a questão da Trindade tem levantado preocupações na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Muitos contestam a atual posição trinitária da Igreja. Portanto, muitos adventistas estão apelando à rejeição da Trindade por causa de uma suposta ideia de que a atual posição adventista sobre o tema da Trindade vem da Igreja Católica Romana. Contudo, um estudo comparativo e contrastante entre a declaração de crença na Trindade da Igreja Católica Romana e da Igreja Adventista do Sétimo Dia demonstra que a declaração adventista difere da visão católica. Logo, as duas teologias da Trindade diferem entre si. Embora as duas denominações concordem sobre a importância do conceito da Trindade em sua teologia, elas diferem na compreensão dos principais aspectos das três pessoas da Trindade.


Introdução

Há um interesse crescente na doutrina de Deus, com uma ênfase significativa na doutrina da Trindade nos últimos anos. Consequentemente, a doutrina da Trindade tem sido contestada até mesmo entre teólogos. Como Volf colocou no título do seu artigo, “A Trindade é O Nosso Programa Social: A Doutrina da Trindade e A Forma do Engajamento Social,”1 muitos estudiosos parecem ter encontrado na doutrina da Trindade não apenas uma doutrina de fé que pode moldar a sociedade, mas também uma forma de moldar a vida de uma pessoa por meio da forma como se entende quem é Deus e o fundamento da teologia cristã. Erickson diz: “A doutrina da Trindade é crucial para o cristianismo.” Ele acrescenta: “ela se preocupa com quem Deus é, como ele é, como ele trabalha e como deve ser abordado.”2 No entanto, a doutrina da Trindade é vista por muitos como errada, questionável ou como uma ortodoxia assertiva para a Igreja.3 Por um lado, há aqueles a favor da Trindade: os trinitários; e, por outro lado, há aqueles que são contra esta doutrina: os antitrinitários.

De outro ângulo, é amplamente aceito entre os historiadores da Igreja que o conceito da Trindade foi uma das primeiras grandes questões teológicas abordadas pela Igreja nos primórdios de sua história.4 Consequentemente, a Igreja Católica Romana firmou e estabeleceu a doutrina da Trindade no século IV, durante o Primeiro Concílio de Niceia (325 E.C.) e, posteriormente, no Concílio de Constantinopla (381 E.C.). Esta doutrina é aceita entre protestantes e evangélicos que defendem a doutrina da Trindade. No entanto, esta doutrina não tem reconhecimento unânime entre diversas denominações, inclusive entre protestantes e evangélicos. É amplamente contestada e tem gerado discussões. A Igreja Adventista do Sétimo Dia não é poupada deste debate. Muitos adventistas hoje veem a atual posição trinitária da Igreja Adventista como um problema doutrinário. Eles veem a Igreja Adventista do Sétimo Dia abraçando a Trindade, que, na opinião deles, é fundamentada não apenas na ortodoxia oriental, mas também no catolicismo romano.5

A doutrina da Trindade tem gerado polêmicas nas igrejas protestantes e evangélicas. Mesmo entre os adventistas, a doutrina da Trindade tem gerado muitos debates. Embora alguns afirmem que a evidência da história adventista sugere que os pioneiros eram antitrinitários, outros indicam que a atual posição trinitária da Igreja é uma traição à fé dos pioneiros.6 Além disso, alguns afirmam que esta doutrina é herança da Igreja Católica Romana. Diante disso, ela é enganosa e deve ser abandonada pela Igreja Adventista. Consequentemente, muitas pessoas argumentam contra o que consideram o dogma católico da Trindade e apelam a uma nova consideração da posição semiariana dos pioneiros adventistas.

Apesar disso, Burt afirma que “muitos não perceberam que a doutrina católica da Trindade tem diferenças em relação à doutrina bíblica adventista do sétimo dia da Trindade.”7 Se esta afirmação estiver correta, então a doutrina bíblica adventista da Trindade não pode ser considerada herança da Igreja Católica Romana. Mas, para fins de argumentação, a afirmação anterior feita por Burt levanta algumas questões vitais que exigem respostas honestas: qual é a declaração da Igreja Católica sobre a Trindade? Qual é a declaração adventista do sétimo dia sobre a Trindade? Existem semelhanças e diferenças entre as duas visões? A afirmação antitrinitária de que a atual crença adventista na Trindade é herança da Igreja Católica procede?

Após a exposição do problema, o objetivo deste estudo é analisar criticamente a declaração doutrinária da Trindade conforme expressa pela Igreja Católica Romana e pela Igreja Adventista do Sétimo Dia hoje. A análise minuciosa dos dois pontos de vista apresentará as semelhanças e as diferenças entre as duas declarações e suas teologias. Por fim, esta obra apresenta as implicações do estudo comparativo das duas visões para os desafios contemporâneos levantados pelo surgimento antitrinitário dentro do adventismo.

Este estudo utilizará um método comparativo descritivo e analítico. Investigará meticulosamente e examinará a visão católica da Trindade e a visão adventista. Para atingir o objetivo desta obra, o artigo apresenta um desenvolvimento histórico conciso do conceito da Trindade na Igreja Católica Romana e na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Em segundo lugar, o artigo analisará sistematicamente a atual afirmação da Trindade em ambas as denominações. Em terceiro lugar, o estudo comparará e contrastará as duas opiniões, enfatizando a teologia de cada uma, refletida em suas declarações recentes sobre a Trindade. Por fim, o trabalho apresentará as diversas implicações da Trindade com base no estudo comparativo das duas visões trinitárias denominacionais para os desafios contemporâneos levantados pelo antitrinitarismo presente no meio adventista.

Um Breve Desenvolvimento Histórico da Doutrina da Trindade na Igreja Católica Romana

Durante o período da igreja apostólica, os crentes eram monoteístas. Os Pais Apostólicos, como Barnabé, Hermas, Clemente de Roma, Inácio, Policarpo e Papias, escreveram expressando suas opiniões sobre a doutrina de Deus.8 No início do período pós-apostólico, a Igreja refletia intensamente sobre Cristo. Há evidências suficientes de que os cristãos do período pós-apostólico acreditavam na pré-existência de Cristo e em sua participação na criação e no plano de salvação.9 No final do segundo século, por meio dos escritos de Irineu e Tertuliano, foi estabelecida a ideia da pré-existência de Cristo como pessoa distinta do Pai.10 No terceiro século, surgiu uma discussão significativa sobre a natureza do Filho: adocionismo e monarquianismo. Tertuliano, neste contexto, parece ter sido o primeiro a aplicar o termo Trindade (do latim Trinitas) a Deus em seus escritos contra Praxeas, em resposta à heresia monarquiana.11 Ademais, em uma tentativa de preservar o monoteísmo e a plena divindade de Cristo, o Modalismo surgiu e concluiu que não havia ser ou substância pessoal distinta dentro de Deus. Consequentemente, modalistas como Sabellius e Noetus viam o Pai, o Filho e o Espírito Santo como uma designação de Deus revelando-se em diferentes modos, ofícios ou operações — uma pessoa com outros nomes.12

A disputa ariana marcou o quarto século. Para Ário, Deus era “a fonte não originada de toda a realidade” e sua essência “não pode ser compartilhada ou comunicada.” Ário argumentou que o Filho era um ser criado e não poderia ser Deus. Ele insistiu que houve um tempo em que Cristo veio à existência.13 Mas Atanásio veementemente denunciou o arianismo como uma heresia.14 Esta posição controversa de Ário levou à reação nicena ao arianismo em 325 E.C.

Consequentemente, o Concílio Niceno concentrou-se na afirmação ariana de que Jesus não era totalmente Deus. Durante o painel, após um longo debate, um comunicado foi formulado e aprovado em 19 de junho de 325 E.C. Foi assinado por todos os bispos presentes, exceto dois que se recusaram a assinar.15 O Credo, uma vez desenvolvido, declarou:

Cremos em Um Deus, Pai, Todo-Poderoso, Criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. E em Um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, gerado do Pai, Unigênito, isto é, da substância do Pai; Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado e não criado, consubstancial ao Pai a quem todas as coisas foram feitas, tanto as coisas no céu como as coisas na terra; que por nós homens e para nossa salvação desceu e se encarnou, se fez homem, sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu e vem para julgar os vivos e os mortos. E no Espírito Santo.

E aqueles que dizem “houve um tempo quando ele não existia” e “antes de ser gerado ele não existia”, e “ele veio a existir do nada”, ou aqueles que pretendem que o Filho de Deus é “de outra hipóstase ou substância”, ou “criado”, ou “alterável”, ou “mutável”, a Igreja Católica e Apostólica anatematiza.16

Esta declaração reconhece que o Filho é da mesma “substância que o Pai”; portanto, ele é Deus — “Deus verdadeiro de Deus.” O Concílio dos Pais da Igreja não só confirmou a posição de Alexandre de que o Filho é distinto do ser do Pai, mas também condenou o principal argumento de Ário no Apêndice do Credo. Uma breve menção ao Espírito Santo foi feita no Credo Niceno. Esta breve declaração alimentou o debate teológico dos anos seguintes sobre a natureza do Espírito Santo.

Nos séculos anteriores, as discussões centravam-se no Pai e no Filho, mas as questões sobre o Espírito Santo nunca haviam sido trazidas às disputas. No entanto, no quarto século, a discussão centrou-se na natureza do Espírito Santo. Já no terceiro século, Tertuliano definiu o Espírito Santo como Spiritus Sanctus e persona e lhe atribuiu o título de deus e dominus.17 Para Tertuliano, há distinção entre membro da Trindade e não divisão. Portanto, o Pai, o Filho e o Espírito são uma substância idêntica.18

O Concílio de Constantinopla, em 381 E.C., entre outras questões relacionadas à liderança na Igreja, abordou o problema levantado sobre a natureza do Espírito Santo. Após debates teológicos, um Credo foi formulado e adotado. Declara:

Cremos em um só Deus, Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis. E em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, unigênito do Pai antes de todos os séculos; Luz da Luz, Deus verdadeiro do Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai, por quem todas as coisas foram feitas. Que, por nós homens e para nossa salvação, desceu do céu, e se fez carne pelo Espírito Santo e pela virgem Maria, e se fez homem; foi crucificado também por nós sob Pôncio Pilatos; e sofreu, e foi sepultado; e ao terceiro dia ressuscitou, segundo as Escrituras; e ascendeu ao céu, e está sentado à direita do Pai e voltará com glória para julgar os vivos e os mortos; cujo reino não terá fim. E no Espírito Santo, o Senhor e Doador da Vida, que procede do Pai, que, juntamente com o Pai e o Filho, é adorado e glorificado, que falou através dos profetas. Em uma só Igreja santa, católica e apostólica, confesse um só batismo para a remissão dos pecados. Aguardamos a ressurreição dos mortos e a vida da era vindoura. Amém!19

O Credo de Constantinopla enfatizou a divindade do Pai e do Filho, bem como a divindade do Espírito Santo. O Filho é gerado do Pai e “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.” Além disso, a natureza divina do Espírito Santo é definida como “Senhor.” O Credo declara que o Espírito Santo tem a mesma natureza do Pai e do Filho, pois ele é adorado e glorificado como o Pai e o Filho.

Ao todo, a doutrina ortodoxa da Trindade na Igreja Católica Romana surgiu essencialmente a partir de questões controversas que surgiram na Igreja. Todas as disputas teológicas foram principalmente o resultado de movimentos como o monarquianismo, o modalismo e o arianismo que levaram à formação do Credo da Trindade no Concílio de Niceia, e posteriormente no Concílio de Constantinopla, onde uma declaração definitiva foi aprovada em 381 E.C. Hoje, a declaração oficial da Trindade da Igreja Católica Romana é a descrita no Catecismo da Igreja Católica:

A Trindade é Una. Não confessamos três deuses, mas um Deus em três pessoas, a“Trindade consubstancial.” As pessoas divinas não compartilham a única divindade entre si, mas cada uma delas é Deus todo e inteiro: “O Pai é aquilo que o Filho é, o Filho aquilo que o Pai é, o Pai e o Filho aquilo que o Espírito Santo é, isto é, por natureza um só Deus.” Nas palavras do Quarto Concílio de Latrão (1215 E.C.): “Cada uma das pessoas é aquela realidade suprema, a saber, a substância, essência ou natureza divina.”

As pessoas divinas são realmente distintas entre si. “Deus é um, mas não solitário.” “Pai”, “Filho”, “Espírito Santo” não são simplesmente nomes que designam modalidades do ser divino, pois são realmente distintos um do outro: “Aquele que é o Filho não é o Pai, nem o Filho é aquele que é o Pai, nem o Espírito Santo é aquele que é o Pai ou o Filho.” Eles são distintos um do outro em sua relação com a origem: “É o Pai quem gera, o Filho quem é gerado e o Espírito Santo quem procede.” A unidade divina é Trina.

As pessoas divinas estão relacionadas entre si. Como a unidade divina não se divide, a verdadeira distinção entre as pessoas reside unicamente nas relações que as relacionam entre si: “Nos nomes relacionais das pessoas, o Pai está relacionado com o Filho, o Filho com o Pai e o Espírito Santo com ambos. Embora sejam chamados de três pessoas devido ao seu relacionamento, acreditamos em uma natureza ou substância.” Na verdade, “tudo (neles) é aquileo em que não há oposição de relacionamento.” “Por causa dessa unidade, o Pai está totalmente no Filho e totalmente no Espírito Santo; o Filho está totalmente no Pai e totalmente no Espírito Santo; o Espírito Santo está totalmente no Pai e totalmente no Filho.”20

Um Breve Desenvolvimento Histórico da Doutrina da Trindade na Igreja Adventista do Sétimo Dia

Nos anos 1800, o cristianismo nos Estados Unidos foi envolvido pela doutrina apostólica da segunda vinda de Cristo. Em meio ao protestantismo nos Estados Unidos, Guilherme Miller lançou um movimento que reuniu muitos cristãos de diversas denominações. Embora houvesse muitas doutrinas diferentes, os cristãos do movimento milerita estavam focados no segundo advento de Cristo. Por meio de um estudo minucioso da profecia de Daniel 8:14, o movimento millerita fixou a segunda vinda de Jesus para 22 de outubro de 1844.21 Infelizmente, Jesus não veio como eles haviam planejado e pregado.22 O milerismo, um movimento ecumênico anterior a 1844, composto por muitas denominações evangélicas, fragmentou-se devido ao desapontamento.23 Um grupo que posteriormente se tornou a Igreja Adventista do Sétimo Dia surgiu dessa fragmentação e desse desapontamento no início da década de 1860.24

Durante a fase inicial da história da Igreja Adventista, muitos pioneiros rejeitaram a doutrina da Trindade. Isso é compreensível porque muitos vieram de denominações que se opunham a esta doutrina. Por exemplo, Tiago White e Joseph Bates eram originalmente membros da Igreja Conexão Cristã, uma igreja antitrinitária. Além disso, alguns pioneiros, como Uriah Smith, acreditavam que Jesus era um ser criado.25 Quanto à natureza do Espírito Santo, muitos pioneiros da Igreja Adventista viam “o Espírito Santo como a influência onipresente do Pai ou do Filho, e não de uma pessoa.”26 Um número seleto de pessoas que se opuseram à Trindade e à natureza divina de Cristo nos primeiros anos da Igreja Adventista é: J. B. Frisbie,27 J. N. Loughborough,28 R. F. Cottrell,29 J. N. Andrews,30 D. M. Canright31 e J. H. Waggoner.32 Consequentemente, em 1890, os adventistas já haviam expressado uma posição harmoniosa de que Jesus se originou de Deus e que o Espírito Santo era uma influência, mas não uma pessoa.33 Sua posição tinha sido, até esse período, uma visão semi-ariana em relação à personalidade de Cristo.

Após 1890, nota-se uma transição progressiva do antitrinitarismo para o trinitarismo. Um exemplo da primeira referência à Trindade na literatura adventista foi a série Bible Student Library, em 1892.34 Embora Samuel Spear, o autor deste ensaio, tenha argumentado que o Filho era “subordinado a Deus” e que o Pai era “superior” a Cristo,35 esta é a primeira declaração favorável à Trindade. Eventualmente, uma ênfase na divindade de Cristo progredia na Igreja. Posteriormente, A. T. Jones escreveu em 1895 que “Deus é um. Jesus Cristo é um. O Espírito Santo é um. E estes três são um: não há dissidência nem divisão entre eles.”36 Em 1919, na Conferência Bíblica Adventista, a maioria dos adventistas aceitou a divindade de Cristo. Em 1931, na declaração de Crenças Fundamentais da Igreja Adventista, apareceu pela primeira vez um comentário sobre a Trindade. Declara:

Que a Divindade, ou Trindade, consiste no Pai Eterno, um ser pessoal e espiritual, onipotente, onipresente, onisciente, infinito em sabedoria e amor; no Senhor Jesus Cristo, o Filho do Pai Eterno, por meio de quem todas as coisas foram criadas e por meio de quem a salvação das hostes redimidas será realizada; no Espírito Santo, a terceira pessoa da Divindade, o grande poder regenerador na obra de redenção (Mt 28:19). Mt 28:19.37

Esta declaração menciona favoravelmente a palavra Trindade. No entanto, embora o Pai seja definido como “Eterno”, Jesus é apresentado como “o Filho do Pai Eterno” e o Espírito Santo como “a terceira pessoa da Divindade” — a ênfase é minha, e não como uma influência. Em 1957, no livro Questão sobre Doutrina, havia uma teologia progressista sobre a natureza de Cristo como “um em natureza, igual em poder e autoridade, Deus no sentido mais pleno, eterno e autoexistente, com vida original, não emprestada, não derivada; e que Cristo existe desde os primórdios da eternidade, distinto, mas um com o Pai, possuindo a mesma glória e todos os atributos divinos.” Como resultado, a Igreja Adventista mudou gradualmente e oficialmente para a visão trinitária da Bíblia e da divindade de Cristo.38

Resumindo, Burt salienta que “foram necessários mais de 50 anos para que a doutrina da Trindade se tornasse normativa”39 na Igreja Adventista do Sétimo Dia. A partir de uma posição antitrinitária defendida pelos pioneiros, a Igreja Adventista é hoje uma igreja trinitária bíblica. Este desenvolvimento foi possível porque os adventistas acreditam na visão dinâmica ou na revelação progressiva.40 Hoje a crença adventista na Trindade é expressa como parte de suas 28 Crenças Fundamentais, e diz:

Há um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, uma unidade de três Pessoas coeternas. Deus é imortal, todo-poderoso, onisciente, acima de tudo e sempre presente. Ele é infinito e está além da compreensão humana, mas é conhecido por meio de sua auto-revelação. Deus, que é amor, é para sempre digno de louvor, adoração e culto por parte de toda a criação. (Gn 1:26; Dt 6:4; Is 6:8; Mt 28:19; Jo 3:16; 2 Co 1:21, 22; 13:14; Ef 4:4–6; 1 Pe 1:2).41

Uma Análise da Declaração da Igreja Católica Romana sobre A Trindade

A Igreja Católica Romana tem sua declaração oficial atual sobre a Trindade expressa no Catecismo da Igreja Católica.42 Esta declaração representa não apenas o que a Igreja Católica acredita, mas também como a Igreja entende este conceito da Trindade. Nesta parte da obra, o artigo analisa a atual afirmação da Trindade da Igreja Católica Romana.

Descrição da Declaração

A declaração começa afirmando a unidade da Trindade. Consequentemente, a Igreja não confessa três deuses (triteísmo), mas apenas um Deus. Não só o Pai é divino e eterno, mas também o Filho e o Espírito Santo. O Filho e o Espírito Santo são identificados como tendo a mesma essência ou substância (homoousios) ou natureza do Pai. Esta declaração ecoa o concílio ecumênico de Niceia em 325 E.C., no qual o Filho foi considerado como “consubstancial” ao Pai.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo são identificados como pessoas divinas (hipóstase), enfatizando a distinção entre eles. Esta distinção é estabelecida com base na sua relação de origem. A declaração rejeita a visão modalista de Deus — o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são designações de Deus que se revelam em diferentes modos, ofícios ou operações. Não existe uma pessoa com nomes diferentes, mas um Deus em três pessoas. É adicionada uma declaração do Concílio de Latrão IV (1215 E.C.), afirmando: “É o Pai quem gera, o Filho quem é gerado e o Espírito Santo quem procede.” Esta afirmação implica que o Filho é visto como gerado do Pai, e o Espírito Santo é visto como vindo do Pai e procedendo do Filho — filioque. Diante disso, a declaração afirma a geração eterna do Filho e a dupla processão do Espírito, tanto do Pai quanto do Filho. As três pessoas da Trindade estão relacionadas entre si. O concílio de Toledo XI (675 E.C.) mencionou que, embora sejam três pessoas, com base em sua relação sem oposição, são de “uma natureza ou substância.”

Implicações Teológicas da Declaração

Para a Igreja Católica Romana, Deus é um e não existem três deuses. Esta afirmação se opõe ao politeísmo e a qualquer dualismo. Pai, Filho e Espírito Santo operam inseparavelmente. Não há separação entre eles, seja espacial ou temporal. O Filho é Deus como o Pai, e o Espírito Santo é Deus como o Pai e o Filho. O Pai não é apresentado apenas como Aquele que gera o Filho, mas também como Aquele de quem procede o Espírito. Portanto, o Pai não é “gerado” e não tem “princípio.” Ele é o princípio sem princípio. O Filho e o Espírito são enviados, mas não o Pai. Ele não tem origem. São Tomás de Aquino referiu-se a ele como “o princípio fonte de toda a divindade” e “a fonte e o princípio de toda a divindade.”43 No entanto, de acordo com a doutrina católica, “a característica do Pai como ‘princípio sem princípio’.. . não exclui a do Filho e, em virtude da sua geração pelo Pai, a processão do Espírito Santo.”44 Consequentemente, isso implica que a Trindade deriva sua unidade do Pai. O Pai se torna a causa primeira. Além disso, visto que o Pai gerou o Filho, o Pai é a primeira pessoa da Trindade. Este entendimento vem de João 1:18, que fala do “Filho unigênito.” No entanto, este ato é único: “não é uma categoria de geração que conhecemos.”45 Não é entendido como a maneira humana de nascer. Existe apenas uma continuidade da natureza entre quem gera e quem é gerado. Embora esta geração única resulte em uma distinção, não há divisão do divino. O Filho é Filho não por adoção ou graça como criatura, mas por ser gerado “da mesma substância do Pai” (ek tes ousias tou Patros), excluindo a ideia de que o Filho poderia ser um ser criado. O Filho não é uma realidade exterior do Pai, mas “ele recebe o próprio ser do Pai.” Ao afirmar que o Filho é “Deus verdadeiro do Deus verdadeiro”, a implicação é que o Filho não é inferior ao Pai, mas é da mesma divindade que o Pai.

O Credo atribui ao Espírito dois títulos: Santo, como o Pai, e Senhor, como o Filho, afirmando a natureza divina do Espírito.46 Portanto, o Espírito não é visto como uma força, mas como uma pessoa da Divindade. O Espírito é visto como procedendo do Pai e do Filho, não como um duplo processo, mas como uma única processão, por um ato único do Pai e do Filho.47 A processão é um movimento para fora, como explicou Tomás de Aquino.48 Ele vem do Pai, expressando a origem eterna do Espírito. Como explicou Santo Atanásio, o Espírito e a Palavra são um.49

Nota-se que a Igreja Católica expressou sua teologia, recorrendo à filosofia grega como ponto de partida para formular sua teologia sobre a Trindade. E a interpretação das Escrituras é feita com pressupostos filosóficos e não bíblicos.

Uma Análise da Declaração da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre a Trindade

A última declaração da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre a Trindade está expressa no Anuário.50 Esta declaração representa a posição doutrinária oficial atual da Igreja. Nesta parte da obra, o artigo analisa a visão adventista da Trindade e suas implicações teológicas.

Descrição da Declaração

A doutrina não menciona a palavra Trindade; entretanto, o conceito de Trindade é claramente expresso. A doutrina começa afirmando que não existem três deuses, mas apenas um Deus. Em outras palavras, os Adventistas do Sétimo Dia acreditam apenas em um Deus. A doutrina descreve explicitamente a Trindade: Divindade, composta pelo Pai, Filho e Espírito Santo. As três pessoas da Trindade são apresentadas como distintas entre si.

O Pai, o Filho e o Espírito Santo são identificados como coeternos: sem começo. Cada um da Trindade é classificado com atributos divinos. Para uma compreensão mais precisa de como os Adventistas do Sétimo Dia veem cada um dos membros da Trindade, é necessário analisar suas doutrinas nº 3 (O Pai), nº 4 (O Filho) e nº 5 (O Espírito Santo). Nestes diferentes artigos de fé, o Pai é apresentado como “o Criador, Fonte, Sustentador e Soberano de toda a criação.”51 O Filho é apresentado como Deus, a pessoa por meio da qual as coisas foram criadas. Ele é a revelação do amor e do caráter de Deus.52 O Espírito Santo é reconhecido como Deus tanto quanto o Pai e o Filho. Ele é uma pessoa, assim como o Pai e o Filho. Ele também é apresentado como agente ativo durante a criação.53 Ele é enviado pelo Pai e pelo Filho após a ascensão de Jesus ao céu. “As qualidades e poderes exibidos no Filho e no Espírito Santo são os mesmos do Pai.”54 Além disso, o fornecimento de passagens bíblicas demonstra que a doutrina adventista da Trindade e a compreensão da natureza do Pai, do Filho e do Espírito Santo são estabelecidas apenas nos dados canônicos.

Implicações Teológicas

Deus é um e não existem três deuses. Ele é o único Deus. Esta teologia não se opõe ao monoteísmo, mas concorda com ele. A unidade de Deus é entendida como uma pluralidade divina. É uma teologia contra o triteísmo (três divindades distintas). Cada uma das três pessoas é totalmente divina e, portanto, coigual e coeterna. Consequentemente, não há lugar para o adocionismo: o Pai adotou o homem Jesus como seu filho durante o seu batismo; arianismo: o Filho foi criado; semiarianismo: o Filho surgiu do Pai e é “de substância semelhante, mas não igual.”

Além disso, esta teologia rejeita o subordinacionismo: o Filho está subordinado ao Pai por natureza. Nega o modalismo — um Deus que se manifesta em três modos — e o patripassianismo: Jesus é Deus, e o Pai foi encarnado e sofreu como o Filho — a Trindade. Deus é visto não como um Deus atemporal que pertence à eternidade atemporal, mas como aquele que pode entrar no tempo e se relacionar com sua criação na história (ou seja, a execução do plano de salvação para a humanidade). O Espírito Santo é enviado pelo Pai e pelo Filho para estar com seus filhos. Isso implica que a missão do Espírito Santo vem tanto do Pai quanto do Filho. Em outras palavras, não há dupla processão do Espírito dentro da Trindade (Filioque), mas o Espírito procede tanto do Pai quanto do Filho, no sentido de que ambos o enviam para estar com seus filhos.

Comparação da Doutrina da Trindade da Igreja Católica Romana com a Doutrina da Igreja Adventista do Sétimo Dia

Após expor a doutrina da Trindade da Igreja Católica Romana e a doutrina da Trindade da Igreja Adventista do Sétimo Dia, expressa em suas várias declarações de crenças, podemos notar algumas semelhanças aparentes e diferenças fundamentais.

Aparentes Semelhanças Doutrinárias

Ao comparar as duas declarações doutrinárias, a aparente semelhança significativa reside na concepção de que Deus é um — Deus é um. A Igreja Católica e a Igreja Adventista reconhecem o conceito da Trindade, um só Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. O Catolicismo afirma não “confessar três deuses, mas um Deus em três pessoas, a ‘Trindade consubstancial’.”55 O adventismo afirma: “há um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo.”56 Na Igreja Católica Romana, a Trindade compreende três pessoas distintas entre si, cada uma sendo Deus, compartilhando a mesma substância, essência e natureza divinas. Esta visão parece ser também a compreensão adventista do sétimo dia da Trindade. Na Igreja Adventista, há também um Deus, uma unidade de três pessoas, com o Pai, o Filho e o Espírito Santo exibindo as mesmas qualidades e poderes, e “a Divindade existe numa pluralidade, que Jesus é Deus, coexistente desde a eternidade com o Pai, e que o Espírito Santo é a terceira pessoa da Divindade.”57 As duas declarações afirmam não apenas a divindade e a humanidade de Cristo, mas também a divindade do Espírito Santo. O Espírito Santo não é apenas Deus, mas Ele é distinto — uma pessoa, diferente do Pai e do Filho.

Dissimilaridades Doutrinárias Fundamentais

Embora possa haver semelhanças aparentes entre a compreensão católica e a adventista da Trindade, algumas diferenças cruciais não podem ser negligenciadas. Essas diferenças se manifestam nas seguintes concepções da doutrina da Trindade: 1) a fonte da teologia trinitária; 2) a hierarquia dentro da Trindade; 3) a subordinação do Filho; e 4) a processão do Espírito Santo.

A teologia trinitária da Igreja Católica baseia-se na tradição da filosofia grega. Além disso, o próprio conceito da Trindade, tal como expresso no Catecismo da Igreja Católica, baseia-se, em primeiro lugar, nos diversos concílios e pais da Igreja. Ambos, os concílios e os pais da Igreja, são as primeiras fontes de autoridade para o desenvolvimento da doutrina da Trindade entre os católicos. Ao mesmo tempo, a posição doutrinária adventista sobre a Trindade baseia-se apenas nas Escrituras. Não se fundamenta nos pais da igreja, nos concílios ou na filosofia grega como argumentos para defender a Trindade, mas apenas nos dados canônicos usados para estabelecer esta doutrina.

A variação da doutrina é perceptível no papel do Pai. Para a Igreja Católica, é o Pai quem gerou o Filho. O Filho é visto como gerado pelo Pai, enquanto o Espírito Santo procede de ambos. Isso implica, teologicamente, que o Pai é o único sem origem. Portanto, o Pai permanece como a primeira pessoa com origem divina. Ele é “o princípio fonte de toda a divindade” e “a fonte e o princípio de toda a divindade.”58 Ele é “o princípio sem princípio”59 e a “primeira origem do Espírito.”60 Este entendimento estabeleceu implicitamente uma hierarquia dentro da Trindade, com o Pai tendo predominância indireta sobre o Filho e o Espírito Santo, uma vez que ele é a causa sem quaisquer causas. Para a Igreja Adventista, não há diferença entre as três pessoas da Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são coeternos. Ninguém vem antes de qualquer outro. Os três são a fonte e o princípio da divindade absoluta. Nenhum está na origem dos outros.

O precedente da Igreja Católica Romana afirma que o Filho é gerado do Pai. Portanto, sem o Pai não pode haver geração do Filho. Isso implica que a geração do Filho depende do Pai — embora o catolicismo fale sobre a geração eterna. Portanto, essa visão coloca um senso de subordinação do Filho ao Pai. Não obstante, a doutrina adventista parece “remover qualquer indício de subordinação,”61 afirmando que “as qualidades e poderes exibidos no Filho e no Espírito Santo também são do Pai.”62 A subordinação do Filho não deve ser entendida no sentido ontológico, mas na esfera da execução do plano de salvação: a subordinação temporal.63 Ángel Rodríguez afirma: “Esta subordinação do Filho refere-se a uma submissão funcional e não a uma descrição de relações internas trinitárias.”64

Enquanto a teologia católica sobre a Trindade afirma a dupla processão do Espírito Santo, a teologia adventista entende que a processão do Espírito Santo deve ser entendida “não em um sentido ontológico, mas sim em um sentido histórico, como a atividade divina interior envolvida no envio do Espírito Santo no Pentecostes, como o representante da presença de Cristo.”65 Consequentemente, a compreensão católica da processão do Espírito Santo difere da compreensão da processão do Espírito da visão adventista.

Implicações para Os Desafios Contemporâneos Levantados pelo Antitrinitarismo no meio Adventista

Nos últimos anos, muitas pessoas dentro do adventismo têm se manifestado contra a posição trinitária da Igreja. Diversas publicações expressam essa realidade, criticando a atual posição trinitária da Igreja Adventista.66 Elas qualificam a doutrina adventista da Trindade como heresia ou como o “Deus estranho”67 da “doutrina da Igreja Católica Romana.” Elas apelam a um retorno à posição dos pioneiros adventistas: a posição semiariana. Contudo, a análise direta das duas visões da Trindade [católicos e adventistas] mostra algumas implicações teológicas que diferem entre si.

Após analisar a doutrina católica romana da Trindade em comparação com a posição adventista, nota-se que ela difere da doutrina adventista. A doutrina adventista baseia-se na literatura canônica, enquanto a doutrina católica recorre principalmente aos Concílios da Igreja e aos Pais da Igreja. Consequentemente, enquanto os antitrinitários adventistas invocam a história da Igreja Adventista — os pioneiros da Igreja68 — como argumento para abandonar a atual doutrina da Trindade, eles parecem estar de acordo com a Igreja Católica em seu apelo à história da Igreja para justificar sua posição sobre questões doutrinárias como a Trindade, enquanto a Igreja Adventista não.

Enquanto a Igreja Católica afirma a subordinação eterna do Filho, a Igreja Adventista defende não apenas a divindade eterna do Filho, mas também uma subordinação temporal do Filho no âmbito do plano de salvação. Os antitrinitários afirmam que “a tentativa contínua dos trinitários de tornar o Filho absolutamente igual ao Pai é virtualmente uma prova de que ele não o é.”69 Consequentemente, isso parece concordar não com a posição adventista, mas com a visão católica. A crença antitrinitária dos adventistas nega a pré-existência completa e eterna da divindade de Jesus, defendendo, assim, a subordinação eterna do Filho. Portanto, ontologicamente “o Pai ocupa a posição mais elevada.”70 Tal posição concorda com a abordagem católica sobre a natureza do Filho. Em contraste, a Igreja Adventista não concorda com as duas visões anteriores sobre a natureza do Filho. Os adventistas entendem que o Filho é ontologicamente coeterno e coigual ao Pai quanto à sua natureza divina. Ninguém está acima do outro.

Sobre a natureza do Espírito Santo, os adventistas antitrinitários afirmam que o Espírito não é uma pessoa, como se fosse um terceiro indivíduo, separado e distinto de Deus, o Pai, e de seu Filho.”71 Eles entendem o Espírito como o poder ou a energia divina, não pessoal, do Pai e do Filho. Portanto, o Espírito Santo procede do Pai e do Filho: processão eterna. Enquanto isso, a Igreja Católica Romana ensina que o Pai gerou eternamente o Filho e que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Embora os católicos vejam o Espírito como a terceira pessoa da Trindade, os adventistas antitrinitários veem o Espírito como a energia divina não pessoal do Pai e do Filho. Desta forma, os adventistas antitrinitários conquistaram o catolicismo no que diz respeito à eterna processão do Espírito Santo do Pai e do Filho.

Pelo contrário, a Igreja Adventista do Sétimo Dia entende que a processão do Espírito é temporária e limitada na execução do plano de salvação. Para a Igreja Adventista, a processão do Espírito só é entendida no contexto do Pai e do Filho enviando o Espírito Santo à Sua Igreja como seu representante. Em outras palavras, o Espírito é enviado para cumprir “o fluxo histórico do espaço e do tempo criados para alcançar os objetivos do plano de salvação da Trindade.”72 Portanto, a posição dos adventistas antitrinitários sobre a processão do Espírito — a processão eterna — parece idêntica à da Igreja Católica, embora difiram na natureza do Espírito.73

Portanto, a afirmação feita pelos adventistas antitrinitários de que a Igreja Adventista do Sétimo Dia herdou a heresia da Trindade da Igreja Católica não é correta, uma vez que os dois conceitos são diferentes. A doutrina católica da Trindade baseia-se mais nas tradições da Igreja do que nas Escrituras. Em contraste, a doutrina adventista da Trindade baseia-se inteiramente na literatura canônica e nada mais. Significativamente, é evidente que a visão doutrinária do conceito do Pai, do Filho e do Espírito Santo dos adventistas antitrinitários tem semelhanças mais substanciais com o conceito da Trindade da Igreja Católica Romana. Portanto, não será descabido afirmar que a compreensão da Divindade dos adventistas antitrinitários está mais próxima da compreensão católica do mesmo conceito. Assim, o adventista antitrinitário parece ter herdado da Igreja Católica Romana a compreensão de Deus.

Conclusão

Esta obra apresentou uma breve análise da doutrina trinitária da Igreja Católica Romana e da posição da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre essa doutrina. Ao comparar as duas posições, o presente estudo mostrou uma aparente semelhança na afirmação de uma crença monoteísta; no entanto, algumas variações críticas foram observadas. Essas variações incluem a fonte da teologia trinitária, a hierarquia dentro da Trindade, a subordinação do Filho e a dupla processão do Espírito Santo.

O estudo mostrou que a visão adventista antitrinitária da Divindade parece mais próxima da doutrina da Trindade da Igreja Católica Romana, mas as duas teorias estão em total contradição com a sua afirmação [adventista antitrinitária] de que a atual teologia adventista do sétimo dia sobre a Trindade é um vestígio da Igreja Católica Romana. Em outras palavras, a teologia dos adventistas antitrinitários sobre o conceito do Pai e do Filho concorda com a compreensão da Igreja Católica sobre o Pai e o Filho. Esta semelhança também é vista na processão eterna do Espírito Santo.

A teologia adventista da Divindade está fundamentada apenas no cânone bíblico. White coloca isso corretamente quando diz: “Eu não acredito na Trindade porque é ‘tradição’ acreditar. Acredito nisso pela mesma razão que Atanásio acreditou há tanto tempo: as Escrituras me obrigam a esta conclusão.”74 À luz desta avaliação, parece inapropriado e teologicamente incorreto continuar a acusar a Igreja Adventista do Sétimo Dia de apostasia por acreditar na “Trindade”, com a suposição errada de que a Trindade adventista é a mesma que a Trindade católica.


Notas

1 Miroslav Volf, “The Trinity is Our Social Program: The Doctrine of the Trinity and the Shape of Social Engagement,” Modern Theology 14 (1998): 403–423.

2 Millard J, Erickson, Christian Theology, 3ª e. (Grand Rapids, MI: Baker, 2013), p. 292.

3 Stephen R. Holmes, The Quest for the Trinity (Downers Grove, Il: InterVarsity Press, 2012), p. 2.

4 Millard J. Erickson, God in the Three Persons: A Contemporary Interpretation of the Trinity (Grand Rapids, MI: Baker Books, 1995), p. 11.

5 Woodrow Whidden, Jerry Moon e John W. Reeve, The Trinity: Understanding God’s Love, His Plan of Salvation, and Christian Relationships (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Ass., 2002), p. 10.

6 Ver Fred Allaback, No New Leaders . . . No New Gods! (Creal Springs: Fred Allaback, 1995); Lynnford Beachy, Did They Believe in the Trinity (1996); Rachel Cory-Kuehl, The Persons of God (Albuquerque: Aggelia, 1996); Allen Stump, The Foundation of Our Faith (Welch: Smyrna Gospel Ministries, 2000).

7 Merlin D. Burt, “The Trinity in Seventh-day Adventist History,” Ministry, fevereiro de 2009, p. 5. Merlin D. Burt, “History of Seventh-day Adventist Views on the Trinity,” Journal of the Adventist Theological Society 17, nª 1 (2006): 125–139.

8 Samuel Macauley Jackson e., “Apostolic Fathers,” em The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge (Grand Rapids, MI: Barker, 1960), 1:248.

9 Millard J. Erickson, God in the Three Persons: A Contemporary Interpretation of the Trinity (Grand Rapids, MI: Baker Books, 1995), p. 42.

10 Adolf Harnack, History of Dogma (New York: Dover, 1961), 1:191.

11 Ver René Braun, Deus Christianorum : Recherches sur le vocablaire doctrinal de Tertulian, 2ª e. (Paris: Études Augustiniennes, 1977).

12 Millard J, Erickson, Christian Theology, 2ª e. (Grand Rapids, MI: Baker, 2007), p. 358.

13 Linwood Urban, A Short History of Christian Thought, edição revisada e expandida (Oxford, NY: Oxford University Press, 1995), p. 63.

14 Michael C. Thomsett, Heresy in the Roman Catholic Church: A History (Jefferson, NC: McFarland & Company, 2011), p. 35.

15 Ibid.

16 Franz Dunzl, A Brief History of the Doctrine of the Trinity in the Early Church (Maiden Lane, NY: T&T Clark, 2007), p. 56.

17 Franz Dunzl, A Brief History of the Doctrine of the Trinity in the Early Church (Maiden Lane, NY: T&T Clark, 2007), p. 118.

18 Millard J, Erickson, Christian Theology, 2ª e. (Grand Rapids, MI: Baker, 2007), p. 358.

19 Millard J, Erickson, Christian Theology, 2ª e. (Grand Rapids, MI: Baker, 2007), pp. 124–125.

20 Catechism of the Catholic Church, 2ª e. (Libreria Editrice Vaticana), nº 253–255.

21 É uma visão que via os sábados cerimoniais do Antigo Testamento como tipos e o ministério de Jesus como o antítipo. Defendido principalmente por S.S. Snow, ele proclamou que Cristo viria no “décimo dia do sétimo mês”, de acordo com o calendário judaico. Após alguns cálculos, este período corresponde a 22 de outubro de 1844.

22 Richard W. Schwarz e Floyd Greenleaf, Light Bearers: A History of the Seventhday Adventist Church (Ontario, Canada: Pacific Press, 1979), p. 48.

23 George Knight, William Miller and the Rise of Adventism (Nampa, ID: Pacific Press, 2010), p. 196.

24 Douglas Morgan, Adventism and the American Republic: The Public Involvement of a Major Apocalyptic Movement (Knoxville, TN: University of Tennessee Press, 2001), p. 12.

25 Uriah Smith, Thoughts, Critical and Practical, on the Book of Revelation (Battle Creek, Mich.: Steam Press of the Seventh-day Adventist Publishing Association, 1881), p. 59.

26 Merlin D. Burt, “History of Seventh-day Adventist Views on the Trinity,” Journal of the Adventist Theological Society 17, nº 1 (2006): 126.

27 J. B. Frisbie, “The Seventh Day Sabbath Not Abolished,” Advent Review and Sabbath Herald, 7 de março de 1854, p. 50.

28 J. N. Loughborough, “Questions for Brother Loughborough,” Advent Review and Sabbath Herald, 5 de novembro de 1861, p. 184.

29 R. F. Cottrell, “The Trinity,” Advent Review and Sabbath Herald, 6 de julho de 1869, pp. 10–11.

30 [J. N. Andrews], “Melchisedec,” Advent Review and Sabbath Herald, 7 de setembro de 1869, p. 84. Este é um artigo não assinado; J. N. Andrews é o editor do artigo.

31 D. M. Canright, “The Personality of God,” Advent Review and Sabbath Herald, 29 de agosto de 1878, pp. 73–74; 5 de setembro de 1878, pp. 81–82; 12 de setembro de 1878, pp. 89–90; 19 de setembro de 1878, p. 97.

32 J. H. Waggoner, The Atonement: An Examination of the Remedial System in the Light of Nature and Revelation (Oakland, Calif.: Pacific Press, 1884), pp. 164–179.

33 Merlin D. Burt, “History of Seventh-day Adventist Views on the Trinity,” Journal of the Adventist Theological Society 17, nª 1 (2006): 128.

34 O ensaio de nº 90 foi intitulado “A Doutrina Bíblica da Trindade.” O panfleto era uma reimpressão de um artigo do New York Independent de 14 de novembro de 1889. Ver M. L. Andreasen, The Book of Hebrews (Washington: Review and Herald, 1948), pp. 115–124.

35 Samuel Spear, “Bible Doctrine of the Trinity,” em The Bible Students Library, nº 90 (Oakland Calif.: Pacific Press Publishing Company, 1892), p. 3.

36 A. T. Jones, editorial, Advent Review and Sabbath Herald, 10 de janeiro de 1899, p. 24.

37 Year Book of the Seventh-day Adventist Denomination, e., H. E. Rogers (Washington: Review and Herald, 1931), p. 377.

38 Seventh-day Adventists Answer Questions on Doctrine (Washington: Review and Herald, 1957), p. 36.

39 Merlin D. Burt, “History of Seventh-day Adventist Views on the Trinity,” Journal of the Adventist Theological Society 17, no. 1 (2006): 139.

40 Ver P. Gerard Damsteegt, “Seventh-day Adventist Doctrines and Progressive Revelation,” Journal of the Adventist Theological Society 2, nº 1 (1991): 77–92.

41 General Conference of Seventh-day Adventists, Office of Archives and Statistics, Seventh-day Adventists Year Book 2015 (Silver Spring, MD: General Conference of Seventh-day Adventists, 2021), p. 7.

42 Catecismo da Igreja Católica, 2ª e. (Cidade do Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 1997), nº 253–255.

43 São Tomás de Aquino, Comentário às Sentenças, Bk. Eu, dist. 34, q. 2, a. 1: “Fontale principium totius divinitatis;” Comentário sobre os Nomes Divinos de Dionísio, cap. 2, Lição 4 (nº 181): “Fons et principium totius deitatis.”

44 Ver Boris Bobrinskoy, The Mystery of the Trinity: Trinitarian Experience and Vision in the Biblical and Patristic Tradition (Crestwood, N.Y.: St. Vladimir’s Seminary Press, 1999), pp. 265–66.

45 Lewis Ayres, “Augustine on the Trinity,” em The Oxford Handbook of the Trinity, edited by Gilles Emery and Matthew Levering (Oxford, NY: Oxford University Press, 2011), p. 124. Ver, também, Lewis Ayres, Augustine on the Trinity (Cambridge, NY: Cambridge University Press, 2010).

46 São Basílio de Cesaréia, Carta 159, em São Basílio, Cartas, vol. 1 (1–185), trad. Irmã Agnes Clare Way (Washington, DC: The Catholic University of America Press, 1981), p. 313.

47 Santo Agostinho, Sobre A Trindade 14.5.15: “Pater et Filius . . . relatiue ad Spiritum Sanctum unum principium;” Sanctus Aurelius Augustinus, De Trinitate libri XV, e. W. J. Mountain, vol. 1, Libri I– XII (Turnhout: Brepols, 1968), p. 223.

48 Tomás de Aquino, Summa Theologiae: The Trinity, trans. Ceslaus Velecky, vol. 6 (London, UK: Blackfriars, 1965), p. 3.

49 Santo Atanásio, “Letter to Serapion” 3.5, em The Letters of Saint Athanasius Concerning the Holy Spirit, trad. C. R. B. Shapland (London: Epworth Press, 1951), p. 175.

50 General Conference of Seventh-day Adventists, Office of Archives and Statistics, Seventh-day Adventists Year Book 2015 (Silver Spring, MD: General Conference of Seventh-day Adventists, 2021), p. 7.

51 Ver o artigo nº 3 das Crenças Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia em General Conference of Seventh-day Adventists, Office of Archives and Statistics, Seventh-day Adventists Year Book 2015 (Silver Spring, MD: General Conference of Seventh-day Adventists, 2021), p. 7.

52 Ver o artigo nº 4 das Crenças Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia em General Conference of Seventh-day Adventists, Office of Archives and Statistics, Seventh-day Adventists Year Book 2015 (Silver Spring, MD: General Conference of Seventh-day Adventists, 2021), p. 7.

53 Ver o artigo nº 5 das Crenças Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia em General Conference of Seventh-day Adventists, Office of Archives and Statistics, Seventh-day Adventists Year Book 2015 (Silver Spring, MD: General Conference of Seventh-day Adventists, 2021), p. 7.

54 Ver o artigo nº 3 das Crenças Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia em General Conference of Seventh-day Adventists, Office of Archives and Statistics, Seventh-day Adventists Year Book 2015 (Silver Spring, MD: General Conference of Seventh-day Adventists, 2021), p. 7.

55 Catechism of the Catholic Church, 2ª e. (Libreria Editrice Vaticana), nº 253–255.

56 General Conference of Seventh-day Adventists, Office of Archives and Statistics, Seventh-day Adventists Year Book 2015 (Silver Spring, MD: General Conference of Seventh-day Adventists, 2021), p. 7.

57 Gerhard Pfandl, “The Trinity in Scripture,” Journal of the Adventist Theological Society, 14, nº 2 (Outono de 2003): 94.

58 São Tomás de Aquino, Comentário às Sentenças, Bk. Eu, dist. 34, q. 2, a. 1: “Fontale principium totius divinitatis;” Comentário sobre os Nomes Divinos de Dionísio, cap. 2, Lição 4 (nº 181): “Fons et principium totius deitatis.”

59 Catechism of the Catholic Church, 2ª e. (Libreria Editrice Vaticana), nº 245.

60 Ibid.

61 Kwabena Donkor, “God in 3 Persons – In Theology,” Biblical Research Institute Release 9/2015, p. 19.

62 Ver o artigo nº 3 das Crenças Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia em General Conference of Seventh-day Adventists, Office of Archives and Statistics, Seventh-day Adventists Year Book 2015 (Silver Spring, MD: General Conference of Seventh-day Adventists, 2021), p. 7.

63 Fernando L. Canale, “Doctrine of God,” em Handbook of Seventh-day. Adventist Theology (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 2000), p. 126.

64 Ángel Rodríguez, “1 Corinthians 15:28,” Biblical Research Institute, https://adventist-biblicalresearch.org/materials/bible-not-texts/1-corinthians-1528 (acessado em 26 de setembro de 2022).

65 Fernando L. Canale, “Doctrine of God,” em Handbook of Seventh-day. Adventist Theology (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association, 2000), p. 132.

66 Gerald Pfandl, “The Doctrine of the Trinity among Adventists,” Biblical Research Institute (June 1999), p. 1.

67 Lynnford Beachy, Understanding the Personality of God (Kansas, Oklahoma: Present Truth Ministries, 2012), p. 15.

68 Merlin D. Burt, “History of Seventh-day Adventist Views on the Trinity,” Journal of the Adventist Theological Society 17, nº 1 (2006): 125–139; Moon, pp. 140–159; Woodrow Whidden, Jerry Moon e John W. Reeve, The Trinity: Understanding God’s Love, His Plan of Salvation, and Christian Relationships (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Ass.,2002), pp. 190–238.

69 Lynnford Beachy, Understanding the Personality of God (Kansas, Oklahoma: Present Truth Ministries, 2012), p. 19.

70 Ibid.

71 Lynnford Beachy, Understanding the Personality of God (Kansas, Oklahoma: Present Truth Ministries, 2012), p. 34.

72 Fernando Canale, Basic Element of Christian Theology (Berrien Springs, MI: Andrews University, 2005), p. 100.

73 A Igreja Católica vê o Espírito Santo como a terceira pessoa da Trindade, enquanto os adventistas antitrinitários veem o Espírito Santo como o poder de Deus.

74 James R. White, The Forgotten Trinity: Recovering the Hearth of Christian Belief (Minneapolis, Minnesota: BethanyHouse, 2019), p. 24.

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