Messianismo e Messias Judeus no Período do Novo Testamento

Messianismo e Messias Judeus no Período do Novo Testamento


Tradução: Hugo Martins

O artigo “Messianismo e Messias Judeus no Período do Novo Testamento” (Original em Inglês: “Messianism and Jewish Messiahs in the New Testament Period”), por Trevan Hatch, fora publicado, inicialmente, em New Testament History, Culture, and Society: A Background to the Texts of the New Testament. Usado com permissão.


Os termos Messias e Cristo são amplamente utilizados hoje em dia, e são empregados quase exclusivamente pelos cristãos em referência a Jesus. Cristãos modernos associam ideias, implicações e expectativas esdrúxulas com esses títulos. Messias, ou mashiach em hebraico, é sinônimo de Cristo, ou christós em grego, significando aquele que é ungido (com óleo). No entanto, quais foram as implicações e os significados mais profundos daqueles termos no dia de Jesus? Como interpretavam os judeus nos primeiros séculos da A.E.C. e da E.C. as passagens sobre um messias, e quais eram suas expectativas quanto a um messias futuro? Quando alguns dos seguidores de Jesus o viram com o Messias, o que eles esperavam inicialmente que ele realizasse? Foram quaisquer outros personagens além de Jesus durante o período do Novo Testamento considerados o Messias pelos seus seguidores? Este artigo abordará essas questões com o objetivo principal de compreender o amplo contexto messiânico do período do Novo Testamento, e situar Jesus nele.

Origens do Messias

No primeiro século, os seguidores de Jesus se referiam a ele como o Messias, Filho de Deus,” Filho de Davi, e Filho do Homem; os seus juízes também se referiam a ele zombeteiramente como o Rei dos Judeus.”1 Os cristãos normalmente veem esses termos como se referindo a um ser divino que veio em forma humana para trazer a salvação à humanidade. Quando e onde este noção de messias se originou? Como esses títulos “Filho de Deus,” Filho de Davi,” “Filho do Homem,” e “Rei dos Judeus” se relacionam, se for o caso, com a ideia geral de “messias”?

Concepções de messias entre os Judeus nos primeiros séculos A.E.C e E.C. estão enraizadas na ideologia de realeza das eras israelitas primitivas. Os líderes primitivos no antigo Israel, particularmente reis e sacerdotes, eram ungidos com óleo.2 A Bíblia hebraica é repleta de referências a reis israelitas sendo ungidos, geralmente por profetas.3 Reis israelitas eram frequentemente chamados de “ungido do Senhor”—ou “messias do Senhor” em hebraico, e “o cristo do Senhor” em grego.4 Na literatura israelita primitiva que veio a formar uma parte de nossa Bíblia, a raiz mšḥ, significando em suas várias formas “ungir” ou “ungido”, não parece denotar um agente de Deus futuro, aguardado, que viria libertar Israel dos seus inimigos no fim dos dias, ou um era messiânica.5 “Ungidos” foram simplesmente reis de Israel, e, durante certos períodos de tempo, sacerdotes. Até mesmo um rei não israelita, Ciro da Pérsia, foi chamado de “seu ungido” (Is 45:1), a única referência explícita a este título em Isaías.

O rei israelita não era apenas um messias, mas um “filho de Deus.” Culturas ao redor do oriente médio—canaanita, egípcia, mesopotâmica, e ugarítica—influenciaram concepções israelitas de realeza Reis do Antigo Oriente Médio eram imaginados como sendo divinos—especificamente filhos de Deus.6 Reis da antiga Assíria e do Antigo Egito eram imaginados como tendo alcançado status divino no nascimento ou após. Rei Piankhi do Egito (século VIII A.E.C.), por exemplo, afirmou, eu sou aquele que foi formado no ventre e criado no ovo divino, a semente do deus estando em mim.7 Em contraste, reis hititas e canaanitas alcançavam a divindade na morte.8 Como as suas nações vizinhas, textos israelitas primitivos descrevem o rei em relação à divindade, ou mesmo como uma divindade em si. Por exemplo, muitos deus e reis do oriente médio estão associados com o imaginário de pastor—“Bom Pastor” (egípcio), “Nobre Pastor” (sumério), “Pastor da Humanidade” (hitita), e “Sábio Pastor” (assírio).9 Na literatura israelita, bem como Deus é identificado como o Pastor de Israel,10 também é identificado como o Rei.11 A retórica deus-rei nos textos israelitas parece estar mais ressaltada nos Salmos. Tanto Jeová (i.e., Yahveh) quanto o Rei Davi governarão o mar (Sl 89:9, 25), bem como os inimigos de Jeová e de Davi serão dispersos (Sl 89:10, 22–23). Mais explicitamente, o Rei Davi é o filho “gerado” de Jeová (Sl 2:7), e seu “primogênito” (Sl 89:26–27), que se sentará à “direita” de Deus (Sl 110:1). A ideia de que os reis israelitas—particularmente durante a idade de ouro da monarquia de Israel—eram tanto messias quanto filhos de Deus deu origem a interpretações do Messias para judeus tardios. Mas quanto aos israelitas antes do exílio na Babilônia, acreditavam eles que o rei era um ser divino? Era um “filho de Deus” visto como uma personagem humana, terrena, ou um ser sobrenatural? Estudiosos continuam a debater esta questão, em parte devido à escassez de material de base. As principais conclusões dos estudiosos são (1) reis israelitas eram vistos como divino; (2) a retórica rei-deus de Israel não deve ser entendida literalmente, mas como linguagem jurídica metafórica; e os reis de Israel eram adotados como divinos em suas coroações, mas não eram vistos como filhos divinos literais de Jeová.12

Parece que os israelitas primitivos durante o auge da monarquia tendiam a descrever o rei em termos que sugerem divindade, ou pelo menos uma associação muito próxima entre rei e Deidade. Autores tardios, pelo que parece, rejeitam esta ideia, que é mais evidente durante o exílio e no pós-exílio, quando o papel do rei estava corrompido e menos significante (Ez 34).13 Independentemente se os israelitas viam os seus reis como filhos de Deus metafóricos ou literais antes do exílio, judeus tardios interpretam as passagens sobre reinado em diferentes maneiras, levando a diversidade de expectativas messiânicas na época de Jesus, como veremos abaixo. Quanto a associação entre o Messias e o fim dos dias, o falecido Joseph Fitzmyer, um sacerdote católico e professor na Universidade Católica da América, concluiu que a “ideia de [messias] como um agente ungido de Deus futuro ou esperado no tempo do fim [é um] desenvolvimento tardio na religião israelita.”14

Um terceiro título relevante para messias é “Filho de Davi.” Apesar de um “ungido” no antigo Israel estar associado com reis geralmente, é usado principalmente na Bíblia Hebraica em relação à dinastia davídica do reino do sul de Judá. Em 2 Samuel 7, Deus, através do profeta Natã, faz aliança com Davi, que o seu descendente seria “filho” Deus (2 Samuel 7:14) e estabeleceria um trono e reino eternos (7:16). Esta dinastia davídica idealizada continua através dos livros proféticos da Bíblia Hebraica, e se intensifica quando a nação é ameaçada por inimigos estrangeiros, ou o trono não é ocupado por um rei davídico. Por exemplo, Isaías fala de um rei futuro que terá autoridade e que trará a paz eterna para o trono e o para o reino de Davi (Is 9:6–7). Oseias profetiza que Israel ficará um tempo sem rei, mas que, eventualmente, Deus voltará a restaurar a linhagem davídica ao trono (Os 3:4–5; cp Am 9:11; Is 55:3; Jr 23:5). Durante o exílio, após o reino davídico ter sido destronado, Ezequiel profetiza que “Davi” será novamente o pastor de Israel (Ez 34:23–24; cp. 37:22–25).

Em suma, os reis israelitas antigos eram também conhecidos como messias, ou “ungidos,” que também eram “filhos de Deus”—termos associados mais proximamente com a dinastia davídica. Não está inteiramente claro a partir dos livros proféticos se este reino davídico idealizado, futuro, será liderado por um rei terrestre, como Davi e Salomão, ou se teria expandido em um corpo de expectativas gerais que incluem uma figura que seria uma agente divino de Deus, e salvador de Israel.

Parece que antes do período do Segundo Templo (ca. 200 A.E.C.–70 E.C.) tais expectativas de uma personagem messiânica divina não estavam completamente formadas e articuladas.

Messias no Período do Segundo Templo

Após a Pérsia conquistar a Babilônia, e o Rei Ciro permitir aos judeus retornar a Judeia em 538 A.E.C., fora proibido aos repatriados reestabelecer um estado autônomo. Judeus ficaram sem rei não apenas durante o governo persa (539–332 A.E.C.), mas também durante o domínio helenista (i.e., grego) da região até 142 A.E.C. Durante a maior parte deste intervalo de 400 anos, parece ter reduzido um ênfase na personagem messial real que restaurará Israel. Linguagem uma vez associada com os reis de Israel nos tempos passados (e.g., “ungido” e “filho de Deus”) parece ter sido transferida ao sumo sacerdote, o principal líder dentre o povo judeu.15

No segundo século A.E.C., as expectativas de um rei-libertador começam a se expandir. As razões principais incluem as seguintes. Primeiro, a opressão dos suseranos gregos se intensificou, culminando na profanação do Templo (164 A.E.C.). Segundo, quando os soldados guerrilheiros judeus tomaram a Judeia e o templo dos gregos, a dinastia hasmoneana judaica (142–63 A.E.C.) controlou o trono; o problema para muitos Judeus, no entanto, era que os hasmoneus não eram da linhagem davídica. Assim, o reino davídico esperado não viria por meio da dinastia hasmoneana. Terceiro, o sumo sacerdócio foi usurpado e corrompido por aristocratas ricos não aarônidas (i.e., aqueles não descendentes de Arão). A população judaica testemunhou atacas a sua religião e ao culto no templo de ambos os lados, incluindo o de dentro. O moral da jovem nação judaica autônoma piorou, e as expectativas messiânicas se intensificaram quando os romanos, com a ajuda de alguns judeus, varreram e destronaram a dinastia hasmoneana em 63 A.E.C. Roma, por fim, nomeou um governante ilegítimo (i.e., um meio-judeu) na região. Herodes, com a aprovação de Roma, governou com mão de ferro. De acordo com Josefo, Herodes executou inúmeras pessoas que ele suspeitava que se opunham a ele. Entre esses estavam o seu cunhado (o sumo sacerdote), sua sogra, sua segunda esposa, três filhos seus, e trezentos líderes militares.16 Corrupção e violência afetavam a população, mesmo após a morte de Herodes. Em muitas ocasiões, as multidões protestaram contra injustiças a elas. Pôncio Pilatos, o governador romano da região (ca. 26–36 E.C.), trouxe a Jerusalém (e possivelmente para o complexo do templo) as efígies de César com aprovação da classe sacerdotal. Quando as massas descobriram os bustos, uma “multidão” exigiu que Pilatos os removesse.17 Em outra ocasião, sacerdotes permitiram Pilatos usar os recursos do tesouro do templo para pagar por um aqueduto em Jerusalém. Quando surgiu um protesto, Pilatos enviou soldados para dispersar as multidões, ameaçando matá-las.18 Em face dessa opressão e a corrupção, um fervor messiânico mais intenso se espalhou. Naqueles dois séculos antes do ministério de Jesus, os judeus experimentaram uma expectativa generalizada da aparição do Messias, que seria um rei davídico que libertaria a Israel quebrando o jugo da servidão imperial. No tempo em que Jesus começou o seu ministério, e em décadas após o seu ministério ter terminado, expectativas messiânicas estavam em alta.

Por ventura a mais antiga passagem durante esse período de tempo que ilustre a mudança nas expectativas messiânicas esteja no livro de Daniel, que muitos estudiosos datam pertencente ao início do período do Segundo Templo.19 Aqui encontramos um outro título messiânico: o Filho do Homem. Este termo vem do hebraico ben adam e do aramaico bar enosh, ambos significando pessoa ou ser humano. O plural em hebraico b’nei adam normalmente significava humanidade.20 No capítulo 7, Daniel descreve a visão de quatro grandes animais, provavelmente se referindo a Babilônia, Média, Pérsia e Grécia. Daniel, em seguida, vê o Ancião de Dias no seu trono, e uma outra personagem ao lado, que derrotou e julgou essas nações:

Eu estava olhando nas minhas visões da noite. E eis que vinha com as nuvens do céu alguém como um filho do homem. Ele se dirigiu ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Foi-lhe dado o domínio, a glória e o reino, para que as pessoas de todos os povos, nações e línguas o servissem. O seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído. (Daniel 7:13–14).21

A personagem nesta passagem é um como um filho do homem, significando uma personagem divina que se parece com um ser humano. Ele terá autoridade e será adorado por todos os povos. Observe também a linguagem atrelada a esta personagem para o reinado davídico ideal, que ele será um rei cujo reinado será eterno. As “nuvens do céu” conectam esta personagem à Divindade, de acordo com várias passagens na Bíblia Hebraica (Êx 34:5; Sl 104:3; Is 19:1). Estudiosos têm debatido a interpretação precisa do Filho do Homem em Daniel; no entanto, parece que ele tinha a aparência de um ser humano, e era uma personagem real divina destinada a derrotar inimigos estrangeiros de Israel.

Um texto tardio, o livro de 1 Enoque, datado no final do primeiro século A.E.C.,22 o no início do primeiro século E.C., também inclui material sobre o Filho do Homem:

Ali eu vi o ancião de dias, cuja cabeça era igual à branca lã, e com ele outro, cujo semblante assemelhava-se ao do homem.

. . . Este Filho do homem, que tu vês, levantará reis e poderosos de seus lugares de habitação, e os poderosos de seus tronos (1 Enoque 46:1–4).

Naquela hora o Filho do homem foi invocado diante do Senhor dos espíritos e seu nome na presença do Ancião de dias. Antes que o sol e os sinais fossem criados, antes que as estrelas do céu tivessem sido formadas, seu nome era invocado na presença do Senhor dos espíritos. . . .

Todos os que habitam na terra cairão diante dEle; . . . e revelou aos santos e aos justos a sabedoria do Senhor dos espíritos; pois Ele preservou o lugar dos retos, porque eles iraram e rejeitaram este mundo de iniquidade, e detestaram todas as suas obras e caminhos, no nome do Senhor dos espíritos. Pois em seu nome eles serão preservados e sua será a vida. . . . Pois eles [os reis da terra e os homens poderosos] negaram o Senhor dos espíritos e seu Messias. (1 Enoque 48:2–10).

E daqui em diante não haverá nada corruptível; Porque o Filho do Homem apareceu, E se assentou no trono da sua glória, E todo o mal passará adiante da sua face. (1 Enoque 69:29).23

Aprendemos desses textos que expectativas de uma personagem messiânica divina se expandira nos poucos séculos antes do ministério de Jesus. A personagem celestial em Daniel que parece como um filho do homem é chamado posteriormente de “Filho do Homem” no livro de 1 Enoque. De acordo com esses autores judeus, esta personagem é um ser pré-mortal que está intimamente associado com Deus, terá domínio sobre todos os reinos da terra, será adorado por todas as pessoas,julgará os ímpios, sobrepujará os seus inimigos, estabelecerá um reino eterno, e será o “Messias.”

Junto a essas tradições sobre o Filho do Homem está uma litania de outras tradições messiânicas em diversos textos judeus primitivos. Talvez o tema mais proeminente entre esses textos sobre o Messias seja que ele descenderá da tribo de Judá por meio de Davi. Gênesis 49 e Isaías 11 servem como os textos primários para esta ideia: “O cetro não se afastará de Judá, nem o bastão sairá de entre os seus pés, até que venha Siló; e a ele obedecerão os povos (Gn 49:10); “Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes brotará um renovo” (Is 11:1).24 Muitos Judeus durante esse período de tempo interpretam essas passagens messianicamente. Por exemplo, um comentário de Gênesis descoberto na caverna 4 em Qumran considera que esse rei judaíta futuro será o “Mestre da Justiça, o Rebento de Davi.” Os Salmos de Salomão, um texto de meados do primeiro século A.E.C, nos remete a 2 Samuel 7, onde Deus prometeu a Davi que sua descendência será o filho de Deus (7:14), e que estabelecerá um trono eterno (7:16): “Veja, Senhor, e levanta-lhes o rei deles, filho de Davi, para reinar sobre Israel, seu servo, no tempo que escolheste, Deus. . . . e seu rei será ungido do Senhor.”25

Um outro tema messiânico emergente nos textos judaicos primitivos é que o Messias terá autoridade máxima e será louvado por todas as pessoas. Nesse papel autoritativo, o Messias estará encarregado de julgar o ímpio, e punir os inimigos de Israel. Diversos textos de Qumran, por exemplo, afirmam que o céu e a terra hão de ouvir o Seu Messias,26 governantes de Israel sentar-se-ão diante dele,27 e outros serão entregues à espada quando o Messias . . . vier.28 Nos Salmos de Salomão, o Messias guiará o justo e “terá as nações gentias o servindo sob o seu jugo; ele “desmascará os responsáveis, e expulsará os pecadores.29 Nos Oráculos Sibilinos, um outro texto do primeiro século A.E.C., “Deus enviará um Rei . . . que com a guerra maligna de toda a terra, matando alguns, impondo juramentos de lealdade a outros.”30 A expectativa de um messias guerreiro que lutará contra inimigos estrangeiros de Israel pode ter sido justificado com base em Isaías 45:1, onde se lê: Assim diz o Senhor ao seu ungido, a Ciro, a quem tomo pela mão direita, para submeter as nações diante dele.

Parece claro a partir das fontes que é durante esse período—os primeiros dois séculos antes do ministério de Jesus—que a ideia de um agente divino de Deus que redimirá Israel se torna mais amplamente aceita, ou pelo menos aparentemente, entre a população judaica, embora alguns textos mais primitivos estejam fundamentados por tais crenças (Is 9 e 32; Zc 14). Seja qual for a crença dos israelitas primitivos sobre a natureza do agente futuro de Deus que destruirá os ímpios e redimirá Israel, fica claro que por essa época que Jesus começou o seu ministério, muitos judeus mantinham altas expectativas daquele que eles chamavam de “Messias,” “Filho de Deus,” ou “Filho do Homem.” O que costumavam ser termos genéricos, em séculos anteriores se referindo aos reis (“messias” e “filho de Deus”), ou de seres humanos (“filho do homem”), foram, posteriormente, entendidos como títulos para um indivíduo especial que redimirá Israel. Esse agente divino de Deus não seria, apenas um messias, mas o Messias.

Antes de continuar a discutir as personagens messiânicas durante o período final do Segundo Templo, incluindo o próprio Jesus, é útil recapitular o que encontramos nos textos judaicos e pré-cristãos no que diz respeito às expectativas messiânicas que antecederam o ministério de Jesus. Esses textos apresentam as seguintes expectativas do Messias entre muitos judeus primitivos:

  • Ele é uma personagem divina, pré-mortal

  • Todas a pessoas o adorarão

  • Ele seria um rei

  • Ele restabelecerá a dinastia davídica

  • Seu reino será eterno

  • Ele terá autoridade sobre todas as nações

  • Ele liderará Israel

  • Ele julgará os ímpios e sobrepujará os inimigos estrangeiros de Israel

  • Ele estará associado a justiça

Note uma expectativa faltando nesses textos: a ideia que o Messias seria subjugado, humilhado, e morto pelos seus inimigos. O texto que parece sugerir que o Messias seria morto é 4 Esdras: “Pois meu filho, o Messias, será revelado com aqueles que estiverem com ele, e aqueles que perseverarem se regozijarão por 400 anos. E passos esses anos, meu filho, o Messias, morrerá, e todo ser que respira.”31 Nesse texto ambíguo, o Messias não será humilhado e morto por seus inimigos, mas morrerá junto com todos, após os 400 anos (“1000 anos” na versão árabe). Ademais, esse texto é datado no fim do primeiro século E.C., e pode não nos dizer muito sobre as expectativas messiânicas nos dois séculos precedentes ao ministério de Jesus. Alguns podem contestar a conclusão que os primeiros Judeus não esperava um messias derrotado, sofredor, por apontar à passagem do servo sofredor de Isaías 53. Porventura, os versos mais contestados em toda a Bíblia Hebraica sejam os seguintes:

Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores e que sabe o que é padecer. E, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o considerávamos como aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado por causa das nossas transgressões e esmagado por causa das nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas feridas fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu próprio caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca. Como cordeiro foi levado ao matadouro e, como ovelha muda diante dos seus tosquiadores, ele não abriu a boca. (Is 53:3-7).

Comentaristas judeus antigos discordam quanto a natureza do “servo” aqui em Isaías. Alguns interpretam como se referindo ao Messias, outros a Israel. Parece que esta profecia messiânica para os judeus no Oriente Médio é ofuscada por muitas outras expectativas de um messias vitorioso nos dois séculos que antecederam ao ministério de Jesus. Desta forma, nos textos judaicos pré-cristãos do período do Segundo Templo, a ideia que o messias fosse sofrer e morrer é praticamente inexistente.32 Na verdade, quando Jesus diz aos apóstolos que parte de sua missão inclui o sofrimento e a morte, Pedro imediatamente o repreende e diz: “Isso de modo nenhum irá lhe acontecer” (Mt 16:22). Devemos observar que Daniel 9 se refere a um “ungido” que “será morto e não terá nada” (9:26), mas é ambíguo se esta passagem sugere que o ungido será humilhado e, por fim, morto. Poderia ser que esta personagem será derrotada por um time, e, então, conquistar os seus inimigos? Simplesmente não sabemos. O que podemos dizer é que as poucas passagens como esta em Daniel 9 são enormemente ofuscadas em outros textos judeus primitivos por um messias vitorioso.

Essas expectativas messiânicas para judeus próximos do tempo de Jesus geralmente não incluem um messias sofredor, que morrerá, é crucial para compreender os eventos imediatamente seguintes à morte de Jesus. Deve-se relembrar também que nem todos os judeus sustentam um corpo normativo de crenças sobre o status divino do Messias—se ele é divino ou mortal—nem todos os judeus uniformemente esperam o Messias a realizar uma gama específicas de tarefas. Os diversos textos judaicos antecedentes a Jesus postulam uma multiplicidade de expectativas messiânicas, bem como ideias sobre os status divino de um messias futuro. Daniel Boyarin, um estudioso da literatura Judaica primitiva, destaca as diferentes crenças messiânicas entre os primeiros Judeus:

Há muitas tradições variantes sobre esta personagem no Evangelhos, e em outros textos judaicos primitivos. Alguns judeus esperavam que este Redentor fosse um humanos exaltado ao estado de divindade, enquanto outros esperavam uma divindade que descesse à terra e tomasse forma humana; alguns crentes em Jesus acreditavam que Cristo nascera como um ser humano comum, e, então, exaltado ao status divino, enquanto outros acreditam que ele é uma divindade que viera à terra. De qualquer forma, terminamos com uma combinação divino-humana e duplamente divina quanto ao Redentor esperado.33

Atividades “Messiânicas” no Primeiro Século E.C.

Depois que Herodes morreu em 4 A.E.C., a região da Judeia e da Galileia parecem ter experienciado um aumento pessoas reivindicando o reinado e que ao mesmo tempo podem ter tido pretensões messiânicas. Antes de a morte de Herodes, a esperança de um messias conquistador parece ser idealista; no primeiro século E.C., no entanto, a percepção do Messias se tornara mais concreta, especialmente em resposta ao estilo de governos autoritário e militar dos romanos. Josefo detalhou aproximadamente uma doze personagens somente no primeiro século, com muitos outros mencionados com brevidade, que agiram de modo que poderia ter levado a população a vê-los como possíveis candidatos messiânicos. Ele explicou que muitas dessas personagens foram declaradas “rei” pelos seus seguidores, tornando-se, assim, um incômodo para as autoridades romanas.34 Os burocratas do Templo de Jerusalém, e os oficiais romanos, tentavam minar qualquer movimento liderado por um ”rei,” especialmente aquele que buscavam tomar o controle da região das mãos dos romanos, e das autoridades do Templo.

Uma personagem foi Judas de Séforis, uma cidade na Galileia cerca de 8 kilômetros de Nazaré. No velório da morte de Herodes, Judas reuniu uma massa, buscando e controlando diversos armamentos reais. Ele, subsequentemente, almejou outros que mantinham aspirações reais, provavelmente porque ele próprio estava de olho no trono.35 No mesmo ano, Simão de Pereia colocou um diadema em sua cabeça e se declarou rei. Com um grupo de seguidores, ele procedeu em queimar diversas propriedades reais, incluindo o palácio em Jericó. Soldados romanos, por fim, o impediram e o decapitaram.36 Logo nos anos seguintes, Antrogeu, um homem conhecido como um pastor, se declarou rei, e se empenhou em matar soldados romanos e monarquistas judeus até que as autoridades romanas o capturassem.37

Poucas décadas depois, João Batista reuniu um número considerável de seguidores, resultando em sia prisão, e, eventualmente, foi decapitado após desfiar Herodes Antipas. Josefo registra que Herodes Antipas estava particularmente preocupado com que o poder e a influência que João mantinha com a população levasse a uma rebelião. Aproximadamente 10 anos após a morte de João Batista, uma outra personagem angariou muitos seguidores entre os samaritanos, uma pessoa estreitamente relacionada com os judeus, tanto ideológica quanto geograficamente. Samaritanos esperavam uma personagem semelhante a Moisés que restauraria o antigo templo. Esse profeta samaritano prometeu mostrar aos seus seguidores os utensílios sagrados que Moisés supostamente enterrou no Monte Gerizim. Pilatos e sua infantaria atacaram o grupo, matando alguns e prendendo outros.38 Cerca de uma década depois, um profeta, Teudas, a quem fora atribuído realização de milagres, levou um grupo até o Rio Jordão. Ele prometeu dividir as águas, como Josué. Antes do grupo chegar ao rio, autoridades romanas os atacaram, matando muitos, e decapitando Teudas.39 Naquele mesmo tempo, um Judas de Gamala na Galileia reuniu um grupo e se revoltou contra Roma a fim de estabelecer a independência nacional. O grupo eventualmente se dissolveu, de acordo com Atos 5:37; Josefo não explicar do destino de Judas, mas aprendemos que dois de seus filhos foram crucificados durante o mandato de Tibério Alexandre (46–48 E.C.) em consequência da rebelião. Outro filho de Judas, Menachem, também mantinha aspirações reais como seu pai.40

Alguns anos depois, um profeta egípcio anônimo reuniu um grande grupo no Monte das Oliveiras. Ele afirmava que os muros de Jerusalém cairiam ao seu comando, permitindo à multidão entrar na cidade. As autoridades romanas se dirigiram para o Monte das Oliveiras, mataram e prenderam cerca de 600 pessoas.41 O profeta fugiu e nunca mais apareceu em Jerusalém; no entanto, quando o Apóstolo Paulo fez a sua última viagem a Jerusalém, pouco tempo depois, as autoridades romanas o confundiam com o profeta egípcio: “Você não é, por acaso, aquele egípcio que algum tempo atrás começou uma revolta e levou quatro mil guerrilheiros para o deserto?” (At 21:38). Este profeta parecia estar motivado pelas profecias messiânicas em Zacarias 14, que falam de uma personagem guerreira divina que descerá do céu e se estabelecerá no Monte das Oliveiras antes de entrar em Jerusalém. A meta desta personagem divina seria sobrepujar os inimigos estrangeiros de Israel.

Outra personagem que desafiou as autoridades em Jerusalém é Jesus ben Ananias. Em 62 E.C., ele adentrou no complexo do templo durante a Festa dos Tabernáculos (i.e., Sukkoth) proclamando juízo sobre Jerusalém. Seus gritos incluíam citações diretas de Jeremias 7, precisamente o mesmo bloco de escrituras que Jesus de Nazaré usou quando ele acusou sacerdotes de transformar o templo em um covil de ladrões (Jr 7:11 [NVI]). Como Jesus de Nazaré, esse Jesus é preso pelas autoridades Romanas e chicoteado até que a sua carne fosse arrancada, expondo os seus ossos.42 Alguns anos mais tarde, Menachem, filho do já mencionado Judas de Gamala, entrou em Jerusalém como um rei usando vestimentas reais. Com um grupo armado, ele se empenhou em matar o sumo sacerdote, e, então, ocupar os quarteis romanos. Ele foi finalmente capturado, arrastado para um espaço público, e torturado até a morte.43 Poucos anos após a derrota de Menachem, duas outras personagens das redondezas da Galileia—João de Gischala e Simão bar Giora (rivais entre si)—tentaram tomar o controle de Jerusalém e reinar como rei. João foi finalmente capturado e preso perpetuamente, e, Simão foi levado a Roma, onde ele foi executado.44

As ações desses indivíduos ilustram a tensão entre personagens populares reivindicando algum tipo de realeza—alguns com conotação messiânica—e as autoridades romanas.45 Algumas observações desses doze casos fornecem algum pano de fundo para o ministério de Jesus. Primeira, Galileia é o local de diversas personagens do primeiro século E.C. que não apenas se promoviam como “rei”, mas também podiam ter potenciais pretensões messiânicas. Contudo, faz-se necessário destacar que nossa fonte primária, Josefo, que detalha todas essas histórias, nunca afirma que quaisquer desses indivíduos, nem os seus seguidores, assumiu explicitamente o título de “Messias” ou “Cristo,46 ou recebera o título dos seus seguidores—Jesus, por outro lado, é a única pessoa mencionada em Josefo em que tanto ele quanto os seus seguidores adotaram os títulos de “Messias” e ”Cristo.” Segunda, algumas dessas personagens parecem ter recebido apoio de segmentos dentro da população judaica, e foram punidos pelos soldados romanos.47

Personagens no Primeiro Século com Aspirações Monárquicas, e Possivelmente Messiânicas

Judas de Séforis (4 A.E.C.)

Simão de Pereia (4 A.E.C.)

Atrongeu O Pastor (4–2 A.E.C.)

Profeta Samaritano (35 E.C.)

Teudas (45 E.C.)

Judas de Gamala (40’s E.C.)

Egípcio Anônimo (50’s E.C.)

Jesus ben Ananias (62 E.C.)

Menachem de Gamala (66 E.C.)

João de Gischala (final dos anos 60 E.C.)

Simão bar Giora (final dos anos 60 E.C.)

Jesus como Um Candidato Messiânico

Como Jesus comparou às expectativas messiânicas dos primeiros séculos A.E.C. e E.C.? Os seguidores mais próximos de Jesus o viam como o Messias? Mesmo os seus companheiros mais próximos, os seus discípulos, o reconheciam unanimemente como o Messias? Se sim, referiam-se a ele como tal? No tempos em que os autores dos evangelhos estavam escrevendo, por assim dizer, eles já tinham a mente firmada no fato que Jesus é, realmente, o Messias, e seus relatos escritos são uma tentativa de demonstrar esta verdade a outros.

Durante o ministério de Jesus, seu papel como Messias não era sempre tão claro para seus seguidores; parecia, às vezes, haver alguma ambiguidade. Talvez uma razão para esta confusão é que Jesus parecia, algumas vezes, evitar o termo Messias, ou Cristo. Na verdade, Jesus raramente se referi a si mesmo como tal, exceto oportunamente. Por exemplo, a ocasião singular quando Jesus reconheceu categoricamente que ele era o Messias para alguém fora de seu círculo íntimo, a mulher samaritana. Quando Jesus falou com ela à sós acerca da salvação, ela afirmou estar esperando pelo Messias, e que ele revelaria tais coisas quando ele viesse. Jesus respondeu: eu sou o Messias (Jo 4:26). Posteriormente, quando um outro não-apóstolo, o sumo sacerdote, perguntou a Jesus privadamente se ele é o Messias, Jesus admitiu que sim, de acordo com o Evangelho de Marcos (14:61). No entanto, sua resposta em Mateus e Lucas é mais ambígua. Em Mateus 26:64, Jesus respondeu. É o senhor mesmo quem está dizendo isso;” em outras palavras, é você quem está falando.48 Em Lucas 22:67-68, Jesus respondeu: Se disser, vocês não vão acreditar. E, se eu perguntar, vocês não me darão resposta. Desde agora, o Filho do Homem estará sentado à direita do Deus Todo-Poderoso.

Jesus era ainda mais direto com os seus discípulos mais próximos, mas mesmo naqueles casos ou ele se esquivava ou lhes dizia para ficarem em silêncio. Quando Natanael se encontrou com Jesus pela primeira vez, ele exclamou: “Mestre, o senhor é o Filho de Deus! O senhor é o Rei de Israel!” (i.e., o Messias) Jesus respondeu: “Você crê porque eu disse que tinha visto você debaixo da figueira? Pois você verá coisas maiores do que estas” (Jo 1:49–50). Novamente, Jesus hesitou em dizer: “Sim, eu sou o Messias.” Em Cesareia de Filipe, Jesus perguntou aos seus discípulos mais próximos acerca da reputação dele; o que as pessoas falavam sobre ele. Eles responderam que alguns pensaram que ele era Elias ou um profeta. Então, Jesus perguntou a seus discípulos o que eles pensavam dele, ao que Pedro respondeu: Você é o Messias. Jesus, então, os advertiu (epitimēsas em grego, significa repreender) a não contar a ninguém sobre sua messianidade (Mc 8:28–30; Lc 9:19–21; Mt 16:13–20). Talvez Jesus tenha evitado se referir diretamente como “Messias” em público por causa do peso que se acumulou em séculos, como ilustrado anteriormente. Observe que quando um grupo na Galileia tentou fazer de Jesus o “rei” deles, ele se retirou sozinho para o monte (Jo 6:15). Parece que Jesus, de acordo com o Novo Testamento, preferia Filho do Homem como autodesignação.

Os relatos detalhando a última semana da vida de Jesus, e os acontecimentos imediatos após a sua morte, são ilustrativos para a compreensão das expectativas messiânicas tanto do primeiro século quando da messianidade de Jesus especificamente. Quando Jesus entrou nos arredores de Jerusalém no final do seu ministério, ele foi primeiro para o Monte das Oliveiras. No primeiro século, o Monte das Oliveiras está firmemente enraizado na tradição messiânica judaica. Seu primeiro ato após chegar no monte, de acordo com os Evangelhos Sinóticos, é obter um jumento.49 Este ato deliberado é para enfatizar a messianidade de Jesus. Observe que Mateus 21 cita Zacarias 9: “Digam à filha de Sião: Eis que o seu Rei vem até você, humilde, montado em jumenta, e num jumentinho, cria de animal de carga” (Mt 21:5; cp. Jo 12:15). A palavra-chave aqui é rei. A ideia de que o Messias viria cavalgando à jumento reflete o precedente israelita mais antigo. Por exemplo, de acordo com Gênesis 49:10–11, o futuro governante da tribo de Judá “amarrará o seu jumentinho à vide e o filho da sua jumenta, à videira mais excelente” (Gn 49:11).

Reis de Israel, Davi e Salomão, cavalgaram à jumento no Monte das Oliveiras no tocante ao seu papel como rei (2 Samuel 16:1–2); Salomão cavalgou até o Vale de Cedrom, no pé do Monte das Oliveiras, onde ele fora ungido rei sobre Israel (1 Rs 1:32–37). A procissão real do Rei Salomão fora acompanhada por pessoas clamando “Viva o rei Salomão! (1 Rs 1:39). Similarmente, os seguidores de Jesus realizaram uma procissão para ele, quando ele cavalgou à jumento do Monte das Oliveiras até o portão oriental de Jerusalém (Mt 21:2–9; Mc 11:1–10; Lc 19:29–44; Jo 12:12–19), enquanto eles clamavam: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!”50 Jesus e seus seguidores indubitavelmente tinham expectativas messiânicas em mente.

A procissão de Jesus do Monte das Oliveiras até o portão oriental de Jerusalém foi deliberada, baseada em passagens em Ezequiel e Zacarias. De acordo com esses textos, uma personagem messiânica descerá do céu até o cume do Monte das Oliveiras e, em seguida, entrará em Jerusalém (Ez 43:1–5; Zc 14). Uma vez que Jesus entrar em Jerusalém via portão oriental, ele purificou o templo como predito em Zacarias 14:21. As atividades de Jesus são similares à estrutura em três partes em Zacarias 14, referindo-se à personagem messiânica divina futura: (1) ele chega no Monte das Oliveiras, (2) ele pronuncia juízo sobre Israel, e (3) ele entra em Jerusalém e purifica o Templo. Assim, Zacarias 14 serviu como um tipo de guia para a atividade messiânica de Jesus no Monte das Oliveiras. Purificação do templo foi um ato de rebelião que colocou Jesus em colisão direta com a instituição do templo e as autoridades romanas, que o viram, assim como outras personagens messiânicas do primeiro século, como um aspirante a messias fortemente demagogo que deve ser silenciado e punido.

Jesus também pronunciou juízos sobre Jerusalém diversas vezes durante a última semana de seu ministério. Enquanto no Monte das Oliveiras, ele se dirige para Jerusalém: “Pois virão dias em que os seus inimigos cercarão você de trincheiras e apertarão o cerco por todos os lados; e vão arrasar você e matar todos os seus moradores. Não deixarão pedra sobre pedra, porque você não reconheceu o tempo em que Deus veio visitá-la” (Lc 19:43–44). Ele também amaldiçoou uma figueira (Mc 11:12–14, 20–25), que, de acordo com textos israelitas antigos, era um símbolo de Judá e de Israel (Mq 7:1–6; Jr 8:13).51 Portanto, a maldição de Jesus à figueira no Monte das Oliveiras próximo a Betânia, que significa “casa dos figos verdes”, é um pronunciamento de Juízo sobre Jerusalém e Israel.52 Um terceiro pronunciamento é incorporado no tão falado Discurso do Monte das Oliveiras—um discurso que inclui profecias sobre destruição do templo, guerras, fomes, persehuição, desolação, a vinda do Filho do Homem, e parábolas de juízo (Mt 24–25; Mc 13; Lc 21:5–37). Finalmente, enquanto no complexo do templo, Jesus pronunciou juízo sobre Jerusalém, e se atreveu a profetizar a destruição do templo na presença dos sacerdotes do templo (Mc 11:15–18; 12:1–12; 14:56–59; Jo 2:19).

As atividades de Jesus durante os dias que antecederam a sua prisão demonstram que ele satisfez diversas expectativas de um messias predito em textos judaicos nos dois séculos anteriores ao ministério de Jesus. Jesus era visto por seus seguidores como a personagem divina em Zacarias 14, com pessoas o adorando quando ele adentrasse em Jerusalém, eles se referiam a ele como rei e Filho de Davi, ele pronunciou juízo sobre Israel, e suas atividades sugeriam seu status de juiz e novo líder de Israel. Como muitas de suas personagens messiânicas contemporâneas introduzidas anteriormente, Jesus fora preso, escarnecido, e punidos pelas autoridades por ser um messias, ou o “rei dos judeus” (Mc 15:26).

Em razão de Jesus ter sido morto por seus inimigos, mesmo não sendo uma expectativa messiânica em larga escala no primeiro século E.C., alguns judeus que pensaram que ele pudesse ter sido o Messias abandonaram tal esperança após a crucifixão, incluindo, porventura, alguns dos seguidores mais próximos de Jesus. Por exemplo, dois seguidores de Jesus que não eram apóstolos estavam tristes enquanto caminhavam para Emaús após a execução de Jesus. Eles mencionaram ao Jesus camuflado que ele era um grande “profeta” que fora morto, complementando: “Nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir Israel” (Lc 24:21, ênfase acrescida; ver versos 13–20). Mesmo após o Jesus ressurreto ter se encontrado com os seus apóstolos na Galileia, alguns ainda “duvidavam” (mateus 28:16–20), mais provavelmente nos que diz respeito ao papel de Jesus como o Messias em relação às expectativas messiânicas anteriores deles. Algumas das ações de Jesus, particularmente próximas do fim de seu ministério, sugeriram a muitos dentro do seu círculo maior na Galileia que ele pode ser o Messias. Enquanto a messianidade de Jesus eventualmente se tornaria óbvia aos seus discípulos em algum momento após a sua ressurreição, não era sempre tão claro aos seus seguidores durante o seu ministério efetivo. Quando Jesus fora preso, humilhado, torturado e morto pelas autoridades, pareceu haver esperanças messiânicas desfeitas para alguns dos seguidores de Jesus. No entanto, após a sua ressurreição, e algum tempo a mais com os apóstolos, onde ele os instruiu (At 1:1–3), a crença de que ele era realmente o Messias ficou muito mais clara. Após a ressurreição, Pedro começa a pregar a ideia que Jesus é o Messias que ele sofreu e morreu para salvação (At 2:14–26; 3:11–26; 4:1–22). Da mesma forma, as cartas do Apóstolo Paulo, que foram escritas dentro de algumas décadas após a ressurreição (ca. 45–65 E.C.), estão repletas de referências a Jesus como o Messias/Cristo que sofreu a morte e ressuscitou. Contudo, fica também claro a partir dessas cartas que a ideia de um messias sofredor, crucificado, não obstante a ressurreição, era, ainda, ”uma pedra de tropeço” (1 Co 8:9 [ACF]) para os judeus, pois era bastante diferente dais ideias que permeavam naquele tempo.


Notas

1 Os Evangelhos e Atos usam Messias 63 vezes, Filho de Deus 28 vezes, Filho do Homem 84 vezes, e Rei dos Judeus 17 vezes.

2 Êxodo 28:41; 30:30; 40:13; Levítico 7:35; 16:32; Números 3:3; 35:25. O Antigo Testamento fornece apenas um exemplo de um profeta sendo ungido—o caso de Elias sendo ordenado a ungir Eliseu (1 Rs 19:15–16; cp 2 Rs 9:1–3, 6, 12).

3 1 Samuel 9:9, 16; 10:1; 15:1, 17; 16:1–3, 12–13; 2 Samuel 12:7; 22:51; 23:1; 1 Reis 1:34, 39, 45; 19:15–16; 2 Reis 9:1–3, 6, 12; 25:4–6.

4 1 Samuel 16:6; 24:6, 10; 26:9, 11, 16, 23; 2 Samuel 1:14, 16; 19:21; Salmo 2:2; 18:50; 20:6; 28:8; 89:39, 51; 132:10.

5 Joseph Fitzmyer, The One Who Is to Come (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2007), pp. 8–25.

6 Adela Yarbro Collins e John J. Collins, King and Messiah as Son of God: Divine, Human, and Angelic Messianic Figures em Biblical and Related Literature (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2008), pp. 1–10.

7 Citado Henri Frankfort, Kingship and the Gods: A Study of Ancient Near Eastern Religion as the Integration of Society and Nature (Chicago: University of Chicago Press, 1948), p. 42.

8 Shirley Lucass, The Concept of the Messiah in the Scriptures of Judaism and Christianity (London: Blooms-bury, 2011), pp. 45–47.

9 Ver Jeffery Jay Niehaus, Ancient Near Eastern Themes in Biblical Theology (Grand Rapids, MI: Kregel, 2008), p. 39; Andrew C. Cohen, Death Rituals: Ideology and the Development of Early Mesopotamian Kingship (Leiden, Netherlands: Brill, 2005), p. 123; Trevor Bryce, The Kingdom of the Hittites (Oxford: Oxford University Press, 2005), p. 20; e Prisma de Senaqueribe, coluna 1, linha 3, tradução [em inglês] em http://www.kchanson.com/ANCDOCS /meso/sennprism1.html.

10 Gênesis 49:24; Salmo 23:1–4; 28:9; 80:1; 95:7; 100:3; Ezequiel 34:11–31.

11 2 Samuel 5:2; 7:7–8; 1 Reis 22:17; Salmos 78:70–71; Ezequiel 34:1–10.

12 Para diversas discussões, ver Collins and Collins, King and Messiah as Son of God, pp. 1–25.

13 Collins e Collins, King and Messiah as Son of God, pp. 10–47; Lucass, Concept of Messiah, pp. 66–121.

14 Fitzmyer, One Who Is to Come, p. 8.

15 Lucass, Concept of Messiah, pp. 122–143.

16 Josefo, Antiguidades, 15.50–56, 222-236, 247-251, 365-372; 16.392–394.

17 Josefo, Antiguidades, 18.55–57.

18 Josefo, Antiguidades, 18:60.

19 Acredita-se, de acordo com alguns estudiosos, que o livro de Daniel foi produzido no início do segundo século A.E.C., simultaneamente a perseguição grega sob Antíoco IV Epífanes (175–164 A.E.C.). Ver, por exemplo, John J. Collins, Daniel: A Commentary on the Book of Daniel (Minneapolis: Fortress, 1993), pp. 1–38; Daniel Smith-Christopher, “Daniel (Book and Person, Hebrew Bible/Old Testament),” em Encyclopedia of the Bible and Its Reception (Berlin: De Gruyter, 2013), 6:86–94.

20 Ezequiel, por exemplo, é tratado como filho do homem quase cem vezes no livro de Ezequiel.

21 Usa-se neste artigo a Nova Almeida Atualizada (NAA) para citações bíblicas, salvo indicação contrária.

22 Collins and Collins, King and Messiah as Son of God, p. 87.

23 E. Isaac, “1 Enoch: A New Translation and Introduction,” em The Old Testament Pseudepigrapha, e. James H. Charlesworth (New York: Doubleday, 1983), 1:34–36, 49.

24 4Q252 5.1–4, tradução de Michael Wise, Martin Abegg Jr., e Edward Cook, The Dead Sea Scrolls: A New Translation (New York: HarperSanFrancisco, 2005), p. 355.

25 Salmos de Salomão 17: 21, 32, em Charlesworth, Old Testament Pseudepigrapha, 2:667.

26 4Q521 frags 2 + 4 ii 1, tradução de Wise, Abegg, e Cook, Dead Sea Scrolls, p. 531.

27 1QSa 2:14–15, tradução de Wise, Abegg, e Cook, Dead Sea Scrolls, p. 140.

28 CD 19:10–11, tradução de Wise, Abegg, e Cook, Dead Sea Scrolls, p. 59.

29 Salmos de Salomão 17: 26, 36, em Charlesworth, Old Testament Pseudepigrapha, 2:667–668.

30 Oráculos Sibilinos, 3:652–654.

31 4 Esdras 7:28–30, em Charlesworth, Old Testament Pseudepigrapha, 1:537; ênfase acrescida.

32 Collins e Collins, King and Messiah as Son of God; Lucass, Concept of Messiah; and Fitzmyer, One Who Is to Come.

33 Daniel Boyarin, The Jewish Gospels: The Story of the Jewish Christ (New York: The New Press, 2012), p. 34.

34 Josefo, Antiguidades, 17.10.8.

35 Josefo, Antiguidades, 17.10.5; Guerras Judaicas, 2.4.1.

36 Josefo, Antiguidades, 17.10.6; Guerras Judaicas, 2.4.2.

37 Josefo, Antiguidades, 17.10.7; Guerras Judaicas, 2.4.3.

38 Josefo, Antiguidades, 18.4.1.

39 Josefo, Antiguidades, 17.10.7; Atos 5:36.

40 Josefo, Antiguidades, 18.1.1.

41 Josefo, Antiguidades, 20.8.6.

42 Josefo, Guerras Judaicas, 6.5.3.

43 Josefo, Guerras Judaicas, 2.17.8–10.

44 Josefo, Guerras Judaicas, 2.19.2; 2.20.6; 2.21.1; 4.6.1; 4.7.1; 4.9.4–5; 6.9.4; 7.1.2; 7.2.2; 7.5.3–6.

45 Para um tratamento detalhado de personagens messiânicas e proféticas no primeiro século, ver Craig A. Evans, Ancient Texts for New Testament Studies: A Guide to the Background Literature (Peabody, MA: Hen-drickson, 2005), pp. 431–443; e Richard A. Horsley e John S. Hanson, Bandits, Prophets and Messiahs: Popular Movements in the Time of Jesus (Harrisburg, PA: Trinity Press International, 2007), pp. 88–187.

46 Josefo, Antiguidades, 18.63, 20.200.

47 Assim, as ações de Jesus como um profeta e um candidato messiânico não o alienaram da população judaica, tal como muitos comentaristas cristãos têm afirmado por dois milênios em uma tentativa de demonizar judeus; em vez disso, Jesus encontrou oposição principalmente das autoridades romanas e romanos simpatizantes dos burocratas judeus do Templo.

48 Fitzmyer, One Who Is to Come, p. 138.

49 O primeiro ato de Jesus, de acordo com o Evangelho de João, fora ressuscitar Lázaro (João 11).

50 Ver Mateus 21:9; Marcos 11:9–10; Lucas 19:37–38.

51 William Telford, The Barren Temple and the Withered Tree: A Redaction-Critical Analysis of the Cursing of the Fig-Tree Pericope in Mark’s Gospel and Its Relation to the Cleansing of the Temple Tradition (Sheffield, England: JSOT, 1980), pp. 132–56, 176–204.

52 O relato de Mateus concorda em parte tanto com Lucas e quanto Marcos. Como Lucas, Mateus posiciona a procissão de Jesus em Jerusalém e a purificação do templo no mesmo dia. Como Marcos, Mateus contém a maldição da figueira, mas somente após Jesus purificar o templo, enquanto Marcos tem Jesus amaldiçoando a figueira antes de purificar o Templo.

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