O Rendezvous Profético de 1844


Elijah Mvundura é ex-professor de história e de sociologia na Solusi University, no Zimbabwe. Ele agora vive em Calgary, Alberta, Canada e é membro da Igreja Adventista de Garden.


Tradução: Hugo Martins

O artigo “O Rendezvous Profético de 1844” (Original em Inglês: The Prophetic Rendezvous of 1844), por Elijah Mvundura, fora primeiramente publicado, em outubro de 2013, no site da Adventist Review.® Artigo usado com permissão.


O adventismo nasceu em meados do século 19—o século, que viu o nascimento de ideologias e movimentos que moldaram o mundo moderno: romantismo, idealismo alemão, positivismo francês, nacionalismo, darwinismo, marxismo e nietzscheanismo. Esta origem cronológica em comum não foi acidental, mas providencial. O chamado para temer e adorar o Deus Criador (Ap 14:7) está diametralmente oposto à autodeificação, sentimento antirreligiões, ideias e temas no coração dessas ideologias radicais.

Ao interpretar Daniel 8:9-14 e Apocalipse 14:6-12, temos, muitas vezes, restrito a nós mesmos às atividades do chifre pequeno e Babilônia. Mas nós não tentamos aplicar a “verdade presente” às ideologias modernas radicais. Entretanto, se hoje o mundo é ignorante acerca do ministério sumo sacerdotal de Cristo e despreza o evangelho, é porque pensadores radicais do século 19 inventaram religiões seculares em que celebridades, artistas, intelectuais, cientistas e políticos são tipos modernos dos antigos sacerdotes e deuses pagãos.

De fato, não podemos apreciar o fascínio encantador de ideologias radicais no pensamento e na consciência moderna e seu desafio ao evangelho a menos que entendamos a sua essência distintamente religiosa. Novamente, se eles puseram de lado Deus e o Cristianismo na cultura ocidental e despertaram uma devoção igualmente religiosa, é porque elas foram deliberadamente fabricadas como religiões substitutas para tomar o lugar do cristianismo. Como Ludwig Feuerbach, um dos padrinhos intelectuais de Karl Marx, declarou: “Devemos, pois, tornar-nos novamente religiosos – a política deve se tornar a nossa religião.”1 Mas uma religião política requer uma sociedade primitiva, com uma con-fusão entre a política e a religião, entro o divino e o humano.

Ideologias e Religião

Uma religiosidade completamente primitiva reaparece nas ideologias modernas. A figura central nesta reaparição é Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). A principal de suas ideias é o “estado de natureza,” os humanos são naturalmente bons, mas são corrompidos pela civilização moderna. Com esta negação da pecaminosidade humana solapando a verdade da Queda e a necessidade de um Salvador, deu-se lugar a racionalização das ciências sociais e a crença que a educação e a engenharia social podem nos tornar moral e completo. Por mudar a fonte do pecado do eu para a sociedade, Rousseau também mudou o teatro da grande guerra entre o bem e o mal do coração humano para um entre a sociedade corrupta e a natureza. Neste novo teatro, a salvação está na natureza. E para restaurar a sociedade corrupta para a natureza pura, ele propôs a criação de uma religião civil e um contrato social em que cada pessoa coloca “todos os seus poderes sob a direção suprema da vontade geral,” para formar “um todo indivisível.”2

Os adjetivos que ele usa para descrever o contrato social—indestrutível, infalível, absoluto e sagrado—evocam divindade. Como Albert Camus precisamente observou: “A vontade do povo foi substituída pelo próprio Deus.”3 Nesta substituição, Rousseau estabeleceu um precedente que posteriormente foi adotado por pensadores radicais do século 19, especialmente na Alemanha. Como Robert Tucker destacou: “O movimento do pensamento de Kant a Hegel girava . . . em torno da ideia de autorrealização do homem como um ser divino, ou, alternativamente, como Deus.”4 De fato, o poeta alemão Novalis, sem rodeios, afirmou: “Agora, na terra, os homens devem se tornam deuses.”5 E a personagem literária de Goethe, Fausto, recordando a mentira do demônio a nossos primeiros pais, “sonhos de conhecimento divino.” Para realizar esses sonhos, ele recorre à magia para evocar o poder dos demônios que governam o mundo. Então. novamente, no Romantismo, um movimento literário e artístico que amplificou as ideias de Rousseau, símbolos demoníacos mudaram de maus para bons com o demônio descrito como um herói e Deus como “um tirano maligno.”6

Estas deformações são enraizados no ocultismo—uma mistura de gnosticismo, neoplatonismo, hermetismo e elementos cabalistas—todos tendo origem na antiguidade tardia e transmitidos para o período moderno por místicos medievais. A filosofia idealista alemã fluiu diretamente do misticismo alemão da Idade Média.7 Logo, é mitológica em si. “Temos de ter uma nova mitologia”, escreveu Hegel, “mas esta mitologia deve estar a serviço das Ideias, ele deve ser uma mitologia da razão.”8 Além de racionalizar a mitologia, pensadores alemães secularizaram temas bíblicos, especialmente do livro de Apocalipse, e condimentaram a mistura com ciência, de modo a criar “uma nova mitologia,” forjada, como Schlegel disse: “da extrema profundidade do Espírito.”9

Sincretismo em Abundância

A paixão motivadora por trás do sincretismo, esta mistura de mitologia e teologia, é criar sistemas metafísicos que restaurariam a unidade primal, uma con-fusão entre humanos e natureza, entre o natural e o sobrenatural, entre indivíduo e sociedade. Esse esforço pela unidade primal ataca diretamente o ministério mediador de Cristo, e os românticos sabiam disso. “É apenas preconceito e presunção”, declarou a revista literária deles, O Ateneu: “dizer haver um único mediador [a saber, Cristo] entre Deus e o homem.”10 Artistas, devido ao seu gênio criativo, podem, também, ser mediadores e profetas de Deus. Eles eram deuses “em forma humana,”, entoou Lavater, ou “Deus em drama”, disse Herder.11 Novamente, proclamando-se um poeta profeta em seu tempo, com “brilho interior” que não é “compartilhado por ninguém,”12 Wordsworth, ousadamente, declara: “eu não tenho nenhuma necessidade de um Redentor.”13

Por detrás desta negação de um redentor, a autodeificação é panteísmo, a religião em que tudo na natureza, incluindo os humanos, é divino. Em uma inovação enorme, pensadores radicais estenderam esse panteísmo a suas obras artísticas, sistemas filosóficos e ideias abstratas. Românticos deificaram a arte, a natureza e a nação; Hegel deificou a história e o estado; positivistas franceses deificaram a ciência; e Nietzsche, apesar de claramente discernir a avidez por poder, por detrás desses projetos ímpios, deificou “vontade de poder” em si. Novamente, com sua típica sinceridade, ele revelou a verdadeira força por detrás do radicalismo do século 19. “O mundo,” escreveu ele, “tornou-se hábil em dar novos nomes às coisas e até mesmo a batizar o demônio. É verdadeiramente um momento de grande perigo. . . . Ainda assim, eles [os homens] não estão, de forma nenhuma, perturbados com esta descoberta, mas proclamam que ‘o egoísmo deve ser o nosso deus.’ ”14

Na última frase de sua última obra, antes de enlouquecer, Nietzsche declarou: “Tenho sido compreendido? Dionísio contra O Crucificado.”15 Em uma obra memorável sobre a filosofia moderna de Descartes (1596–1650) a Nietzsche (1844–1900), Michael Allen Gillespie afirma que o niilismo de Nietzsche tem sido mal compreendido. Longe de anunciar a “morte de Deus”, ele proclamou o advento do deus grego Dionísio.16 Esta trajetória demasiadamente pagã da filosofia moderna, “a demanda metafísica por unidade, a impossibilidade de se obtê-la e a construção de um universo substituto,”17 tem todo a ilusão arrogante e demoníaca do arquirrebelde, o demônio, incluindo a sua ambição de destronar Deus como o soberano do universo. Para ter certeza, existe um fio de escarlate que começa em um paganismo primitivo, passa pela cristandade medieval e aflora nas ideologias radicais modernas. Esse fio é a autodeificação, humanos substituindo Deus, atribuindo-se poderes e prerrogativas que pertencem somente a Deus.

Juízo e Arrogância

Se esta autodeificação atingiu seu ápice no século 19, coroada pela declaração blasfema de Nietzsche, “Deus está morto,” então, o rendezvous profético de 1844, o início do juízo, como os pioneiros adventistas proclamaram, faz um sentido perfeitamente divino. Eis o dia, eis que vem; brotou a tua sentença, já floresceu a vara, reverdeceu a soberba (Ez 7:10).

Novamente, a ambição explícita dos artistas e poetas românticos para empossarem-se como “sacerdotes da nova dispensação”18 põe em grande evidência o imperativo divino de destacar o celestial ministério sumo sacerdotal de Jesus. O ponto crucial de Daniel 8:14 e Apocalipse 14:6–7, como sucintamente colocado em Colossenses 1:17, é que “Ele [Cristo] é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” Paulo continua nos versos 19 e 20: “porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude, e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.”

A essência do “evangelho eterno” é a completa e incomparável reconciliação realizada por Jesus, uma reconciliação que ideologias radicais personificaram. Se o marxismo é a mais sedutora, é porque personificou melhor. Sua ideia de comunismo primitivo reflete negativamente o Jardim do Éden; sua utopia comunista a Nova Jerusalém; sua luta de classes o grande conflito entre o bem e o mal; e sua matança em massa de inimigos ideológicos a destruição dos pecadores por Deus no tempo do fim. Todas as ideologias radicais do século 19 foram, em diferentes maneiras, paródias do evangelho, deformações espirituais monstruosas. Significativamente, conforme Tony Judt, um dos proeminentes historiadores do século 20 destacou “os blocos de construção do mundo político do século 20 eram todos artefatos do século 19.”19

Estes “artefatos” estão desmoronando diante de nossos olhos. O comunismo foi o primeiro a entrar em colapso em 1989, sob o peso de suas próprias contradições; e o capitalismo hoje está a beira do precipício com resoluções governamentais insatisfatórias e paralisia política de ambos os lados do Atlântico. Refletindo sobre as tensões globais, os desafios e a falta de soluções do século 20, John Lukacs, um renomado historiador, recentemente escreveu: “Estamos no fim de uma era: mas quão poucas pessoas sabem disto! A noção disto tem começado a aparecer nos corações de muitos, mas ainda não tem alcançado o âmago de suas consciências.”20

O que virá após a Grande Recessão? Só Deus sabe. Mas em meados do século 19, Ele levantou o movimento do advento para dizer ao mundo: “Já não haverá demora!” (Ap 10:6). “Eis que venho sem demora!” (Ap 22:12). Não chegou a hora de acordar, acender a lâmpada e dar a trombeta o sonido certo?


Notas

[1] Emilio Gentile, Politics as Religion, trad. George Staunton (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1996), p. 30.

[2] Jean-Jacques Rousseau, The Social Contract, trad. Maurice Cranston (London: Penguin Books, 1968), p. 61.

[3] Albert Camus, The Rebel: An Essay on Man in Revolt, trad. Anthony Bower (New York: Vintage Books, 1991), p. 115.

[4] Robert Tucker, Philosophy and Myth in Karl Marx (Cambridge: Cambridge University Press, 1961), p. 31.

[5] Nicholas V. Riasanovsky, The Emergence of Romanticism (Oxford: Oxford University Press, 1992), p. 80.

[6] Jeffrey Burton Russell, Mephistopheles: The Devil in the Modern World (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1986), pp. 173–213.

[7] Ernst Benz, The Mystical Sources of German Romantic Philosophy, trad. Blair R. Reynolds e Eunice M. Paul (Eugene, Oreg.: Pickwick Publications, 1983), pp. 23–25.

[8] Glenn Alexander Magee, Hegel and the Hermetic Tradition (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 2001), pp. 87, 88.

[9] M. H. Abrams, Natural Supernaturalism: Tradition and Revolution in Romantic Literature (New York: W. W. Norton, 1971), p. 67.

[10] Liah Greenfeld, Nationalism: Five Roads to Modernity (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1992), p. 328.

[11] Ibid., p. 336.

[12] Abrams, p. 21.

[13] Ibid., p. 120.

[14] Friedrich Nietzsche, The Use and Abuse of History, trad. Adrian Collins (New York: Macmillan Pub. Co., 1957), pp. 62, 63.

[15] Friedrich Nietzsche, Ecce Homo, trad. R. J. Hollingdale (London: Penguin Books, 1979), p. 104.

[16] Michael Allen Gillespie, Nihilism Before Nietzsche (Chicago: University of Chicago Press, 1995).

[17] Camus, p. 255.

[18] Riasanovsky, p. 54.

[19] Tony Judt, Reappraisals: Reflections on the Forgotten Twentieth Century (New York: Penguin Books, 2008), p. 3.

[20] John Lukacs, At the End of the Age (New Haven, Conn.: Yale University Press, 2002), p. 42.

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