Interpretando a Besta de Apocalipse 17: Uma Sugestão

Interpretando a Besta de Apocalipse 17: Uma Sugestão



Ekkehardt Müller é diretor associado do Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral. Antes de se juntar ao instituto, o Pastor Mueller atuou como Pastor e Ministerial por mais de duas décadas. Atualmente, ele está muitíssimo envolvido em escrever artigos e lecionar aulas ao redor do mundo. Ekkehardt adora jardinagem e pintura. Boa música é também um elemento importante no lar de  Ekkehardt, sendo sua esposa Geri uma professora de música. Quando seus filhos, Eike e Eno, estão em casa, o “quarteto” está completo.


Tradução: Hugo Martins

O artigo “Interpretando a Besta de Apocalipse 17: Uma Sugestão” (Original em inglês: “Interpreting The Beast of Revelation 17: A Suggestion”), por Ekkehardt Mueller, fora publicado, inicialmente, pelo Adventist Biblical Research Institute.  Usado com permissão.


O número 666 encontrado em Apocalipse 13:18 sempre intrigou as pessoas. Há muitos anos, tem circulado uma nova sugestão que foi tratada por alguns como “nova luz” e que parecia ser atrativa para diversos membros da igreja. Propôs-se que o número 666 tivesse a ver com nomes papais. A besta marinha de Apocalipse 13 e a besta de Apocalipse 17 foram consideradas mais ou menos como o mesmo poder. Ambas foram entendidas como representando o papado. As sete cabeças da besta de Apocalipse 17 são descritas de maneira mais detalhada do que as sete cabeças da besta do mar. Portanto, o número 666 e as sete cabeças, conforme encontrados em Apocalipse 17, foram combinados para chegar a uma nova interpretação deste número enigmático. As sete cabeças estão retratadas em Apocalipse 17:9–11: “São também sete reis, dos quais cinco caíram, um existe e o outro ainda não chegou; e, quando chegar, tem de durar pouco tempo. E a besta, que era e não é mais, é também o oitavo rei, mas faz parte dos sete, e caminha para a destruição.” Aparentemente, desde 1798, apenas sete nomes papais foram usados, nomeadamente Pio (12 vezes), Leão (13 vezes), Gregório (16 vezes), Bento (14 vezes), João (supostamente 21 vezes), Paulo (6 vezes) e João Paulo (2 vezes). Ao adicionar 1+2+3+4+5+6+7+8+9+10+11+12 às doze vezes que o nome papal “Pio” foi usado ao longo da história da igreja, chega-se ao número 78 para o nome “Pio.” Para “Leão” é preciso adicionar 1+2+3+4+5+6+7+8+9+10+11+12+13, o que dá 91, porque o nome papal Leão foi usado treze vezes. Fazendo o mesmo com todos os sete nomes papais e somando os números, obtém-se o número 665. Consequentemente, João Paulo II foi considerado a sétima cabeça a receber um ferimento mortal (a tentativa de assassinato de João Paulo II) do qual se recuperou. Alegou-se que um papa ainda estaria faltando. Quando ele viesse, usaria um nome não empregado por nenhum papa antes dele e seria o anticristo e a oitava cabeça. Portanto, seu nome seria contado apenas como “um”. Isto completaria o número 666. Se o novo papa, no entanto, adotasse um nome usado anteriormente, como fez Bento XVI, ele seria um “antipapa” que seria deposto e seguido pelo verdadeiro anticristo. Tal cenário é baseado em especulação e lembra um cenário de soft time [sistema em tempo real, com tolerância a pequenos atrasos].

Existem milhares de outras propostas para Apocalipse. Sugere-se entender a sexta cabeça/rei como João Paulo II. Outra deriva do nome de Bento XVI, o número 616, que é uma leitura variante de 666. No entanto, muitos expositores — especialmente os adventistas — apontam que as cabeças/reis/montanhas representam reinos e não reis individuais. “Diz-se que as quatro bestas de Daniel 7 representam quatro reis (Daniel 7:17), quando, mais precisamente, Daniel se refere aos reinos sobre os quais eles governam.”1

I. Problemática

Antes de estudar Apocalipse 17 mais detalhadamente, algumas questões básicas devem ser respondidas: (1) Seria a besta marinha de Apocalipse 13 idêntica à besta de Apocalipse 17 ou a besta de Apocalipse 17 representa um poder diferente? (2) Qual é o quadro temporal da visão? Descreve João os eventos a partir de uma perspectiva do primeiro século E.C., ou o ponto de referência é posterior e João foi colocado lá em espírito? (3) Seria a descrição da besta em Apocalipse 17:8, “a besta que você viu era e não é mais, e está para emergir do abismo, e caminha para a destruição,” paralela à descrição dos chifres no verso 10 que diz “cinco caíram, um existe e o outro ainda não chegou,” ou esses diferentes estágios da besta não coincidem diretamente com a subdivisão das cabeças?2 (4) Como as cabeças devem ser interpretadas? Abordaremos brevemente estas questões e proporemos algumas respostas.

A besta de Apocalipse 17, bem como as cabeças, tem sido entendida de forma diferente pelos estudiosos bíblicos da Igreja Adventista. O Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia lista diversos pontos de vista, mas não é dogmático sobre nenhum deles: (1) Alguns adventistas sustentam que a fase “era” da besta representa a Roma pagã, a fase “não é” o ínterim entre a Roma pagã e a papal, e a fase “virá” a Roma papal.3 (2) “Outros equiparam o período ‘era’ com aquele representado pela besta e suas sete cabeças, o período ‘não é’ com o intervalo entre o ferimento da sétima cabeça e o renascimento da besta como ‘o oitavo’, e o período ‘ainda é’ com o renascimento da besta quando ela se torna ‘o oitavo’.”4 Neste caso, o período “era” provavelmente representaria a Roma papal e a fase “virá” para o seu renascimento após a cura da ferida mortal.

As cabeças são entendidas por alguns como “toda oposição política ao povo e à causa de Deus.”5 Outra sugestão é interpretar as cinco cabeças como as bestas de Daniel 7 mais o chifre pequeno, ou seja, os impérios desde a Babilônia até o papado, a sexta cabeça como a besta que saiu do abismo (Ap 11), ou seja, a Revolução Francesa, e a sétima cabeça como a besta que saiu da terra (Ap 13), ou seja, os Estados Unidos da América. Ainda outra proposta considera as cinco cabeças como os impérios Egito, Assíria, Babilônia, Medo-Pérsia e Grécia, a sexta cabeça como Roma pagã e a sétima como Roma papal.6 A diferença entre a segunda e a terceira visão sobre as cabeças é que na segunda visão a sexta cabeça é colocada no ano 1798 E.C., enquanto na terceira visão a sexta besta representa a época em que João viveu, ou seja, o primeiro século. Abordaremos esta questão posteriormente. A seguinte interpretação deve ser considerada uma boa possibilidade, mas não como a palavra final sobre uma das passagens mais difíceis das Escrituras.

Embora a besta do mar de Apocalipse 13 e a besta de Apocalipse 17 tenham alguns elementos comuns, também existem diferenças significativas. Elementos em comum são: Ambas têm sete cabeças e dez chifres (13:1; 17:7). A besta do mar tem uma “boca que proferia . . . blasfêmias” (Ap 13:5), enquanto a outra besta está “repleta de nomes de blasfêmia” (Ap 17:3). Ambas são poderes opostos a Deus, Jesus e aos santos (Ap 13:6–8; 17:14). As diferenças também são significativas: a besta do mar tem coroas nos chifres (Ap 13:1), a besta de Apocalipse 17 não tem nenhuma coroa. A cor da besta do mar não é mencionada, mas a cor da outra besta é escarlate (Ap 17:3). A besta do mar sai do mar (Ap 13:1), mas a besta na qual Babilônia cavalga sai do abismo (Ap 17:8). Isto sugere que essas bestas simbolizam entidades diferentes, embora compartilhem algumas características e persigam objetivos semelhantes.

II. O Abismo

Em Apocalipse, o abismo de onde sai a besta é mencionado sete vezes: (1) Em Apocalipse 9:1, a estrela caída do céu tem a chave do abismo. (2) Em Apocalipse 9:2, esta estrela abriu o abismo. (3) Em Apocalipse 9:11, o rei dos gafanhotos é o anjo do abismo chamado Apoliom. (4) Em Apocalipse 11:7 a besta que sai do abismo mata as duas testemunhas. (5) De acordo com Apocalipse 17:8, a besta sobre a qual a grande meretriz está sentada “era e não é mais, e está para emergir do abismo, e caminha para a destruição.” (6) Em Apocalipse 20:1, um anjo vem do céu com a chave do abismo. (7) Finalmente, em Apocalipse 20:3, este anjo prende Satanás por mil anos no abismo. Após este período, Satanás será libertado. Quatro dessas referências pertencem à parte histórica de Apocalipse,7 e todas aparecem na visão da trombeta (Ap 8:2–11:18).

A estrela caída mencionada em Apocalipse 9:1–2, que é capaz de abrir o abismo e trazer desastre, sofrimento e tortura, deveria ser identificada como Satanás. Em Jó 38:7, os filhos de Deus, seres celestiais, são chamados de estrelas da manhã. Uma estrela da manhã caída aparece em Isaías 14:12. Atrás do rei babilônico se dirige a alguém muito superior a ele — Satanás — a verdadeira estrela da manhã caída. De acordo com Lucas 10:18, Jesus viu Satanás caindo do céu. Em Apocalipse, as estrelas, quando usadas simbolicamente, referem-se a (1) os anjos das sete igrejas, provavelmente mestres e líderes religiosos (Ap 1:20), e (2) seres celestiais, como Jesus, a brilhante estrela da manhã (Ap 22:16), ou os anjos caídos (12:4, 9). Em Apocalipse 9:1, ouvimos falar apenas de uma estrela caída que, de acordo com Apocalipse 8:10, é uma grande estrela cujas ações provocam efeitos negativos. Parece melhor entender esta estrela como Satanás, que, de acordo com Apocalipse 12:7–9, foi expulso do céu.

Obviamente, o rei dos gafanhotos e anjo do abismo de Apocalipse 9:11, também chamado de Abadom/Apoliom ou destruidor, é a estrela caída: Satanás. Seu exército demoníaco ataca a humanidade.

Em Apocalipse 11:7, a besta que sai do abismo e mata temporariamente as duas testemunhas de Deus (o destino do AT e do NT durante a Revolução Francesa) é Satanás novamente.8 Não há razão para vincular o abismo de Apocalipse 11, parte da mesma visão da trombeta, a outra pessoa.

Contudo, com Apocalipse 20:1–3 ocorre a grande inversão. O poder de Satanás para abrir o abismo é retirado dele. Este poder foi dado a ele por Deus (Ap 9:1), que está sempre no controle. Agora o próprio Satanás está preso por um anjo e confinado ao abismo durante mil anos. Parece que Apocalipse 17:8 aponta exatamente para esta situação. A besta que “era e não é mais, e está para emergir do abismo, e caminha para a destruição” é Satanás, que foi apresentado como o grande dragão vermelho em Apocalipse 12.

Aparentemente, todas as referências ao abismo no Apocalipse têm a ver com Satanás. O termo aparece em outras duas passagens no NT. Em Romanos 10:7, o abismo pode ser o reino dos mortos. Mas, em Lucas 8:31, os demônios pedem que Jesus não os envie ao abismo. Novamente, está ligado a agências satânicas. Portanto, sugerimos entender a besta sobre a qual Babilônia está sentada como Satanás que atua por meio de poderes políticos.

III. Contexto e Quadro Temporal de Apocalipse 17

O livro de Apocalipse possui duas partes principais. A primeira parte (Ap 1–14) consiste em diversas séries históricas de eventos que vão desde o tempo de João até a consumação final. A segunda parte (Ap 15–22) trata apenas dos eventos do fim dos tempos e tem sido chamada de parte escatológica. Enquanto o dragão e a besta do mar aparecem na seção histórica de Apocalipse, a besta de Apocalipse 17 pertence à seção do tempo do fim. Portanto, as diferenças entre essas bestas são esperadas.

Apocalipse 15 e 16 contêm as sete últimas pragas. A sexta praga descreve a secagem do rio Eufrates, o rio da Babilônia, a vinda dos reis do leste, a saber, Jesus e seu exército celestial, e o Armagedom. A sétima praga descreve o juízo sobre Babilônia e o momento em que ela será dividida em três partes. De Apocalipse 17 em diante, este juízo é descrito mais detalhadamente. A conexão das pragas com os capítulos subsequentes é evidente. Em Apocalipse 17:1, um dos anjos com taça apresenta a João o juízo da meretriz Babilônia, descrito nos capítulos 17–19, enquanto o juízo sobre a besta do abismo que carrega a meretriz segue em Apocalipse 20. Outro anjo da tigela então apresenta a João a noiva do cordeiro, a Nova Jerusalém, de uma maneira mais detalhada – Apocalipse 21:9–22:6. Apocalipse 17:8–12 deve ser interpretado neste contexto.

Esboço de Apocalipse 17

  1. Narrativa: João é abordado por um dos anjos com taça (1a)

Discurso do anjo:

Discurso 1 (1b–2): Juízo sobre a meretriz.

  1. Narrativa: João é levado para o deserto (3a)

Visões:

Visão 1 (3b–5): A meretriz sobre a besta com sete cabeças e dez chifres como a mãe das meretrizes, Babilônia, a Grande.

Visão 2 (6a): A meretriz e os santos. 3.

  1. Narrativa: João se maravilha (6b)

Discurso do anjo:

Discurso 2 (7–14): A besta, as cabeças, os chifres e sua futura batalha contra o cordeiro, os fiéis.

Discurso 3 (15–18): As águas, os chifres e a batalha da besta contra a prostituta, a meretriz como a grande cidade.

Em literatura apocalíptica como Daniel, uma visão é frequentemente seguida por uma explicação (cp. Dan 7:1–15 e 7:16–28 ou Ap 1:16 e 1:20). Após um discurso angélico inicial no começo de Apocalipse 17, encontramos duas visões curtas seguidas de dois discursos mais longos. Em seu discurso inicial, o anjo promete a João que o juízo da meretriz lhe será revelado. Contudo, as próximas duas breves visões (Ap 17:3b-5 e Ap 17:6a) não se concentram no julgamento, mas apresentam a besta com sete cabeças e dez chifres. No entanto, os dois discursos angélicos seguintes não apenas explicam os poderes mencionados anteriormente, mas também elaboram o juízo mencionado no primeiro discurso angélico. Eles fornecem informações adicionais não contidas em nenhuma das duas visões. Portanto, estes discursos angélicos não são apenas uma explicação das visões, mas fornecem novos vislumbres.

As duas visões de Apocalipse 17:3b–6a retratam a mulher/meretriz e suas atividades no tempo histórico (cp. 17:4 e 14:8). Por outro lado, os discursos identificam os diferentes poderes introduzidos no início do capítulo 17 (com exceção da besta) e retratam a besta e os chifres na sua batalha final contra o cordeiro, e, na sua batalha contra a meretriz, que é o seu juízo. Os aliados da meretriz se voltarão contra ela e a destruirão. A besta também será destruída. Todos os três discursos tratam do juízo.

No que diz respeito às atividades do tempo do fim, há uma ênfase mais forte nos chifres e na besta do que nas cabeças. As cabeças não são mencionadas diretamente como envolvidas na batalha final. Isto pode indicar que as cabeças estão mais relacionadas com o fluxo da história, e talvez com a própria meretriz, enquanto os chifres em conjunto com a besta desempenham um papel importante na batalha final contra Jesus e na batalha contra a meretriz. Esses chifres chegarão ao poder no futuro e colaborarão com a besta “por uma hora.”

Duas observações adicionais são necessárias. Porém, antes de falarmos dela, apresentamos o seguinte esboço, que se foca nos discursos 2 e 3 de forma mais detalhada.

O Segundo e o Terceiro Discursos Angélicos

Segundo Discurso do Anjo (7–14):

Introdução (7)

  1. A besta (8–9a)

Que você viu

  1. As cabeças (9b–11)

As cabeças são sete montanhas e sete reis.

  1. Os chifres (12–14)

Que você viu

Os chifres são dez reis.

Terceiro Discurso do Anjo (15–18):

  1. As águas (15)

Que você viu

As águas são povos e multidões e nações e línguas.

  1. Os dez chifres e a besta (16–17)

Que você viu

  1. A meretriz (18)

Que você viu

A meretriz é a grande cidade.

A meretriz, as águas, as cabeças e os chifres são identificados. Em cada caso, a frase é usada “os/o. . . são/é. . .” A única entidade que não está diretamente identificada é a besta (Ap 17:8–9a). Há outra seção no terceiro discurso angélico que trata da besta e dos chifres, na qual falta uma identificação (Ap 17:16–17). Mas os chifres já foram explicados anteriormente. Portanto, é novamente a besta que não é explicada, embora ouçamos falar das suas atividades.

Enquanto a besta é apontada como o símbolo não explicado, as cabeças são destacadas de outra maneira. O segundo discurso trata da besta, das cabeças e dos chifres; o terceiro com as águas, os chifres e a besta, e a meretriz/mulher. Nestas seis seções, a frase “o que você viu” é aplicada cinco vezes. Aparece em todas as entidades, exceto nas cabeças. Isso pode, ou não, ser uma coincidência. Em qualquer caso, quando tentamos identificar os poderes de Apocalipse 17 em termos específicos, são as cabeças que constituem o ponto de partida. Cinco das cabeças caíram, uma está. A frase “alguém é” deve, de uma forma ou de outra, estar relacionada a João. Há um tempo específico em que João aparece e em que uma das sete cabeças também “está.” A questão então é se esta época é o primeiro século E.C., quando João viveu, ou se se refere à época dos acontecimentos que lhe foram mostrados na visão.

Assim como encontramos a frase “uma está” com as cabeças, também encontramos a expressão “não está” com a besta. A besta era e não é mais, e está para emergir do abismo. A besta é descrita de forma semelhante três vezes em Apocalipse 17:8 e 11:

Era

E NÃO É e está para emergir
do abismo E CAMINHA PARA A DESTRUIÇÃO

Era

E NÃO É e virá [NVI}

Era

E NÃO É e é um oitavo
e é dos sete E CAMINHA PARA A DESTRUIÇÃO

Como “um é” (cabeça) se refere ao tempo de João, quer no primeiro século, quer em tempo posterior em visão, a frase “não é” (besta) também poderia se relacionar a João, e, portanto, com a história. Tal conclusão é justificada? Não pensamos assim. (1) Embora ambas as frases usem o presente, é dificilmente concebível que ao mesmo tempo a besta “não é” e uma de suas cabeças “é”. (2) A besta não está identificada. Declarações relacionadas à besta retratam-na a partir de uma perspectiva do tempo do fim e apontam para o seu juízo futuro. Portanto, a frase “não é” não conecta necessariamente este período ao tempo de João. (3) A fase “não é” pode ser entendida como um desenvolvimento futuro, porque o tempo presente muitas vezes representa o futuro (ver, e.g., Ap 17:11–13; 16:15). Além disso, a frase “caminha para a destruição” na mesma frase também é usada no presente, embora seja o fim da besta. O fato da besta não estar identificada e as cabeças serem destacadas pode apontar para o fato de que a besta deve ser entendida principalmente a partir de uma perspectiva futura, ao passo que as cabeças contêm a pista para desvendar a compreensão de Apocalipse 17. (4) A segunda parte de Apocalipse 17:8 parece conectar as fases “não é/virá” da besta aos habitantes da terra. No entanto, este é apenas um desenvolvimento futuro, muito provavelmente relacionado com as últimas horas deste mundo.9 (5) Como o Livro do Apocalipse interpreta o futuro da besta saindo do abismo? Resposta: Apocalipse 20 descreve a libertação de Satanás da prisão do abismo. Em outras palavras, a fase que trata da besta saindo do abismo e sua subsequente destruição retrata eventos posteriores ao milênio. Então a fase “não é” deve ser entendida como o período do milênio. A primeira fase, descrevendo a besta como “era”, refere-se ao tempo histórico e termina com o início do milênio. É o tempo que aponta para a atividade de Satanás durante a história humana até à Segunda Vinda de Cristo. As cabeças basicamente se encaixam neste período, enquanto os chifres parecem entrar em cena apenas no final dos tempos. Contudo, o foco especial de João está no juízo, e, portanto, nos eventos que ocorrem em conjunto com e após a Segunda Vinda de Cristo.

As sete cabeças são divididas em três segmentos com uma oitava cabeça sendo acrescentada: (a) Cinco caíram, (b) uma existe, (c) uma ainda não veio e (d) a oitava é a besta. Embora seja tentador associar as fases da besta à divisão das cabeças, o texto não exige tal procedimento. Se as fases da besta e a subdivisão das sete cabeças forem entendidas como paralelas, então a fase “não é” da besta corresponderia ao período “é” das cabeças. Se seguirmos a sugestão acima relativa à besta do abismo, tal abordagem seria impossível, porque se o paralelismo fosse necessário, um rei/reino precisaria sobreviver durante o milênio, a fase durante a qual a besta “não é.” Mas isto é excluído em Apocalipse 19 e 20. Além disso, como indicado acima, como pode a besta estar no estado “não é” enquanto uma de suas cabeças existe e “é”? Não soa apenas estranho, mas também requer interpretações sofisticadas. Portanto, parece melhor não considerar as fases da besta e os segmentos das cabeças como relatos paralelos.

Uma compreensão natural de Apocalipse 17:10 — “dos quais cinco caíram, um existe e o outro ainda não chegou; e, quando chegar, tem de durar pouco tempo” — parece implicar que na época em que João escreveu o livro de Apocalipse cinco reinos haviam caído e o sexto governava. Não sabemos se João foi transportado para outra época. Obviamente, João viveu durante o período da sexta cabeça. Além disso, o livro do Apocalipse foi dirigido principalmente aos cristãos que viviam no primeiro século. Provavelmente, eles teriam entendido o versículo 10 de tal forma que a sexta cabeça se referia ao tempo em que viviam. Se presumirmos que a sexta cabeça não governava quando Apocalipse foi escrito e João foi levado para outro tempo, então não conseguimos apresentar qualquer interpretação definitiva de Apocalipse 17, porque não há como determinar em que época João foi transportado, se ele foi nos primeiros séculos E.C., na era medieval, logo após 1798, ou em uma época ainda posterior. Mas então tal profecia contendo declarações cronológicas não teria sentido. Jon Paulien declarou:

Em visão, o profeta pode viajar da terra ao céu e ir e voltar do passado até o fim do tempo. A visão não está necessariamente localizada no tempo e lugar do profeta. Mas quando a visão é posteriormente explicada ao profeta, a explicação sempre vem no tempo, no lugar e nas circunstâncias do visionário.10

De acordo com este princípio, a explicação das cabeças é crucial. Localiza a sexta cabeça no primeiro século E.C. Kenneth A. Strand escreve sobre a besta e as cabeças:

Procurar um cumprimento na história, por exemplo, para a fase “não é” da besta do capítulo 17, quando essa fase é obviamente uma visão de juízo, é ilógico. Ou tratar todo o capítulo 17 como tendo cumprimento histórico, em vez de escatológico, é perder o sentido do capítulo e de toda a segunda parte do livro do Apocalipse em que ele ocorre.

Isto não quer dizer, entretanto, que não haja absolutamente nenhuma reflexão histórica no capítulo 17. A explicação das sete cabeças e dos dez chifres, por exemplo, deve ser do ponto de vista de João na época em que escreveu. Afinal de contas, de que outra forma pode ser dada uma explicação senão em termos do que existe, mesmo que a própria visão seja da perspectiva do juízo escatológico quando a besta “não é”? Em outras palavras, embora João tenha a visão a partir da fase “não é” (juízo), as cabeças e os chifres são entidades históricas pertencentes à fase “era”.11

IV. Interpretação Sugerida

A Besta. Já sugerimos que a fase “era” da besta se refere ao tempo histórico. Durante esse tempo, Satanás esteve e está ativo através de diferentes agentes. O tempo termina com a Segunda Vinda de Jesus Cristo. Em conexão com o Segundo Advento de Cristo, Satanás está preso e confinado ao abismo. Ele entra na fase “não é.” Após o milênio, Satanás é libertado do abismo. Ele está ativo conforme descrito em Apocalipse 20. Como tal, ele é o oitavo e surge dos sete. Mas ele será julgado e destruído por Deus.

As Cabeças. Na época de João, cinco cabeças — impérios mundiais — já haviam caído e uma existia. A existente era o Império Romano. Os cinco reinos anteriores começam com o Egito e continuam com a Assíria, Babilônia, Medo-Pérsia e Grécia. Embora isto possa ser deduzido logicamente, uma vez identificado o reino existente na época de João, há informações adicionais encontradas em Apocalipse que apontam para o Egito como o primeiro império. O Egito é mencionado pelo nome em Apocalipse 11:8. Embora este Egito seja um Egito simbólico, porque diz que o Senhor foi crucificado ali, ainda nos lembra o antigo império dos faraós. É o primeiro império mencionado no Apocalipse. Além disso, Strand mostrou que as primeiras cinco trombetas e as primeiras cinco pragas são modeladas a partir das pragas egípcias. Portanto, ele fala sobre o “Tema do Êxodo do Egito” em Apocalipse.12 O Egito como império mundial foi sucedido pelos assírios. Depois deles, seguem-se os reinos conhecidos de Daniel 2, 7 e 8. A sexta cabeça seria o Império Romano e a sétima o papado.

Sexta Cabeça e Abreviação do Tempo. Diz-se que a sétima cabeça existe por “pouco [tempo].” Alguns sugeriram que isto não pode ser aplicado ao papado, porque o papado já existe há mais tempo do que vários outros reinos juntos. A palavra oligos, “pouco”, “pequeno”, “punhado”, “curto”, aparece quatro vezes no Apocalipse. Nas mensagens às sete igrejas descreve a quantidade de coisas (Ap 2:14) e pessoas (Ap 3:4), enquanto em Ap 12:12 e 17:10 se refere ao tempo. Apocalipse 12:12 é interessante porque o texto afirma que após a derrota de Satanás na batalha com Miguel, “o diabo desceu até vocês, cheio de fúria, sabendo que pouco tempo lhe resta.” Este “pouco tempo” começou com a cruz de Cristo e ainda continua consistindo, entretanto, em cerca de dois milênios.

O período expresso pelos oligos depende daquele com o qual é comparado. Em Apocalipse 12:12, oligos define o período desde a expulsão de Satanás, no momento da crucificação de Cristo, até o fim da tirania de Satanás sobre os habitantes da terra. Este período de tempo é descrito como oligos em comparação com os mais de 4.000 anos anteriores à crucificação.13

Portanto, o “pouco [tempo]” da sétima cabeça não exclui o papado como o cumprimento da sétima cabeça.

Dez Chifres. Os dez chifres são poderes políticos durante o tempo da sétima cabeça que apoiará a besta (Ap 17:13). “As nações da terra, representadas pelos dez chifres, pretendem aqui se aliar à ‘besta’ . . . forçando os habitantes da terra a beber o ‘vinho’ de Babilônia . . ., isto é, unir o mundo sob o controle dela e destruir todos os que se recusarem a cooperar . . . ”14

Um diagrama. O diagrama encontrado no final deste artigo é adaptado de K. Strand.15 Sumariza a nossa discussão e ajuda-nos a ver as relações entre as diferentes fases e entidades da visão.

Sumário

Sugerimos que: (1) As sete cabeças da besta parecem representar reinos e não reis individuais. Esses reinos são o Egito, a Assíria, a Babilônia, a Medo-Pérsia, a Grécia, Roma e o Papado. (2) As bestas em Apocalipse 12, 13 e 17 não representam exatamente o mesmo poder. A besta de Apocalipse 17 é Satanás operando através de poderes políticos. Ele está ativo ao longo da história humana. (3) As fases da besta e a subdivisão das cabeças não são diretamente paralelas. Considerando que as fases da besta representam o tempo histórico, o tempo durante o milênio e o tempo após o milênio, as cabeças devem ser todas colocadas no tempo histórico. A sexta cabeça já parece se referir à época de João, ou seja, ao primeiro século E.C.16

Como mencionado anteriormente, a interpretação apresentada aqui é uma opção viável e segue os princípios de interpretação encontrados nas próprias Escrituras. Existem outras possibilidades para lidar com esta passagem difícil que podem ter algum mérito. Contudo, a interpretação fantasiosa na introdução deste artigo, bem como outras semelhantes, deve ser rejeitada. Elas são absolutamente arbitrárias e completamente subjetivas. Eles sobrepõem ideias ao texto bíblico que não aparecem nas Escrituras.

Embora Apocalipse 17 descreva poderes malignos bastante ativos, Deus ainda está no controle. Ele traz juízo sobre os inimigos do seu povo e liberta os seus santos de todas as perplexidades e perseguições. “Lutarão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis; serão vencedores também os chamados, eleitos e fiéis que estão com o Cordeiro” (Ap 17:14).

A Besta de Apocalipse 17

Era Histórica

 

 

 

{

1ª Cabeça
2ª Cabeça
“Cinco caíram” 3ª Cabeça
4ª Cabeça
5ª Cabeça
“ERA”

“É”

{

6ª Cabeça Tempo de João
“Outro ainda não chegou”

{

7ª Cabeça 10 chifres concorrentes

Era Escatológica

“NÃO É” “Abismo Sem Fundo” (Milênio)
“AINDA É” 8ª Cabeça
“Caminha para a Destruição” “Perdição”

Notas

1 George E. Ladd, A Commentary on the Revelation of John (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1972), pp. 227–228.

2 A fase “era” da besta seria paralela a “cinco caíram;” a fase “não é” da besta seria paralela a “é” das cabeças; e a fase “virá” da besta corresponderia a “a outra ainda não veio.”

3 See Francis D. Nichol, e., The Seventh-day Adventist Bible Commentary (Washington: Review and Herald, 1957), 7:853.

4 Ibid.

5 Ibid., 7:854.

6 Ibid., 7:854–856.

7 A parte histórica do Apocalipse termina no capítulo 14.

8 Ekkehardt Mueller, “As Duas Testemunhas de Apocalipse 11,” Estudos Adventistas, https://estudosadventistas.com.br/as-duas-testemunhas-de-apocalipse-11/, acessado em 27/08/2026.

9 Eles ficarão admirados — tempo futuro (Ap 17:8).

10 Jon Paulien, “The Hermeneutics of Biblical Apocalyptic,” artigo não publicado, 2004, p. 25.

11 Kenneth A. Strand, Interpreting the Book of Revelation: Hermeneutical guidelines, with Brief Introduction to Literary Analysis (Worthington, OH: Ann Arbor Publishers, 1979), pp. 54–55.

12 Cp., K. A. Strand, “‘Victorius-Introduction’ Scenes” em Symposium on Revelation: Introductory and exegetical Studies, Livro 1, Daniel and Revelation Committee Series, edited by F. B. Holbrook (Silver Spring: Biblical Researsch Institute, General Conference of Seventh-day Adventists, 1992), p. 67.

13 Nicol, 7:811.

14 Ibid., 7:857.

15 Strand, Interpreting the Book of Revelation, p. 56.

16 De acordo com Apocalipse 17:16, a besta e os chifres se voltarão contra a meretriz, a atacarão e destruirão. Neste contexto, as cabeças não são mencionadas, apenas a besta e os chifres. Se as cabeças são em sua maioria entidades passadas — como sugerido acima — isso faz todo o sentido.

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