Um Estudo Exegético-Teológico do Termo melāḵāh em Êx 31:12-18

Um Estudo Exegético-Teológico do Termo melāḵāh em Êx 31:12-18


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Andre Vasconcelos é Bacharel em teologia pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP-EC). Pós-graduando em teologia bíblica pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo.


Introdução

A primeira coisa a ter sido santificada por Deus poderia ter sido um lugar, um templo, ou mesmo um altar, entretanto Deus escolheu santificar o sábado.[1] Em Gn  2:3  está escrito que Deus abençoou “[…] o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera.” Deus abençoou e santificou o sétimo dia para estabelecer um parâmetro que deveria ser seguido por toda a humanidade, por isto o sábado é uma aliança eterna para os filhos de Israel (Êx 31:16), assim como o ponto de inclusão do “estrangeiro” na aliança (cp. Is 56:3-8). Desta forma, percebe-se que o mandamento do sábado não é relevante somente para a comunidade judaica em geral, mas para todos aqueles que estão dispostos a entrar em um concerto com o Senhor.

Sendo assim, as peculiaridades de sua observância tornam-se um fator importante para discussão. Em Êx 31:14 encontra-se a seguinte declaração: “Portanto, guardareis o sábado, porque é santo para vós outros; aquele que o profanar morrerá; pois qualquer que nele fizer alguma obra será eliminado do meio do seu povo”.

Contudo, apesar de algumas atividades proibidas no dia de sábado serem mencionadas no Antigo Testamento,[2] não há um esclarecimento a respeito da natureza desta obra. Por conseguinte, faz-se necessário compreendê-la, para que desta forma, seja possível estabelecer um princípio para a observância do sábado.

Segundo HaYim HaLevy Donin (1985, p. 106), “qualquer lei, em qualquer sistema judicial, que é vaga e obscura e que pode ser interpretada de qualquer maneira que se considera certa, é inútil e não pode ser aplicada.”[3] Se por um lado pode ser perigoso objetivar demais aquilo que é subjetivo no texto, por outro é fundamental estabelecer um princípio que possa reger a decisão de cada indivíduo em sua experiência como observador do sábado.

Considerando o fato de que é impossível observar a lei sem entender o que ela proíbe, esta pesquisa tem como seu principal objetivo responder ao seguinte questionamento: Qual a natureza da obra (heb. melāḵāh) proibida em Êx 31:12-18? Para que esse objetivo fosse alcançado faz-se necessário: verificar todas as ocorrências da palavra melāḵāh na Bíblia Hebraica; [4] analisar a relação entre a forma e o conteúdo de Êx 31:12-18; bem como uma análise das principais palavras nesta perícope.

É importante mencionar que este estudo utilizou uma abordagem neo-crítica em sua exegese, desconsiderando fatores como autoria, data e lugar de composição, bem como a análise crítica das fontes e da forma do texto.[5]

  1. O uso da palavra melāḵāh na Bíblia Hebraica

A palavra melāḵāh (מְלָאכָה) é um substantivo feminino singular derivado da raiz  l’k (לאך) e pode ser traduzido como: obra, negócio ou labor; assim como propriedade em determinados contextos [6] (DAVIDSON, 2011, p. 403). Embora a raiz l’k não apareça no texto bíblico em sua forma verbal, ela é atestada em outras línguas semíticas, como por exemplo, o ugarítico laak e o etíope la‘aka, ambos com o sentido de “enviar”, assim como o verbo l’k em hebraico (FABRY; MILGROM; WRIGHT, 1997,p. 325). [7]

O termo melāḵāh aparece 166 vezes na Bíblia Hebraica,[8] em sete formas diferentes (BIBLEWORKS, 2006). Destas 166, 16 referem-se a um sábado semanal, 19 ao um sábado festivo e outras 64 vezes a edificação ou a restauração do Santuário (BIBLEWORKS, 2006).[9] Já no Pentateuco, é possível observar uma relação entre o sábado e o santuário. Das 65 vezes em que a palavra melāḵāh aparece ali, apenas 9 referem-se a outro assunto que não o sábado ou o santuário  (BIBLEWORKS, 2006).[10]

O fato da palavra melāḵāh ocorrer de forma abundante no Pentateuco em relação a estes dois temas, levou os sábios da Mishnah a formularem as trinta e nove categorias de trabalhos proibidos no dia sábado. Estas obras proibidas eram conhecidas como ‘avot melāḵāh,[11] e seriam respectivamente, as trinta e nove atividades necessárias para a construção do Tabernáculo (SARNA, 1991, p. 112). Isto é, eles entendiam que a “obra” proibida no sábado possuía uma relação direta com a “obra” de edificação do Santuário, ao ponto de formularem trinta e nove classes de trabalho, que ao seu ver, englobariam todas as atividades necessárias para a construção do mesmo.[12]

Considerando que a palavra melāḵāh ocorre no Pentateuco quase sempre em referência aos sábados e em referência ao Santuário, é possível inferir que existe alguma relação entre a “obra” (heb. melāḵāh) proibida nos sábados e a “obra” (melāḵāh) de edificação do santuário, tal como observado pelos sábios da Mishnah.

  1. A estrutura do texto

A relação entre a obra, o sábado e o santuário também pode ser observada na estrutura do livro, pois como assevera Martin Buber e Franz Rosenzweig (1984, p. 28) “[…] o conteúdo subsiste através de sua própria e inseparável forma […].”[13]

O livro de Êxodo apresenta duas seções referentes ao santuário, sendo a primeira do capítulo 25 ao 31 e a segunda do capítulo 35 ao 40. Na primeira seção são dadas as diretrizes para construção do tabernáculo, e na segunda, o relato da execução do mesmo (FREITHEM, 2010, p. 213). Estas duas seções são separadas pelos capítulos 32 ao 34, que contém a narrativa do bezerro de ouro, a entrega das novas tábuas da Lei e um relato da renovação da aliança com o povo.

É neste ponto que a ordenança de não realizar nenhuma melāḵāh no dia de sábado é introduzida no livro sob pena de morte. Este mandamento aparece no final do capítulo 31 e no começo do capítulo 35, sendo desta maneira o sábado, a ponte entre as duas seções do Santuário (DURHAM, 2002, p. 475). Sobre esta relação Nahum Sarna (1991, p. 201, tradução livre) comenta o seguinte:

Correspondentemente, a retomada da narrativa do tabernáculo no capítulo 35 começa com a lei do sábado. Este padrão estrutural destina-se a fazer uma declaração enfática sobre a hierarquia de valores que informa a Torá: O Tabernáculo consagra a noção da santidade do espaço; o sábado incorpora o conceito da santidade de tempo.[14] Este último tem precedência sobre o primeiro, e a obra do tabernáculo deve ceder a cada semana para o descanso sabático. [15]

Considerando esta relação estrutural entre o sábado e o santuário, nota-se uma correspondência entre a proibição de realizar uma obra neste dia, e a execução da obra do tabernáculo. Das 33 ocorrências da palavra melāḵāh no livro de Êxodo,[16] 23 delas encontram-se na segunda seção do santuário (BIBLEWORKS, 2006). Ou seja, após proibir a realização de uma “obra” no sábado (Êx 35: 1-3), Deus orienta o povo a executar a “obra” da construção do tabernáculo (cp. Êx 35: 21, 24, 29, 31, 33, 35; 36:1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8; 38: 24; 39: 43 e 40: 33).

Tendo isto em vista, William Propp (2008, p. 491) menciona que o povo deveria observar o sábado ainda que eles estivessem engajados “na manufatura (melāḵāh) do tabernáculo”. Propp (2008, p. 492) também destaca que apesar da palavra melākāh referir-se a todos os tipos de obras, o contexto favorece a construção do Tabernáculo. Robert Alter (2008, p. 491) transmite uma ideia similar ao mencionar que toda obra deve cessar no sábado, incluindo até mesmo a ‘tarefa’ (melāḵāh) do tabernáculo.

Dentro desta mesma linha, Umberto Cassuto (1967, p. 404) identifica os “sábados” que deveriam ser observados em Êx 31:13, como os sábados que iriam ocorrer no período da construção do santuário.[17] Desta forma, Cassuto, assim como Propp e Alter, relacionam o propósito desta proibição com a construção do tabernáculo.

Outra evidência da relação entre esta perícope e o contexto do santuário, encontra-se no uso da partícula ‘ak (heb. אׇך) “certamente” em Êx 31:13.  Segundo Nehama Leibowitz (1976, p. 535 e 536) e Robert Alter (2008, p. 491), a partícula adverbial ‘ak desempenha um papel conectivo neste texto, ligando a obra do santuário ao mandamento do sábado. Desta forma o mandamento do sábado em Êx 31:12-18 não estaria deslocado de seu contexto, mas sim, intimamente ligado ao tema da construção do santuário que o precede.

A ligação entre obra, sábado e santuário torna-se ainda mais evidente quando relacionados com a criação. Insta observar o que retrata Êxodo 31: 14- 17:

‎14 וּשְׁמַרְתֶּם֙ אֶת־הַשַּׁבָּ֔ת כִּ֛י קֹ֥דֶשׁ הִ֖וא לָכֶ֑ם מְחַֽלְלֶ֙יהָ֙ מ֣וֹת יוּמָ֔ת כִּ֗י כָּל־הָעֹשֶׂ֥ה בָהּ֙ מְלָאכָ֔ה וְנִכְרְתָ֛ה הַנֶּ֥פֶשׁ הַהִ֖וא מִקֶּ֥רֶב עַמֶּֽיהָ׃

‎ 15שֵׁ֣שֶׁת יָמִים֘ יֵעָשֶׂ֣ה מְלָאכָה֒ וּבַיּ֣וֹם הַשְּׁבִיעִ֗י שַׁבַּ֧ת שַׁבָּת֛וֹן קֹ֖דֶשׁ לַיהוָ֑ה כָּל־הָעֹשֶׂ֧ה מְלָאכָ֛ה בְּי֥וֹם הַשַּׁבָּ֖ת מ֥וֹת יוּמָֽת׃

‎16  וְשָׁמְר֥וּ בְנֵֽי־יִשְׂרָאֵ֖ל אֶת־הַשַּׁבָּ֑ת לַעֲשׂ֧וֹת אֶת־הַשַּׁבָּ֛ת לְדֹרֹתָ֖ם בְּרִ֥ית עוֹלָֽם׃

‎17  בֵּינִ֗י וּבֵין֙ בְּנֵ֣י יִשְׂרָאֵ֔ל א֥וֹת הִ֖וא לְעֹלָ֑ם כִּי־שֵׁ֣שֶׁת יָמִ֗ים עָשָׂ֤ה יְהוָה֙ אֶת־הַשָּׁמַ֣יִם וְאֶת־הָאָ֔רֶץ וּבַיּוֹם֙ הַשְּׁבִיעִ֔י שָׁבַ֖ת וַיִּנָּפַֽשׁ׃ ס

Portanto, guardareis o sábado, porque é santo para vós outros; aquele que o profanar morrerá; pois qualquer que nele fizer alguma obra será eliminado do meio do seu povo. 15 Seis dias se trabalhará, porém o sétimo dia é o sábado do repouso solene, santo ao SENHOR; qualquer que no dia do sábado fizer alguma obra morrerá. 16 Pelo que os filhos de Israel guardarão o sábado, celebrando-o por aliança perpétua nas suas gerações. 17 Entre mim e os filhos de Israel é sinal para sempre; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento.

A referência a criação neste texto leva o leitor de volta ao relato do Gênesis 2:2–3, onde a palavra melākāh aparece pela primeira vez na Bíblia:

‎2  וַיְכַ֤ל אֱלֹהִים֙ בַּיּ֣וֹם הַשְּׁבִיעִ֔י מְלַאכְתּ֖וֹ אֲשֶׁ֣ר עָשָׂ֑ה וַיִּשְׁבֹּת֙ בַּיּ֣וֹם הַשְּׁבִיעִ֔י מִכָּל־מְלַאכְתּ֖וֹ אֲשֶׁ֥ר עָשָֽׂה׃

‎ 3 וַיְבָ֤רֶךְ אֱלֹהִים֙ אֶת־י֣וֹם הַשְּׁבִיעִ֔י וַיְקַדֵּ֖שׁ אֹת֑וֹ כִּ֣י ב֤וֹ שָׁבַת֙ מִכָּל־מְלַאכְתּ֔וֹ אֲשֶׁר־בָּרָ֥א אֱלֹהִ֖ים לַעֲשֽׂוֹת׃ פ

2 E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito. 3 E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a obra que, como Criador, fizera. [18]

Não somente o conteúdo de Êx 31:12-18 remete a criação, mas a forma do texto também, de tal modo que é possível traçar um paralelo entre a construção do tabernáculo e a criação. Um exemplo disso é a divisão entre os capítulos 25 a 31 de Êxodo. Esta seção está dividida em sete partes, conforme a repetição da fórmula “Disse o Senhor a Moisés” em Êx 25:1; 30:11, 17, 22, 34; 31:1 e 12 (FREITHEIM, 2010, p. 270).

Logo, a instrução para a construção do santuário foi realizada em sete etapas, do mesmo modo como Deus criou o mundo em sete dias com o poder da sua palavra. Além disso ambos, a sétima unidade literária desta seção e o sétimo dia da criação, culminam com a observância do sábado.

O diagrama abaixo ilustra esta ideia:

Instruções para a construção do santuário (Êx 25-31) Relato da criação (Gn 1–2:3)
1º fala de Deus a Moisés (Êx 25:1) 1º dia da criação (Gn 1:3–5)
2º fala de Deus a Moisés (Êx 30:11) 2º dia da criação (Gn 1:6–8)
3º fala de Deus a Moisés (Êx 30:17) 3º dia da criação (Gn 1:9–13)
4º fala de Deus a Moisés (Êx 30:22) 4º dia da criação (Gn 1:14–19)
5º fala de Deus a Moisés (Êx 30:34) 5º dia da criação (Gn 1:20–23)
6º fala de Deus a Moisés (Êx 31:1) 6º dia da criação (Gn 1:24–31)
7º fala de Deus a Moisés (Êx 31:12)

Conteúdo: Sábado

7º dia da criação (Gn 2:2–3)

Conteúdo: Sábado

Além de Êx 31:12-18 conter o mandamento do sábado e ser a sétima unidade literária de sua seção, há uma repetição da palavra šabbāt (heb. שַׁבָּת), que aparece sete vezes nesta perícope (CASSUTO, 1967, p. 405).[19] Portanto, Êx 31:12-18 é a sétima unidade literária, fala do sétimo dia e repete a palavra šabbāt sete vezes. [20]

Outro paralelo entre a construção do santuário e a criação pode ser traçado. Ao concluir a construção do tabernáculo, Moisés contemplou toda a obra do Santuário e, na sequência, abençoou o povo (Êx 39:43). Assim como Deus havia contemplado sua obra no final da criação, e em seguida, abençoou o dia de sábado (Gn 1:31 e 2:3) (LEIBOWITZ, 1976, p. 481).

Logo, é possível inferir que existe uma relação intrínseca entre a obra (melāḵāh) proibida no dia de sábado e a obra (melāḵāh) da construção do tabernáculo, sendo que ambos levam o leitor de volta ao relato da criação.

  1. Palavras chave em Êx 31:12-18.

O texto escolhido como objeto de estudo apresenta algumas palavras chave que podem ajudar a esclarecer a problemática proposta neste artigo. Uma destas palavras é a expressão šabbaṯ šabbāṯōn (“repouso solene”, heb. ‎  שַׁבָּת שַׁבָּתוֹן) que aparece em Êx 31:15.

Essa expressão ocorre na Bíblia somente em relação ao sábado, ao dia da expiação e o ano sabático (BIBLEWORKS, 2006).[21] Quando a palavra hebraica šabbāṯōn ocorre sozinha, ela aparece em ligação com a Festa das Trombetas e a Festa dos Tabernáculos, conforme descrito em Lv 23: 24 e 39 (BIBLEWORKS, 2006).[22]

O fato do sábado e o dia da expiação serem reconhecidos como um dia de “repouso solene”, em si mesmo, causa uma distinção entre eles e os demais dias festivos. Para Koehler e Baumgartner (1999, p. 1411, tradução livre), este termo provavelmente se distingue do lexema básico “šabbaṯ” para indicar um sábado individual, particular, “[…] tal como um que é para ser observado de forma particularmente rigorosa, ou observado como uma celebração especial […]”.[23]

Nahum Sarna (1991, p. 90) acrescenta que a expressão šabbaṯ šabbāṯōn funciona como um superlativo e representa um alto grau de descanso. Por conta disso, quem realizasse qualquer tipo de obra no sábado ou no dia da expiação deveria ser eliminado do povo (Êx 31:14 e Lv 23:29). Nesses dois dias, era proibida a realização de qualquer tipo de obra (heb.  כָּל־הָעֹשֶׂה מְלָאכָה kol-hā‘ōśeh melāḵāh), conforme descrito em Êx 31:15 e 35:2.[24] Já em um em um šabbātôn comum, somente as obras servis (כָּל־מְלֶאכֶת עֲבֹדָ֖ה kol-mele’ḵet ‘āḇoḏāh) eram proibidas, conforme descrito em ‎Lv 23: 25 e 35.[25]

Posto que, em um šabbaṯ šabbāṯōn era proibido “todo tipo de obra”, e que em um šabbāṯōn comum era proibida somente as “obras servis”, é possível concluir que a obra proibida em uma festa comum estava restrita a um trabalho de natureza laboral/servil, enquanto que no sábado e no dia da expiação nenhum tipo de obra deveria ser realizado.

Por conseguinte, a melāḵāh proibida em Êx 31: 14 e 15 não deve ser entendida apenas como uma atividade laboral, caso contrário, seria desnecessária a diferenciação entre não realizar “nenhuma obra” em um šabbaṯ šabbāṯōn e a proibição de não realizar “nenhuma obra servil” em um šabbāṯōn  comum. [26] Em outras palavras, o trabalho ordinário dos seis dias da semana era proibido nas festas em geral. Enquanto que no sábado e no dia da expiação eram proibidos todos os tipos de obra, o que incluía também o trabalho dos seis dias da semana.

Outra palavra importante nesta perícope (Êx 31:17) é o verbo šāḇāṯ (שָׁבַת), o qual pode ser traduzido como “cessar”, “parar”; e em conexão com o sábado “descansar”, “celebrar” (KOEHLER; BAUMGARTNER, 1999, p. 1407). Este verbo é comumente associado a um descanso físico, porém, quando aplicado a Deus “[…] parece inadequado dado que Deus não necessitou ‘repousar’ no estrito sentido da palavra” (QUIROGA, 2010, p. 104).[27]

De acordo com Raúl Quiroga (2010, p. 112, tradução livre):

“Deus não necessitou repousar depois dos seis dias da criação porque de nenhuma maneira se pode supor que estava cansado. Então, em Gênesis 2:2, 3, seria melhor traduzir “cessou”, “parou”, “não continuou com”, “se deteve”, “cessou de criar” em lugar de “repousou”. Deus deixou de fazer o que vinha fazendo, criar, para fazer outra coisa totalmente diferente, contemplar sua obra criadora.”[28]

Segundo Gn 2:2 e 3 Deus “cessou” (šāḇāṯ) sua “obra” (melāḵāh) no sétimo dia. Isto implica que toda atividade criativa desenvolvida durante os seis dias da criação foi considerada uma melāḵāh. Quiroga (2010, p. 113, grifo nosso) ainda menciona que “o trabalho realizado para a construção do Santuário não era um trabalho exaustivo e sim uma obra criativa e de regozijo particular.” [29]

O entendimento do termo melāḵāh como uma obra de natureza criativa também é expressa por Donin. De acordo com ele:

“Toda e qualquer interferência construtiva do homem no mundo físico, constituí “obra”, segundo a definição da Bíblia. Qualquer ato, por menor que seja, que envolve o homem em atos físicos criativos e mostra seu domínio sobre o mundo, constitui trabalho. É este o princípio básico que poderá ajudar a responder a algumas perguntas sobre as leis de shabbat” (DONIN, 1985, p. 82, grifo nosso).”[30]

Portanto, a identificação da “melāḵāh” com uma obra de natureza criativa parece ser mais precisa do que simplesmente uma obra de natureza servil ou laboral, o que por sua vez, parece ser a chave para a compreensão de sua natureza.

O verbo ‘āsāh (עָשָׂה) é outro termo importante nesta análise. O verbo ‘āsāh ocorre três vezes juntamente com a palavra melāḵāh neste trecho (Êx 31:14-15),[31] o qual também é utilizado para referir-se a atividade dos seis dias da semana. Importa observar o texto de Êx 20:9-11:

“9 Seis dias trabalharás e farás [וְעָשִׂיתָ] toda a tua obra. 10 Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás [תַעֲשֶׂה] nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; 11 porque, em seis dias, fez [עָשָׂה] o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou” (cp. Gn 1:31).

Logo, tanto o verbo ‘āsāh como o substantivo melāḵāh estão intimamente associados com a atividade criativa de Deus. Curiosamente, ele também ocorre muitas vezes em relação ao santuário. De acordo com Nehama Leibowitz (1976, p. 538-539) o verbo ‘āsāh aparece 80 vezes na forma ve‘āśîṯā (וְעָשִׂיתָ) ou ta’aseh (תַּֽעֲשֶׂה) em relação ao santuário.

Portanto, tanto verbo ’āsāh como o verbo šabāt ditam o movimento da criação efetuado por Deus, bem como da construção do tabernáculo. De acordo com Umberto Cassuto (1967, p. 404), Deus fez com que a sequência de trabalho e descanso expressa em Êx 31:12-18, fosse análoga a sua obra. Isto é, assim como Deus “fez” o mundo em seis dias e “cessou” no sétimo, os filhos de Israel deveriam “fazer” o santuário durante seis dias e “cessar” sua obra no sétimo.

Por meio do mandamento do sábado, Deus convida os homens a imitar (imitatio Dei) o processo de criação e descanso efetuado por Ele. Nas palavras de Heshel (2009, p. 29).

A arte de guardar o sétimo dia é a arte de pintar na tela do tempo a grandeza misteriosa do clímax da criação: Como Ele santificou o sétimo dia, assim devemos nós fazê-lo. O amor ao Schabat é o amor do homem pelo que ele e Deus tem em comum. O nosso ato de guardar o dia do Schabat é uma paráfrase de sua santificação do sétimo dia.

Considerações finais

O presente artigo foi realizado com o objetivo de verificar a natureza do termo melāḵāh em Êx 31:12-18. Após haver sido verificada as ocorrências da desta palavra, a estrutura do texto, assim como as principais palavras desta perícope, é possível concluir que a chave para essa questão se encontra na relação entre a palavra melāḵāh com o sábado e a construção do santuário.

Em seguida constatou-se que o conteúdo de Êx 31:12-18 aborda a “obra” relativa ao sábado, e o seu contexto, a “obra” relativa a construção do tabernáculo. Já a forma do texto, por sua vez, indica que a “obra” do sábado está ligada a “obra” do tabernáculo, e ambas, ligadas ao relato da criação em Gênesis.

Logo, a forma e o conteúdo do texto sugerem que a “melāḵāh” proibida em Êx 31:12-18 não está relacionada somente com uma atividade de natureza laboral, mas com uma atividade de “natureza criativa”, tal como a construção do tabernáculo.


Notas

[1] Gn 2:3 é a primeira ocorrência do verbo qāḏaš (קָדַשׁ) “santificar” na Bíblia Hebraica.

[2] Cozinhar (Êx 16:23); trabalhar a terra (Êx 34:21); acender fogo (Êx 35:3); juntar lenha (Nm 15: 32-36); levar cargas (Jr 17:21, Ne 13:15); comprar e vender (Ne 13:15-22); pisar o lagar (Ne 13: 15); e por último, fazer negócios (Is 58:13).

[3] Donin cita este argumento com o objetivo de demonstrar a importância da tradição oral na compreensão do mandamento.

[4] Antigo Testamento em Hebraico.

[5] A abordagem utilizada nesta pesquisa baseou-se no método “Total Interpretation” do biblista Meir Weis. Ver “The Bible from Within: The method of total interpretation”, 1984, pag. 1-46.

[6]  Ver Êx 22: 7 e 10 (8 e 11 na ARA); Gn 33: 14.

[7] Sobre a relação etimológica da palavra “melāḵāh” (obra)  com o verbo “l’k” (enviar) ver FABRY, H. J.; MILGROM, J.; WRIGHT, D. P. “מְלָאכָה – The Root and Cognates”. In: BOTTERWECK, G. J. (ed.); RINGGREN, H. (ed.); FABRY, H. J. (ed.). Theological Dictionary of the Old Testament.

[8] Sábado semanal Gn 2: 2 (2x), 3; Êx 20: 9,10; 31: 14, 15 (2x); 35: 2 (2x); Lv 23:3 (2x); Dt 5:13, 14; Jr 17:22, 24; sábado festivo Êx 12:16; Lv 16:29; 23:7, 8, 21, 25, 28, 30, 31, 35, 36; Nm 28: 18, 25, 26; 29:1, 7, 12, 35; Dt 16: 8; Tabernáculo do deserto Êx 31: 3, 5; 35: 21, 24, 29, 31, 33, 35 (2x); 36:1, 36:2, 3, 4 (2x), 5, 6, 7 (2x), 8; 38:24 (2x); 39:43; 40:33; Templo de Salomão I Re 5:30 (2x) (ARA, 16); 7: 14 (2x), 22, 40, 51; 9:23 (2x); I Cr 22: 15 (2x); 23: 4; 28: 19, 20, 21; 29:1, 5, 6; II Cr 4:11; 5:1; 8:16; reforma do Santuário feita por Joás II Re 12: 12, 15, 16 (ARA, 11, 14, 15) ; II Cr 24: 12, 13 (2x); reforma do Santuário feita por Josias II Re 22:5 (2x), 9; II Cr 34: 10 (2x), 12, 13, 17; reconstrução do Templo feita por Zorobabel Ed 2: 69; 3: 8, 9; 6:22; Ne 10:34 (ARA, 10:33); Ag 1:14; ministério dos sacerdotes e levitas no Santuário Nm 4:3; I Cr 6:34 (ARA, 6:49); 9:13, 19, 33; 23:24; 25:1; 28:13; II Cr 13:10, 29:34; Ne 11:12, 16, 22; 13: 10, 30; Jr 48:10;  reconstrução das muralhas Ne 4:5, 9, 10, 11, 13, 15, 16 (ARA, 11, 15, 16, 17, 19, 21, 22); 5: 16 (2x); 6: 3 (2x), 9, 16; 7:69, 70 (ARA, 70, 71); trabalho/negócios do rei I Sm 8:16; I Re 11: 28; I Cr 4:23; 26: 29;  II Cr 8: 9; Es 3:9; 9: 3; Dn 8:27; negócio Gn 39:11; Sl 107:23; Pv 18:9; 22:29; Jn 1:8; edificação de uma cidade ou de obras II Cr 16:5; 17: 13?; Ne 2:16; bens materias e objetos manufaturados Êx 22:7, 10 (ARA, 8, 10); Lv 11:32; 13:48, 51; Ez 15: 3, 4, 5 (2x); 28:13; rebanho Gn 33:14; I Sm 15:9;  obra de Deus I Cr 26:30; Sl 73:28; 50:25; trabalho no campo I Cr 27:26; Pv 24:27; uma obra qualquer Lv 7:24; Jz 16:11; reforma espiritual Ed 10:13; trabalho qualificado Jr 18:3 (cp. também Êx 31: 3, 5; 35: 31, 35 (2x); 36:1, 2; I Re 7:14, 22, 40; I Cr 28:21; II Cr 4:11).

[9] Conferir a nota 9 para a verificação destas ocorrências.

[10] Gn 33:14; 39:11; Êx 22:7, 10 (ARA, 8, 11); Lv 7:24; 11:32; 13:48, 51.

[11] Mishnáh, tratado de Shabbat, 7:2.

[12] De acordo com Ronald Eseinberg (2004, p. 130) estas trinta e nove atividades proibidas poderiam se relacionar com a edificação do Tabernáculo da seguinte maneira: atividades necessárias para a preparação dos pães da preposição (semear, arar, ceifar, enfeixar, debulhar, joeirar, selecionar, moer, peneirar, amassar, assar); atividades necessárias para a confecção das coberturas do tabernáculo e as vestimentas dos sacerdotes (tosquiar lã, lavar, cardar, tingir, fiar, esticar, dar duas laçadas, enfiar a agulha, tecer, separar duas pregas, atar um nó, desatar um nó, cozer dois pontos, rasgar); atividades necessárias  para a preparação do couro (caçar, abater, esfolar, tratar a pele, raspar, demarcar o couro, cortar, escrever, apagar); atividades necessárias para a construção de qualquer objeto (construir e demolir); atividades necessárias para fazer fogo (acender um fogo e apagar um fogo); e por último, as atividades necessárias para transportar objetos (transportar um objeto de um domínio privado para um domínio público, e vice-versa).

[13]  “[…] o conteúdo subsiste por meio de sua própria forma inseparável […].

[14] Sobre a relação entre a santidade do espaço e a santidade do tempo, ver a obra de Abraham Joshua Heschel, “O Schabat: Seu Significado para O Homem Moderno,” 2009.

[15]Concomitantemente, a retomada da narrativa do Tabernáculo no capítulo 35 começa com a lei sabática.  Este modelo estrutural intenciona fazer uma declaração enfática acerca da hierarquia de valores contida na Torah: O Tabernáculo sacramenta o conceito de santidade do espaço; o sábado incorpora o conceito de santidade do tempo. Esse último precede o primeiro, e a obra do Tabernáculo deve ceder lugar a cada semana para o descanso sabático.

[16] Êx 12: 16; 20: 9, 10; 22:7, 10; 31: 3, 5; 31:14, 15 (2x); 35:2 (2x), 21, 24, 29, 31, 33, 35 (2x); 36:1, 2, 3, 4 (2x), 5, 6, 7 (2x), 8; 38: 24 (2x); 39: 43 e 40: 33.

[17]  Isto não quer dizer que somente aqueles sábados deveriam ser observados. Como verificado por Van den Eynde (1996, p. 507), frases como “aliança eterna” e “ suas gerações”, vão além do período da construção do Tabernáculo.

[18]  Este texto revela que Deus terminou a obra no sétimo dia, o que implicaria uma atividade divina neste dia. Este fato gerou um desconforto em antigos tradutores e comentaristas ao ponto de eles traduzirem “no sexto dia” em vez de “no sétimo” (SARNA, 1989, 15). Ver por exemplo, LXX (Ralphs) Gn 2:2; Peshita Gn 2:2 e o livro dos Jubileus 2:1.

[19] Êx 31: 13, 14, 15 (2x), 16(2x) e 17 (este último aparece na forma verbal) (BIBLEWORKS, 2006). Casuto parece desconsiderar a expressão šabbāṯōn em Êx 31:15 nesta contagem (cp. PROPP, 2008, p. 491).

[20] Esta mesma ênfase no número sete é encontrada em Gn 1-2:3, como por exemplo as sete vezes em que ocorre a expressão “era bom” (Gn 1: 4, 10, 12, 18,  21, 25 e  31); bem como  na menção do  “sétimo dia” em Gn 2:3. Esta ênfase também pode ser observada no primeiro versículo da perícope (Gn 1:1), que possui sete palavras em hebraico

(בְּרֵאשִׁ֖ית בָּרָ֣א אֱלֹהִ֑ים אֵ֥ת הַשָּׁמַ֖יִם וְאֵ֥ת הָאָֽרֶץ׃).

[21] Êx 31: 15; 35:2; Lv 16:31; 23:3, 32; 25:4 e Êx 16:23 (ordem inversa, šabbāṯōn šabba).

[22] A palavra šabbāṯōn também aparece sozinha em referência ao ano sabático em Lv 25:5.    Contudo, ela aparece associada a expressão šabbaṯ šabbāṯōn no versículo anterior (Lv 25:4).

[23][…] como tal, deve ser observado de forma estritamente particular, ou observado como uma celebração especial […].”

[24] Cp.  Lv 16:29; 23:3 e 31 (וְכָל־מְלָאכָה֙ לֹ֣א).

[25] Lv 23: 25 e 35. Ver também Lv 23:7, 8, 21, 25, 35, 36; Nm 28:18, 25, 26; 29: 1, 12 e 35.

[26]  Esta diferenciação também pode ser observada no mandamento do sábado em Êxodo 20:9: “seis dias trabalharás [תַּֽעֲבֹד] e farás toda a tua obra [כָּל־מְלַאכְתֶּֽךָ]”. Neste texto Deus orienta o povo a não trabalhar no sábado, e como uma ampliação da primeira sentença, não realizar nenhuma obra.

[27]  “[…]  parece inadequado dado que Deus não necessitava ‘repousar’ no sentido estrito do termo.

[28]Deus não necessitava repousar depois dos seis dias da criação porque de modo algum pode supor-se que Ele estava cansado. Então, em Gênesis 2:2–3, seria melhor traduzir, em lugar de ‘repousou’ como ‘cessou’, ‘parou’, ‘não continuou com’, ‘se deteve’, ‘cessou de criar’. Deus deixou de fazer o que vinha fazendo: criar; para fazer outra coisa completamente diferente, contemplar a sua obra criadora.            

[29]O trabalho realizado na construção do santuário não era um trabalho esgotador, mas sim uma obra criativa de regozijo em particular.”

[30] É importante mencionar que o princípio proposto por Donin, conforme defendido neste artigo, parece ser apoiado pela Bíblia. No entanto, sua aplicação pode variar fortemente de acordo com a orientação do intérprete.

[31] Após mencionar três vezes, em Êx 31:14-15,  que os filhos de Israel não deveriam “fazer uma obra” no dia de sábado, o texto assinala, no versículo 16, que eles deveriam “fazer o sábado” (לַעֲשׂ֧וֹת אֶת־הַשַּׁבָּת, l‘aśōṯ et šabbaṯ). “A tripla menção de “fazer a obra” (hā‘ōśeh ḇāh melāḵāh, yē‘āśeh melāḵāh, hā‘ōśeh melāḵāh) (31:14-15) é imediatamente seguida pelo contrastivo l‘aśōṯ et šabbaṯ, ‘para fazer o Sábado’. Esse ‘fazer’ transcende todos aqueles outros tipos de fazeres [construção do Tabernáculo]” (LEIBOWITZ, 1976, p. 538-539).

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