Os Reformadores Magisteriais e O Sábado
P. Gerard Damsteegt nasceu na Holanda. Ele era engenheiro aeronáutico quando se tornou adventista. Deus o chamou para preparar pessoas para a volta de Jesus. Em seu ministério, ele serviu como pastor evangelista, missionário, capelão, educador, editor, escritor e professor. Ele é autor do livro Fundamentos da Mensagem e Missão Adventista do Sétimo Dia, e autor principal do livro Nisto Cremos. Ele foi professor do Departamento de História da Igreja na Andrews.
Tradução: Hugo Martins
O artigo “Os Reformadores Magisteriais e O Sábado” (Original em inglês: “The Magisterial Reformers and the Sabbath”), por Aécio Cairo, foi publicado inicialmente pelo Adventist Biblical Research Institute. Usado com permissão.
Introdução
No alvorecer do século XVI, os cristãos eram desafiados a guardar fielmente os muitos dias santos ou festivais instituídos durante a Idade Média pela Igreja Católica Romana dominante.1 A frequência fiel à igreja, nesses dias, era exigida e considerada obrigatória para a salvação, sendo um meio de obter graça. O dia bíblico de adoração, o sábado, era considerado judaico, enquanto o domingo havia assumido caráter sabático e era observado com grande rigor como o dia do Senhor. Esperava-se que os crentes se abstivessem naquele dia de muitas atividades, e qualquer desvio desses requisitos os sujeitava à disciplina eclesiástica. Um número crescente de vozes estava insatisfeito com esta situação e protestou sem sucesso.
Tal era a condição quando a primeira geração de reformadores começou as suas tentativas de reformar a igreja. Esses reformadores surgiram no seio da Igreja Romana como observadores do domingo. Embora não tivessem uma visão clara do desenvolvimento histórico da mudança do dia de culto, foi por meio do estudo das Sagradas Escrituras que desenvolveram uma compreensão do significado bíblico do sábado, especialmente quanto à forma de observá-lo. O estudo do sábado nas Escrituras também os levou a descobrir o domingo como uma instituição humana, não um dia ordenado por Deus.
Neste contexto, este estudo centra-se na compreensão dos reformadores magisteriais acerca do sábado. Os governantes ou magistrados locais apoiaram estes reformadores. Os reformadores magisteriais mais importantes foram Martinho Lutero (1483–1546), fundador da Igreja Luterana; João Calvino (1509–1564) e Ulrico Zuínglio (1484–1531), fundadores da tradição reformada. Lutero foi apoiado por Frederico o Sábio, Calvino pelo conselho municipal de Genebra e Zuínglio pelo conselho municipal de Zurique. A influência desses reformadores é muito ampla. A partir da tradição luterana, desenvolveu-se a Federação Luterana Mundial, uma comunidade global de igrejas luteranas, fundada em 1947, com 140 igrejas-membro em 79 países e mais de 70 milhões de membros. Da tradição reformada surgiu a Aliança Mundial de Igrejas Reformadas, formada em 1970, com 214 igrejas reformadas em 107 países e mais de 75 milhões de membros. Como Lutero e Calvino escreveram extensamente sobre o sábado e seus livros e folhetos influenciaram seus sucessores e muitos outros cristãos, seus escritos receberão maior atenção.
Este artigo trata das opiniões dos reformadores sobre o propósito ou função do sábado/domingo, das razões para a abolição do sábado do sétimo dia e de como ocorreu a mudança do dia semanal de adoração do sábado para o domingo. Tanto quanto possível, a pesquisa utilizará as obras primárias dos reformadores. As opiniões desses reformadores sobre o sábado serão tratadas, na medida do possível, à luz do desenvolvimento cronológico de seus pensamentos. Primeiro, serão discutidas as opiniões de Lutero, depois as de Calvino e, finalmente, as de Zuínglio.
Lutero e O Sábado
Propósito do Sábado
A primeira vez que Lutero comentou sobre o sábado foi em suas Primeiras Conferências sobre Salmos, que ele escreveu quando era um jovem professor em Wittenberg, em 1515. Para Lutero, ainda sob a influência da teologia católica, o sábado se referia simplesmente ao domingo. Nessas palestras, Lutero lamenta que tantos frequentem a igreja apenas por costume. Como resultado deste hábito, “os sábados de Cristo são contaminados” pelas “obras servil, carnal, mundana e diabólica do pecado.”2 Para direcionar os crentes a uma experiência espiritual mais profunda no dia de adoração, Lutero explica o propósito do sábado à luz do descanso e da santificação de Deus nesse dia.
Deus Descansa no Sábado
Cedo na vida, Lutero ficou muito preocupado com a forma habitual como muitos cristãos participavam dos cultos semanais da igreja, pois o objetivo deles era alcançar a salvação. Ao discutir a observância adequada do dia de descanso semanal no seu Tratado sobre Boas Obras (1520), Lutero se concentra na importância do exemplo do descanso de Deus para os seres humanos. Diz ele: “Em hebraico, ‘sábado’ significa uma festa ou um descanso.” Porque “Deus descansou no sétimo dia e cessou todas as obras que havia criado . . . ele ordenou que o homem também celebrasse o sétimo dia e que cessássemos as obras que fazemos nos outros seis dias.”3
Quanto ao significado deste descanso, Lutero deixa claro que o descanso ou pausa no trabalho neste mandamento pertencia a “dois tipos: corporal e espiritual.”4 “A celebração ou descanso corporal” significa “que deixemos de lado o trabalho das nossas mãos e descansemos do nosso trabalho para que possamos nos reunir na igreja, ver a missa, ouvir a palavra de Deus e oferecer juntos oração comum e sincera.”5 Em seguida, ele pede um “descanso espiritual” nos Dez Mandamentos (Êx 20:10–11), no qual “não apenas cessamos nosso trabalho e comércio, mas muito mais — que deixemos Deus tão somente operar em nós e que, com todos os nossos poderes, não façamos nada por conta própria.”6 Este descanso é aquele em que “nossas obras cessam e somente Deus opera em nós.”7 Para atingir este objetivo, Deus destruirá as nossas próprias obras, bem como o velho Adão que existe em nós. Isto acontece quando Deus “nos envia sofrimento e inquietação para nos ensinar a ter paciência e paz”8, e isto continua até que, finalmente, não haja mais “obras de homem.”9 Isto é o que significa “observar o dia de descanso e santificá-lo. É então que o homem deixa de governar a sua própria vida, é então que ele não deseja nada para si mesmo, é então que nada o perturba: é o próprio Deus que o conduz.”10 O resultado é que “então não há nada além de felicidade, alegria e paz piedosas, e também todas as outras obras e virtudes.”11
Para descansar do nosso trabalho é preciso fé. Em seu Comentário ao Salmo 68 (1521), Lutero escreve: “É necessária tamanha destreza para reconhecer a obra de Deus e deixá-lo trabalhar em nós, para que todo o nosso trabalho seja, no final, de Deus e não nosso. Esta é a celebração adequada do sábado: descansar das nossas próprias obras e estar cheio das obras de Deus. Tudo isso é efetuado em nós por meio da fé . . .”12 Os rígidos regulamentos do sábado do antigo Israel ensinam uma lição importante. No sermão sobre O Evangelho para A Festa da Epifania (1522), Lutero aponta que essas ordenanças revelam que a guarda do sábado é feita apenas por meio das obras de Cristo. “Não haverá em nós as nossas obras,” disse ele, “mas as obras de Cristo . . . não é a nossa ação, mas o que Cristo fez, que nos redime.”13
Deus Santifica O Sábado
A santificação do sábado por Deus ocupa um lugar significativo nos escritos de Lutero. Ele ressalta que Deus considera suas obras “tão grandes que nos ordena não apenas guardar o dia de descanso, mas também santificá-lo ou considerá-lo santo.”14 No seu Tratado sobre Boas Obras, Lutero traduz a palavra “Sábado” no mandamento como “dia santo” ou “dia de descanso.” Ele interpreta a frase “santificarás o dia santo”15 como significando “devemos nos relacionar com Deus em obras.”16 Tais obras do mandamento são “claras e perceptíveis” e chamadas de “serviço divino, como ouvir missa, orar e ouvir um sermão em dias santos.”17
Em seu sermão O Evangelho para a Festa da Epifania, Lutero vê claramente que são as obras de Deus que santificam o sábado, e não as nossas. Ele comenta: “Se você carrega a santa cruz e deve sofrer muito por causa de tal fé e testemunho, de modo que você tem que arriscar corpo e vida, bens e honra, amigos e favores, então esta é a verdadeira maneira de observar e santificar o sábado, pois o que você faz não é de si mesmo, mas inteiramente obra de Deus dentro de você. . . .”18 Em outras palavras, este mandamento “ensina como uma pessoa deve governar suas ações para com Deus, ou seja, na adoração. Diz: ‘Santifique o Dia de Descanso’.”19 O mandamento do sábado no Catecismo Menor de Lutero (Der Kleine Katechismus, 1529) diz: “Santificará o feriado [Feiertag].”20 Aqui ele descreve a santificação como “o dever de temer e amar a Deus para não desprezarmos a pregação e sua Palavra, mas considerá-la sagrada, ouvi-la e aprendê-la com alegria.”21
Deus Santifica O Sábado da Criação
As opiniões de Lutero sobre o sábado na criação e na santificação são mais plenamente desenvolvidas em suas Palestras sobre Gênesis, que começaram em 1535 e duraram quase 10 anos. Ao discutir a santificação do sábado por Deus em Gênesis 2:3, Lutero ressalta que o relato da Criação não menciona que o sábado foi feito para o homem, mas para o próprio Deus. Lutero diz: “Deus abençoou o sábado e o santificou para Si mesmo. . . . Ele não santificou para si mesmo o céu, a terra ou qualquer outra criatura, mas o sétimo dia ele santificou para si mesmo.”22 Esta visão tem implicações para o propósito especial do sábado. Seu objetivo era “nos fazer compreender que o sétimo dia, em particular, deve ser dedicado ao culto divino. Pois ‘santo’ é aquilo que foi reservado a Deus e retirado de todos os usos seculares. Portanto, santificar significa reservar para propósitos sagrados ou para a adoração de Deus.”23
Conectando a santificação à Criação, Lutero explica: “O homem foi criado especialmente para o conhecimento e a adoração de Deus. . . . No sétimo dia, ele queria que os homens se ocupassem tanto com a sua Palavra quanto com outras formas de adoração estabelecidas por ele, para que pudéssemos pensar primeiro no fato de que esta natureza foi criada principalmente para reconhecer e glorificar a Deus.”24
Conectando a santificação ao descanso, Lutero diz: “Isso é o que significa o sábado, ou o descanso de Deus, no qual Deus fala conosco por meio de sua palavra e nós, por nossa vez, falamos com ele por meio da oração e da fé.”25 O sábado, portanto, “tem a ver principalmente com a demonstração de adoração interior e espiritual, com fé, amor, oração, etc.”26
A ordem de santificar tem implicações de longo alcance para a forma como o dia de descanso deve ser guardado. Em uma carta “Contra os Sabatistas” (1538) dirigida a um amigo, Lutero escreveu: “O verdadeiro significado” do mandamento é “que naquele dia ensinemos e ouçamos a palavra de Deus, santificando assim tanto o dia como a nós mesmos.”27 Ele explica ainda: “Tudo depende completamente disto: que santifiquemos o dia. Isto é mais importante do que celebrar. Pois Deus não diz: Você deve celebrar o dia santo ou torná-lo um sábado — isso cuidará de si mesmo.”28 Deus “está muito mais preocupado com a santificação do que com a celebração dela. E onde um ou outro possa ou deva ser negligenciado, seria muito melhor negligenciar a celebração do que a santificação, visto que o mandamento dá maior ênfase à santificação. . . .”29 Em contraste, “os judeus, porém, dão maior ênfase à celebração do que à santificação (o que Deus e Moisés não fazem) por causa dos acréscimos que fizeram.”30
Lutero considera a santificação a função mais importante do sábado: “Mas a santificação — isto é, o ensino e a pregação da palavra de Deus, que é o significado verdadeiro, genuíno e único do seu mandamento — existe desde o princípio e pertence a todo o mundo para sempre.”31
Sábado através da História
Em seus escritos, Lutero discute a observância do sábado ao longo da história. A próxima seção descreve seus comentários sobre a observância do sábado antes e depois da Queda, na era patriarcal e durante o milênio.
Sábado antes da Queda
Lutero acredita que Adão manteve o sétimo dia sagrado e teria continuado a guardá-lo se não tivesse pecado. “Neste dia,” escreve ele, Adão “teria dado instruções aos seus descendentes sobre a vontade e a adoração de Deus; ele teria louvado a Deus; ele teria dado graças; ele deveria ter sacrificado, etc. Nos outros dias, ele teria cultivado seus campos e cuidado de seu gado.”32
A santificação é uma das funções importantes deste dia. “No dia de sábado,” diz Lutero, “os homens teriam conversado sobre a imensurável bondade do Criador; teriam sacrificado; teriam orado, etc. Pois este é o significado do verbo ‘santificar’.”33 Com esta santificação do sábado, ele vê um elo com a futura “imortalidade da raça humana.” A imortalidade teria sido alcançada da seguinte forma: “Adão teria vivido por um tempo definido no Paraíso, segundo a vontade de Deus; então ele teria sido levado para aquele descanso de Deus que Deus, por meio da santificação do sábado, desejava não apenas simbolizar para os homens, mas também lhes conceder. Assim, a vida física teria sido feliz e santa, espiritual e eterna.”34
Lutero não entrou em detalhes sobre o tipo de sacrifícios que Adão teria oferecido. Muito provavelmente teriam sido ofertas de agradecimento pelos produtos do cultivo da terra.
Sábado após A Queda
Quando Adão perdeu seu estado de inocência, o propósito de adorar Deus no sábado não mudou. Após a Queda, comenta Lutero, Adão “manteve este sétimo dia sagrado” e “instruiu a sua família, servindo os sacrifícios dos seus filhos, Caim e Abel, como prova”. Portanto, desde o princípio do mundo, o sábado está destinado à adoração a Deus.”35 Agora, vivendo num mundo de pecado e morte, Lutero vê que a ordem do sábado trouxe esperança. É porque este “mandamento permanece para a igreja, denota que a vida espiritual deve ser restaurada para nós através de Cristo.”36 Resumindo o propósito do sábado, ele diz: “o verdadeiro propósito do sétimo dia” é “que a Palavra de Deus seja pregada e ouvida.”37
Sábado, Patriarcas e Decálogo
Lutero acreditava que os patriarcas do Antigo Testamento observavam o Decálogo. Comentando sobre Abraão, ele diz: “ele observou o Decálogo, o rito do sábado e a lei da circuncisão.”38 “Os santos patriarcas eram constantes e diligentes no ensino e na oração,” escreve ele, mas “especialmente no sábado, o povo se reunia para a pregação e a oração comuns da igreja.”39
Em vez de chamar a atenção para os Dez Mandamentos, nos quais o sábado é referido como um memorial da Criação, Lutero vê este dia como um sinal de vida eterna. Ele ressalta: “Todas as coisas que Deus deseja que sejam feitas no sábado são sinais claros de outra vida após esta.” Lutero aqui vai além do texto bíblico ao ver o sábado como um prenúncio da vida futura.40
Ao comparar os dias de trabalho com o dia de descanso no mandamento, Lutero comenta: “‘Seis dias você trabalhará e fará todo o seu trabalho,’ isto é, cuidará de sua propriedade. ‘Mas no sétimo dia você deve guardar o sábado, descansar e ouvir a voz do Senhor seu Deus.’ ”41
Sábado durante O Milênio
Lutero acreditava que haverá um sábado durante o próximo milênio. O milênio começa, afirma ele, quando os “dias da terra chegarão ao fim e tudo chegará ao fim, e seguir-se-ão dias do céu, isto é, dias eternos, que serão sábado após sábado, quando não estaremos envolvidos em trabalhos físicos para nossa subsistência; pois seremos como os anjos de Deus (Mc 12:25).”42 Ele compara a transição no início do milênio com a substituição de uma vestimenta velha por “vestimentas festivas.” “Da mesma forma, Deus também nos purifica dos pecados e nos liberta da morte. Este é o trabalho dos seis dias deste mundo. Mas quando isso passar, quando tivermos entrado em seu descanso, então nossas vestes rasgadas e imundas serão transformadas nas vestes do sábado eterno (cp. Hb 4:3–9).”43
Abolição do Sábado
Embora Lutero tenha escrito muitas coisas louváveis sobre o sábado, ele acreditava que os cristãos não deveriam observá-lo como um dia literal de descanso no sétimo dia da semana. Cristo aboliu o sábado judaico e os cristãos foram então libertos das cerimônias e das leis judaicas. Vemos aqui a influência da educação católica romana antijudaica de Lutero.
Embora Lutero tenha sido influenciado pela compreensão católica romana do sábado, sua discussão sobre a abolição do sábado também é moldada por sua exposição à literatura de cristãos que, ao se limitarem apenas à Bíblia, concluíram que o sábado ainda é válido para os crentes. A seção seguinte trata dos principais argumentos de Lutero para a abolição do sábado, incluindo o sábado como cerimonial e sombra, todos os dias como iguais e não santos, os dez mandamentos como parte da lei mosaica, o amor tendo prioridade sobre o sábado e a evidência do ministério terreno de Cristo.
Contexto das Primeiras Opiniões de Lutero sobre A Abolição do Sábado
No início de 1525, Lutero publicou seu tratado Contra os Profetas Celestiais, no qual expõe muitos de seus pontos de vista sobre a abolição do sábado do sétimo dia. Este livro foi uma resposta específica a Von dem Sabbat und gebotten feyertagen [Tratado sobre O Sábado e Os Dias Festivos Ordenados (1524)], um tratado amplamente publicado44 sobre a importância do sábado dos Dez Mandamentos para os cristãos, escrito pelo teólogo sabatista45 Andreas Bodenstein von Karlstadt. Nele, Karlstadt salienta que o mandamento do sábado é para “todo o povo de Deus,”46 não apenas para os judeus. Ele destaca que o sábado deve ser celebrado através de um descanso espiritual e físico também, e argumenta que devemos conceder lazer aos nossos vizinhos, irmãos, servos e aos pobres, bem como aos nossos cavalos, bois, burros e todos os outros animais de trabalho para serem ociosos, livres e celebrarem.47 Karlstadt fornece muitos exemplos da profanação generalizada do sábado pela comunidade cristã que não considera a sua santidade.48
Sábado É Cerimonial e Uma Sombra
Respondendo ao tratado de Karlstadt, Lutero argumenta que nem tudo o que está nos Dez Mandamentos — que ele considera parte da lei de Moisés — é aplicável aos cristãos. Os Dez Mandamentos contêm duas leis cerimoniais, nomeadamente as relativas às imagens e ao sábado, que foram “revogadas no Novo Testamento.”49 Ele mostra a natureza cerimonial do mandamento do sábado da seguinte forma: “Pois São Paulo (Cl 2 [:16–17]) fala franca e claramente: ‘Portanto, que ninguém julgue vocês por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir’.”50 Ele comenta: “Paulo aqui revoga expressamente o sábado e o chama de sombra que já passou, já que o corpo, que é o próprio Cristo, já veio.”51 Lutero encontra evidências adicionais para a abolição do sábado em Gálatas 4:10–11, onde “Paulo chama de trabalho perdido observar dias e estações, entre os quais está também o sábado,” e na profecia de Isaías 66:23: “De lua nova a lua nova, e de sábado a sábado,” que mostra que “haverá um sábado diário no Novo Testamento, sem diferença quanto ao tempo.”52 Lutero afirma: “devemos ser gratos a Paulo e Isaías, por eles há tanto tempo nos terem libertado dos espíritos facciosos. Caso contrário, teríamos que passar o dia de sábado com a ‘cabeça na mão’, aguardando a voz celestial, pois ela nos iludiria.”53 Ele acrescenta: “se Karlstadt escrevesse mais sobre o sábado, até o domingo teria que ceder, e o sábado, isto é, o sábado, seria celebrado. Ele realmente nos tornaria judeus em todas as coisas, então também teríamos que ser circuncidados, etc.”54
Na sua interpretação de Colossenses 2:16-17, Lutero não menciona que a Bíblia distingue entre dois tipos de sábados. Um tipo refere-se aos sábados cerimoniais anuais relacionados com a Páscoa, a Festa das Semanas, o Dia da Expiação e a Festa dos Tabernáculos (Lv 23:4–39). Esses sábados apontavam e prefiguravam eventos que se cumpriram na vida e no ministério de Cristo (ver, por exemplo, 1Co 5:7; 15:20). O outro tipo de sábado é o sábado semanal do sétimo dia, que não é uma sombra, mas aponta para a Criação e constitui um memorial dela. Como Paulo deixa claro, os sábados a que ele se refere são sombras apontando para o futuro (Cl 2:17). Ele não está se referindo ao sábado semanal, que é um memorial da Criação, conforme declarado no quarto mandamento do Decálogo (Êx 20:8–11).
Da mesma forma, Lutero não consegue compreender plenamente o contexto histórico de Gálatas 4:10–11. A questão tratada por Paulo foi o conflito causado pelos judaizantes que se infiltraram nas igrejas da Galácia, ensinando que os gentios tinham que guardar todas as leis mosaicas, incluindo a circuncisão, como necessárias para a salvação (cp. At 15:5). Paulo, portanto, argumenta que os gentios não precisam “observar dias, e meses, e tempos, e anos” mencionados nas leis mosaicas para serem salvos. Estas eram exigidas pela dispensação do Antigo Testamento, mas não são mais obrigatórias na era do Novo Testamento.55
Cristãos Podem Descansar em Qualquer Dia Porque Todos Os Dias São Iguais
Após a remoção da parte cerimonial da ordem do sábado que trata do tempo específico para descansar, ainda permanece a instrução geral para descansar, que faz parte da lei natural. A visão de que os cristãos podem descansar em qualquer dia é apoiada por Lutero da seguinte forma: “não é necessário observar o sábado ou o domingo por causa do mandamento de Moisés. A natureza também mostra e ensina que é preciso descansar por um dia de vez em quando, para que o homem e os animais possam se renovar. Moisés também reconheceu esta razão natural na sua lei do sábado, pois ele coloca o sábado sob o homem, como também Cristo o faz (Mt 12[:1–13]) e Mc 3[:2–5].”56 Lutero conclui: “Pois onde é guardado apenas para descansar, é claro que aquele que não precisa de descanso pode violar o sábado e descansar em outro dia, conforme a natureza permitir.”57
Lutero acreditava que todos os dias são iguais. Como prova de que os cristãos “não devem se vincular a nenhum dia,” ele cita Gálatas 4:10–11 e Colossenses 2:16–17.58 No entanto, ele considera apropriado reservar dias especiais para que as pessoas possam tirar uma folga para santificá-los. Em suas Palestras sobre Isaías (1527), ele explica: “Entre os piedosos, todos os dias são iguais, mas, por causa da Palavra e da oração, certos dias são escolhidos por aqueles que não podem santificar todos os dias, embora devamos santificar todos os dias.”59 Além disso, como Lutero assume que a santificação não está relacionada ao sétimo dia, ele conclui que o sétimo dia não diz respeito nem aos não-judeus nem aos judeus após o advento do Messias. Isto implica que se pode “descansar, celebrar e guardar o sábado em qualquer dia ou hora em que a palavra de Deus for pregada.”60
Os Dez Mandamentos Pertencem à Lei Mosaica
No sermão “Como Os Cristãos Deveriam Considerar Moisés” (1525), Lutero afirma que a introdução do Decálogo, “Eu sou o Senhor, seu Deus, que o tirei da terra do Egito, da casa da servidão” (Êx 20:1), deixa claro que o mandamento do sábado não se aplica aos cristãos.61 Ele acrescenta: “Este texto deixa claro que até mesmo os Dez Mandamentos não nos dizem respeito. Pois Deus nunca nos tirou do Egito, mas apenas os judeus.”62 Isto significa que os Dez Mandamentos pertencem exclusivamente à Lei de Moisés.
A relevância da Lei de Moisés para os cristãos é que eles só aceitam as leis de Moisés quando estão em harmonia com o Novo Testamento e com a lei natural. Lutero explica: “Consideraremos Moisés como um professor, mas não o consideraremos como nosso legislador — a menos que ele concorde com o Novo Testamento e com a lei natural. Portanto, está bastante claro que Moisés é o legislador dos judeus e não dos gentios.”63 Deus deu sinais diferentes a judeus e cristãos. “Ele deu aos judeus um sinal pelo qual deveriam se apegar a Deus quando o invocarem como o Deus que os tirou do Egito. Os cristãos têm um sinal diferente, pelo qual concebem Deus como Aquele que deu o seu Filho, etc.”64
Lutero também não percebeu a singularidade dos Dez Mandamentos em relação à lei mosaica. As diferenças entre essas leis são as seguintes: Os Dez Mandamentos foram proferidos por Deus (Dt 4:12–13), escritos “com o dedo de Deus” em tábuas de pedra (Êx 31:18; 24:12) e colocados na arca da aliança localizada no Lugar Santíssimo do santuário terrestre (Êx 40:20). Esta lei, também chamada de “lei real”, aponta o pecado (1 Jo 3:4; Rm 3:20; 7:7) e é o padrão no juízo final (Ec 12:12–13). Esta lei é “perfeita” (Sl 19:7), deve permanecer firme “para todo o sempre” (Sl 111:7–8), e não foi abolida por Cristo (Mt 5:17).
Além da lei moral, Deus deu a Moisés outras leis para detalhar todos os ritos cerimoniais associados ao santuário da nação de Israel. Esta lei é descrita por Paulo como a lei “contida nas ordenanças” (Ef 2:15). É também chamada de Lei Mosaica porque, diferentemente dos Dez Mandamentos, foi escrita por Moisés em um livro e colocada ao lado da arca. Essas cerimônias típicas encontraram seu cumprimento antitípico na vida, morte e ressurreição de Cristo. Tendo cumprido o seu propósito, as leis cerimoniais deixam de ser aplicáveis ao “Israel de Deus” sob a nova aliança (Dn 9:26–27; Gl 6:15–16).
A falha em fazer esta distinção entre o sábado semanal da lei moral e os sábados sazonais da lei cerimonial levou Lutero a considerar o sábado da Criação, abolido, como uma lei judaica do AT que havia perdido a validade para os cristãos.
Falta de Evidências para O Sétimo Dia
Na Conversa à Mesa de Lutero “Sobre a Observância do Sábado”, no outono de 1532, ele responde àqueles que acham necessário guardar o Sábado do Decálogo, sugerindo que falta evidência de qual dia da semana é o sétimo dia. Ele diz: “Como eles propõem provar que sábado é o sétimo dia?”65
Aqui Lutero mostra sua falta de familiaridade com a história do sábado e do domingo. Sabemos que não houve interrupção no ciclo semanal desde a época de Cristo.66 O consenso praticamente unânime entre os cristãos de que Cristo morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou no primeiro dia da semana (domingo) coloca o sábado como o sétimo dia (sábado), quando ele descansou na sepultura.
Amor Tem Prioridade sobre O Mandamento do Sábado
Em suas Palestras sobre Gálatas (1535), Lutero argumenta que o sábado foi abolido porque o amor tem precedência sobre a Lei. Paulo menciona que a Lei se resume a uma palavra: “Ame o seu próximo como a você mesmo” (Gl 5:14). Isso significa que o amor tem prioridade sobre o sábado. Como exemplo, ele menciona que Deus mostrou “quão importante o amor sempre foi para ele; pois ele queria que a Lei e todas as suas cerimônias sempre se rendessem ao amor.”67 O Antigo Testamento indicou isto “quando Davi e seus companheiros tiveram fome e não tinham o que comer, comeram o pão sagrado, que, de acordo com a Lei, não era permitido aos leigos, mas apenas aos sacerdotes (1Sm 21:6).”68 No Novo Testamento, os discípulos “violaram o sábado ao colher espigas” (Mt 12:1). E, de acordo com a interpretação judaica, o próprio Cristo violou o sábado ao curar os enfermos no sábado (Lc 13:14).69 A partir desses exemplos, Lutero conclui: “o amor deve ser preferido a todas as leis e cerimônias, e que Deus não exige nada de nós tanto quanto o amor ao próximo.”70
Os Judeus Perderam A Terra de Israel
Em suas Palestras sobre Gênesis (1535–1545), Lutero apresenta argumentos adicionais a favor da abolição do sábado. Uma delas foi que quando o antigo Israel perdeu a sua terra, o sábado cessou. A promessa de Deus a Abraão e seus descendentes foi que receberiam a terra de Canaã “para sempre” (Gn 13:14–15). As leis que Deus deu a Moisés para governar a nação permaneceriam em vigor enquanto a nação possuísse a terra. No entanto, quando as condições mudaram e os israelitas perderam a terra, isso afetou profundamente a economia judaica, inclusive o sábado. “Portanto,” diz Lutero, “quando a terra deixa de existir e é perdida, a Lei também cessa, assim como o reino, o sacerdócio, o sábado, a circuncisão, etc.”71
Evidências do Ministério Terrestre de Cristo
Em seus Sermões sobre o Evangelho de João (1537), Lutero cita incidentes no ministério de Cristo como evidência adicional de que o sábado foi abolido. Ele assume que Cristo, em seu ministério terreno, às vezes violava o sábado e, outras vezes, o guardava. Lutero explica este comportamento aparentemente contraditório da seguinte forma: “O Senhor ocupou uma posição entre o Antigo e o Novo Testamento, ou entre o governo estabelecido por Moisés entre o povo de Israel e aquele que ele estabeleceria após sua morte por meio do Espírito Santo e da pregação do Evangelho.”72 Portanto, às vezes “Cristo é Mosaico em sua atitude. Ele observa muitas fases da Lei. Ele é circuncidado; ele sacrifica no templo; ele vai a Jerusalém três vezes por ano para as festas; . . . ordena aos leprosos que se apresentem aos sacerdotes como exigia a Lei.”73 Em outras ocasiões, “Cristo segue o Novo Testamento em muitos aspectos.”74
Quando os fariseus acusaram os discípulos de Cristo de colher espigas no sábado, Lutero observa que Cristo os defendeu: “violando o sábado, disse: ‘O sábado não me diz respeito.’ Eu sou o seu Senhor, e o sábado não pode ter domínio sobre mim’ (Mt 12:1–8). Assim, vemos que Cristo às vezes guarda o sábado e às vezes o viola (Jo 5:16).”75 Quando Cristo diz aos judeus que ele é o Senhor do sábado, Ele “não atua como aluno de Moisés, mas como alguém que agora pertence ao Novo Testamento, onde a Lei de Moisés seria revogada e uma nova ordem espiritual deveria ser estabelecida no mundo inteiro por meio da mensagem do Evangelho. . . .”76 Lutero destaca que “Cristo observa e desconsidera a Lei de Moisés à vontade. Se ele escolhe seguir Moisés, está certo. Se ele preferir não segui-lo, não está errado, pois nada deve à Lei, sendo Senhor da Lei e do sábado. Ele tem o direito de seguir sua própria vontade e seus próprios prazeres, pois é rei e barão.”77
Mudança do Sábado
Ao lidar com a visão de Lutero sobre a mudança do sábado, daremos atenção às perspectivas do reformador quanto ao agente, às razões e ao momento da mudança.
A Igreja Mudou O Sábado para O Domingo
Nos seus primeiros escritos, ainda sob influência católica, a opinião de Lutero sobre a mudança do dia de culto era que o sábado do Antigo Testamento foi substituído pelo domingo e que este assumiu o caráter do sábado. Em 1520, ele comenta: “que em hebraico ‘sábado’ significa uma festa ou descanso. . . . Este mesmo ‘sábado’ foi transformado em domingo para nós, e os outros dias são chamados de dias úteis. Domingo significa um dia de descanso, um dia de celebração, ou um dia santo.”78 Ele está convencido de que o domingo não foi instituído por “mandamento de Deus,” mas pela igreja. A celebração do domingo “é uma necessidade ordenada pela igreja para o bem dos leigos imperfeitos e da classe trabalhadora, para que eles também possam vir [à igreja e ouvir] a palavra de Deus”.79
Quanto à correção da mudança do sábado para o domingo, Lutero apela à tradição. Quando alguns cristãos enfatizaram que o sábado não mudou, mas ainda precisa ser observado, ele aborda isso num sermão sobre “O Terceiro Mandamento”, de 22 de outubro de 1525, afirmando que o sábado é para os judeus e o domingo para os cristãos. No entanto, Lutero admite: “se alguém quiser fazer do sábado um mandamento necessário, como obra exigida por Deus, ele tem que guardar o sábado e não o domingo, pois o sábado, e não o domingo, é ordenado aos judeus.”80 Mas ele continua: a longa tradição dos cristãos de guardarem o domingo é uma evidência clara da correção da sua posição. Ele afirma: cristãos “têm guardado o domingo até agora e não o sábado porque Cristo ressuscitou no domingo. Logo, isso é um sinal de que o sábado não nos diz mais respeito, nem mesmo [toda a [ei de] Moisés. Caso contrário, teríamos de guardar o sábado. Esta é uma forte evidência de que o sábado foi abolido. Pois, em todo o Novo Testamento, não encontramos nenhum lugar que [ensine que] nós, cristãos, somos ordenados a celebrar o sábado.”81
Por Que O Domingo Foi Escolhido?
Lutero acredita que, para haver cultos divinos, um dia não é melhor que outro e, como esses cultos deveriam ser realizados diariamente, seria preferível que os crentes se reunissem um dia por semana. Ele diz: “Embora todos os dias sejam livres e um [dia] seja igual ao outro, é, no entanto, útil e bom, sim, muito necessário, que um dia seja celebrado, seja no sábado, no domingo ou em outro dia, pois Deus quer liderar o mundo de forma pura e reiná-lo pacificamente.”82 Então surge a questão: por que os protestantes se reúnem para o culto no domingo? Em seu Catecismo Maior (1530), Lutero responde que isso é feito para preservar a harmonia na igreja. Ele ressalta que é difícil realizar cultos públicos diários porque, como “as missas não podem dar esse comparecimento, deve haver pelo menos um dia da semana separado. Mas desde que o antigo domingo [o Dia do Senhor] foi designado para esse propósito, nós também devemos continuar da mesma forma, para que tudo seja feito em ordem harmoniosa e ninguém crie desordem por meio de inovações desnecessárias.”83 Embora nenhuma data específica seja fornecida para quando a mudança do sábado para o domingo ocorreu, isso indica que ela ocorreu na igreja primitiva.
O Dia de Descanso Não Se Limita a Um Dia Específico nem Precisa de Justificativa
A partir de 1530, Lutero não limita mais a guarda do dia de descanso ao domingo. O Catecismo Maior afirma que este descanso “não está tão restrito a qualquer momento, como acontecia com os judeus, que deva ser apenas neste ou naquele dia; pois nenhum dia é melhor que outro, mas deve, de fato, ser feito diariamente.”84 Nas suas Palestras sobre Gálatas, Lutero apela ao espírito da liberdade cristã e à necessidade de preservar o comportamento ordeiro, como deve ser observado nos dias de hoje, não como o dos judaizantes do Novo Testamento e “os papistas”, que realizam estas obras para obter a justiça. Ele explica: “Não sobrecarregamos as consciências com essas observâncias; nem ensinamos, como fizeram os falsos apóstolos e os papistas, que elas são necessárias para a justificação ou que podemos aliviar os nossos pecados por meio delas.”85 “O propósito deles,” observa Lutero, “é que tudo seja feito na igreja de maneira ordenada e sem confusão, para que a harmonia externa não seja perturbada; pois no espírito temos outro tipo de harmonia.”86
Com essas convicções sobre a mudança do sábado e sobre o fato de que a observância do sábado não tem nada a ver com justificação, justiça ou salvação, não surpreende que Lutero fique muito preocupado quando um movimento de observadores cristãos do sábado surge na Morávia e na Áustria em meados da década de 1530. Ele chama esses observadores do sábado de “tolos” e “sabatistas.” “Em nossa época,“ diz ele, “surgiu na Morávia um tipo de gente tola, os sabatistas, que afirmam que o sábado deve ser observado à moda dos judeus. Talvez eles também insistam na circuncisão, por uma razão semelhante.”87 Ele chama esses sabatistas de “macacos” dos judeus.88
Em diversas regiões, os sabatistas praticavam a circuncisão e, consequentemente, eram chamados de “judaizantes.” Lutero diz: “Ouvi dizer que na Áustria e na Morávia alguns judaizantes defendem hoje tanto o sábado quanto a circuncisão.”89 A responsabilidade por este novo movimento ele atribui aos judeus e à falta de pregadores do Evangelho. Ele comenta: “Na Morávia, eles circuncidaram muitos cristãos e os chamam pelo novo nome de sabatistas. Isto é o que acontece nas regiões de onde são expulsos os pregadores do evangelho: as pessoas são obrigadas a tolerar os judeus.”90
Perto do fim de sua vida, Lutero relata que, na Áustria, esses sabatistas “tentaram forçar os homens a observar a lei da circuncisão, como se não pudessem ser salvos a menos que fossem circuncidados.”91
Calvino e O Sábado
Propósito do Sábado
As opiniões de Calvino sobre o propósito do sábado e sua relevância para a observância do dia do Senhor concentram-se principalmente nas ações de Deus de descansar, abençoar e santificar o sábado na criação. As discussões subsequentes tratam dos vislumbres de Calvino sobre o significado do descanso no mandamento do sábado do Decálogo, o chamado a lembrar este dia e a necessidade de trabalhar durante seis dias. Finalmente, consideraremos a relevância de um descanso espiritual para o povo de Deus no Novo Testamento, juntamente com princípios gerais sobre como observar o “descanso espiritual” do sábado.
Deus Descansa, Abençoa e Santifica O Sábado na Criação
As opiniões de Calvino sobre o sábado na criação basearam-se principalmente em seu Comentário sobre Gênesis, publicado em 1554. Calvino expressa o descanso de Deus em linguagem semelhante à empregada por Lutero em 1535. Embora Deus esteja constantemente trabalhando para sustentar o mundo: “Deus cessou toda a sua obra quando desistiu da criação de novos tipos de coisas. . . [portanto], esta linguagem pretende apenas expressar a perfeição da estrutura do mundo.”92 Para compreender o tipo de descanso que Deus planejou para a humanidade, é importante ter em mente “a estrutura da instituição”; “Deus não ordenou aos homens simplesmente que celebrassem feriados todos os sete dias, como se ele se deleitasse com a indolência deles; mas antes que eles, estando livres de todos os outros assuntos, pudessem mais facilmente aplicar as suas mentes ao Criador do mundo.”93 Isto significa se tratar de “um descanso sagrado que afasta os homens dos impedimentos do mundo, para que os dedique inteiramente a Deus.”94 Assim, a natureza do descanso de Deus “não era ociosidade, mas a verdadeira perfeição, que traz consigo um estado calmo de paz. . . . Deus consagrou esse dia para que os homens pudessem empregá-lo na meditação em suas obras.”95
Concentrando-se na bênção de Deus no sétimo dia, Calvino diz: “essa bênção nada mais é do que uma consagração solene, pela qual Deus reivindica para si as meditações e ocupações dos homens no sétimo dia.”96 Embora seja tarefa da nossa vida refletir diariamente sobre o caráter de Deus, “os homens devem se mostrar menos diligentemente atentos a isso do que deveriam; cada sétimo dia foi especialmente selecionado com o propósito de suprir o que estava faltando na meditação diária.”97
Calvino é sucinto quanto à maneira pela qual Deus santificou o sábado na criação. Ele “santifica o sétimo dia, quando o torna ilustre, para que por uma lei especial possa ser distinguido dos demais descansos.”98 Seus comentários sobre a santificação, em conexão com outras passagens (Is 58:13 e Ez 20:12, 20), são muito mais extensos.99
Deus Descansa no Mandamento do Sábado do Decálogo
Discutindo o descanso sabático como descanso espiritual nas diversas edições de suas Institutas da Religião Cristã, Calvino observa que o mandamento do sábado do Decálogo repousa em três causas que não foram abolidas. Ele lista essas três causas, que permanecem relevantes para os cristãos: a necessidade de um descanso espiritual, de um dia de adoração e de um tempo de descanso para os servos. Quanto à primeira causa, Calvino afirma: “No descanso do sétimo dia, o Senhor quis dar ao povo de Israel uma figura do descanso espiritual, como os fiéis devem descansar das suas próprias obras para permitir que Deus trabalhe neles.”100
Quanto à segunda, Calvino escreveu: Deus “queria que houvesse um dia fixo em que eles pudessem se reunir para ouvir a lei e praticar suas cerimônias.”101 Terceiro, Deus “queria dar um dia de descanso aos servos e trabalhadores que estão sob o poder de outra pessoa, para que pudessem ter algum alívio do seu trabalho.”102 Embora o sábado tenha sido abolido, por estas três razões, o mandamento “não deve ser colocado entre as antigas sombras, mas é igualmente adequado para todas as eras.”103
À luz de outras passagens bíblicas, Calvino conclui: “esta figura do descanso espiritual teve o lugar principal neste preceito.”104 Sobre o assunto do descanso espiritual, Calvino tem muito a dizer. Ele explica: “Devemos buscar nosso descanso nele. Isto acontecerá então, se renunciarmos claramente aos nossos desejos perversos . . . e, se desistirmos de todas as obras impuras de nossa carne, isto é, que fazem nascer a maldade em nossa natureza por causa de nossa concupiscência. . . .”105 Continuando a mostrar o verdadeiro significado do sábado, ele diz: “Todas as obras deste tipo são servis. Deles, a lei do sábado nos ordena cessar, para que Deus habite em nós, possa efetuar o que é bom e nos governe pela liderança de seu Espírito Santo, cujo reino transmite paz e tranquilidade à consciência. Além disso, este é o verdadeiro sábado, cujo tipo e, por assim dizer, sombra, era o sábado judaico.”106 O propósito do sábado, portanto, é “para que, estando mortos para nossos próprios sentimentos e obras, meditemos e exercitemos-nos para o reino de Deus, e que possamos praticar esta meditação pelos meios que Ele ordenou.”107
Lembre-se do Dia de Sábado
O chamado para lembrar o sábado, ressalta Calvino, tem por objetivo que os crentes não se esqueçam do seu propósito. É fundamental lembrar que “o propósito principal do sábado” é o “esboço [padrão] do descanso espiritual.”108 Em seus Comentários sobre Os Quatro Últimos Livros de Moisés Organizados na Forma de Harmonia (1564), Calvino diz: “O objetivo deste Mandamento é que os crentes se exercitem na adoração a Deus; pois sabemos quão propensos os homens são a cair na indiferença, a menos que tenham alguns apoios em que se apoiar ou alguns estimulantes para despertá-los na manutenção de seu cuidado e zelo pela religião.”109
Seis Dias Você Trabalhará, mas não no Sétimo Dia
Calvino define o trabalho que não deveria ser feito no sábado, como qualquer trabalho “poderia ter sido concluído ontem ou adiado para amanhã. . . . Não era lícito cozinhar comida para os seus convidados; mas se um boi ou um burro caísse em uma cova, deveria ser retirado, porque a ajuda chegaria tarde demais no dia seguinte.110 Esta permissão para aliviar o sofrimento é a razão pela qual “Cristo declara que ‘o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado’ (Mc 2:27), uma vez que Deus não exige mais do que é útil ou necessário para manter o povo no exercício da piedade.”111
O sábado, um descanso espiritual para o povo de Deus (Hebreus 4:6, 9–10)
Em seus Comentários sobre A Epístola do Apóstolo Paulo aos Hebreus (1549), Calvino discute o sábado em conexão com um descanso que permanece para o povo de Deus. Este descanso, observa ele, está relacionado ao descanso de Deus na Criação (Hb 4:4). “O verdadeiro descanso dos fiéis, que durará para sempre, será quando eles descansarem como Deus descansou. E, sem dúvida, assim como a maior felicidade do homem é estar unido ao seu Deus, assim deveria ser o seu fim, ao qual ele deveria referir todos os seus pensamentos e ações.”112 O descanso que resta para o povo de Deus é “que haja um sábado reservado ao povo de Deus, isto é, um descanso espiritual; para o qual Deus nos convida diariamente.”113 A experiência daquele que entrou em seu descanso e cessou suas obras como Deus fez com as suas (Hb 4:10), Calvino diz: “é uma definição daquele sábado perpétuo em que há a maior felicidade, quando haverá uma semelhança entre os homens e Deus, a quem estarão unidos. Ora, esta conformação que o apóstolo nos ensina acontece quando descansamos das nossas obras.”114 O resultado será “que o homem fica feliz pela abnegação. Pois o que mais é cessar as nossas obras, senão mortificar a nossa carne, quando um homem renuncia a si mesmo para poder viver para Deus. . . . que ele deveria se abster de suas próprias obras, para dar lugar a Deus para trabalhar.”115 Este, então, é o verdadeiro descanso sabático para o povo de Deus. “Mas, por meio da corrupção inata, isto nunca acontece, até que descansemos das nossas próprias obras.”116
Descrevendo a abolição das características externas da guarda do sábado, Calvino comentou que, ao mostrar o tipo de guarda do sábado que permanece para o povo de Deus, Paulo tentou mostrar aos judeus que o verdadeiro desígnio do sábado não é o rito externo. Portanto, “ao lhes ensinar que o rito tinha uma referência a outra coisa, ele gradualmente os afasta de suas noções supersticiosas de que, descansando externamente no sábado, você será justificado e salvo”.117 Logo, “o objetivo principal do preceito não era o descanso externo ou o culto terreno,” mas “olhar para Cristo,” percebe-se “que o rito externo foi abolido pela sua vinda; pois quando o corpo aparece, as sombras imediatamente desaparecem. Então, nossa primeira tarefa é sempre ensinar que Cristo é o fim da Lei.”118
Calvino interpreta o mandamento do “descanso” como uma ordenança cerimonial: “A ordenança do descanso era uma espécie de mistério espiritual e muito mais elevado, e, portanto, este mandamento deve ser considerado cerimonial.”119 Contudo, o mandamento tem também outros objetivos, pois “Deus tomou o sétimo dia para si mesmo e o santificou, quando a criação do mundo terminou, para que ele pudesse manter seus servos totalmente livres de todos os cuidados, para a consideração da beleza, excelência e adequação de Suas obras.”120
Deus separou um dia livre de todos os cuidados para contemplar o caráter e a Criação de Deus. Isto é imperativo “visto que nossas mentes são inconstantes, e, portanto, propensas a serem esquecidas ou distraídas, Deus, em sua indulgência contra nossas enfermidades, separa um dia do resto e ordena que ele seja livre de todos os negócios e cuidados terrenos, para que nada possa impedir essa ocupação sagrada.”121
Este dia, portanto, deve ser usado para que os crentes aprendam sobre a fé. Calvino diz que assim como era importante para os antigos israelitas se reunirem e crescerem no conhecimento religioso e na fé, “temos a mesma necessidade do sábado que o povo antigo, para que um dia possamos ser livres, e, desta forma, mais bem preparados para aprender e testemunhar nossa fé.”122
Esta interpretação espiritual do sábado evidencia a relevância do Decálogo para os cristãos. Portanto, embora “o sábado foi revogado, ainda é costume entre nós reunir-nos em dias determinados para ouvir a palavra, para partir o pão místico e para orações públicas; e também para permitir aos servos e trabalhadores uma remissão do seu trabalho.”123
O Cântico para O Dia de Sábado (Salmos 92:1–4)
Em seu Comentário sobre O Livro dos Salmos (1557), Calvino menciona o Salmo 92, um cântico para o sábado, como um conselho significativo sobre a observância do dia de descanso. Ele mostra que “é bom dar graças a Jeová” no sábado.124 O dia de sábado “não deve ser santo, no sentido de ser devotado à ociosidade, como se isso pudesse ser uma adoração aceitável a Deus, mas no sentido de nos separarmos de todas as outras ocupações, para nos envolvermos na meditação nas obras divinas.”125 Os seres humanos se afastam rapidamente de Deus quando expostos a distrações. A mensagem deste salmo pretende remediar isso, diz Calvino: “Precisamos nos libertar de todos os cuidados se quisermos nos dedicar seriamente aos louvores de Deus. O salmista, então, nos ensinaria que a correta observância do sábado não consiste na ociosidade, como alguns absurdamente imaginam, mas na celebração do nome Divino.”126
Além disso, o cântico revela que o sábado é um dia para manifestar a benignidade de Deus pela manhã e a sua fidelidade à noite. O salmista quer dizer que, começando a louvar ao Senhor desde o amanhecer, devemos continuar os seus louvores até a última hora da noite, o que não é mais do que o que a sua bondade e fidelidade merecem. Se começarmos celebrando a sua bondade, devemos, em seguida, abordar o assunto da sua fidelidade.”127
Finalmente, Calvino mostra como o salmista exorta os fiéis a expressarem gratidão ao Senhor por o ter alegrado. Calvino, aqui, novamente, repete que o sábado não era “um dia de ociosidade, mas um período em que devemos reunir todas as nossas energias para meditar nas obras de Deus. Ele sugere, ao mesmo tempo, que os mais qualificados para celebrar os louvores de Deus são aqueles que reconhecem e sentem a sua bondade paternal e podem realizar este serviço com mentes dispostas e alegres.”128
O Sábado antes do Sinai
Em contraste com outros reformadores, Calvino, ao comentar sobre o sábado na história, não tem certeza quanto à observância do sábado pelos antigos patriarcas. “É questionável”, escreve ele, “se o sábado já foi observado pelos patriarcas.”129 Contudo, Calvino reconhece que o sábado foi observado pouco antes da Lei ser dada no Sinai. Comentando as instruções do Senhor para reunir o dobro das porções diárias de maná no sexto dia, para que nenhum israelita precisasse coletar no sábado (Êx 16:5), ele comenta: “Assim, o sétimo dia foi realmente santificado antes da promulgação da Lei. . . .”130
Sobre o início desta prática, diz ele: “parece ter tido sua origem em um costume bem conhecido e recebido; embora não seja credível que a observância do sábado tenha sido omitida quando Deus revelou o rito do sacrifício aos santos Pais.”131 Moisés reforçou a importância do descanso sabático ao instruir o povo a preparar comida no sexto dia para o sábado (Êx 16:23), pois “caso contrário, talvez eles teriam negligenciado, a saber, que deveriam honrar o sétimo dia com um descanso santo.”132
Calvino aponta para a seriedade de violar o sábado quando alguns israelitas saíram para coletar alimentos em violação ao mandamento expresso de Deus (Êx 16:27–29). Ele afirma: “a obrigação do sábado foi desprezada por eles; ou melhor, eles procuraram profanar o dia que Deus havia santificado, para que não fosse de forma alguma diferente dos outros dias.”133
Abolição do Sábado
Como Lutero, Calvino também foi influenciado pela compreensão da abolição do sábado pela Igreja Católica Romana como cerimonial. A seção seguinte trata dos principais argumentos de Calvino para a abolição do sábado, tais como: que o sábado é cerimonial e uma sombra; que a morte de Cristo aboliu o sábado; que os cristãos celebram um sábado perpétuo; que o sétimo dia não é mais relevante; e que um dia não é mais santo do que os demais.
Contexto da Abolição do Sábado
O contexto da posição de Calvino sobre o sábado do Decálogo é muito semelhante ao de Lutero e está relacionado à posição da Igreja Católica Romana. Ele argumenta que a parte cerimonial do mandamento que trata do sétimo dia desapareceu, mas que a parte moral de observar um dia em sete permanece. Descrevendo esta visão, Calvino escreve que os doutores católicos romanos “no passado encheram a população pobre com uma opinião judaica que não faz distinção entre domingo e sábado de forma alguma, exceto que o sétimo dia . . . foi revogado, mas, mesmo assim, um dia deve ser mantido (de acordo com a lei).”134 Ele comenta: “Isto significa que mudaram o dia para ofender os judeus, mas ainda permaneceram na superstição que São Paulo condena: a de que observar este dia tinha um significado secreto, como no Antigo Testamento.” Na discussão abaixo, veremos que Calvino concorda que alguns dos aspectos cerimoniais do mandamento do sábado foram abolidos, mas fornece uma interpretação espiritual mais profunda desses aspectos para os cristãos, ao mesmo tempo em que rejeita a ideia de que a obrigação moral do sábado exige que os cristãos adorem no domingo ou em um dia de cada sete.135
O Sábado dos Dez Mandamentos (Êx 20:8–11)
Entre os primeiros comentários de Calvino sobre o sábado do Decálogo estão os presentes na primeira edição de suas Institutas (1536). Ele afirma: “A observância do sábado está relacionada tanto à piedade quanto à adoração a Deus, uma vez que foi incluída na primeira mesa e é chamada de ‘santificação do dia’.”136 Ele indica rapidamente que o quarto mandamento foi dado aos judeus para ensiná-los a adorar a Deus, até que foi abolido com a vinda de Cristo. Ele escreveu: “Não há absolutamente nenhuma dúvida de que este preceito foi um prenúncio e se juntou aos judeus durante a era das cerimônias, a fim de lhes representar, sob observância externa, a adoração espiritual de Deus.”137
Esta interpretação do sábado não era nova. Na edição francesa das Institutas de 1541, Calvino aponta que esse entendimento originou-se na elite intelectual da igreja primitiva. “Os doutores da igreja primitiva estavam acostumados a chamá-lo de ‘obscuro’ porque contém observâncias externas do dia que, como as outras figuras [do Antigo Testamento], foram abolidas pela vinda de Cristo.”138
Cristo, “com a sua presença, faz desaparecer todas as figuras. Ele é o Corpo pelo qual as sombras são abandonadas. Ele é, digo eu, o verdadeiro cumprimento do sábado.”139
Posteriormente, Calvino explica que o sábado do Decálogo é temporário, pois representa um tipo de realidade futura. Ele indica que a Lei dada a Moisés incluía “um novo preceito relativo ao sábado”, que era “peculiar aos judeus”, mas apenas por um tempo.140 A razão da natureza temporária do sábado era que “se tratava de uma cerimônia legal que prefigurava um descanso espiritual, cuja verdade foi manifestada em Cristo.”141 Calvino afirma que quando ouvimos que a vinda de Cristo aboliu o sábado, precisamos distinguir “entre o que pertence ao governo perpétuo da vida humana e o que pertence propriamente a figuras antigas, cujo uso foi abolido quando a verdade foi cumprida.”142 Ele diz: “O descanso espiritual é a mortificação da carne, para que os filhos de Deus não vivam mais para si mesmos nem se entreguem às suas próprias inclinações.”143 Portanto, “na medida em que o sábado foi uma figura deste descanso, digo eu, foi apenas por um período; mas visto que foi ordenado aos homens desde o início que eles se envolvessem na adoração a Deus, é certo que ele continue até o fim do mundo.”144
Discutindo o mandamento do sábado à luz da natureza eterna do Decálogo, Calvino comenta: “Tudo o que foi dito sob a Lei como eterno, afirmo que se referia ao novo estado de coisas que aconteceu na vinda de Cristo.”145 Ele acrescenta: “A eternidade da Lei não deve ser estendida além da plenitude do tempo, quando a verdade de suas sombras foi manifestada e a aliança de Deus assumiu uma forma diferente . . . visto que certamente o que era peculiar à Lei não poderia continuar a existir além dos dias de Jesus Cristo.”146
Calvino se concentra principalmente no aspecto teológico do descanso sabático, mas deixa de comentar a razão pela qual Deus ordenou esse descanso à humanidade. O mandamento afirma claramente que os seres humanos devem descansar para que tenham tempo de se lembrar do seu Criador, pois “em seis dias o Senhor fez o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há.” E porque, como o Criador do mundo, ele completou esta obra de criação e descansou no sétimo dia: “o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou” (Êx 20:11). Assim como o Senhor descansou após seis dias de trabalho, tendo criado o mundo como nosso habitat, os seres humanos, também, que são criados à Sua imagem, são ordenados após seis dias de trabalho a “lembrar-se do sábado,” descansando e refletindo sobre a obra de seu Criador. É unicamente o último dia da semana da criação, o sétimo dia, que Deus abençoou e santificou, e não qualquer outro dia. Portanto, Deus designou este dia como um dia de comemoração para lembrar as atividades de Cristo como Criador, não uma sombra ou cerimônia que foi abolida e terminou com a morte de Cristo no Calvário.
O Sábado É Cerimonial E Uma Sombra (Gálatas 4:8–11; Colossenses 2:16, 17)
Já em sua primeira edição das Institutas (1538), Calvino afirma que quando Cristo veio, “que é a luz das sombras e a verdade das figuras, ele [o sábado] foi abolido, como as sombras restantes da Lei Mosaica, como Paulo claramente testifica (Gl 4:8–11; Cl 2:16–17)”.147
Comentando Colossenses 2:17, em sua edição final das Institutas (1559), Calvino menciona que Cristo é “a verdadeira substância da verdade,” significando que Cristo, como a essência da verdade, não se limita a um único dia, mas afeta toda a nossa vida até que estejamos mortos para o eu e cheios da vida de Deus.148 “Os cristãos, portanto, devem se afastar de toda observância supersticiosa dos dias.”149 O sábado “era um preceito cerimonial.”150 Paulo ensinou que o descanso sabático externo “nada mais era do que uma cerimônia, cuja substância deve ser buscada em Cristo.”151
Tal como Lutero, Calvino não faz distinção clara entre os Dez Mandamentos, falados e escritos com o próprio dedo de Deus em tábuas de pedra e colocados dentro da arca, e a Lei Mosaica, escrita por Moisés em um livro e colocada ao lado da arca.
O Sábado Foi Abolido com A Morte de Cristo (Mateus 27:51)
Em contraste com Lutero, Calvino não pensa que Cristo aboliu o sábado ao defender os discípulos dele que colhiam espigas no sábado (Mt 12:1–8). Ele explica, em seu Comentário sobre A Harmonia dos Evangelistas, Mateus, Marcos e Lucas (1553), que, embora Cristo tenha afirmado que ele é “Senhor do sábado”, ainda não havia chegado o tempo completo para sua abolição, porque o véu do templo ainda não havia se rasgado (Mt 27:51).”152 Assim, no momento da morte de Cristo, o sábado foi abolido.
Cristãos Celebram um Sábado Perpétuo (Isaías 66:23)
No seu Comentário sobre Isaías (1551), Calvino interpreta Isaías 66:23 como um argumento para a abolição do sábado literal, mostrando a distinção entre a natureza da adoração espiritual sob o reinado de Cristo e a natureza da adoração carnal sob a Lei.153 Aqui há “um contraste entre o sábado e as festas que eram celebradas sob a Lei, e o sábado perpétuo que temos hoje (Hb 4:9–10).”154 Agora, “sob o reinado de Cristo haverá uma solenidade constante e ininterrupta; pois não há dias fixos e declarados de sacrifícios nos quais devemos ir a Jerusalém, ou oferecer qualquer coisa em um lugar ou outro; mas nossas oblações, festivais e regozijos continuam dia após dia em sucessão ininterrupta.”155
Significado do Sétimo Dia para Cristãos
Calvino oferece diversas interpretações sobre a relação do sábado com o sétimo dia em suas primeiras edições das Institutas. Primeiro, ele declara: “É provável, visto que nas Escrituras este número significa perfeição, que ele tenha sido escolhido neste lugar para denotar a eternidade . . .”156 A seguir, ele diz que “poderíamos oferecer também outra conjectura provável sobre isso, que é que, com este número, o Senhor queria significar que o sábado dos fiéis nunca será perfeitamente cumprido até o último dia.”157 Isso indica que “começamos aqui, e prosseguimos diariamente, mas, porque ainda temos uma luta contínua contra a nossa carne, ela não será cumprida até que a palavra de Isaías se torne realidade, quando ele diz que no reino de Deus haverá um sábado eterno e contínuo, isto é, Deus será tudo em todos (Is 66[:23]; 1 Co 15[:28]).”158 Logo, “poderia parecer que no ‘sétimo dia’ o Senhor quisesse dar ao Seu povo uma figura da perfeição do sábado no último dia, a fim de fazê-los aspirar a esta perfeição com um zelo contínuo ao longo desta vida.”159
Calvino não percebe que Hebreus 4:9–10 não pode ser usado como argumento de que o sábado semanal, que comemora Cristo como o Criador no quarto mandamento, foi substituído por um descanso espiritual perpétuo em Cristo. Além disso, Isaías 66:23 indica que, na nova terra, o povo de Deus continuará a adorar “de um sábado a outro.” A suposição de Calvino de que isto significa “Deus será tudo em todos” não tem base no texto e não constitui argumento para a abolição do sábado semanal.
Para aqueles que preferem uma explicação “mais simples,” Calvino aponta “que o Senhor ordenou um dia em que, sob a pedagogia da lei, o povo praticasse a meditação e o exercício para o descanso espiritual que não tem fim.”160 Isto significa “que ele escolheu o sétimo dia, ou porque achou que era suficiente, ou mesmo para incitar o povo a guardar esta cerimônia, oferecendo-lhes o seu exemplo, ou melhor, para lhes mostrar que o sábado não tinha outro propósito senão torná-los semelhantes ao seu Criador.”161
A relutância de Calvino em estabelecer um dia específico da semana como dia de descanso está associada ao seu medo de trazer os cristãos de volta ao jugo da escravidão. Ele diz: “Não me fixo no número sete para sujeitar a igreja a alguma escravidão, porque não condenaria as igrejas que têm outros dias solenes para se reunirem, desde que não haja superstição; como não há nenhuma quando se considera apenas a manutenção da disciplina.”162
Na sua edição final das Institutas (1559), Calvino não vê muita importância para a Igreja aderir estritamente a um ciclo semanal de sete dias para o dia de culto. Ele diz: “Não coloco tanta ênfase no número sete, a ponto de obrigar a Igreja a uma adesão invariável a ele; nem condenarei aquelas igrejas que têm outros dias solenes para suas assembleias, desde que se mantenham distantes da superstição. E este será o caso, se forem concebidos apenas para a observância da disciplina e da ordem bem regulamentada.”163
Esta explicação do elemento temporal do mandamento do sábado deve ser vista à luz da experiência espiritual pessoal de Calvino em relação ao sábado. Assim, ele afirma que a verdade do mandamento “não se contenta com um dia, mas requer todo o curso da nossa vida até que, estando completamente mortos para nós mesmos, estejamos cheios da vida de Deus. Disto se segue que os cristãos não devem ter nada a ver com qualquer observância supersticiosa dos dias.”164 Isto revela o grande receio de Calvino de que os recém-convertidos ao protestantismo, que anteriormente eram católicos romanos, regressassem ao seu comportamento supersticioso anterior de obter justiça pelas suas obras, caso se sentissem obrigados a manter regularmente um dia de descanso semanal.
Um Dia Não É Mais Santo Que Outros Dias
Desde seus primeiros escritos, Calvino argumenta que um dia da semana não é mais sagrado do que outro. Ele explica que guardar o domingo como dia do Senhor não se deve ao fato de o domingo ser mais santo. O descanso sabático “se aplica ao Dia do Senhor que agora observamos,” enfatiza ele, e “não nos foi estabelecido santificá-lo antes de todos os outros, isto é, considerá-lo mais santo. Pois esta é prerrogativa somente de Deus, que honrou todos os dias igualmente [Rm 14:5].” O dia do Senhor “foi estabelecido para que a igreja se reúna para orações e louvores a Deus, para ouvir a Palavra e para usar os sacramentos [Gl 4:8-11; Cl 3:16]”. Ele considera que isso implica que “dedicar melhor todo o nosso esforço, com sinceridade a essas tarefas, devemos parar todo trabalho mecânico e manual, e todas as atividades que têm a ver com a conduta desta vida,” e “se bebermos essa Palavra de todo o coração (como é apropriado) e através dela mortificarmos as obras do velho homem, não apenas nos dias festivos, mas todos os dias continuamente, santificaremos o sábado; e, porque estamos aqui assim ordenados, começamos a celebrar sábado após sábado.” Resumindo, Calvin conclui: “não é pela religião que distinguimos um dia do outro, mas pelo bem da política comum. Pois temos certos dias prescritos não simplesmente para celebrar, como se Deus fosse honrado e satisfeito pela interrupção do trabalho, mas porque é necessário que a igreja se reúna em um determinado dia. . . para que todas as coisas sejam feitas segundo ordem e sem perturbação [1 Cor. 14:40].”165
Perguntaram-lhe: se não há distinção de dias, por que os cristãos não deveriam reunir-se todos os dias? Calvino, então, respondeu: “Eu realmente gostaria disso e, de fato, a sabedoria espiritual merece ter uma hora do dia dedicada a ela.” No entanto, como é improvável que a “reunião diária” possa ser alcançada “por causa da fraqueza de um número de pessoas, e o amor/caridade não permite que sejam ainda mais constrangidas, por que não seguir o raciocínio que nos foi mostrado por Deus?”166
Posteriormente, Calvino lida com pessoas que “estão provocando uma tempestade hoje por causa do domingo”. As objeções deles são que o “povo cristão” é mantido na escravidão do judaísmo “uma vez que mantém alguma observância dos dias.” Calvino responde: “Eu respondo que observamos o domingo sem o judaísmo, porque há uma grande diferença entre nós e os judeus. Pois não o observamos como um dever religioso estrito, como uma cerimônia na qual pensamos que está contido um mistério espiritual, mas o usamos como um remédio necessário para manter a boa ordem na igreja.” Eles replicaram: “São Paulo nega que os cristãos devam ser julgados quanto à observância dos dias, visto que esta é uma sombra das coisas futuras (Cl 2[:16ss]), e por essa razão ele teme que ‘ele trabalhou em vão entre os gálatas, visto que eles ainda observavam os dias’ (Gl 4[:10–11]). E, aos romanos, ele afirma que é uma superstição alguém distinguir entre um dia e outro (Rm 14[:5]).” Calvino novamente volta afirmando que esses primeiros crentes “não se abstinham do trabalho manual porque isso os impedia de se ocuparem com a meditação da palavra de Deus, mas por causa de uma devoção louca, pois imaginavam que no descanso prestavam um serviço a Deus.” Consequentemente “Paulo adverte contra esse ensino perverso, e não contra a ordenança legal estabelecida para manter a paz na companhia dos cristãos. Pois as igrejas que ele construiu guardavam o sábado dessa maneira, o que ele mostra ao designar esse dia aos coríntios para trazerem suas esmolas para a igreja (1 Co 16[:2]).” As consequências desse comportamento foram que “os cristãos abandonaram o dia observado pelos judeus (visto que isso era necessário para eliminar a superstição) e porque era necessário manter a ordem, a política e a paz na igreja, eles colocaram outro dia em seu lugar.”167
O argumento de Calvino de que um dia não é mais santo do que outros é baseado na sua compreensão de três textos: Romanos 14:5, Gálatas 4:10–11 e Colossenses 2:16–17. Nestes textos, Calvino vê a rejeição de Paulo às leis mosaicas, entre as quais se inclui o sábado dos Dez Mandamentos. Calvino não consegue compreender que em cada um destes textos Paulo aborda uma questão específica que atormentava os cristãos do Novo Testamento do primeiro século — o conflito com alguns cristãos judeus que insistiam que os cristãos gentios precisavam guardar todas as leis mosaicas do Antigo Testamento, incluindo a circuncisão, as festas da lua nova, os dias festivos cerimoniais ligados aos serviços do santuário, e as práticas especiais de comida e bebida ligadas a estas festas, a fim de serem salvos.
Nas congregações que Paulo estabeleceu, o apóstolo condena fortemente os judaizantes que se infiltraram nessas igrejas e desejavam, antes que pudessem experimentar a salvação, transformar esses gentios em judeus. Contudo, nas igrejas estabelecidas que Paulo não fundou nem visitou, seu tom é diferente. Ao escrever aos cristãos em Roma, ele apela à tolerância entre as facções em conflito. Se houver cristãos judeus que ainda queiram continuar a observar estas leis cerimoniais do Antigo Testamento, poderiam, mas não deveriam, de forma alguma, julgar os crentes que não observam os dias de festa cerimoniais ou se abstêm de alimentos oferecidos aos ídolos. Paulo, aqui, apela à tolerância nessas práticas (Rm 14:2-6) porque estas questões não são de salvação, mas dizem respeito a “disputas duvidosas” (Rm 14:1). Não obstante, Paulo não tolera cristãos judeus que tentam obrigar os cristãos gentios a adotar práticas cerimoniais judaicas, pois estas foram abolidas pela morte de Cristo na cruz.
Por não compreender esta grande controvérsia que afetou as igrejas do Novo Testamento, Calvino incluiu erroneamente os Dez Mandamentos, incluindo o sábado do sétimo dia, entre as coisas abolidas para os cristãos gentios. Quando Calvino concluiu, a partir do seu estudo da Bíblia, que um dia não é mais santo do que outro, ele ignorou o próprio mandamento do sábado, que afirma que o Senhor Deus abençoou o sábado do sétimo dia e o santificou (Êx 20:11). É surpreendente que nenhum outro dia nas Escrituras tenha sido abençoado e santificado (ou santificado), exceto o sétimo dia.
Calvino, como os outros grandes reformadores, chamava o domingo de “dia do Senhor” porque se presumia que João, o Revelador, recebeu sua visão no primeiro dia da semana, o dia em que Cristo ressuscitou (Ap 1:10). No entanto, se seguirmos estritamente o princípio de interpretação Sola Scriptura e nos limitarmos apenas à Bíblia, veremos que o Senhor chama o sábado de “meu santo dia” (Is 58:13) e que Cristo é “Senhor também do sábado” (Mc 2:28), o que mostra que o sábado do sétimo dia é o dia do Senhor, e não o domingo, o primeiro dia da semana. A primeira menção extrabíblica do “dia do Senhor” ao domingo como observância semanal parece estar nos apócrifos Atos de Pedro, escritos no final do segundo século.168 Só por volta de 325 E.C. é que o domingo, como observância semanal, passou a ser oficialmente conhecido por esse nome no corpo católico de cristãos, quando Silvestre, o bispo de Roma, declarou que o dia do Sol era “o dia do Senhor.” Os reformadores protestantes e os seus sucessores adotaram esta tradição católica como parte do seu sistema de crenças sem questioná-la.
Mudança do Sábado
Ao lidar com o entendimento de Calvino sobre a mudança do sábado, será dada atenção às perspectivas do Reformador a respeito de quem mudou o dia de descanso, por que o domingo foi escolhido, como a observância do domingo difere da guarda do sábado e por que o mandamento do sábado não está mais ligado a um dia específico.
Os Apóstolos ou Antigos Mudaram O Sábado para O Domingo
Calvino assume que a mudança do dia de adoração do sábado para o domingo ocorreu na comunidade primitiva do Novo Testamento. No início, os apóstolos guardavam o sábado porque já estavam acostumados a ele, mas, posteriormente, mudaram. Na época em que Paulo escreveu sua primeira carta à igreja em Corinto, Calvino indica, em seu Comentário sobre As Epístolas do Apóstolo Paulo aos Coríntios (1546), que os crentes ainda guardavam o sábado porque a coleta para os santos em Jerusalém ocorria naquele dia (1Co 16:1). Ele comenta: “A cláusula traduzida em um dos sábados (kata mian sabbatōn) — Crisóstomo explica que significa o primeiro sábado. Nisto não concordo com ele; pois Paulo quer dizer em vez disso que eles deveriam contribuir, em uma sábado ou outro, ou todos os sábados, se assim o desejarem.”169 Ele explica que Paulo “está de olho, antes de tudo, na conveniência, e, além disso, que a sagrada assembleia, na qual a comunhão dos santos é celebrada, possa ser um estímulo adicional para eles.”170
Calvino contesta a visão de Crisóstomo de que “o termo sábado é empregado aqui para significar o dia do Senhor (Ap 1:10), pois a probabilidade é que os apóstolos, no início, retiveram o dia que já estava em uso, mas que depois, constrangidos pela superstição dos judeus, reservaram esse dia e o substituíram por outro.”171
Calvino infere de 1 Coríntios 16:2 sobre a natureza regular da guarda do sábado naquela época, que “os crentes tiveram um certo dia de descanso do trabalho — não como se a adoração a Deus consistisse em ociosidade, mas porque é importante para a harmonia comum, que um determinado dia, [o primeiro dia] seja designado para a realização de assembleias sagradas, já que elas não podem ser realizadas todos os dias.”172
Em sua edição final das Institutas (1559), Calvino atribui aos antigos a mudança do dia de culto. Ele ressalta que “os antigos . . . substituíram o sábado pelo que chamamos de ‘dia do Senhor’.”173 Muito provavelmente, aqui ele equipara os apóstolos aos antigos.
A interpretação de Calvino de 1 Coríntios 16:2 não pode ser sustentada por uma exegese sólida. Sua conclusão, a partir da instrução de Paulo de que cada crente reservasse no primeiro dia de cada semana uma oferta para ser recolhida em algum momento futuro, de que os apóstolos mudaram o dia semanal de adoração do sábado para o domingo, lê no texto um cenário histórico para uma mudança de dia que não existe.
Por Que O Domingo Foi Escolhido?
Uma razão para a mudança do dia de adoração está relacionada à importância do dia da ressurreição de Cristo. Ao responder à pergunta: “Por que foi escolhido o dia do Senhor?” Calvino, presumindo que este dia seja domingo, responde: “Agora, o dia do Senhor foi escolhido, principalmente porque a ressurreição de nosso Senhor pôs fim às sombras da lei. Portanto, o próprio dia nos lembra de nossa liberdade cristã.”174 Além disso, Calvino assume que um fator importante para reservar o sábado ao dia do Senhor foi a “superstição dos judeus a respeito do sábado.”175 Entre os judeus, a guarda do sábado passou a fazer parte de um sistema de justiça pelas obras, revelando a crença supersticiosa deles de que, ao não guardar o sábado, as pessoas perderiam a salvação. Para neutralizar esta atitude supersticiosa que afetou os primeiros cristãos, os apóstolos, intencionalmente, mudaram o dia semanal de adoração do sábado para o domingo.176
A Observância do Domingo Difere da Observância do Sábado
Em resposta à pergunta: “Por que não nos reunimos todos os dias para que todas as distinções entre os dias sejam removidas?” Calvin tem uma resposta positiva. Em harmonia com o seu entendimento de que a Bíblia ensina que não há dias santos específicos no Novo Testamento, ele observa: “Desejo sinceramente que isso seja praticado; e a verdadeira sabedoria espiritual seria digna de que alguma parte do tempo fosse diariamente dedicada a ela.”177 Todavia, ele admite que, para muitos, esta não era uma opção. Logo, “se a enfermidade de muitas pessoas não permite reuniões diárias, e a caridade não nos permite exigir mais delas, por que não deveríamos obedecer à regra que nos impusemos pela vontade de Deus?”178 Isto implica que eles deveriam continuar a tradição quase universal entre os cristãos de se reunirem no domingo.
Calvino não vê muita importância em aderir estritamente a um ciclo semanal de sete dias para o dia de adoração. Este dia pode chegar em seis, sete ou oito dias. Ele diz que as igrejas poderiam escolher outros dias para seus cultos, desde que observem a disciplina e a ordem e evitem ser supersticiosas quanto à necessidade de manter um dia específico.179
Calvino nega veementemente as afirmações de alguns de que, ao guardarem o dia do Senhor, os cristãos são afetados pelo judaísmo, pois continuam a observar dias específicos. Ele responde que a observância do dia do Senhor é bem diferente da forma como os judeus celebravam o sábado. “Não a celebramos com rigor escrupuloso, como uma cerimônia que concebemos ser uma figura de algum mistério espiritual, mas apenas a utilizamos como um remédio necessário à preservação da ordem na Igreja.”180
Outros argumentaram que Paulo ensina que os cristãos não devem ser julgados pela observância dos dias santos, pois são uma sombra de algo futuro (Cl 2:16–17). Além disso, Paulo “teme” que tenha trabalhado em vão, pois eles continuaram a “guardar dias” (Gl 4:10–11). Em Romanos, ele considera fraco na fé aquele que “certos dias são mais importantes do que os demais” (Rm 14:5). Calvino acredita que Paulo usou esses argumentos contra os crentes judaizantes que “não os observavam [dias] por causa da ordem política e eclesiástica; mas quando os retiveram como sombras das coisas espirituais, foram até agora culpados de obscurecer a glória de Cristo e a luz do evangelho.”181 O problema deles era tentar obter a salvação pelas obras, o que significa que eles não “descansavam dos seus trabalhos manuais, como de empregos que os desviariam dos estudos e meditações sagradas; mas de um princípio de superstição, imaginando que a sua cessação do trabalho ainda era uma expressão de reverência sobre ou pelos mistérios anteriormente representados por ele.”182 Ele continua: “Esta distinção absurda de dias à qual o apóstolo se opõe vigorosamente, não aquela diferença legítima que promove a paz da Igreja Cristã.”183 Foi este princípio de superstição que Paulo quis erradicar. Sob esta luz, “havia mais perigo nos dias santos dos judeus do que nos dias do Senhor agora observados pelos cristãos.”184
Calvino conclui: “Agora, embora fosse conveniente para a destruição da superstição, [que] o dia que os judeus santificavam fosse abolido, e sendo necessário para a preservação do decoro, da ordem e da paz, na Igreja Cristã, outro dia foi designado para o mesmo uso.”185 Este dia indicado é o domingo.
O Mandamento do Sábado Não Está mais Vinculado a Nenhum Dia Específico
Calvino afirma que no que diz respeito ao dia específico, “o sábado foi revogado, mas ainda é costume entre nós reunir-nos em dias determinados para ouvir a palavra, para partir o pão místico e para orações públicas; e também para permitir aos servos e trabalhadores uma remissão do seu trabalho.”186
Zuínglio e O Sábado
Devido à vida muito mais curta de Zuínglio do que a de Lutero ou Calvino — por ter morrido no campo de batalha, como capelão do exército da cidade de Zurique —, sua produção literária é menor, incluindo seus escritos sobre o sábado. Os seguintes pensamentos sobre a abolição e mudança do sábado são semelhantes aos de Lutero, seu contemporâneo.
Abolição do Sábado
Zuínglio enfatiza que o sábado foi feito para as nossas necessidades, conforme ditam as nossas necessidades. Ele diz: “O sábado está no poder do homem, e não o homem no poder do sábado. Em uma palavra, o sábado e todos os tempos estão sujeitos ao homem, e não o homem ao sábado.”187 Além disso, ele observa “que não é a intenção de Cristo que o homem não guarde o sábado (para nós, cristãos, o domingo é ordenado como o sábado), mas onde nosso uso ou necessidade requer algo mais, o próprio sábado, não apenas outras ocasiões estarão sujeitas a nós.”188 Isto significa que o sábado não está sujeito apenas a nós em caso de “extrema necessidade,” mas também em “necessidade diária comum.”189
Mudança do Sábado
Expressando um sentimento semelhante ao de Lutero, Zuínglio não considera o sétimo dia mais sagrado do que os demais dias da semana. Ele comenta: “O sábado não é, de forma alguma, melhor ou mais santo do que os outros dias, quando considerado isoladamente. Só é santificado quando somos mais santos nesse dia.”190 Ele acrescenta: “Pois Deus não santificou aquele dia para que ele pudesse nos agradar com festividades ou lazer, mas, pelo contrário, para que pudéssemos ser libertos do trabalho árduo diário e possamos considerar as boas ações de Deus com gratidão, ouvir sua lei e Palavra, louvá-lo, servi-lo e, finalmente, cuidar do próximo.”191
A atitude de Zuínglio em relação ao trabalho comum no sábado é que é “lícito no dia do Senhor, após o serviço divino, que qualquer homem prossiga com seus trabalhos.”192 Ele pensa que até igrejas individuais poderiam mudar este dia para qualquer outro dia, se as circunstâncias exigirem. Ele diz: “É lícito e permitido a cada igreja, quando a necessidade exige (como costuma ser feito na época da colheita), transferir a solenidade e o descanso do dia do Senhor, ou sábado, para algum outro dia.”193
Conclusão
Crescendo na Igreja Católica Romana, os reformadores carregaram conceitos errôneos com eles pelo resto de suas vidas, apesar do grande progresso que fizeram na busca por reformar e purificar a igreja de tradições antibíblicas sobre o sábado.
Uma dessas tradições que não foi corrigida foi a de que o sábado do sétimo dia do Decálogo era judaico. Eles acreditavam erroneamente que os Dez Mandamentos faziam parte da Lei Mosaica. Os textos bíblicos que a maioria dos reformadores usou para a abolição do sábado do sétimo dia foram Romanos 14:5, Efésios 4:10–11 e Colossenses 2:16–17. A exigência de descansar no sétimo dia, como parte do mandamento do sábado, era vista como cerimonial, e eles o espiritualizaram. Embora o tempo de descanso físico fosse considerado cerimonial, continuou a haver um tempo de descanso espiritual para os cristãos. Um reformador, Karlstadt, percebeu com mais clareza do que qualquer outro a importância contínua do descanso sabático nas práticas de adoração cristã. No entanto, ele não estava disposto a exortar os cristãos a rejeitarem o domingo como dia de adoração e a voltarem a adorar no sábado, como o dia bíblico de adoração, embora pareça ter guardado o sábado bíblico em particular.
A maioria dos reformadores concordou que a mudança da observância do sábado do sétimo dia para o domingo, o primeiro dia da semana, ocorreu na igreja primitiva. Mas não houve unanimidade quanto a quando, precisamente, esta mudança ocorreu. Alguns sustentavam que Cristo iniciou a mudança, enquanto outros sugeriram que ela foi feita pelos apóstolos, ou por líderes posteriores da igreja. Diversas razões estão por trás da escolha do domingo como dia de adoração semanal pelos reformadores magisteriais: (1) era o tradicional dia de descanso; (2) era o dia da semana mais conveniente para a adoração; e (3) era conhecido pelos cristãos como o dia do Senhor, em comemoração à ressurreição de Cristo. No entanto, tendo em conta que não há ordem bíblica para que o domingo fosse o dia de adoração dos cristãos e que os reformadores acreditavam que nenhum dia é mais santo do que outro, pelo menos teoricamente, os cristãos poderiam adotar qualquer dia para a adoração.
Os reformadores, no entanto, tiveram sucesso em dissipar a ideia católica de que o domingo era o dia de culto para os cristãos, instituído por nomeação divina no lugar do sábado, e de que a santidade do domingo era ordenada pelo Decálogo para os cristãos. Os reformadores estavam convencidos de que o domingo era uma instituição humana. Eles apoiaram a ideia de um dia de culto semanal, mas o dia específico ficou a cargo dos magistrados e da igreja. Na opinião deles, poderia ser qualquer dia porque todos os dias eram iguais. O domingo, porém, continuou sendo o dia escolhido, já que adorar naquele dia era a prática geralmente aceita.
Um avanço importante dos reformadores magisteriais foi a libertação do culto dominical da visão católica de que era obrigatório, como parte integrante da obtenção da graça e da justiça necessárias à salvação. Os reformadores rejeitaram fortemente a ideia de que a justiça pudesse ser obtida por meio da adoração no domingo e da abstenção de todo trabalho em conformidade com os Dez Mandamentos. Eles viram muitas semelhanças com a atitude judaica em relação ao sábado. Visto que a lei divina não exigia a adoração dominical e que a justiça só é obtida pela fé na justiça de Deus e de Seu Filho, não há nenhuma virtude especial a ser conquistada pela adoração no domingo, “o dia do Senhor”, como o chamavam.
Os reformadores tentaram libertar a guarda do sábado dos Dez Mandamentos do estigma da justiça pelas obras, como nas tradições judaica e católica, ensinando que o sábado, o sétimo dia, foi abolido e que os cristãos podem celebrar qualquer dia da semana como dia de descanso. No entanto, ignoraram o importante ensino bíblico de que a obediência à lei de Deus, com a observância do sábado do sétimo dia, é um memorial da criação e da redenção. Guardar o sábado é o resultado do nosso relacionamento com Deus, da nossa gratidão por Cristo como nosso Criador e Redentor, e da Sua dádiva de salvação ao pecador arrependido — e não o meio pelo qual o pecador alcança a salvação.
Um último ponto: os reformadores promoveram o propósito e a maneira adequados de observar o dia de adoração à luz das Escrituras. Eles podem não ter percebido a necessidade de voltar à observância do sábado do sétimo dia, mas, em seu estudo minucioso da Bíblia, fizeram grandes avanços na descoberta de como santificar o sábado dominical. Em vez de seguir as tradições católicas da Idade Média que centravam o domingo como um dia de ociosidade, abstendo-se de qualquer tipo de trabalho e frequentando a igreja e a missa, os reformadores viam-no como um dia particularmente adequado para refletir sobre Deus e se aproximar de Cristo. Muito pouco foi escrito sobre o dia correto de adoração. Exceto por algumas discussões que Lutero teve com os sabatistas, os escritos dos reformadores focaram-se em como se aproximar de Deus por meio da fé, e não por meio de obras pessoais. O dia de adoração era aquele em que os crentes deveriam se reunir, louvar o nome de Deus, ouvir a proclamação das Escrituras, estudar sua Palavra, descobrir como Deus poderia trabalhar em seus corações, esvaziando-se de suas próprias obras e deixando Deus no controle de suas vidas, e como poderiam ministrar ao próximo. Esta experiência fez parte do importante processo de santificação para que o mundo visse que a adoração ao divino Salvador era o sinal de que o Senhor santifica e regenera os crentes. Esta foi, de fato, uma grande contribuição dos reformadores magisteriais à Reforma Protestante. Infelizmente, esta dimensão das suas reformas, com as bênçãos resultantes, não foi valorizada pelos seus seguidores nos séculos seguintes e foi, em grande parte, perdida.
Notas
1 Peter Heylyn, History of the Sabbath, 2 vols. (London, 1636; repr. New York: De Capo Press, 1969), 2.6.3.
2 Martinho Lutero, First Lectures on the Psalms (1513–1515), em Luther’s Works, ee. Jaroslav Pelikan e Helmut T. Lehmann (St. Louis: Concordia, 1958), 10:437. Doravante, as Luther’s Works [Obras de Lutero] serão abreviadas como LW.
3 Lutero, Good Works (1520), LW 44:71.
4 Ibid., 44:72.
5 Lutero, Good Works, 44:72.
6 Ibid.
7 Ibid., 44:73.
8 Ibid., 44:77.
9 Ibid.
10 Ibid.
11 Ibid., 44:77–78.
12 Lutero, Commentary on Psalm 68 (1521), LW 13:25.
13 Lutero, The Gospel for Christmas Eve, Luke 2 [:1–14] (1522), LW 52:23.
14 Lutero, Good Works, LW 44:78.
15 Lutero, Good Works, LW 44:54. A nota de rodapé deste texto diz: “Lutero usa o termo feyrtag (em alemão moderno, Feiertag) aqui e em seus catecismos. Significa não apenas dia santo, mas também conotações de feriado, descanso e festividade. Ao não usar a palavra sábado, Lutero mostra que, para um cristão, o sábado, bastante restritivo e legalista, foi substituído pelo domingo, mais alegre e festivo.”
16 Ibid.
17 Ibid., 44:54–55.
18 Lutero, “The Gospel for the Festival of the Epiphany, Matthew 2[:1–12]” (1522), LW 52:246.
19 Lutero, Personal Prayer Book (1522), LW 43:15.
20 Martinho Lutero, The Small Catechism (1529), em Triglot Condordia: The Symbolic Books of the Evangelical Lutheran Church, trad. F. Bente e W. H. T. Dau (St. Louis, MO: Concordia, 1921), p. 541 (doravante Concórdia).
21 Ibid.
22 Lutero, Genesis (1535–1536), LW 1:79.
23 Lutero, Genesis (1535–1536), LW 1:79.
24 Ibid., 1:80.
25 Ibid., 1:81.
26 Ibid., 1:94.
27 Lutero, “Against the Sabbatarians: A Letter to a Good Friend” (1538), LW 47:92.
28 Ibid.
29 Ibid.
30 Ibid.
31 Ibid.
32 Lutero, Genesis, LW 1:79. Adão também estaria envolvido na “caça” (ibid., 1:82).
33 Ibid., 1:80. Adão não passava o sábado na ociosidade (ibid., 1:82).
34 Ibid., 1:80.
35 Lutero, Genesis, LW 1:79–80.
36 Lutero, Genesis, LW 1:80.
37 Ibid., 1:81–82.
38 Ibid., 5:20.
39 Ibid., 6:264.
40 Ibid., 1:80.
41 Ibid., 6:177.
42 Ibid., 2:129–130.
43 Ibid., LW 8:67.
44 Von dem Sabbat und gebotten feyertagen [Sobre O Sábado e As Ordenanças dos Dias Festivos] foi publicado pela primeira vez em 1524. Edições do tratado foram publicadas em Jena, Augsburg, Estrasburgo e Constança, enquanto três reimpressões eram conhecidas: Andreas Carlstadt, The Essential Carlstadt: Fifteen tracts by Andreas Bodenstein (Carlstadt) from Karlstadt (1524), trad. e e. EJ Furcha (Waterloo, Ontário: Herald Press, 1995), p. 317.
45 Lutero, Table Talk, LW 54:51, nº 172.
46 Karlstadt, “Regarding the Sabbath and Statutory Holy Days,” em Essential Carlstadt, p. 321.
47 Ibid., pp. 320–324.
48 Ibid., pp. 324–327.
49 Lutero, Heavenly Prophets, LW 40:93.
50 Ibid.
51 Ibid. Ver, também, Lutero, Moses, LW 35:165.
52 Lutero, Heavenly Prophets, LW 40:93. Já em 1520, ele comentou sobre Isaías 66:23, afirmando que, em vez de dizer “um dia santo seguirá outro”, podemos dizer: “todos os dias são dias de trabalho” (Lutero, Good Works, LW 44:72).
53 Lutero, Heavenly Prophets, LW 40:93–94.
54 Ibid., 40:94.
55 Como Craig S. Keener, Galatians: A Commentary (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2019), p. 361 nº 1368, observa, a linguagem de Paulo é suficiente para abranger as observâncias religiosas judaicas e gentias.
56 Lutero, Heavenly Prophets, LW 40:97. Já em 1522, Lutero usou a frase “O Filho do Homem é Senhor até do sábado” (Mateus 12:8) para mostrar que “Cristo falou isso porque seus discípulos tinham o poder de violar o sábado” (Lutero, Receiving Bothe Kinds in the Sacrament [1522], LW 36:240). Como os discípulos de Cristo são filhos de Deus, logo “todo cristão também é senhor do sábado e, sim, de todos os mandamentos, ensinamentos e ordenanças humanos” (ibid.). Isto significa que “afirmamos e continuaremos a afirmar que somos senhores de todos os ensinamentos e mandamentos papais e humanos; cabe a nós determinar se iremos segui-los ou não” (ibid.).
57 Lutero, Heavenly Prophets, LW 40:97.
58 Luther, “The Third Commandment” (22 de outubro de 1525), em Sermons on the 2nd Book of Moses, cap. 20, em Martin Luthers Werke, Kritische Gesamtausgabe, Weimar, 16:478, trad. Denis Kaiser (doravante abreviado WA).
59 Lutero, Lectures on Isaiah, LW 17:293.
60 Lutero, Sabbatarians, LW 47:93.
61 Lutero, Moses, LW 35:165.
62 Ibid.
63 Ibid. Já em 1523, Lutero argumentou que os cristãos do Novo Testamento viviam em harmonia com a lei natural: “… visto que Moisés de modo algum nos pertence em todas as suas leis, mas apenas aos judeus, exceto quando ele concorda com a lei natural, que, como Paulo ensina, está escrita nos corações dos gentios (Rm 2:15)” (Lectures on Deuteronomy [1523], LW 9:81). Isto significa que “tudo o que não estiver escrito ali, devemos incluir entre as cerimônias que eram necessárias para o povo de Moisés, mas gratuitas para nós, como também é o sábado” (ibid., 9:81–82).
64 Lutero, Moses, LW 35:165.
65 Lutero, “On the Observance of the Sabbath,” Table Talk, LW 54:52. Lutero acrescenta: “Pois os próprios judeus devem tirar o dia designado de nós, cristãos. Não é nada além de desprezo e inveja. Além disso, ainda não foi estabelecido se Cristo morreu numa sexta-feira ou num sábado. Pomerano escreveu melhor sobre este assunto, mas não pode ser resolvido ou demonstrado” (ibid.). Estas colocações não foram escritas por Lutero, mas sim transcrições de conversas com ele feitas por alguns de seus amigos íntimos.
66 Sobre a reforma do calendário do Papa Gregório XIII de 1582, na qual quinta-feira, 4 de outubro, foi seguida de sexta-feira, 15 de outubro, uma mudança de data sem qualquer interrupção do ciclo semanal, ver “Calendário Gregoriano,” ODCC, pp. 705.
67 Lutero, Galatians (1535), LW 27:55.
68 Ibid.
69 Ibid.
70 Ibid.
71 Lutero, Genesis, LW 2:362.
72 Lutero, “Sermons on the Gospel of St. John” (1537), LW 22:223.
73 Ibid.
74 Ibid.
75 Ibid.
76 Ibid.
77 Ibid., 22:224.
78 Lutero, Good Works, LW 44:71.
79 Ibid., 44:72.
80 Lutero, “The Third Commandment” (1525), WA 16:478. Ver, também, William M. Landeen, Martin Luther’s Religious Thought (Mountain View, CA: Pacific Press, 1971), p. 196.
81 Lutero, “The Third Commandment” (1525), WA 16:478. Ver Landeen, Martin Luther’s Religious Thought, p. 196.
82 Lutero, “The Third Commandment” (1525), WA 16:478.
83 Lutero, Catecismo Maior (Concórdia, p. 605).
84 Lutero, Catecismo Maior (Concórdia, p. 605).
85 Lutero, Galatians (1535), LW 26:411.
86 Ibid.
87 Lutero, Genesis (1536-1537), 2:361.
88 Ibid., 2:362.
89 Lutero, Genesis (1538–1539), LW 3:77.
90 Lutero, “Table Talk Recorded by Anthony Lauterbach and Jerome Weller” (1537), LW 54:239.
91 Lutero, Genesis (1544–1545), LW 7:152. Ibid., nº 13, o editor escreveu: “Um dos líderes da facção sabatista ou ‘judaizante’ dos anabatistas na Áustria foi Andrew Fischer, que morreu por volta de 1540.”
92 João Calvino, Commentaries on the First Book of Moses Called Genesis (1554) em Calvin Commentaries (22 vols.), trad. John King (Edinburgh: Calvin Translation Society, 1844–1856; reimpr. Grand Rapids: Baker, 2005), 1:104 (doravante, a edição da Calvin Translation Society de Calvin Commentaries abrevia-se como CTS).
93 Calvino, Genesis, 1:106.
94 Ibid.
95 Calvino, Commentary on the Gospel According to John, vol. 1 (1553), trad. William Pringle, CTS 17:196.
96 Calvino, Genesis, 1:105.
97 Ibid., 1:106.
98 Ibid.
99 João Calvino, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, vol. 4, trad. William Pringle, CTS 8:177–183, 241–242; Calvino, Commentaries on the First Twenty Chapters of the Book of Ezekiel, vol. 2 (1565), trad. Thomas Myers, CTS 12:301–312.
100 João Calvino, Institutes of the Christian Religion, 1541, edição francesa, trad. Elsie Anne McKee (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2009), p. 141; Calvino, Institutes of the Christian Religion (1559), 2 vols., trad. John Allen, Seventh American Edition (Philadelphia: Presbyterian Board of Christian Education, 1936), 2.8.28 (1:426). Doravante, a tradução das Institutas de 1559 será abreviada como JA.
101 Ibid.
102 Calvino, Institutas (1541), p. 141.
103 Ibid., p. 143.
104 Ibid., p. 141.
105 Calvino, Institutes of the Christian Religion (1536), trad. Ford L. Battles (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1995), p. 23.
106 Ibid.
107 Calvino, Institutas (1541), p. 140.
108 Calvino, Institutas (1559), 2.8.29 (JA 1:426).
109 Calvino, Moisés, 2:433.
110 Calvino, Moisés, 2:438.
111 Ibid.
112 João Calvino, Commentaries on the Epistle of Paul the Apostle to the Hebrews (1549), trad. John Owen, CTS, 22:96.
113 Ibid., 22:98.
114 Calvino, Comentários sobre a Epístola de Paulo (1549).
115 Ibid.
116 Calvino, Comentários sobre a Epístola de Paulo (1549).
117 Calvino, Comentários sobre a Epístola de Paulo (1549), 22:99.
118 Ibid.
119 Calvino, Moisés, 2:437.
120 Ibid.
121 Ibid.
122 Ibid.
123 Calvino, Institutas, 2.8.32 (JA 1:429). Ver Calvino, Moisés, 2:437.
124 João Calvino, Commentary on the Book of Psalms (1557), vol. 3, trad. James Anderson, CTS, 5:493.
125 Ibid.
126 Ibid.
127 Ibid., 5:494.
128 Ibid., 5:496.
129 Calvino, Moisés, 2:271.
130 Calvino, Moisés, 2:271.
131 Ibid., 2:440. A tradução de “Pais” foi adotada da versão francesa.
132 Ibid., 2:282.
133 Ibid.
134 Calvino, Institutas (1541), p. 145. Ver, também, Institutas (1536), p. 24; Institutas, 2.8.34 (JA 1.432).
135 Calvino, Institutas (1541), p. 145.
136 Calvino, Institutas (1536), p. 23.
137 Ibid.
138 Calvino, Institutas (1541), pp. 140–141.
139 Ibid., p. 143.
140 Calvino, Genesis, 1:106.
141 Ibid.
142 Calvino, Genesis, 1:107.
143 Ibid.
144 Ibid.
145 Calvino, Moisés, 2:443–444.
146 Ibid.
147 Calvino, Institutas (1536), p. 23.
148 Calvino, Institutas, 2.8.31 (JA 1:429).
149 Ibid.
150 Calvino, Moisés, 2:435.
151 Ibid.
152 Calvino, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Matthew, Mark, and Luke, CTS 16:51.
153 Calvino, Comentário sobre Isaías (1551), CTS 8:438.
154 Calvino, Comentário sobre Isaías (1551), CTS 8:439.
155 Ibid., 8:438a.
156 Calvino, Institutas (1541), p. 142.
157 Ibid.
158 Ibid.
159 Ibid.
160 Calvino, Institutas (1541), p. 142.
161 Calvino, Institutas (1541).
162 Ibid., p. 144.
163 Calvino, Institutas, 2.8.34 (JA 1.431).
164 Calvino, Institutas (1541), p. 143.
165 Calvino, Institutas (1536), p. 24.
166 Calvino, Institutas (1541), pp. 143–144.
167 Calvino, Institutas (1541), p. 144.
168 Para uma discussão de referências posteriores ao “dia do Senhor”, ver Kenneth A. Strand, “The ‘Lord’s Day’ in the Second Century,” em The Sabbath in Scripture and History, e. Kenneth A. Strand (Washington, DC: Review and Herald, 1982), pp. 346–351. Sobre a datação de Atos de Pedro, ver New Testament Apocrypha, e. Wilhelm Schneemelcher, trad. R. McL. Wilson, 2 vols. (Louisville, KY: Westminster John Knox, 2003), 2:275, 283.
169 João Calvino, Commentary on the Epistles of Paul the Apostle to the Corinthians, vol. 2 (1546), trad. John Pringle, CTS 20:68.
170 Ibid.
171 Ibid.
172 Ibid., 20:68–69.
173 Calvino, Institutas, 2.8.34 (JA 1:431).
174 Calvino, Coríntios, CTS 20:68.
175 Calvino, Coríntios, CTS 20:68.
176 Ibid.
177 Calvino, Institutas, 2.8.32 (JA 1:430).
178 Ibid.
179 Calvino, Institutas, 2.8.34 (JA 1:431).
180 Ibid., 2.8.32 (JA 1:430).
181 Calvino, Institutas,2.8.33 (JA 1:430–431).
182 Ibid.
183 Ibid.
184 Ibid.
185 Ibid.
186 Ibid., 2.8.32 (JA 1:429).
187 Ulrico Zuínglio, “Liberty Respecting Food in Lent,” A Sermon, 16 de abril de 1522 em The Latin Works and the Correspondence of Huldreich Zwingli Together with the Selection from His German Works, e. Samuel M. Jackson, trad. Henry Preble (New York: Knickerbocker Press, 1912), 1:81.
188 Ulrico Zuínglio, Obras Latinas, 1:82–83.
189 Ibid., 1:83.
190 Ulrico Zuínglio, H. Zwinglis Såmliche Werke, 13.16, e. E. Egli et al., Corpus Reformatorum (Berlin, 1905; Leipzig, 1908/1939; Zurich, 1955), citado em Daniel Augsburger, “Calvin and the Mosaic Law” (D.Sc.R. thesis, University of Strasbourg, 1976), p. 255.
191 Ibid.
192 Robert Cox, Sabbath Laws and Sabbath Duties Considered in Relation to Their Natural and Scriptural Grounds, and to the Principles of Religious Liberty (Edinburgh: Maclachlan and Stewart, 1853), p. 287.
193 Zuínglio, citado em James A. Hessey, Sunday, Its Origin, History, and Present Obligation, Considered in the Bampton Lectures (London: John Murray, 1866), p. 352.
