Em Defesa do Princípio Dia-Ano

Dia-Ano

EM DEFESA DO PRINCÍPIO DIA-ANO


Gerhard Pfandl serviu como Pastor na Áustria e na Associação Californiana. De 1977 a 1989 foi Professor de Religião no Seminário Bogenhofen na Áustria. Antes de juntar-se ao quadro do Biblical Research Institute em 1999, serviu por sete anos como Secretário de Campo na Divisão Pacífico Sul em Sidney na Austrália. Pfandl publicou mais de 120 artigos acadêmicos e populares em Alemão e Inglês e é o autor de diversas Lições da Escola Sabatina e de livros como The Time of the End in the Book of Daniel e Daniel: The Seer of Babylon.


Tradução: Hugo Martins

“Em Defesa do Princípio Dia-Ano” (Original em Inglês: “In Defense of the Year-day Principle”) foi primeiramente publicado no Journal of the Adventist Theological Society da ATS (Adventist Theological Society [Sociedade Teológica Adventista]). Usado com permissão.


Até o século 19, a maioria dos estudantes dos livros apocalípticos de Daniel e Apocalipse utilizavam o método historicista de interpretar as profecias destes livros. Um dos principais pilares do método historicista é o princípio dia-ano, que diz que um dia em profecias de tempo apocalípticas representa um ano. Durante o século 19, o método historicista foi lentamente substituído pelos sistemas de interpretação futurista e preteristas; ambos negam o princípio dia-ano. Preteristas de colocar a maior parte das profecias no passado, no tempo do Império Romano; futuristas colocam a maioria delas no futuro, especificamente nos últimos sete anos, entre o arrebatamento secreto e o segundo advento.

Kai Arasola

Em 1990, Kai Arasola, um estudioso finlandês adventista do sétimo dia, publicara a sua dissertação The End of Historicism [O Fim do Historicismo] que ele escrevera na Universidade de Uppsala, na Suécia. Contrário às afirmações de Desmond Ford, Arasola não disse que “o mundo acadêmico dos intérpretes bíblicos abandonaram o princípio dia-ano no tempo da frustração milerita: o desapontamento de 1844.”1 O que Arasola diz é que, quando o movimento Milerita chegou ao fim , “o historicismo gradualmente deixou de ser o único método popular de interpretação. Foi amplamente substituído pelo futurismo e preterismo. Contudo, deve-se reconhecer que, na verdade, o historicismo não morreu com Miller. Ainda vive em uma forma modificada, e em uma forma parcialmente renovada, em grupos que possuem raízes no milerismo.”2

Arasola se refere aos Adventistas do Sétimo dia e às Testemunhas de Jeová; outros são a Igreja Cristã do Advento, que também se derivou do movimento milerita, e diversas congregações da Igreja de Deus. Entretanto, além da Igreja Adventista do Sétimo Dia, pouquíssimos comentários sobre Daniel ou Apocalipse têm sido escritos por essas igrejas menores.

O historicismo não morrer com o fim do Movimento Milerita. Na verdade, muitos comentários historicistas apareceram após 1844,3 dentre eles os comentários bem conhecidos dos livros de Daniel e Apocalipse de Albert Barnes.4 Mesmo na primeira metade do século 20, encontramos diversos volumes acadêmicos escritos por historicistas,5 mas, por volta do fim do século 20, com poucas exceções,6 o historicismo não era mais usado na interpretação de Daniel e Apocalipse fora da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

Adventistas do Sétimo Dia

Adventistas do sétimo dia continuam a usar o método historicista de interpretação porque eles acreditam que o princípio dia-ano não é um paradigma imposto sobre o texto, mas fundamentado na própria Escritura. Nos capítulos 7 e 8 de Daniel, por exemplo, o anjo intérprete usa o método historicista para explicar os diversos símbolos como os impérios na história, um após o outro.

É irônico que uma das melhores sínteses do princípio dia-ano, com base nas obras de T. R. Birks7 e H. G. Guinness,8 seja encontrada no primeiro comentário de Desmond Ford sobre Daniel.9 No seu segundo comentário sobre Daniel, dezoito anos mais tarde, ele já não o usa porque ele agora acredita que o princípio dia-ano não pode ser biblicamente justificado.10 Contrariamente a esta posição, a maioria dos intérpretes adventistas do sétimo dia acreditam que o princípio dia-ano está fundamentado nas Escrituras.

Evidência Bíblica para O Princípio Dia-Ano11

Uma averiguação sobre o fundamento bíblico do princípio dia-ano produz uma série de argumentos para a aplicação do princípio dia-ano às profecias dos livros apocalípticos de Daniel e Apocalipse.

  1. Simbolismo

Em razão das visões em Daniel 7 e 8 serem amplamente simbólicas, com diferentes animais representando impérios históricos importantes (7:3–7; 8:3–5, 20–21), os períodos de tempo (7:25, 8:14) devem ser vistos como simbólicos também.

Daniel 7:3–7 Leão Babilônia (626–539 A.E.C.)

Urso Medo-Pérsia (539–331 A.E.C.)

Leopardo Grécia (331-168 A.E.C.)

Animal Roma (168 A.E.C.–476 E.C.)

A visão termina com a Segunda Vinda, quando os santos receberão o reino: “O reino, o domínio e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo.“ O seu reino será um reino eterno e todos os domínios o servirão e lhe obedecerão” (Dn 7:27). O elemento de tempo de 3 ½ tempos, ou anos, no verso 25, durante o qual os santos são entregues nas mãos do chifre pequeno, deve, portanto, abranger mais do que 3 ½ anos e meio literais. “Ele falará contra o Altíssimo, oprimirá os santos do Altíssimo e tentará mudar os tempos e a lei; e os santos serão entregues nas mãos dele por um tempo, tempos e metade de um tempo” (Dn 7:25).

Em Daniel 8, temos, novamente, impérios que duraram centenas de anos:

Daniel 8:3–5, 20–21

Carneiro — Medo-Pérsia (539–331 A.E.C.)

BodeGrécia (331-168 A.E.C.)

A visão se estende até o “tempo do fim” (v. 17). O elemento tempo de “dois mil e trezentos dias” (Dan 8:14), portanto, deve, também, ser um longo período de tempo, superior a 6 anos e 3 meses.

  1. Longos Períodos de Tempo

O fato que as visões de lidam com a ascensão e queda de impérios conhecidos na história, que existiram por centenas de anos, indica que os períodos proféticos de tempo também abrangem longos períodos de tempo.

Babilônia (626–539 A.E.C.)

Medo-Pérsia (539–331 A.E.C.)

Grécia (331-168 A.E.C.)

Roma (168 A.E.C.–476 E.C.)

Em Apocalipse 12–14 temos a história da igreja cristã do tempo de Jesus (12:5) até o Segundo Advento (14:14). Os elementos de tempo de 1260 dias, 3 ½ tempos, e 42 meses (12:6, 14;13:5), todos se referindo ao mesmo período de tempo, fazem sentido apenas se eles representarem 1260 anos. Não há nenhum períodos de tempo de 3 ½ anos na história da igreja que se adequaria na descrição dada nesses capítulos.

  1. Expressão Peculiar

A forma peculiar na qual os períodos de tempo estão expressados indica que eles não devem ser tratados literalmente. Se “um tempo, tempos e metade de um tempo” em Daniel 7:25 e Apocalipse 12:14 fossem 3 ½ anos literais, esperaríamos que Deus dissesse “3 anos e 6 meses” como em Lucas 4:25 e Tiago 5:17. Nesses textos, onde 3 ½ anos são literais, a frase é “três anos e seis meses.” Similarmente, Paulo ficou em Corinto “um ano e seis meses” (Atos 18:11), e Davi reinou em Hebrom “sete anos e seis meses” (2 Sm 2:11).

  1. História da Salvação

Em Daniel 7, os quatro animais que juntos reinaram pelo menos 1000 anos são seguidos pelo poder do chifre pequeno. Ele é o foco da visão, pois está mais diretamente em oposição a Deus.12 3 ½ anos literais para a batalha entre o chifre pequeno e o Altíssimo são desproporcionais para o escopo que abrange a história da salvação retratada nesta visão. O mesmo se aplica a Apocalipse 12:6,14, onde mil e duzentos e sessenta dias, ou 3 ½ anos, cobrem uma grande parte da história entre o primeiro e o segundo advento.

  1. Terminologia de Tempo

Ele falará contra o Altíssimo, oprimirá os santos do Altíssimo e tentará mudar os tempos e a lei; e os santos serão entregues nas mãos dele por um tempo, tempos e metade de um tempo” (Dn 7:25).

Foi-lhe dada uma boca que proferia arrogâncias e blasfêmias e foi-lhe dada autoridade para agir durante quarenta e dois meses” (Ap 13:5).

A mulher, porém, fugiu para o deserto, onde Deus lhe havia preparado um lugar, para que nele a sustentem durante mil duzentos e sessenta dias” (Ap 12:6).

De acordo com o contexto, as expressões “tempo, tempos e metade de um tempo” (Dn 7:25; 12:7; Ap 12:14), “quarenta e dois meses” (Ap 11:2; 13:5), e “mil duzentos e sessenta dias” (Ap 11:3; 12:6) se aplicam ao mesmo período de tempo, mas a expressão natural “três anos e seis meses” não é usada nenhuma vez.

O Espírito Santo, de certa forma, esgota todas as frases pelas quais o intervalo possa ser expresso, excluindo sempre aquela forma que seria usada na escrita padrão, e é usada invariavelmente nas Escrituras em outras ocasiões, para denotar o período literal. Esta variação é mais significativa se aceitarmos o princípio dia-ano, mas bastante inexplicável de outras formas.”13

A única medida de tempo comum não usada nas profecias de Daniel e Apocalipse é ano. Dias, semanas, e meses, são referidos, mas não a unidade de tempo “ano”. A explicação mais evidente é que “ano” é a unidade simbolizada em todas essas profecias.

  1. Tempo do Fim

No tempo do fim, o rei do Sul lutará contra ele, e o rei do Norte arremeterá contra ele com carros de guerra, cavaleiros e com muitos navios, e entrará nas suas terras, e as inundará, e passará” (Dn 11:40).

Muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, outros para vergonha e horror eterno” (Dn 12:2).

As profecias, em Daniel 7–8, e 10–12, levam ao “tempo do fim” (8:17; 11:35,40; 12:4,9), que é seguido pela ressurreição (12:2) e pelo estabelecimento do reino eterno de Deus (7:27).

No curso da história descrito nessas profecias, que se estende a partir do profeta no 6º século A.E.C. até o nosso tempo, e além, períodos de tempo literais de 3 ½ a 6 ½ não são capazes de chegar em lugar nenhum perto deste tempo do fim final. Por conseguinte, esses períodos de tempo proféticos devem ser vistos como simbólicos, significando períodos de tempo reais mais longos que se estendem até o fim do tempo.14

  1. Exemplos do Antigo Testamento

Em Números 14:34, Deus usou deliberadamente o princípio dia-ano como uma ferramenta didática:

Segundo o número dos dias em que vocês espiaram a terra, quarenta dias, cada dia representando um ano, vocês levarão sobre si as suas iniquidades durante quarenta anos e terão experiência do meu desagrado” (Números 14:34).

Em uma parábola dramatizada, ao profeta Ezequiel fora dito se deitar 390 dias em seu lado esquerdo e 40 dias em seu lado direito: “um dia para cada ano” (Ez 4:6).

Todavia, Números 14 e Ezequiel 4 não são textos apocalípticos. Deus, assim, declara que um dia equivale a um ano. Em textos apocalípticos, isto nunca é declarado, é um princípio subentendido.

Características de textos apocalípticos são:

  1. Visões e revelações

  1. Simbolismo e imagens

  1. Dualismo cósmico; escritos apocalípticos apresentam duas forças opostas personificadas no universo, Deus e Satanás.

  1. Contraste: Há duas eras distintas e separadas; a era maligna presente sob o controle de Satanás, e a era futura perfeita que Deus estabelecerá após a sua vitória sobre Satanás.

  1. Ressurreição e o juízo são apresentados como o objetivo da história

  1. Aparição de um Messias

  1. Intérpretes angelicais

Daniel 7 é um capítulo apocalíptico clássico, onde encontramos todas estas características presentes. Daniel 4, por outro lado, não é capítulo apocalíptico, mas um capítulo histórico. Os “sete tempos” no versículo 16, portanto, não são devem ser interpretados com o princípio dia-ano. Os sete tempos são sete anos literais na vida de Nabucodonosor, não 2520 anos proféticos.

  1. Daniel 9:24–27

Em Daniel 9:24–27, a profecia de tempo das 70 semanas tem o seu cumprimento no tempo exato, se usarmos o princípio dia-ano para interpretá-la. Muitos intérpretes, que em outros textos apocalípticos não usam o princípio dia-ano, reconhecem que as 70 semanas são, na verdade, “semanas de anos,” indo do período persa até o tempo de Cristo. Assim, o teste pragmático em Daniel 9 confirma a validade do princípio dia-ano.

Desmond Ford e outros, incluindo o Comentário Bíblico Adventista revisado,15 têm argumentado que o princípio dia-ano não está envolvido em Daniel 9. A Ford diz a respeito do termo “setenta semanas” de Daniel 9:24:

O termo traduzido como ‘semanas’ na King James Version, e em algumas outras versões é literalmente ‘setes’, como os termos ‘dúzia’ ou ‘pontos’, pode se aplicado a uma variedade de coisas. O termo hebraico aqui usado nunca é usado para um período de sete dias, embora o termo singular possa ser assim usado. Em 90 de 94 casos onde o AT usa o termo shavu‘a no sentido de sete dias, há explicação e palavras adicionais ‘de dias’, pois shavu‘a, em si, significa, meramente um heptado (um grupo de séries de sete). Em Daniel 9:24, o termo hebraico é masculino, enquanto a forma plural em outros lugares é feminina.”16

Parece muito convincente, mas longe disso. O termo hebraico shavu’im, “semanas” , é a forma plural masculina de shavu‘a (“semana”). É derivado do termo shev‘a (“sete”), “um termo especial aplicado apenas à unidade de tempo, consistindo de sete dias, isto é, a ‘semana’.”17

Shavua’ ocorre 20 vezes, não 94 vezes, no AT.18 Uma investigação dos 20 textos produz os seguintes resultados:

a. Três vezes ocorre como um substantivo singular significando “uma semana” (Gn 29:27–28; Dn 9:27). “Complete a semana de festa de casamento da primogênita. Depois, daremos a você também a outra, pelo trabalho de mais sete anos que você ainda me servirá” (Gn 29:27).

b. Ocorre uma vez no dual, “duas semanas.” “Mas, se tiver uma menina, ficará impura durante duas semanas” (Lv 12:5).

c. Oito vezes aparece no feminino plural (shavu’ot). Em cinco desses textos, shavu’ot aparece com o termo “festa” (hag) e se refere à Festa das Semanas (Êx 34:22; Dt 16:10, 16; 2 Cr 8:13; Ez 45:21). “Celebrem também a Festa das Semanas, que é a festa das primícias da colheita do trigo, e a Festa da Colheita no fim do ano” (Êx 34:22).

d. Em Números 28:26, a maioria das versões traduzem o feminino plural shavu’ot como “Festa das Semanas”, embora o termo “festa” não apareça no texto. Não obstante, o contexto parece assim indicar. “Vocês terão também santa convocação no dia das primícias, quando trouxerem oferta nova de cereais ao Senhor durante a Festa das Semanas; não façam nenhum trabalho nesse dia” (Nm 28:26).

e. Em Deuteronômio 16:9, onde o feminino plural é usado, refere-se a sete semanas entre a Páscoa e a Festa das Semanas. “Contem sete semanas. Quando começarem a fazer a colheita, iniciem a contagem das sete semanas” (Dt 16:9).

f. Em Jeremias 5:24, onde o último texto feminino plural é usado, refere-se a “as semanas determinadas da colheita” (Jr 5:24).

g. Quatro vezes aparece como plural masculino (Dn 9:24–25 (2x), 26; 10:2–3). O fato que em Daniel é masculino e não feminino, como em outros lugares, é irrelevante, pois é um dos muitos substantivos biformes hebraicos. Como vimos, Daniel consistentemente usa o plural masculino, e a maioria das versões traduzir o termo como “semanas”.19

Por favor, observe: em cada texto fora do livro de Daniel o significado do shavu‘a é sempre “semana” ou “semanas”. A alegação de que o termo significa, literalmente, “setes”, e “pode se aplicar a uma variedade de coisas,”20 definitivamente não é verdade. Como vimos, sempre se aplica a uma semana ou, no plural, semanas.

Nem é verdade que “o termo hebraico aqui usado nunca é usado para um período de sete dias.”21 Em Daniel 10:2–3, o mesmo masculino plural shavu’im é usado para três semanas, por duas vezes. “Naqueles dias, eu, Daniel, fiquei de luto por três semanas [shavu‘im yamim]. Não comi nada que fosse saboroso, não provei carne nem vinho, e não me ungi com óleo algum, até que passaram as três semanas [shavu‘im yamim]” (Dn 10:2–3). A NIV traduz shavu’im em Daniel 9:24 como “setenta setes,” mas “três semanas” em Daniel 10:2–3.

O argumento de Desmond Ford que apenas quando shavu‘a é seguido por yamim (“dias”), como em Daniel 10:2–3, quer dizer uma semana não é válido. Ele está mal interpretando uma expressão idiomática hebraica. Como Bill Shea explicou: “Quando uma unidade de tempo tal como uma semana, mês, ou ano for seguida pelo termo ‘dias’ no plural, a expressão deve ser entendida como unidades ‘inteiras,’ ou ‘completas’.”22 Por exemplo:

Então Labão disse: — De fato, você é meu osso e minha carne. Jacó ficou na casa de Labão durante um mês [hodesh yamim]” (Gn 29:14).

Não comerão um dia, nem dois dias, nem cinco, nem dez, nem ainda vinte, mas um mês inteiro [hodesh yamim], até que saia pelo nariz, até que fiquem com nojo dela . . .” (Nm 11:19–20).

Passados dois anos completos, Faraó teve um sonho e eis que estava em pé junto ao rio Nilo” (Gn 41:1).

Absalão ficou dois anos [shenatayim yamim] em Jerusalém sem ver a face do rei” (2 Sm 14:28).

Desta forma, quando é dito que “Naqueles dias, eu, Daniel, fiquei de luto por três shavu‘im yamim” (Dn 10:2), não significa “três semanas de dias”, mas “três semanas completas”, ou três semanas inteiras.23

Infelizmente, uma vez que a maioria dos intérpretes de Daniel não usam mais o princípio de interpretação profética dia-ano, eles argumentam, como Ford, que as shavu‘im yamim em Daniel 10:2–3 são “semanas de dias”, e que shavu‘im shiv‘im em Daniel 9:24 são “70 semanas de anos.”24 Stephen Miller, por exemplo, escreve:

“Gabriel declarou que o tempo envolvido é ‘setenta setes’ (shavu‘im shiv‘im). ‘Setes’(tradicionalmente ‘semanas’) é uma tradução literal do hebraico e se refere a períodos de sete, sem especificar quais são as unidades. Podem ser setes de anos, dias, meses, ou períodos de tempo indefinidos.”25

Ele, então, opta por setenta semanas de anos, caso contrário a profecia não se encaixaria na aparição do Messias 490 anos depois. No entanto, como temos mostrado o termo shavu’im no Antigo Testamento sempre se refere à semana.

Logo, a alegação que shavu‘im “se refere a períodos de sete, sem especificar quais são as unidades” não tem fundamento bíblico.

O Princípio Dia-Ano na História

A evidência mais antiga para o princípio dia-ano, embora não com este nome, encontra-se no Livro dos Jubileus, uma obra judaica do período intertestamentário.26 O Livro dos Jubileus, datado do segundo século A.E.C.,27 usa o termo “semana” para se referir a sete anos. Como O. S. Wintermute explica: “Cada período de sete anos é referido como ‘semana de anos’, ou simplesmente como uma ‘semana’. Cada período de sete semanas de anos, isto é, 49 anos, é considerado um jubileu.”28 Assim, a idade de Noé em Jubileus 10:16 é mencionada com as seguintes palavras: “Ele completou 950 anos em sua vida, 19 jubileus, 2 semanas, e cinco anos.”29

19 jubileus

= 19 x 49 anos

=

931 anos

2 semanas

= 2 x 7 anos

=

14 anos

5 anos

= 1 x 5 anos

=

5 anos

950 anos

De acordo com o Rabino Hersh Goldwurm, a obra judaica Seder Olam30 “e todos os comentaristas, especialmente Ibn Ezra,31 interpretam a expressão [‘setenta semanas’ em Daniel 9:24) significando 490 anos: setenta semanas de anos.”32 Eles contam 70 anos desde a destruição do primeiro templo até a restauração do templo sob Dario (Ageu 1:1–8), e outros 420 anos até a destruição do Segundo Templo.33 Soma-se 490 anos, embora esses números não se harmonizem com as datas históricas reais (586 A.E.C.–70 E.C.).

No Novo Testamento, o livro de Daniel não desempenha um papel importante. Não é surpresa nenhuma, tendo em vista a declaração em Daniel 12:4: “Quanto a você, Daniel, encerre as palavras e sele o livro, até o tempo do fim.” Os Pais da Igreja que escreveram um comentário sobre o livro, interpretaram Daniel com viés historicista, entendendo Roma como o quarto poder em Daniel 2 e 7. As 70 semanas em Daniel 9:24 eram vistas como 490 anos, mas as profecias de tempo em Daniel 7, 8 e 12 eram entendidas como dias literais, ou no passado, no tempo dos imperadores romanos,34 ou no futuro, no tempo do anticristo final.35

L. E. Froom observa: “Encontraremos, neste período, as setenta semanas de Daniel interpretadas como 490 anos, mas não à aplicação do princípio dia-ano para os períodos mais longos de tempo, por qualquer escritor cristão da era primitiva.”36 E isto é bastante compreensível. Como Irineu (195 E.C.) já havia observado: “Para cada profecia, antes do seu cumprimento, os homens se enchem de enigmas e ambiguidades. Mas quando chega a hora, e a predição se cumpre, então as profecias têm uma exposição clara e certa.”37 O princípio dia-ano, portanto, não desempenhou um papel importante nos primeiros séculos, embora não fosse desconhecido. Júlio Africano, ao comentar sobre as 2300 tardes e manhãs, em Daniel 8:14, disse: “Se adotarmos o dia como um mês, bem como em outras partes na profecia, dias são consideramos como anos . . . identificaremos o período cumprido no 20º ano do reino de Artaxerxes, começando na captura de Jerusalém.”38

O primeiro intérprete cristão a aplicar o princípio dia-ano além das 70 semanas, parece ter sido Ticônio, no fim do quarto século, um donatista africano.39 “Ele interpretou os três dias e meio do assassinato das testemunhas (Apocalipse 11:11) como três anos e meio.”40

Após Ticônio, encontramos ao londo da história da igreja diversos intérpretes cristãos e judeus que usaram o princípio dia-ano, e.g., Benjamin Ben Mosheh Nahawendi (8º–9º séculos),41 Joaquim de Fiore (1130–1202),42 e o reformador Filipe Melâncton (1497–1560).43 Mas, particularmente, à medida que se cumpriam as profecias dos 1260, 1290, 1335, e 2300 dias, o número de intérpretes que usaram o princípio dia-ano aumentou consideravelmente.44

Conclusão

Nosso estudo demonstrou que o método historicista de interpretação não é uma novidade crescente no cenário teológico; em vem disso, respalda-se em uma sólida fundamentação bíblica e histórica. Fora usado pelo intérprete angelical no livro de Daniel, durante o período intertestamentário, por escritores cristãos e judeus ao longo da história da igreja. Até século 19, era usado pela maioria dos intérpretes da Bíblia. E, apesar do que alguns possam alegar, não é um método ultrapassado, mas um princípio válido para interpretar as profecias apocalípticas hoje.


Notas

1 Desmond Ford, Daniel & The Coming King (Newcastle, CA: Desmond Ford Publications, 1996), p. 298.

2 Kai Arasola, The End of Historicism (Sigtuna, Suécia: Datem de Publicação, 1990), p. 171.

3 James H. Frere, A Combined View of the Prophecies of Daniel, Esdras, e St. John, Shewing That All the Prophetic Writings Are Formed upon One Plan (London: John Hatchard and Son, 1850); J. Cumming, Prophetic Studies: Or Lectures on the Book of Daniel (London: Arthur Hall, Virtue and Co., 1850); Edward Bickersteth, Practical Guide to the Prophecies, with Reference to Their Interpretation and Fulfillment, and to Personal Edification (London: Seeley, Burnside and Seeley, 1852); William Ramsey, An Exposition of the Book of Daniel: with Practical Observations (Edinburgh: Th. Grant, 1853); Samuel Sparkes, A Historical Commentary on the Eleventh Chapter of Daniel: Extending From the Days of Cyrus to the Crimean War (Binghamton: Adam and Lawyer Printers, 1858); W. R. A. Boyle, The Inspiration of the Book of Daniel (London: Rivingtons, 1863); Samuel Tarver, Course and Culmination of Empire According to Prophecy (Louisville, KY: John P. Morton, 1866); William C. Thurman, The Sealed Book of Daniel Opened; Or a Book of Reference for Those Who Wish to Examine the Sure Word of Prophecy (Boston, MA: Office of the “World’s Crisis,” 1867); James W. Bosanquet, Messiah the Prince or the Inspiration of the Prophecies of Daniel (London: Longmans, Green, Reader, and Dyer, 1869); William H. Rule, An Historical Exposition of the Book of Daniel the Prophet (London: Seeley, Jackson and Halliday, 1869); W. Birchmore, Prophecy Interpreted by History (New York: E. P. Dutton and Company, 1871); Robert Nevin, Studies in Prophecy (Londonderry: James Montgomery, 1890); Joseph Tanner, Daniel and the Revelation (London: Hodder and Stoughton, 1898).

4 Albert Barnes, Daniel, 2 vols. (1853, reprint, Grand Rapids: Baker Book House, 1950).

5 Charles H. H. Wright, Daniel and His Prophecies (London: Williams and Norgate, 1906); Justus G. Lamson, The Eleventh of Daniel (Minneapolis, MN: J. G. Lamson, 1909); J. A. Battenfield e P. Y. Pendleton, The Great Demonstration (Cincinnati, OH: Standard Publishing, 1914); Charles Boutflower, In and Around the Book of Daniel (1923, reprint Grand Rapids: Zondervan Publishing House, 1963); H. N. Sargent, The Marvels of Bible Prophecy (London: Covenant Publishing, 1939); F. G. Smith, Prophetic Lectures on Daniel and Revelation (Anderson, IN: Gospel Trumpet, 1941); Clarence H. Hewitt, The Seer of Babylon (Boston: Advent Christian Herald, 1948); Edmund Filmer, Daniel’s Predictions (London: Regency Press, 1979).

6 Por exemplo, Fred P. Miller, Revelation: Panorama of the Gospel Age (Clermont, FL: Moellerhaus, 1991), e Robert Carolinga, The Present Reign of Jesus Christ: A Historical Interpretation of the Book of Revelation (Springfield, MO: Abundant Life Ministries Reformed Press, 1995) são historicistas contemporâneos fora da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

7 Thomas R. Birks, First Elements of Sacred Prophecy (London: William E. Painter, 1843).

8 H. G. Guinness, The Approaching End of the Age, Viewed in the Light of History, Prophecy, and Science, 8ª ed. (London: Hodder & Stoughton, 1882).

9 Desmond Ford, Daniel (Nashville, TN: Southern Publishing Assoc., 1978), pp. 300–305.

10 Em seu último comentário sobre Daniel, ele nega que 70 semanas são cortadas dos 2300 anos de Daniel 8, e acrescenta: “Eu não penso que princípio dia-ano deva ser usado nos estudos das profecias de Daniel, embora eu o reconheça como uma ajuda providencial para a demora de Cristo ao longo dos séculos” (Ford, Daniel & The Coming King, 1996, p. 298).

11 Sou grato a Desmond Ford (Daniel, pp. 300–305) por algumas considerações nesta seção.

12 Sete dos 28 versículos de Daniel 7 se referem ao chifre pequeno.

13 Birks, p. 352.

14 William H. Shea, “Selected Studies on Prophetic Interpretation,” edição revisada, DARCOM (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 1992), p. 73.

15 F. D. Nichol, e., Seventh Day Adventist Bible Commentary, 7 vols. (Washington, D.C.: Review and Herald, 1976), 4:851.

16 Desmond e Gillian Ford, For the Sake of the Gospel (Bloomington, IN: iUniverse, 2008), p. 57.

17 Shea, p. 90.

18 R. Laird Harris, et al., Theological Wordbook of the Old Testament, 2 vols. (Chicago: Moody Press, 1980), 2:899.

19 L. Koehler, W. Baumgartner, e J. J. Stamm, The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament, 5 vols. (Leiden: Brill, 1999), 4:1384; Mordechai Ben-Asher, “The Gender of Nouns in Biblical Hebrew,” Semitics 6 (Pretoria,1978): 9.

20 Ford, For the Sake of the Gospel, p. 57.

21 Ibid.

22 Shea, p. 91. Ver, também, E. Kautzsch, Gesenius Hebrew Grammar, 131d (Oxford: Clarendon Press, 1910), p. 424.

23 Ver J. A. Montgomery, A Critical and Exegetical Commentary on the Book of Daniel, International Critical Commentary (Edinburgh: T. and T. Clark, 1927), p. 407. O intérprete judeu Rabino Hersh Goldwurm cita Rashi, que traduziu sheloshah shavu‘im iamim como “três semanas de dias,” e as interpretou como 21 anos (Rabbi Hersh Goldwurm, Daniel [New York: Mesorah Publications, LTD., 1979], p. 269).

24 Esta é a tradução encontrada na RSV.

25 Stephen R. Miller, Daniel, The New American Commentary (Nashville, TN: Broadman & Holman, 2001), p. 257.

26 Ver Shea, pp. 106–110, para outros exemplos.

27 O. S. Wintermute, “Jubilees: A New Translation and Introduction,” The Old Testament Pseudepigrapha, e., James H. Charlesworth, 2 vols. (Garden City, NY: Doubleday and Co. Inc., 1985), 2:43.

28 Ibid., 2:39.

29 Ibid., p. 76.

30 Sede Olam Rabbah (“A Grande Ordem do Mundo”) é uma cronologia em hebraico do 2º século, detalhando as datas dos eventos bíblicos desde a Criação até a Conquista da Pérsia por Alexandre.

31 O rabino Abraham ben Meir Ibn Ezra (1089–1164) nasceu em Tudela, Espanha. Ele foi um dos escritores judeus mais letrados e destacado da Idade Média.

32 Goldwurm, p. 259.

33 I. Epstein, The Babylonian Talmud (London: Socino Press, 1938), Yoma 9a e ‘Arakin 12b.

34 Clemente de Alexandria, Stromata 1. 21 (ANF 2:334).

35 Hipólito, Daniel 12.7 (ANF 5:190); Gleason L. Archer Jr., Jerome’s Commentary on Daniel (Grand Rapids, MI: Baker Book House Co., 1958), pp. 150–151.

36 Le Roy Edwin Froom, The Prophetic Faith of Our Fathers, 4 vols. (Washington, D.C.: Review and Herald, 1950-1954), 1:241–242.

37 Irineu, Contra Heresias 4.24.1 (ANF 1:496).

38 As Obras Existentes de Júlio Africano 3.18.4 (ANF 6:137).

39 Os donatistas eram rigorosos, defendiam que a igreja deve ser uma igreja de santos, não de pecadores, e que os sacramentos, tais como o batismo, oficiados pelos traditores (cristãos que entregaram escrituras sagradas ou traíram seus irmãos cristãos às autoridades) eram inválidos.

40 Froom, 1:471.

41 Rabbi Hillel Silver, A History of Messianic Speculations in Israel from the first through the Seventeenth Centuries (New York: The McMillan Company, 1927), pp. 55, 208.

42 Joachim, Concordia, fol. 118r; citado em Froom, 1:712–713.

43 Philipp Melanchthon, “In Danielem Prophetam Commentarius,” in Opera, vol. 13, col. 978; citado em Froom, 2:290

44 Ver Froom, 4:394–397, 404–405.

2 comentários

  1. Anônimo Responder

    O texto é muito bem escrito, ainda que um tanto incompleto. Um intérprete histórico-crítico (preterista), todavia, se perguntaria por que os argumentos da linha preterista, incluindo os argumentos sobre autoria e data da redação tardia de Daniel 7-9, entre outros itens pertinentes, tão presentes em artigos acadêmicos, foram todos deixados de fora.

    Ou seja, os elementos literários, estilísticos, históricos, arqueológicos empregados pelos intérpretes preteristas para concluir que: a narrativa de ascensão e queda dos impérios foram escritos pós evento (não sendo, portanto, evidência de princípio dia ano), são totalmente ignorados pelo escritor.

    Ademais, a linha preterista ressalta a existência de textos apocalípticos que: (a) usam a linguagem apocalíptica simbólica para narrar eventos passados como se fossem futuros preditos antes de acontecer; (b) tais textos também são atribuídos a personagens famosas na tradição israelita, tal como teria ocorrido com o livro atribuído a Daniel.

    Outro ponto que mereceria melhor fundamentação é o fato de que, por um lado, segundo o autor, (1) Daniel 4 não é capítulo apocalíptico, mas um capítulo histórico, e é precisamente por isso que os “sete tempos” não devem ser interpretados com o princípio dia-ano; por outro lado, (2) o autor empregada precisamente textos não apocalípticos para fundamentar o princípio dia-ano em textos apocalípticos como Daniel 8-9.

    Em suma, o texto é mais apologético do que exegético. Contesta objeções simplistas, equívocos linguísticos mais básicos cometidos, em geral, por escritores futuristas conservadores. Há, todavia, toneladas de publicações da linha histórico-crítica, com argumentos e demonstrações que não cometem tais erros primários, mas que não foram nem levemente tocados pelo escritor.

  2. Hugo Martins Autor do postResponder

    “Não erReis!”

    1) O objetivo do texto é defender o princípio dia-ano; não uma apologética geral de Daniel.
    2) Sobre autoria, data, elementos literários, estilísticos, históricos, arqueológicos empregados, et al., ver “O Aramaico de Daniel É Antigo ou Tardio?” (http://estudosadventistas.com.br/o-aramaico-de-daniel-antigo-ou-tardio/); “A Bíblia é Historicamente Confiável?” (http://estudosadventistas.com.br/a-biblia-e-historicamente-confiavel/); Daniel em “A Antiguidade das Escrituras: Os Escritos” (http://estudosadventistas.com.br/a-antiguidade-das-escrituras-os-escritos/). Para arqueologia bíblica, sugiro o canal do Dr. Rodrigo Silva (https://www.youtube.com/channel/UCn4M9vLHegNuqM8tnL872cA) e do programa Evidências (https://www.youtube.com/user/NTEvidencias) no YouTube.
    3) O fato de um capítulo/livro ser preponderamente histórico não quer dizer que ele não possa conter elementos escatológicos, vice-versa.
    4) A apologética do texto se vale da exegese para sua fundamentação, e não ignora outras ferramentas científicas.
    5) Quanto aos materias da linha histórico-crítica, eles perecem diante da confrontação dos fatos.

    Considerações,

    Hugo Martins

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