“Espírito de Profecia” (Ap 19:10) à Luz do Judaísmo do Segundo Templo

Espírito de Profecia” (Ap 19:10) à Luz do Judaísmo do Segundo Templo


Davidson atua como Professor de Estudos do Novo Testamento e Chefe do Departamento de Estudos Bíblico-Teológicos da Universidade Adventista da África, em Nairóbi, Quênia. Ele possui doutorado em Religião (NT) pelo Instituto Internacional Adventista de Estudos Avançados, nas Filipinas. Publicou diversos capítulos de livros, artigos em periódicos com revisão por pares e escreveu/editou quatro livros. 


Tradução: Hugo Martins

“Espírito de Profecia” (Ap 19:10) à Luz do Judaísmo do Segundo Templo” (Original em Inglês: The “Spirit of Prophecy” (Rev 19:10) in the Light of Second Temple Jewish Usage) foi primeiramente publicado no Journal of the Adventist Theological Society da ATS (Adventist Theological Society [Sociedade Teológica Adventista]) em 2020. Usado sem permissão.


Introdução

A frase “espírito de profecia” ocorre apenas uma vez em todo o Novo Testamento, em Apocalipse 19:10. Parece significar que o dom profético ainda se manifestava na época do Novo Testamento e nos dias da igreja primitiva. Mas como podemos compreender a tradição judaica através de diversas declarações da literatura judaica de que a profecia cessou antes? Seriam úteis a compreensão e o uso do “espírito de profecia” dentro do judaísmo ao interpretarmos e aplicarmos o “espírito de profecia” no livro de Apocalipse?1

Neste estudo, pretendo realizar uma investigação histórico-literária e exegética sobre o termo “espírito de profecia”, a fim de poder apresentar evidências do uso e da compreensão da expressão “espírito de profecia.” Procedendo assim, o estudo confirmará ou negará a existência continuada da profecia durante o período intertestamentário e o Novo Testamento.

Profecia na Tradição Judaica

Declínio da Profecia Durante o Período do Segundo Templo

Na tradição judaica, a profecia está intimamente associada ao Espírito. Às vezes, o Espírito Santo é identificado com o espírito de profecia.2 Na verdade, havia uma forte ênfase na profecia inspirada pelo Espírito.3

Segundo a tradição judaica, a profecia “cessou” por causa do pecado de Israel (cp. Zc 13:2–6). A sua “cessação” está ligada à saída da presença [Shekinah] do templo, que pressagia a sua condenação e destruição, identificando, portanto, Jeremias como o último dos profetas (Pesikta Rab Kahana 13:14).4 Em outro lugar, é relatado que o Espírito Santo cessou após Malaquias. Tosefta, Sotah 13:2, diz:

“Quando Ageu, Zacarias e Malaquias (o último dos profetas) morreram, o Espírito Santo cessou em [de] Israel.”5 A ausência do Espírito Santo no Segundo Templo também é mencionada no Talmude Babilônico Yoma 21a. Sem surpresa alguma, a cessação dos profetas veio junto com a partida do Espírito Santo. Em razão disto, o autor dos Macabeus lamenta que “por isso houve grande angústia em Israel, como nunca houve desde o tempo em que os profetas deixaram de aparecer entre eles” (1 Mac 9:27).

No entanto, parece claro que a cessação não implica desaparecimento completo. Como Yoma 21a observa, embora o Espírito Santo tenha partido, os judeus ainda usufruíam do Bath Kol, um termo para uma voz do Céu.6 Assim, Tosefta Sotah 13:3-4 assegura ainda:

“Quando Ageu, Zacarias e Malaquias (o último dos profetas) morreram, o Espírito Santo cessou em [de] Israel.” No entanto, um Bath Qol foi ouvido por eles: “Aconteceu uma vez que os sábios entraram numa casa em Jericó e ouviram um Bath Qol, dizendo: ‘Há um homem aqui que é digno do Espírito Santo, mas não há ninguém justo em sua geração.’ Então, eles voltaram seus olhos para Hillel.” Em outras palavras, houve ausência de profetas durante uma época. Isto é evidente em 1 Macabeus 4:46, “e [os Macabeus] armazenaram as pedras em um lugar conveniente na colina do templo até que um profeta viesse dizer o que fazer com elas.” Então, em Macabeus 14:41, “Os judeus e seus sacerdotes decidiram que Simão deveria ser o líder e sumo sacerdote deles para sempre, até que um profeta confiável surgisse.” O autor dos Macabeus provavelmente afirma que, na época posterior à morte de Judas Macabeu, “a profecia é coisa do passado, talvez do futuro, mas não do presente.”7

A declaração de Josefo sobre a ausência de uma sucessão exata de profetas após Artaxerxes pode ser igualmente interpretada da mesma forma: É verdade que nossa história tem sido escrita desde Artaxerxes de forma muito criteriosa, mas não tem gozado de semelhante autoridade com os antigos escritos de nossos antepassados porque não tem havido uma sucessão de profetas desde esse tempo” (Josefo, Contra Apião, 1.41). Na verdade, textos bíblicos, como Salmos 74:4, afirmam que houve momentos em que se dizia não haver profetas. Sabedoria de Salomão 7:27 vai além, ao afirmar que haveria profetas em cada geração: “Embora seja uma só, ela pode fazer todas as coisas e, permanecendo em si mesma, renova todas as coisas; em cada geração ela passa a ser alma santa e as torna amigas de Deus e profetas.”8

Jassen corretamente conclui que “a identificação de tradições proféticas contínuas no período do Judaísmo do Segundo Templo pressupõe que a profecia clássica representada na Bíblia Hebraica nunca desapareceu completamente. Estudiosos há muito tempo debatem a questão da atenuação da profecia no período pós-bíblico.”9 A diversidade no judaísmo deve ser levada em consideração quando falamos sobre a cessação ou o desaparecimento da profecia. Essa diversidade tem a ver com as diversas formas de judaísmo e períodos rabínicos, refletindo, assim, um amplo espectro de piedade religiosa.10

Espírito de Profecia” nos Targumim

Bruce D. Chilton enfatiza a importância dos Targumim para o estudo do Novo Testamento.11 Ele afirma apropriadamente que a teologia cristã compartilha suas origens com o judaísmo primitivo. Portanto, não pode ser totalmente apreciado sem referência à sua matriz.12 A frase “Espírito de profecia” [rûaḥ něbû’â]13 ocorre frequentemente nos Targumim, que caracteristicamente associam o Espírito à profecia.14 Targum Isaías 61:1 diz: “O profeta disse: um espírito de profecia diante do Senhor está sobre mim.”15 No Targum Onqelos em Gênesis 41:38, diz-se que Faraó encontrou apenas em José um homem possuidor do “espírito de profecia,” obviamente se referindo à inspiração divina a José quando este aconselhou os egípcios a armazenar grãos por causa da fome que se aproximava sobre a terra.16 No Targum Pseudo-Jônatas, em Números 24:2, é relatado que Balaão ergueu os olhos e viu os israelitas, “então o Espírito de profecia de diante do Senhor repousou sobre ele.”17 É digno de nota que no Targum Pseudo-Jônatas em Números 11:25, 26, 29, Ernest G. Clarke traduz a mesma frase targúmica rûaḥ něbû’â como “espírito profético,” lendo:

“e ele [Deus] aumentou um pouco do espírito profético (rûaḥ něbû’â) que estava sobre ele, mas Moisés, a quem não faltava, deu-o aos setenta homens, os anciãos. E aconteceu que quando o espírito profético (rûaḥ něbû’â) repousou sobre eles, [então] profetizaram sem cessar.”18

Estas declarações dos Targumim indicam que o NT pode compartilhar o mesmo uso e entendimento da frase. É igualmente importante afirmar que estas ocorrências descrevem o papel do Espírito que move/inspira uma pessoa a profetizar, tornando-a, portanto, um profeta com uma mensagem particular para um público específico.

Profecia na Comunidade de Qumran

Um estudo sobre profecia na comunidade de Qumran realizado por Alex Jassen, em seu artigo “Prophets and Prophecy in the Qumran community” [“Profetas e Profecia na comunidade de Qumran”], argumenta que a profecia nunca cessou na comunidade de Qumran.19 A comunidade de Qumran se via como herdeira da antiga tradição profética.20 Jassen analisou a linguagem profética explícita nos Manuscritos do Mar Morto, isto é, o hino na coluna 12 do Hodayot (1QHa 12:5–13:4):21 “Você se revelou para mim” (12:6, 23). Barstad vai além ao afirmar que Qumran estava saturada de profecias.22

Espírito de Profecia” na Literatura Pseudepigráfica

O “espírito de profecia” é manifestado através de Jacó abençoando Levi e Judá. Como diz Jubileus 31:12: “E um espírito de profecia desceu sobre sua boca. E tomou ele a Levi com a mão direita e Judá com a esquerda.”23 Diz-se que até mesmo Rebeca tinha o “espírito de verdade,”24 outra frase semelhantemente sem dúvidas ao “espírito de profecia.” Jubileus 25:14 diz “e, naquele momento, quando um espírito de verdade desceu sobre sua boca, ela colocou as duas mãos sobre a cabeça de Jacó e disse . . .”25 Em outro caso, o “espírito da verdade” é contrastado com o “espírito do erro” (Testamento de Judá 20:1). Curiosamente, Testamento de Judá 20:5 prossegue afirmando que o “espírito da verdade” testifica de todas as coisas e traz todas as acusações, fornecendo um paralelo notável com a declaração de Jesus em João 16:8: “e quando Ele [o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado.”

Testemunho de Filo

A frase to pneuma tēs prophēteias (ou to pneuma prophētikon) não é encontrada em Filo. No entanto, Filo afirma que Moisés anunciou o sábado através de “inspiração enviada por Deus” (theophorētheis, A Vida de Moisés 2.264,26 é surpreendentemente próximo de 2 Timóteo 3:16, theopneustos). Philo continua conectando a profecia sob a orientação do Espírito em A Vida de Moisés 2.265: “Não preciso dizer que conjecturas desse tipo estão intimamente semelhantes às profecias. Pois a mente não poderia ter traçado um objetivo tão direto se não houvesse também o espírito divino a guiando para a verdade [ei mē kai theion ēn pneuma to podēgetoun pros autēn tēn alētheian],” o que também é um notável paralelo com a declaração de Pedro em 2 Pedro 2:21–21.

Profecia em Josefo

Louis H. Feldman, no seu artigo, “Prophets and Prophecy in Josephus” [“Profetas e Profecias em Josefo”], tenta responder à pergunta “como é que Josefo explica a aparente discrepância entre a visão de que a profecia tinha cessado com a destruição do Primeiro Templo e o fato de que aparentemente continuou até aos seus próprios dias?”27 Vale a pena citar a declaração de Josefo sobre a cessação da sucessão de profetas após Artaxerxes em Contra Apião 1.41:

“É verdade que nossa história foi escrita desde Artaxerxes de maneira muito particular, mas não foi estimada com a mesma autoridade da primeira por nossos antepassados, porque não houve uma sucessão exata de profetas [dia to mē genesthai tēn tōn profhētōn akribē diadochēn] desde aquela época.”

Na opinião de Feldman, Josefo “não fala da cessação da profecia como tal, mas sim do fracasso da sucessão exata dos profetas . . . portanto, a declaração daqueles que afirmavam ser profetas depois disso [isto é, depois do tempo de Artaxerxes] não tinha mais a mesma autoridade assegurada.”28 Em outras palavras, para Josefo, apenas os profetas bíblicos escreveram livros canônicos, outros profetas não escreveram e não foram capazes de fazê-lo.29 Pela sua declaração em Contra Apião, Josefo afirma o encerramento do cânone,30 ao mesmo tempo que reconhece a continuação da profecia. Ele claramente usa “profecia” vagamente.31 Assim, Deus concedeu a João Hircano o dom de profecia (Guerra 1.68–69; Ant. 13.299–300). Josefo, em seu papel de historiador, considerava-se um profeta (Guerra 1.18), um profeta semelhante a Jeremias (Guerra 5.391–393) e um preditor com uma certa mensagem de Deus (Guerra 3.399–440). Em outra passagem, Josefo relata possíveis casos de profecia e profetas, um dos quais foi Jesus, filho de Ananus.32 Esses profetas se assemelhavam muito aos profetas bíblicos e eram considerados genuínos por milhares de pessoas.33

Profetas e Profecias na Tradição Rabínica Primitiva

A observação de Sommer, de que “as alegações de que existia comportamento profético entre os rabinos são enganosas,”34 necessita de uma avaliação mais aprofundada. Na verdade, os rabinos aparentemente proferiram exatamente o oposto. R. Abdimi “desde o dia em que o Templo foi destruído, o dom profético foi tirado dos profetas e dado aos sábios,” e Amemar admite a superioridade de um sábio em comparação a um profeta por causa da sabedoria que o sábio possui (Baba Batra 12a). Parece, então, que os sábios afirmavam algo desse tipo.35 Neste sentido, Konsmo observa que “os rabinos acreditavam que o ofício profético lhes havia sido concedido, pelo menos em parte.”36 Às vezes, tal atividade profética incluía até mesmo a capacidade sobrenatural de predição.37 Neste sentido, Rabino Johannan b. Zakkai disse ter predito que Vespasiano seria imperador (b. Gittin 56a–b).38

A afirmação parece estar de acordo com o relato de Tosefta, Sotah 13:3–4: “No entanto, um Bath Qol foi ouvido por eles: “aconteceu uma vez que os sábios entraram numa casa em Jericó e ouviram um Bath Qol, dizendo: ‘Há um homem aqui que é digno do Espírito Santo, mas não há ninguém justo em sua geração.’ Então, eles voltaram seus olhos para Hillel.”39 Hillel era digno de garantir o retorno do Espírito Santo.40 Claro que isso não poderia acontecer nem mesmo com Hillel, por causa dos pecados persistentes de sua geração.

Mas com Bath Qol percebido como uma forma menor de profecia, e o Bath Qol aparentemente a seu favor, a batalha pela autoridade religiosa parece ter estado do lado de Hillel, e, posteriormente, de sua escola. “Rabino Abba disse que Shmuel disse: Durante três anos Beit [casa de] Shammai e Beit [casa de] Hillel discordaram. Uma disse: A halakhah está de acordo com a nossa opinião; a outra disse: A halakhah está de acordo com a nossa opinião. Por fim, uma Voz Divina [Bath Qol] emergiu e proclamou: A duas são as palavras do Deus vivo. No entanto, a halakhah está de acordo com a opinião de Beit Hillel” (Erub. 13b). Tal pronunciamento apoia a reivindicação de alguma fonte de autoridade profética na opinião da escola de Hillel.

Em outros lugares, um reconhecimento ou reivindicação de profecia é atestado. Por exemplo, o Rabino Johannan afirma “se alguém se levanta cedo e um verso das Escrituras chega à sua boca, isso é uma espécie de profecia menor” (Berak. 55b). Tobias 4:12 liga os judeus aos profetas, “nós somos os filhos dos profetas,” uma declaração reiterada no Talmude, “se eles [os judeus] não são profetas, ainda assim são filhos dos profetas” (Pesah. 66a). Líderes religiosos judeus puderam se identificar quando Pedro lhes disse na pregação dele: “Vocês são os filhos dos profetas” (At 3:25).

A tradição judaica estabeleceu em quarenta e oito o número de profetas que escreveram suas profecias, desde que suas profecias estivessem de acordo com a Torá de Moisés, e apenas as profecias exigidas para as gerações subsequentes fossem escritas:41

Não houve mais profetas além desses [quarenta e oito]?—Não está escrito: Como houve um homem de Ramataim-Zofim, [que interpretamos], um dos duzentos profetas [zofim] que profetizaram a Israel?—Na verdade, havia muitos, como foi ensinado, ‘Muitos profetas surgiram para Israel, o dobro do número de [os israelitas] que saíram do Egito’, apenas a profecia que continha uma lição para as gerações futuras foi escrita, e aquela que não continha tal lição não foi escrita (Meguillah 14a).

Então, como explicamos a afirmação profética dos sábios? Pelo menos, como Sommer diz, a afirmação profética era uma “transformação da profecia que resultou no fim das formas de comunicação divina encontradas na Bíblia Hebraica.”42 Ou seja, a transformação foi feita na forma de exegese/interpretação das Escrituras.43 Embora reivindicassem o manto profético, os sábios reduziram os profetas a pregadores e exegetas.44 Sendo provavelmente esse o caso, podemos compreender a visão favorável da escola de Hillel em questões de exegese bíblica.

Além disso, não devemos deixar de falar sobre a escatologia judaica em relação à profecia no Período do Segundo Templo. Os judeus aguardavam com expectativa uma renovação da profecia na era messiânica, quando o redentor chegasse.45 A atmosfera em Israel mudaria na era futura.46 A profecia de Joel 2:28 desempenhou claramente um papel fundamental na concepção dessa visão:

O Santo, bendito seja Ele, disse: “Neste mundo [apenas] indivíduos profetizaram, mas no mundo vindouro todos em Israel se tornarão profetas.” É assim afirmado (em Joel 3:1): “E acontecerá depois que derramarei o meu espírito sobre toda a carne, para que vossos filhos, e vossas filhas, e os mais velhos profetizem, etc” (Números, Rabbah 15:15).

A restauração profética (Joel 2:28) está igualmente ligada ao ministério do Elias que retornou (Ml 4:5).47 O cumprimento foi confirmado e fortemente pregado por Pedro em Atos 2. Como Daniel J. Treier afirma corretamente: “A tradição rabínica também interpretou Joel 2 escatologicamente como Pedro fez.”48 Na verdade, Pedro afirma que a interpretação escatológica rabínica não estava errada ao acrescentar “Vocês são os filhos dos profetas” (At 3:25). O que diferencia Pedro da visão rabínica é que Pedro a viu cumprida em seus dias.

Sumário: Profecia depois dos Profetas

Com base na análise anterior sobre a visão judaica da profecia: “afirmar que a profecia terminou . . . serve apenas para marcar uma distinção no status profético. Embora a profecia não cesse, ela é transformada a tal ponto que os escritos proféticos posteriores são impróprios para inclusão na história sagrada.”49 Como diz George Robinson, a profecia antecede os homens que consideramos profetas.50 Tanto os judeus como os primeiros cristãos acreditavam na restauração escatológica da profecia. A diferença é que os cristãos primitivos viram o seu cumprimento real no dia de Pentecostes.

Testemunho de Jesus e do Espírito de Profecia em Apocalipse

A discussão anterior demonstra claramente que a frase “espírito de profecia” era comumente usada na época do NT e não era desconhecida por ele. Tendo isso em mente, estamos agora prontos para lidar com o uso e a compreensão das frases “testemunho de Jesus” e “espírito de profecia” em Apocalipse 19:10.

Testemunho de Jesus

O que esta frase significa? A expressão “testemunho de Jesus” (marturia Iesou) ocorre seis vezes no livro de Apocalipse (1:2, 9; 12:17; 19:10 [duas vezes]; 20:4). Duas explicações gramaticalmente possíveis sobre o seu significado foram apresentadas. “Aquele que tem o espírito de profecia testemunhará de Jesus” ou “Aquele que tem o testemunho de Jesus profetizará”?51 A primeira visão trata marturia Iēsou como um genitivo objetivo e interpreta isto como o testemunho do homem a Cristo.52 Para sua visão genitiva objetiva, Aune encontra apoio em Apocalipse 6:9; 11:7; 12:11 e 17:6, que segundo ele, “enfatiza inequivocamente que o testemunho é prestado pelos cristãos, presumivelmente sobre Jesus e explicitamente sobre Jesus em 17:6.”53

Mas Pfandl reage:

Um estudo da palavra marturia na literatura joanina, onde ocorre 21 vezes, indica que ela é usada 14 vezes numa construção genitiva que é claramente subjetiva (e.g. João 1:19; 3:11, 32, 33; 5:31; etc). A ideia objetiva de “testemunho sobre” ou “testemunho a” nos escritos de João é, consistentemente, expressada pela preposição peri (sobre, a respeito de) com o verbo martureō (testemunhar, testificar). Ele nunca usa o substantivo marturia (testemunhar, testificar) como uma construção genitiva, objetiva, por si. Por exemplo, João 1:7, “Testemunhar da luz” [martureō + peri]; 5:31, “Se eu testemunhar de mim mesmo” [martureō + peri]; 1 João 5:9, “Ele testemunhou de seu Filho” [martureō + peri].54

A segunda visão entende marturia Iēsou como um genitivo subjetivo, o testemunho de Jesus é a sua autorrevelação, ou seja, o seu próprio testemunho.55 Neste sentido, a frase está ligada ao “espírito de profecia”.

Espírito de Profecia

Pela declaração de Paulo em 1 Coríntios 12:8-10, é o Espírito Santo quem concede o dom de profecia a um profeta. Em outras palavras, profeta é aquele que tem o dom de profecia. Além disso, os paralelos entre Apocalipse 19:10 (“Sou um servo de Deus, assim como são você e os seus irmãos que guardam o testemunho de Jesus. Adore a Deus! Pois o testemunho de Jesus é o espírito da profecia” e Apocalipse 22:8, 9 (“Sou um servo de Deus, assim como são você e os seus irmãos, os profetas”), indicam claramente que (1) o testemunho de Jesus é o espírito de profecia, e (2) um profeta é aquele que tem o espírito de profecia.

Comentando particularmente sobre pneuma tēs prophēteias, Aune esclarece a frase e sugere que “o Espírito é caracterizado principalmente por manifestações proféticas, . . . provavelmente devendo ser entendido como ‘o Espírito profético,’ ou seja, o poder que permite que certos indivíduos tenham experiências visionárias e lhes concede vislumbres reveladores não disponíveis para pessoas comuns.”56 Nisto, to pneuma tēs profhēteias, como prophētikon pneuma “espírito profético,” denota a atividade/papel do Espírito em inspirar e mover certos indivíduos, então reconhecidos como profetas. Pedro provavelmente tem esta noção em mente em 2 Pedro 1:21: “porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” A versão armênia diz “pois o testemunho de Jesus é o Espírito Santo que está nos profetas.”57

Assim, a síntese de que aquele que tem o espírito de profecia transmitirá o testemunho do próprio Jesus58 pode ser explicada ainda em três pontos inter-relacionados:

  1. “A mensagem atestada por Jesus é ‘o espírito de profecia’.”59

  1. O “espírito de profecia” é entendido pelos leitores de João em termos do Espírito Santo que inspirou toda a profecia, através dos profetas.60 Em outras palavras, equivale a “profecia inspirada pelo Espírito.”61

  1. “O testemunho dado por Jesus é a substância daquilo que o Espírito inspira os profetas cristãos a falar.”62

Conclusão

Reconhecendo que os profetas ocupam um lugar de destaque na visão que o escritor tinha da igreja, João identifica-se com os profetas (22:9). Juntamente com os apóstolos, os profetas são instruídos a se alegrarem (18:20). Tanto o sangue dos santos quanto [o sangue] dos profetas são vingados (16:6), e a recompensa é dada a eles (11:18).63

A compreensão do “espírito de profecia” no livro do Apocalipse não é diferente da sua compreensão durante o Judaísmo do Segundo Templo. Bauckam reafirma o que vimos até agora, que, por volta dos tempos do NT, o Espírito é conhecido especialmente como o espírito de profecia, o Espírito que fala através dos profetas.64 Tanto na igreja cristã quanto na sinagoga judaica, o espírito profético, ou espírito de profecia, foi expresso nas palavras de indivíduos encarregados do dom de profecia.65


Notas

1 Macabeus 9:27 lamenta que na época dos Macabeus do século II A.E.C., os profetas deixaram de aparecer entre eles (aph’ hēs hēmeras ouk ōphthē profhētēs autois). Outra tradição rabínica de Tosefta afirma que Ageu, Zacarias e Malaquias foram os últimos dos profetas e o Espírito Santo cessou (Sotah 13:2–4).

2 Joseph Jacobs and Ludwig Blau, “Holy Spirit,” https://www.jewishencyclopedia.com/articles/7833-holy-spirit. É claro que os rabinos reconheceram que “eles [o Espírito Santo e o espírito de profecia] não eram a mesma coisa. Em alguns lugares eles são explicitamente diferenciados” (Frederick E. Greenspahn, “Why Prophecy Ceased,” Journal of Biblical Literature 108/1 [1989], p. 44). Por exemplo, no Targum Isaías 41:13, “quem estabeleceu o espírito santo na boca de todos os profetas, não é o Senhor?”, eles estão relacionados, mas a relação é claramente mais causa e efeito do que identidade (ibid).

3 G. K. Beale, “The Book of Revelation,” New International Greek Testament Commentary (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1999), p. 678.

4 A declaração midrashic é de https://www.sefaria.org/Pesikta_DeRav_Kahana.13?lang=bi. A afirmação é confirmada por Julius Wellhausen, Prolegomena to the History of Ancient Israel (New York: Meridian, 1957), pp. 403–404, citando a reclamação de Lamentações 2:9 de que após a destruição do templo, os profetas não encontraram nenhuma visão do Senhor; ver, também, Greenspahn, p. 38.

5 Paralelos desta afirmação são encontrados em outros lugares (Sanh 11a; Yoma 21b), atestando sua noção e aceitação generalizadas.

6 Literalmente, filha da voz, portanto, “voz pequena,” provavelmente comparada à força total do Espírito Santo.

7 Benjamin D. Sommer, “Did Prophecy Cease? Evaluating a Reevaluation,” Journal of Biblical Literature 115/1 (1996), p. 32.

8 Cp. Philo, Quis Rerum Divinarum Heres, p. 259.

9 Alex P. Jassen, Mediating the Divine: Prophecy and Revelation in the Dead Sea Scrolls and Second Temple Judaism (Leiden; Boston: Brill, 2007), p. 11.

10 Alex Jassen, “Prophets and Prophecy in the Qumran Community,” Association of Jewish Studies Review 32/2 (2008), p. 299.

11 Bruce D. Chilton, The Isaiah Targum: Introduction, Translation and Notes (Collegeville, MN: The Liturgical Press, 1987), xxv-xxviii.

12 Ibid., xxvii.

13 Para essas referências, a Bíblia Hebraica simplesmente tem rûaḥ.

14 J. R. Levinson, “Holy Spirit,” Dictionary of the New Testament Backgrounds, ee. Craig A. Evans e Stanley Porter (Downers Grove, IL: IVP Academics, 2000), p. 510. Isto é verdade tanto para Targumim Onqelos quanto para Pseudo-Jônatas. Em Pseudo-Jônatas, “espírito de profecia” ocorre onze vezes (ibid.).

15 A tradução é de Chilton, Targum Isaías.

16 A tradução é de Bernard Grossfeld, The Targum Onqelos to Genesis (Collegeville, MN: Liturgical Press, 1988).

17 A tradução é de Ernest G. Clarke, Targum Pseudo-Jonathan: Numbers (Collegeville, MN: Liturgical Press, 1995). Ver, também, sobre Números 27:18.

18 Ibid.

19 Jassen, “Prophets and Prophecy in the Qumran Community,” pp. 299–334.

20 Jassen, Mediating the Divine, p. 6.

21 Jassen, “Prophets and Prophecy in the Qumran Community,” pp. 311–318.

22 Hans Barstad, “Prophecy at Qumran?” em In the Last Days: On Jewish and Christian Apocalyptic and its Period, ee. K. Jeppsen, K. Nielsen, e B. Rosendal (Aarhus: Aarhus University Press, 1996), p. 104, citado por Jassen, p. 2.

23 Salvo indicação contrária, o texto pseudoepigráfico usado neste artigo é de James H. Charlesworth, e., The Old Testament Pseudepigrapha (Garden City, NY: Doubleday, 1985). R. H. Charles, Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament in English (Oxford: Clarendon, 1913), também tem “o Espírito de profecia” para Jubileus 31:12.

24 A frase “espírito da verdade” era bem conhecida no antigo judaísmo, como demonstrado pelos seus múltiplos atestados. Por exemplo, João 16:13: “Porém, quando vier o Espírito da verdade, ele os guiará em toda a verdade. Ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que ouvir e anunciará a vocês as coisas que estão para acontecer.”

25 Manuscrito Etíope C diz “espírito santo” (FN b em Jubileus 25:14).

26 Filo, De Vita Moses, 2.264 (trad. FH Colson, LCL 6: 582-583).

27 Louis H. Feldman, “Prophets and Prophecy in Josephus,” The Journal of Theological Studies 41/2 (October 1990), p. 387.

28 Ibid., p. 400.

29 Ibid., pp. 401-402.

30 H. S. J Thackeray, Josephus: The Man and the Historian (New York, NY: Ktav, 1968), p. 79.

31 Feldman, p. 402.

32 Jesus, filho de Ananus, fez uma profecia genuína: “Uma voz do Oriente, uma voz do Ocidente . . . uma voz contra Jerusalém e a casa santa” (Guerra 6.301). Esta profecia é confirmada por Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 30.

33 Sommer, p. 34.

34 Sommer, p. 44.

35 Cp. a nota menos elogiosa em Baba Batra 12b é que “a profecia foi tirada dos profetas e dada aos tolos e às crianças.” Como observa Cohen, p. 124, esta afirmação deve ser entendida no sentido de que de vez em quando surgia uma pessoa que afirmava ser um profeta.

36 Erik Konsmo, The Pauline Metaphors of the Holy Spirit: The Intangible Spirit’s Tangible Presence in the Life of a Christian (New York, NY: Peter Lang Publishing, 2010), p. 17. Para Greenspahn, p. 47, os rabinos reivindicaram o manto profético.

37 Konsmo, p. 17.

38 Ver, também, John S. Kloppenborg, “Evocatio Deorum and the Date of Mark,” Journal of Biblical Literature 124/3 (2005), p. 431, nota de rodapé 39.

39 Levinson, “Holy Spirit,” p. 508.

40 Ibid.

41 Ver Abraham Cohen, Everyman’s Talmud: The Major Teachings of the Rabbinic Sages (New York, NY: Schocken Books, 1975), p. 123.

42 Sommer, p. 36.

43 Ibid., p. 47.

44 Greenspahn, p. 47.

45 Sommer, p. 47. Ver, também, Craig Evans e Jeremiah Johnston, “The Testimony of the Spirit in the Biblical Literature,” em The Testimony of the Spirit: New Essays, ee. Douglas Geivet e Paul K. Moses (New York, NY: Oxford University Press, 2017), p. 41.

46 Konsmo, p. 17.

47 James Kugel, “Two Introductions to Midrash,” Prooftexts 3 (1983), p. 136.

48 Daniel J. Treier, “The Fulfillment of Joel 2:28-32: A Multiple Approach,” Journal of Evangelical Theological Society 40/1 (1997), pp. 18–19. Deut. Rab. 6:14 (sobre Deuteronômio 24:9) é fornecido como um texto específico do midrash para apoiar.

49 Alex P. Jassen, “Prophecy after ‘the Prophets’: the Dead Sea Scrolls and the History of Prophecy in Judaism,” em The Dead Sea Scrolls in Context: Integrating the Dead Sea Scrolls in the Study of Ancient Texts, Languages, and Cultures, e. Armin Lange, et als. (Leiden: Brill, 2011),” p. 585.

50 George Robinson, Essential Judaism: A Complete Guide to Beliefs, Customs, and Rituals (New York, NY: Pocket Books, 2000), p. 288. O exemplo de Eldad e Medad na época de Moise é dado (Números 11:26–30).

51 Michael Wilcock, The Message of Revelation (Downers Grove, IL: IVP, 1989), p. 59. Estudiosos como Leon Morris, “Revelation,” Tyndale New Testament Commentaries (Downers Grove, IL: IVP, 1987), p. 218, e Beale, p. 947, defendem ambos os significados aqui.

52 Robert H. Mounce, The Book of Revelation, New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1997), p. 349; Aune, p. 1039. CSB (Holman Christian Standard Bible) em Apocalipse 19:10 diz: “o testemunho sobre Jesus é o espírito de profecia.”

53 Aune, p. 1038.

54 Gerhard Pfandl, “The Remnant Church,” Journal of the Adventist Theological Society 8/1-2 (1997), pp. 220–221.

55 John Sweet, Revelation (London: SCM Press, 1979), p. 280; Robert H. Mounce, “The Book of Revelation,” e. rev., New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1997), p. 349.

56 Aune, p. 1039. Ver, também, Eduard Schweizer, “pneuma,” Theologial Dictionary of the New Testament, ee. Gerhard Kittel e Gerhard Friedrich, trad. Geoffrey W. Bromiley (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1968), 6:449.

57 H. C. Hoskier, Concerning the Text of the Apocalypse I–II (Londres: Quartich, 1929), p. 526, citado em Beale, p. 948, nota de rodapé 39.

58 Robert L. Thomas, Revelation 8-11: An Exegetical Commentary (Chicago, IL: Moody Press, 1995), p. 377.

59 Thomas, p. 377.

60 Mounce, p. 349; ve, também Thomas, 377; cp. G. R. Beasley-Murray, “Revelation,” The New Century Bible Commentary (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1981), p. 276.

61 Grant R. Osborne, Revelation, Baker Exegetical Commentary on the New Testament (Grand Rapids, MI: Baker, 2002), p. 675.

62 Thomas, p. 377. Ver, também, Beasley-Murray, p. 276.

63 J. H. Bernard, “Prophets and Prophecy in New Testament Times,” The Biblical World 25/2 (February 1905), p. 122.

64 Richard Bauckham, Climax of Prophecy: Studies in the Book of Revelation (Edinburg: T&T Clark, 1993), p. 160; ver, também, E. Sjoberg, “rûaḥ,’ em “Palestinian Judaism,” Theological Dictionary of the New Testament, 6:381–383.

65 H. B. Swete, “The Prophets in the Christian Church,” The Biblical World 26/3 (September 1905), p. 203.

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