O Que São As Línguas em 1 Coríntios?

O Que São As Línguas em 1 Coríntios?


Ekkehardt Mueller é diretor associado do Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral. Antes de se juntar ao instituto, o Pastor Mueller atuou como Pastor e Ministerial por mais de duas décadas. Atualmente, ela está muitíssimo envolvido em escrever artigos e lecionar classes ao redor do mundo. Ekkehardt adora jardinagem e pintura. Boa música é também um elemento importante no lar de  Ekkehardt, sendo sua esposa Geri uma professora de música. Quando seus filhos, Eike e Eno, estão em casa, o “quarteto” está completo.


Tradução: Hugo Martins

O artigo “O Que São As Línguas em 1 Coríntios?” (Original em Inglês: “What are the Tongues in 1 Corinthians?”), por Ekkehardt Mueller, fora publicado, inicialmente, pelo Adventist Biblical Research Institute.  Usado com permissão.


“Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (1 Co 14:2).

Qual era a natureza das línguas que Paulo mencionou em sua primeira carta aos coríntios? Estava ele se referindo a uma língua angélica ou extática incompreensível, comparada ao que se encontra em círculos carismáticos e pentecostais ou às línguas estrangeiras em Corinto?

A Igreja em Corinto

A igreja de Corinto, fundada por Paulo cerca de três anos antes da carta, enfrentava muitos problemas: rivalidades entre várias facções (1 Co 3:3), imoralidade sem tamanho (1 Co 5:1), casos jurídicos entre crentes (1 Co 6:1), problemas maritais (1 Co 7:1), comer alimentos sacrificados aos ídolos (1 Co 8:1), conduta imprópria de mulheres na adoração pública (1 Co 11:2–16), abuso da Santa Ceia (1 Co 11:21) e, também, a má compreensão em relação à função apropriada dos dons espirituais, particularmente o dom de línguas (1 Co 14:1–5).

O Uso Apropriado dos Dons Espirituais

Línguas são mencionadas apenas do capítulo 12 a 14. Esses capítulos lidam com dons espirituais, um dos quais é chamado de “variedade de línguas” (12:10, 28) ou apenas “línguas” (v. 30). Ademais, há o dom de traduzir línguas (vv. 10, 30). Paulo termina o capítulo 12 apontando algo ainda melhor do que os dons espirituais, a saber, o amor. Neste âmbito, ele afirma que falar na língua dos homens ou na língua dos anjos é inútil sem amor (13:1).

Em 1 Coríntios 14, Paulo continua a discussão dos dons espirituais focando-se em língua versus profecia. Entretanto, as questões reais são: (1) quem há de ser beneficiado no contexto da adoração; e (2) a desordem cria problemas no serviço de adoração. A discussão das línguas deve ser compreendida neste contexto. Quem beneficiar-se-á do exercício deste dom espiritual, a pessoa que recebeu o dom apenas ou os outros também (14:2–6, 9)? Paulo é claro: a meta deve ser edificar a igreja (vv. 4–5, 12, 17, 26). Ademais, para estranhos, deve ser evitada a impressão de que os membros da igreja estão fora de controle (v. 23). Dos versos 27 a 40, ele discute o problema da desordem no serviço de adoração em Corinto. Paulo aponta que em vista dos dons espirituais poderem ser controlados pelos beneficiários, apenas duas ou três pessoas deveriam falar por vez e que uma interpretação deveria ser provida. Se essas regras não forem seguidas, falar em línguas não tem lugar no serviço de adoração da igreja de Corinto. O mesmo é, também, verdadeiro quanto a profecia (vv. 29–32). Portanto, o contexto torna claro que a questão é o abuso dos dons espirituais.

Termos Importantes

A fim de apreciar o que 1 Coríntios 14 ensina, precisamos compreender o significado dos termos chaves.

Língua—O termo grego traduzido como “língua(s)” é usado predominantemente para:

  • o órgão humano da boca chamado de língua (Sl 22:15; Tiago 3:5);
  • línguas (Gn 10:5; At 2:4), incluindo nações que falam outras línguas (Zc 8:23; Ap 5:9); e
  • as línguas de fogo no Pentecostes (At 2:3).

Falar—O termo grego traduzido como “falar” ocorre 34 vezes em 1 Coríntios. No capítulo 14, é usado 10 vezes com “línguas” e 14 vezes sem. Cada vez que é usado sem línguas, o ato de falar envolve uma língua real que tem um conteúdo que pode ser comunicado. Em vista do mesmo verbo “falar” ser usado na frase “falar em outra língua” (14:2, 4–6, etc.), espera-se ter o mesmo significado em cada texto; do contrário, a língua perde o seu significado. No mesmo contexto, um termo deveria ter o mesmo significado, a menos que seja claramente redefinido. No capítulo 14, no qual o autor intercala entre profecia e falar em línguas, o termo traduzido como “língua(s)” deveria ter sempre o mesmo significado.1

Falar em Línguas—Como os termos “falar” e “língua” no mesmo contexto e na mesma frase “falar em línguas” são usados nas Escrituras? (1) Na Literatura de Sabedoria: “Minha boca fala a língua” (Jó 33:2). A língua do justo fala justiça (Sl 37:30; LXX2 36:30). “Têm falado contra mim com uma língua mentirosa” (Sl 109:2 [ACF]; LXX 108:2). (2) Nos Profetas: “Pelo que por lábios gaguejantes e por língua estranha falará o SENHOR a este povo” (Is 28:11).3 “Ensinam a sua língua a proferir mentiras” (Jr 9:5 [ACF]). (3) Nos Evangelhos: “Falarão novas línguas” (Mc 16:17). (4) Em Atos: O cristãos primitivos “passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (At 2:4). O que eles falavam eram línguas estrangeiras: pessoas de países diferentes disseram: “Os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus” (v. 11). Línguas estrangeiras são, também, citadas em Atos 10:46, em que Pedro, referindo-se a Cornélio e ao seu servo, diz que os presentes “os ouviam [os gentios] falando em línguas e engrandecendo a Deus.” Pedro, então, pergunta: “Porventura, pode alguém recusar a água, para que não sejam batizados estes que, assim como nós, receberam o Espírito Santo?” (At 10:47). O mesmo aplica-se a Atos 19:6 em que falar em línguas e profetizar são atribuídos aqueles que receberam o Espírito Santo. (5) Em 1 Coríntios: A frase “falar em línguas” ocorre em 12:30 como uma descrição do dom espiritual. Em 1 Coríntios 13:1, é usado para descrever língua humana. Os textos em disputa são, primariamente, encontrados em 1 Coríntios 14. Ali, a frase é usada com língua no singular (“falando em língua”) em 1 Coríntios 14:2, 4, 13, 27 e com língua no plural (“falando em línguas”) em 1 Coríntios 14:5 (2x), 6, 18, 23, 39. Em vista de “falar em línguas” se referir às línguas estrangeiras por toda a Escritura, é, dificilmente, concebível que a frase em 1 Coríntios 14 deve ser compreendida diferentemente do resto das Escrituras, a menos que houvesse indicadores claros no texto.

Mistérios—O termo mistério ocorre 28 vezes no Novo Testamento e, em 21 dessas vezes, refere-se ao mistério do reino dos céus e conceitos relacionados. Outros mistérios são “o mistério da iniquidade” (2 Ts 2:7), “o mistério das sete estrelas” (Ap 1:20) ou “o mistério da meretriz” em Apocalipse 17.

Paulo usa o termo grego traduzido como “mistério [NVI]” no singular em 1 Coríntios 2:1 (traduzido como “testemunho” na ARA e na ACF) 2:7 e 15:51. No capítulo 2, o mistério é “Jesus Cristo crucificado” (v. 2), i.e., a atividade salvífica de Deus em e por meio de Cristo. No capítulo 15, o mistério não que nem todos morrerão e dormirão, mas que eles serão transformados na Segunda Vinda. O plural mistérios é usado 1 Coríntios 4:1, 13:2 e 14:2. Nos escritos de Paulo, os mistérios são verdades reveladas por Deus que estão relacionadas a Cristo e ao plano da salvação.

Espírito—Em 1 Coríntios, o termo traduzido como “espírito” se refere, normalmente, ao Espírito Santo, mas pode, também, descrever a pessoa ou o espírito humano (1 Co 2:11; 5:5; 16:18), o espírito do mundo (2:12) ou vários espíritos (12:10), provavelmente profetas ou mestres falsos e verdadeiros, etc. A maior contração do termo traduzido como “espírito” encontra-se no capítulo 12. Neste capítulo, espírito é usado uma vez no plural e 11 vezes no singular. Espírito no singular sempre se refere ao Espírito Santo. Ele é o autor dos dons espirituais. Portanto, é muito natural que 1 Coríntios 14:2, que continua a discussão dos dons espirituais, referir-se-ia ao Espírito Santo. Ademais, quando Paulo fala do espírito humano, ele o faz com bastante clareza. No caso, ele usa qualificadores, tais como pronomes pessoais ou aposições, “do homem” (1 Co 2:11) ou o contexto de suas carta aponta, claramente, para a natureza do espírito. Em vista de não haver qualificador em 1 Coríntios 14:2, pode-se assumir que Paulo se refere ao Espírito Santo. Isto faz sentido, também, com o mistério sendo a verdade revelada.

Paulo e O Mau Uso do Dom em Corinto

Por um lado, Paulo quer encorajar os membros da igreja a usar seus dons espirituais; por outro lado, ele tenta corrigir o abuso do dom de línguas. Em vez de usar este dom para o seu propósito original—evangelizar pessoas que falam línguas estrangeiras—os coríntios o estavam usando na igreja para edificar a si próprio ou ganhar status. Por conseguinte, Paulo diz: “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende” (14:2). Deus, naturalmente, entende todas as línguas, mas os outros membros da igreja não.

Argumentos em Favor de Línguas Estrangeiras

Enquanto muitos cristãos sinceros acreditam que Paulo em 1 Coríntios esteja falando sobre língua extática, o peso da evidência escritural favorece a visão que línguas em 1 Coríntios se refere a línguas reais:

  • O contexto se refere a línguas. 1 Coríntios 13:1 usa a frase singular “línguas dos homens.” Esta frase, claramente, se refere às línguas humanas. Paulo afirma um caso hipotético. Mesmo falando as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, será sem valor.
  • Por todo o Novo Testamento, o mesmo termo é usado paras o dom de línguas. Em vista de línguas, em Atos, ser línguas estrangeiras, as línguas em 1 Coríntios devem, também, ser compreendidas como línguas estrangeiras. Textos difíceis devem ser explicados por textos claros. 1 Coríntios 14 deve ser interpretado por Atos 2 no qual línguas se refere, claramente, a línguas estrangeiras.
  • Deus trabalha por meio da inteligência humana. O Senhor, que advertiu contra vãs repetições a semelhança dos pagãos (Mt 6:7), não inspiraria, certamente, língua extática que não pudesse ser compreendida. “O Novo Testamento não apoia a ideia que glossa se refira a língua extática. A única descrição ou exemplo específico de línguas na Bíblia inteira é Atos 2:4–11 onde elas são, definitivamente, descritas como línguas humanas normais. . . . A evidência abundante demonstra que o dom de línguas é a habilidade miraculosa de falar línguas previamente desconhecidas ao orador.”4
  • 1 Coríntios 14:21 provê algo como uma definição do dom de línguas. Neste verso, Paulo cita Isaías 28:11, em que diz que Deus fala a Seu povo em língua estranha, literalmente “uma outra língua.” O contexto de Isaías 28 revela que as pessoas falando a língua estranha são os assírios. A Septuaginta emprega o termo traduzido como “língua estrangeira.” Paulo contrai os dois termos. “Esta comparação é reveladora por parecer implicar que o que está acontecendo em Corinto é a mesma coisa. ‘Línguas estrangeiras’ são ouvidas por meio de falantes de outras línguas, mas eles não trazem o resultado desejado desde que eles não podem ser compreendidos pelos ouvintes.”5 Em vista das línguas estrangeiras serem, claramente, a interpretação em 1 Coríntios 14:21, o verso 2 deve, também, se referir a uma língua humana real. Ademais, no verso 22, línguas são um sinal para os descrentes como no Pentecostes em que línguas reais foram um sinal positivo para os descrentes, chamando-lhes aos arre pendimento (At 2:38).
  • Os dons foram dados para o bem comum (1 Co 12:7), o que descarta o uso do dom para, puramente, gratificação pessoal.
  • O dom de línguas divino apareceu pela primeira vez no Pentecostes, como descrito em Atos 2, onde é claramente apresentado como línguas estrangeiras e foi um cumprimento da predição feita em Marcos 16:17. Embora os eventos descritos em Atos 2 ocorreram antes dos eventos apresentados em 1 Coríntios, a carta aos coríntios foi escrito antes de Atos. Há diversas conexões entre 1 Coríntios 14 e Atos 2, assim como outros textos em Atos lidando com o dom de línguas:
  • Há uma reação similar ao dom de línguas em 1 Coríntios 14:22–23 e Atos 2:13. As pessoas pensavam que os cristãos estavam loucos ou bêbados.
  • Falar em línguas é servir a missão da igreja (1 Co 14:22; Atos 2:14–41). Línguas são um sinal aos descrentes, chamando-lhes ao arrependimento. Muitos são salvos; outros se recusam a seguir a Jesus. língua extática dificilmente seria um sinal e dificilmente chegaria aos resultados registrados.
  • A frase traduzida como “falar em outras línguas” em Atos 2:4 parece a língua usada para descrever aqueles com uma língua estrangeira em 1 Coríntios 14:21.
  • Em Atos 2, Lucas usa a mesma terminologia empregada por Paulo em 1 Coríntios 12 a 14 para descrever o dom de línguas de falar em línguas se referindo a línguas estrangeiras. Em Atos 19:6, Lucas associa Paulo a uma situação na qual alguns discípulos receberam este dom. Quando Paulo colocou suas mãos sobre os crentes, eles receberam o Espírito Santo e começaram a falar em línguas e a profetizar. É, dificilmente, aceitável que Lucas compreendia e usava a mesma frase de forma diferente da que Paulo usava e vice-versa.

De forma clara, o dom de línguas pode ser melhor compreendido como o dom de falar línguas estrangeiras sem tê-las estudado.

Conclusão

1 Coríntios 14:2 se refere a uma situação na qual alguém que fala uma língua estrangeira em um contexto no qual a língua não é compreendida fala somente a Deus porque somente Deus pode compreender todas as línguas. O dom do Espírito em Corinto foi um dom genuíno do Espírito Santo, as foi mal empregado. Consequentemente, a igreja foi instruída por Paulo a retomar o uso correto dos dons espirituais para que eles pudessem se tornar uma bênção e não um estorvo para os crentes e os descrentes.


Notas:

1 Raymond F. Collins, First Corinthians, Sacra Pagina Series, Volume 7 (Collegeville, Minn.: The Liturgical Press, 1999), p. 492.

2 ASeptuaginta.

3 A Septuaginta em Isaías 29:24 e 32:4 fala, também, sobre línguas gaguejantes que aprenderão a falar claramente.

4 Thomas R. Edgar, Satisfied by the Promise of the Spirit: Affirming the Fullness of God’s Provisions for Spiritual Living (Grand Rapids, Mich.: Kregel, 1996), p. 153.

5 Gerhard F. Hasel, Speaking in Tongues: Biblical Speaking in Tongues and Contemporary Glossolalia (Berrien Springs, Mich.: Adventist Theological Society Publications, 1991), p. 140.

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