O Aramaico de Daniel: Antigo ou Tardio?

O Aramaico de Daniel É Antigo ou Tardio?


Gerhard Franz Hasel (1935–1994) foi professor de Teologia Bíblica e Antigo Testamento, bem como reitor, do Seminário Teológico Adventista na Andrews University. A infância de Hasel vivida na Alemanha Nazista é relatada no livro “Mil Cairão ao Teu Lado”, escrito por sua irmã mais nova Susi Hasel Mundy. Ele se casou com Hilde Schafer, que também sobreviveu a guerra, com quem teve três filhos. O Pastor Hasel morreu em um acidente de carro em Utah em 1994.


Tradução: Hugo Martins

O artigo “O Aramaico de Daniel: Antigo ou Tardio?” (Original em inglês: “Is the Aramaic of Daniel early or late?”), por Gerhard F. Hasel, fora publicado, inicialmente, em janeiro de 1980 na revista Ministry,® International Journal for Pastors, www.MinistryMagazine.org.  


O Aramaico de Daniel É Antigo ou Tardio?

O livro de Daniel partilha com o livro de Esdras o fenômeno singular de estar escrito em duas línguas semitas diferentes. O Antigo Testamento como um todo está escrito em hebraico, a língua dos antigos Israelitas. Entretanto, algumas porções—Esdras 4:8–6:18, 7:12–26 e Daniel 2:4b–7:28—estão escritas em aramaico.

O aramaico, a língua dos antigos arameus, que são mencionados pela primeira vez em textos cuneiformes do século XII A.E.C., substituiu, ao longo do tempo, diversas línguas de terras conquistadas. Do oitavo século em diante, tornou-se a língua franca do Oriente Médio. Os israelitas parecem ter aprendido aramaico durante o Exílio. Historicamente, o aramaico é dividido em vários grupos principais. Os dois que nos interessam aqui são o “aramaico oficial,”1 a língua utilizada entre 700 e 300 A.E.C., e o “aramaico médio,” usado do 300 A.E.C. até os primeiros séculos da era cristã.

O Velho Debate

As questões levantadas são: como a linguagem do livro de Daniel deve ser classificada? A língua oficial representa o “aramaico oficial,” isto é, uma espécie antiga de aramaico (sexto/quinto século A.E.C.) ou um aramaico tardio (segundo século A.E.C.)? O que isso indica no que diz respeito a data do livro?

S. R. Driver parece ter aberto o debate no ano de 1897 ao concluir sua discussão sobre a data e a natureza do aramaico de Daniel com as palavras “o hebraico suporta, e o aramaico permite, uma data após a conquista da Palestina por Alexandre O Grande (A.E.C. 332).”2 Ele foi seguido por C. C. Torrey, o crítico americano, que datou o aramaico de Daniel como do terceiro do segundo século A.E.C.,3 ou muito tarde para ter sido escrito pelo profeta Daniel, três séculos antes.

Os argumentos contra uma data tardia para o aramaico de Daniel veio estudiosos conservadores de grande reputação como R. D. Wilson, W. St. Clair Tisdall e Ch. Boutflower.4 Aqueles estudos, defendendo a antiguidade do aramaico de Daniel, construíram uma resposta àqueles estudiosos que defendiam um data tardia para o livro de Daniel, e, particularmente, para a posição, agora clássica, de H. H. Rowley.5 Como resultado da descoberta surpreendente do Papiro Elefantino do Alto Egito (que foi escrito em aramaico e datado como antigo pertencendo ao quinto século A.E.C.), F. Rosenthal, seguindo a síntese de H. H. Schaeder e uma importante afirmação de J. Linder,6 concluiu, em 1939, que a “‘evidência linguística’ antiga [para uma data tardia de Daniel] tem de ser descartada”7 após quatro décadas de pesquisa.

Nova Evidência e Novas Soluções

Em 1965, o famoso orientalista britânico K. A. Kitchen retomou novamente o problema do aramaico de Daniel em resposta às afirmações não respondidas de Rowley que escreve mais de três décadas atrás. Nesse ínterim, novos textos aramaicos foram descobertos,8 e os antigos foram estudados com mais cautela. Kitchen, examinando o vocabulário, ortografia, fonética, morfologia geral e a sintaxe do aramaico de Daniel, chegou à conclusão de que: “O aramaico de Daniel (e de Esdras) é simplesmente uma parte do aramaico imperial [oficial] em si, praticamente incapaz de se datar com qualquer convicção entre 600 e 330 A.E.C.”9 Assim, na medida em que o aramaico é examinado, não existem razões para forçar a datação do livro de Daniel no período macabeu [165– 63 A.E.C]; uma data no sexto/quinto século é completamente possível.

H. H. Rowley contestou as conclusões de Kitchen. No entanto, os criticismos de Rowley, por sua vez, analisados e refutados pelo proeminente aramaísta E. Y. Kutscher em sua perícia autoritativa da pesquisa do aramaico antigo.10 Kutscher já tivera demonstrado que a ordem terminológica do aramaico de Daniel aponta para uma origem oriental, e não ocidental como ter-se-ia de ser defendida se uma data macabeia no segundo século A.E.C. fosse ser adotada.11

O fato do aramaico de Daniel pertencer ao “aramaico oficial [imperial]” é um argumento apresentado não somente por Kitchen e Kutscher, mas, também, por diversos outros estudiosos importantes no campo de estudos em aramaico,12 mesmo que eles não possam afirmar uma data antiga para o livro de Daniel.

A aparição dos principais documentos em aramaico de Qumran tem fornecido novas evidências para mover o livro de Daniel de volta para uma data antiga. Em 1956, o documento em aramaico Apócrifo de Gênesis (I Qap Gen) fora publicado. Fundamentado em linguística e paleografia, pertence ao primeiro século A.E.C.13

P. Winter observou que o aramaico de Daniel e de Esdras é o aramaico oficial [imperial], mas o aramaico do Apócrifo de Gênesis é tardio—uma conclusão confirmada por Kutscher, e, particularmente, pelo estudioso evangélico Gleason L. Archer.14 Este último concluiu que, com base em um estudo cuidadoso da linguagem aramaica de Daniel e do Apócrifo de Gênesis, “o aramaico de Daniel provém de um período consideravelmente mais antigo do que o segundo século A.E.C.”15 Mais recentemente, ele escreveu que o resultado cumulativo da evidência linguística é que”o aramaico do Apócrifo [de Gênesis] pertence a séculos depois do que o de Daniel e o de Esdras. Doutro modo, não há qualquer evidência linguística.”16

Esta conclusão tem implicações significativas para a alegada data macabeia para o livro de Daniel. Tendo em vista os documentos em aramaico dentre os Manuscritos do Mar Morto, tem se tornado cada vez mais difícil para estudiosos críticos/liberais sustentarem uma data no segundo século para o livro de Daniel.

O Targum de Jó

A mais recente onda de choque contra uma data tardia para o livro de Daniel foi produzida pela publicação do Targum de Jó (11Q para Jó) da Caverna 11 de Qumran.17 Este documentos em aramaico preenche a lacuna (de vários séculos) entre o aramaico dos livros de Daniel e de Esdras e do aramaico tardio. Estudiosos de várias escolas de pensamento concordam que a linguagem aramaica do Targum de Jó é mais recente do que a do livro de Daniel e mais antiga do que o Apócrifo de Gênesis.18 Os editores que trabalharam no Targum de Jó dataram-no como da segunda metade do segundo século A.E.C. Em razão do aramaico do Targum de Jó ser aceito como mais tardio do que o aramaico do livro de Daniel, sua datação é importante.

Um impacto dessa onda de choque se reflete em uma tentativa de redatar todo o desenvolvimento da aramaico pós-bíblico.

Stephen A. Kaufman concluiu que “a linguagem de 11Q a Jó [Targum de Jó] difere significativamente do aramaico de Daniel.” Por conseguinte, deve haver algum tempo entre o aramaico de Daniel e o do Targum de Jó. Uma vez que Kaufman sustenta que o livro de Daniel “não pode ter chegado a sua forma final até os meados daquele [segundo] século,” ele é levado a redatar o Targum de Jó ao primeiro século A.E.C. e o Apócrifo de Gênesis ao primeiro século E.C.19 Esta redatação é sugerida baseando-se em uma data fixada para Daniel no segundo século A.E.C.

Todavia, Kitchen tem apontado corretamente que o tratamento e a datação do aramaico de Daniel tendem a ser coloridos por certas pressuposições.20 Assim, dificilmente pode se convencer que a problemática data do segundo século para Daniel é a tal âncora necessária a datação em sequencia no desenvolvimento no aramaico pós-bíblico. A tentativa de Kaufman carece de certos fundamentos.

A datação do Targum de Jó como sugerido pela evidência comparativa e sem a pressuposição de uma data do segundo século para o livro de Daniel necessita, agora, de atenção. Tem sido, recentemente, sugerido por diversos peritos em estudos em aramaico, baseando-se em comparações linguísticas cuidadosas do, aramaico de Daniel, do Apócrifo de Gênesis e de estudos em Targum, que o Targum de Jó, de fato, pertence a segunda metade do segundo século A.E.C.21 Certo perito, que deixa em aberto a data para o aramaico bíblico, argumenta, até mesmo, que o Targum de Jó pode remontar a “a segunda metade do terceiro século A.E.C. ou à primeira metade do segundo século A.E.C.”22

Se alguma porção significativa de tempo é necessária entre o Targum de Jó e universalmente reconhecido aramaico antigo do livro de Daniel, o aramaico do livro de Daniel, então, aponta para uma data mais antiga para o livro do que a escola liberal crítica tem estado disposta a admitir. Discussões em relação à data de Daniel não estão mais em impasse. Os documentos em aramaico de Qumran23 impulsionam a data da composição para um período mais antigo do que a data macabeia permite.

Conclusão

Portanto, a data alternativa para Daniel no sexto ou no quinto século A.E.C. tem mais em seu favor hoje do ponto de vista linguístico do que jamais teve antes.


Notas

1 Uma descrição de sua natureza é provida por S. A. Kaufman, The Akkadian Influences on Aramaic, Assyriological Studies, 19 (Chicago, 1974), pp. 156-160.

2 S. R. Driver, An Introduction to the Literature of the Old Testament (1897; reimpresso, New York, 1965), p. 508. (Itálicos acrescidos)

3 C. C. Torrey, “Notes on the Aramaic Part of Daniel” Transactions of the Connecticut Academyof Arts and Sciences 15 (1909), 239-282; “Stray Notes on the Aramaic of Daniel and Ezra,” JAOS43 (1923): 229-238.

4 R. D. Wilson, “The Aramaic of Daniel,” Biblical and Theological Studies (Princeton, N.J., 1912), pp. 261-306; W. St. Clair Tisdall, “The Book of Daniel, Some Linguistic Evidence Regarding Its Date,” Journal of the Transactions of the Victoria Institute of Great Britain 23 (1921), 206-245; Charles Boutflower, In and Around the Book of Daniel (London, 1923), pp. 226, 227.

5 G. R. Driver, “The Aramaic of the Book of Daniel,” JBL 45 (1926): 110-119, 323-325; W. Baumgartner, “Das Aramaische im Buche Daniel,” ZAW 45 (1927): 81-133; J. A. Montgomery, ”The Book of Daniel”, ICC (Edinburgh, 1927), pp. 15-20; R. H. Charles, A Critical and Exegetical Commentary on the Book of Daniel (Oxford, 1929), pp. 78–107; H. H. Rowley, The Aramaic of the Old Testament (Oxford, 1929).

6 H. H. Schaeder, Iranische Beitrage I (Halle Saale, 1930), pp. 199-296. J. Lidner, “Das Ara maische im Buche Daniel,” Zeitschrift fur katholische Theologie 59 (1935): 503-545, argumenta, em concordância com Schaeder, que a data do terceiro/segundo segundo século para o aramaico de Daniel não pode ser mais aceita e que não há nada contra uma data antiga para Daniel.

7 F. Rosenthal, Die Aramaistische Forschung (1939; reimpresso, Leiden, 1964), pp. 60-71, especialm. p. 70

8 Um resumo prático dos textos em aramaicos conhecidos (1970) até o terceiro século é fornecido por J. Naveh, The Development of the Aramaic Script “Proceedings of the Israeli Academy of Sciences and Humanities, V” (Jerusalem, 1970).

9 K. A. Kitchen, “The Aramaic of Daniel,” Notes on Some Problems in the Book of Daniel, ee. D. J. Wiseman et al. (London, 1965), pp. 31–79, especialm. p. 75.

10 H. H. Rowley, JSS 11 (1966): 112-116; E. Y. Kutscher, “Aramaic,” Current Trends in Linguistics 6, e. T. A. Seboek (The Hague, 1970), pp. 400-403.

11 E. Y. Kutscher, “HaAramait HaMigrait-Aramit Mizrahit hi o Maaravit?” First World Congress of Jewish Studies I (Jerusalem, 1952), pp. 123-127. As conclusões de Kitchen são aceitas por outros estudiosos importantes, tais como M. Sokoloff, The Targum of Job From Qumran Cave XI (Ramat Gan, 1974), p. 9, n. 1; G. J. Wenham, “Daniel: the Basic Issues,” Themelios 2 (1977): 50; A. R. Millard, “Daniel 1-6 and History,” Evangelical Quarterly 49 (1977): 67, 68.

12 J. J. Koopmans, Aramaische Chrestomatie I (Leiden, 1962), p. 154; F. Rosenthal, A Grammar of Biblical Aramaic, 2ª e. (Wiesbaden, 1963), p. 6: “O aramaico da Bíblia conforme escrito tem preservado o caráter do aramaico oficial.” R. J. Williams, “Energic Verbal Forms in Hebrew,” Studies in the Ancient World, ee. J. W. Wevers e D. B. Redford (Toronto, 1972), p. 78: “The Aramaic of the OT is in all essentials identical with Imperial Aramaic.” J. A. Fitzmyer, The Genesis Apocryphon: A Commentary, 2ª e. (Rome, 1971), p. 20, n. 56, 60.

13 N. Avigad e Y. Yadin, ee., A Genesis Apocryphon; a Scroll From the Wilderness of Judae (Jerusalem, 1956), especialm. p. 21. Ver, também, E. Y. Kutscher, “Dating the Language of the Genesis Apocryphon,” JBL 76 (1957): 288-292; B. Jongeling, C. J. Labuschagne e A. S. van der Woude, Aramaic Texts From Qumran (Leiden, 1976), pp. 5, 6, 78, 79; E. Y. Kutscher, “The Language of the ‘Genesis Apocryphon’, Aspects of the Dead Sea Scrolls,” Scr. Hier. 4, 2ª e. (Jerusalem, 1965), pp. 1–35.

14 P. Winter, “Das aramaische Genesis-Apokryphon,” Theologische Literatur-zeitung 4 (1957): 257-262; Kutscher, “The Language of the ‘Genesis Apocryphon’,” pp. 1-35; G. L. Archer, Jr., “The Aramaic of the ‘Genesis Apocryphon’ Compared With the Aramaic of Daniel,” New Perspectives on the Old Testament, e. J. B. Payne (Waco, Texas, 1970), pp. 160-169.

15 Archer, “The Aramaic of ‘The Genesis Apocryphon’,” p. 169.

16 G. L. Archer, “Aramaic Language,” Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible, e. M. C. Tenney (Grand Rapids, Michigan, 1975), 1:255.

17 J. P. M. van der Ploeg e A. S. van der Woude, ee., Le Targum de Job de la grotte XI de Qumran (Leiden, 1971).

18 So van der Ploeg e van der Woude, pp. 3-5, e T. Muraoka, “The Aramaic of the Old Targum of Job From Qumran Cave XI,” Journal of Jewish Studies 25 (1974): 442; S. A. Kaufman, “The Job Targum From Qumran” JAOS 93 (1973): 327; Jongeling et al., Aramaic Texts From Qumran I, p. 5.

19 Kaufman, “The Job Targum From Qumran,” pp. 327, 317.

20 Kitchen, “The Aramaic of Daniel,” p. 32.

21 Jongeling, Labuschagne e van der Woude, Aramaic Texts From Qumran, p. 6; M. Sokoloff, The Targum to Job From Qumran Cave XI (Bar Dan, 1974), p. 25.

22 Muraoka, “The Aramaic of the Old Targum of Job,” p. 442.

23 Espera-se que as recentes publicações dos fragmentos em aramaico dos livros de Enoque traga mais esclarecimentos sobre o desenvolvimento do aramaico pós-bíblico, ver J. T. Milik, The Books of Enoch: Aramaic Fragments of Qumran Cave 4 (Oxford, 1976); J. A. Fitzmyer, “Implications of the New Enoch Literature From Qumran,” Theological Studies 83 (1977): 332-345.

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