Jerusalém após Os Macabeus: Os Efeitos da Revolta na Cidade

Jerusalém após Os Macabeus: Os Efeitos da Revolta na Cidade


Lawrence H. Schiffman é Professor de Hebraico e de Estudos Judaicos na New York University e Diretor do Global Institute for Advanced Research in Jewish Studies. O Professor Schiffman é especialista em Manuscritos do Mar Morto e fez parte do grupo internacional de estudiosos que prepararam uma ampla publicação dos Manuscritos em 1991. Autor de diversos artigos e livros com destaque para “From Text to Tradition, A History of Judaism in Second Temple and Rabbinic Times”.


Tradução: Hugo Martins.

Tradução do artigo publicada com autorização expressa do autor. O original, em inglês, pode ser acessado no site oficial do autor.


Jerusalém após Os Macabeus: Os Efeitos da Revolta na Cidade

O período após a Revolta dos Macabeus começou em grande expansão na cidade de Jerusalém, e, até mesmo, no Har Habayit (Monte do Templo). Jerusalém se expandiu para o oeste para incluir a área conhecida como Cidade Alta, e uma combinação de ampliação e remodelação do recinto do Har Habayit resultou também. Como resultado, Jerusalém neste período, mais uma vez, tornou-se uma próspera e bela cidade. Mas para entender estes acontecimentos importantes, é primeiramente necessário conhecer as consequências resultantes da reconquista da cidade, e do Beit Hamikdash (Templo Sagrado), sob o comando Yehudah (Judas) Macabeu na revolta de 168–164 A.E.C.

A Dinastia Hasmoneana

Contrariamente ao que muitos pensam, a conquista miraculosa e a purificação do Beit Hamikdash em 25 de Kislev em 164 A.E.C. não fora o fim da estória de Hanukkah. Os inimigos dos judeus, os yevanim (“gregos”), eram os governantes helenistas da Síria conhecidos como seleucidas (Esta dinastia é nomeado por causa de Selêuco, uma dos generais de Alexandre O Grande). Mediante diplomacia inteligente, e fazendo o jogo político do povo judeu, que incluía até mesmo alguns indivíduos pró-helenistas que apoiavam a cultura grega, os selêucidas conseguiram remover Judas e seus apoiadores do Beit Hamikdash. Eles, então, investiram Joaquim (Alcimo), um helenista como kohen gadol (sumo sacerdote). Judas e seus homens precisaram novamente batalhar em uma guerra de resistência nas fortalezas das Colinas da Judeia. Após a morte de Judas no campo de batalha, ele fora sucedido por o seu irmão Jônatas, que era o comandante de quase 10.000 tropas.

Quando um conflito interno se desenrolou na Síria sobre quem governaria (algumas coisas nunca mudam!), Jônatas sabiamente apoiou o sucessor dos dois pretendentes ao trono, e, como recompensa, fora-lhe garantido reconhecimento oficial como o governador da Judeia. Ele fora aceito, então, pelo povo como o governador e o sumo sacerdote. Fora ele que efetivamente estabelecera a dinastia dos chashmonaim (hasmoneus) que durara de 152 A.E.C até a conquista de Eretz Yisrael (Terra de Israel) em 63 A.E.C. Após a sua morte, seu irmão Simão governou (142–135 A.E.C.), e, com sucesso, deu um passo importante em direção à independência, quando ele expulsou as tropas que ocupavam o Akra, a fortaleza selêucida recentemente descoberta e escavada a sul do Har Habayit. De um ponto de vista jurídico, isso significa que o estado hasmoneano era, então, totalmente independente.

Jerusalém era, então, a capital do estado hasmoneano, que rapidamente começou a conquistar territórios circunvizinhos, um processo que continuou com governantes posteriores, Yochanan Cohen Gadol (João Hircano, 134–104 A.E.C.), e Yannai Hamelech (Alexandre Janeu, 103–76 A.E.C.). No tempo de Janeu, os governantes hasmoneanos eram chamados de reis, como pode ser visto em suas moedas. Juntamente com esse processo de expansão geográfica, viera a extirpação da idolatria, e uma prosperidade econômica considerável no país. Devemos acrescentar que as moedas deste período não continham imagens humanas, e foram decoradas com diversos símbolos tradicionais judaicos.

Expansão de Jerusalém

Logo após a ascensão de Jônatas, a cidade de Jerusalém começou a crescer. Durante o período hasmoneano, a cidade cresceu aproximadamente de 5.000 para 30.000 residentes. Este aumento pode ter começado um pouco mais cedo. Já antes da Revolta dos macabeus, a população tinha começado a se expandir a oeste da área do Ir de David (Cidade de Davi), que constituía toda a cidade durante a época de Esdras e Neemias. Um impulso tremendo fora dado a este processo pelo hasmoneus quando eles começaram a reconstruir os muros da cidade que cercaram a cidade no tempo do primeiro Beit Hamikdash. Nos últimos anos antes da destruição do Beit Hamikdash, a Cidade alta, no Monte Oeste, fora totalmente ocupada. Muitas partes do muro do período do Bayit Rishon ([Primeiro Templo] antes da conquista babilônica, e da destruição do templo) ainda podem ser vistas. Conforme o muro era reconstruído, constituía a fronteira efetiva onde a cidade cresceria noa tempos hasmoneanos (posteriormente se expandiria para o norte). Este muro, cravejado com torres de defesa, é aquele denominado por Josefo como o Antigo (ou Primeiro) Muro, um dos três que os romanos teriam de penetrar para tomar o Har Habayit em 70 E.C. Que este muro fora reconstruído pelo hasmoneus é suportado tanto por evidências arqueológicas quanto também pelo livro apócrifo de 1 Macabeus (10:10–11, 13:10). Aprendemos deste que o projeto começara com Jônatas, e fora concluído por Simão. Em razão do muro ser reconstruído paulatinamente, o estilo arquitetônico não é uniforme. Aparentemente, seções foram construídas de acordo com as necessidades defensivas, deixando áreas defendidas por recursos naturais por último.

A expansão da cidade neste momento teve lugar na Monte Oeste, mais ou menos onde hoje é o bairro judeu da Cidade Velha. Esta área fora ocupada durante o tempo do primeiro Beit Hamikdash, mas a maior parte permaneceu abandonada após a destruição pelos babilônios. A nova construção teve um estilo de arquitetura muito helenístico, como pode ser aprendido tanto por escavações arqueológicas quanto historiador Flávio Josefo. Alguns túmulos dessa época também apresentam estilo helenista.. A Cidade Alta incluía o edifício do Concílio da Cidade, um ginásio, e o palácio hasmoneano. Esta edificação não foi escavada, mas um vislumbre do tamanho que dever ter sido a sua grandiosidade se pode obter pelo estudo dos palácios hasmoneanos magníficos escavados em Jericó. Infelizmente, detalhes da cidade nesse período ficaram ofuscados pela atividade de construção extensiva que decorreu no âmbito do estado de Hordos (Herodes “O Grande” 38–4 A.E.C.).

Har Habayit e Beit Hamikdash

Embora sempre falamos de dois templos, o primeiro, construído por Shlomo Hamelech (Rei Salomão), e o segundo, construído após Koresh (Ciro O Grande) ter permitido os judeus do exílio babilônico retornar ao lar, foram construídos em diversos estágios. Quando fora reconstruído no tempo de Ageu, Zacarias, e Malaquias, dentre os últimos nevi’im (profetas), era uma estrutura pequena, e aqueles que lembraram de seu predecessor choraram quando eles viram as suas fundações sendo construídas (Esdras 3:12; Ageu 2:3). Tempos depois, começando em 18 A.E.C., Herodes, o meio-judeu” (por parte de pai), governante da Judeia, construiu uma estrutura magnífica que se tornara uma das maravilhas do mundo antigo. Este templo é descrito detalhadamente por Josefo, no contexto de sua narrativa da destruição de Jerusalém pelos romanos.

Mas, na verdade, sabemos agora que uma estrutura muito maior do que a edificada pelos repatriados do exílio babilônico de 70 anos existira antes de Herodes começar o seu projeto de construção massivo. A evidência arqueológica, a arquitetura do Segundo Templo hasmoneano, tem, sem dúvidas, sido vista por muitos leitores nossos. No entanto, dependendo do conhecimento de seus guias turísticos, eles podem ou não ter percebido. Muitos fazem as suas rotas dos túneis que vão do Kotel para o norte, junto ao muro externo do Har Habayit, que fora expandido por Herodes. Ao caminhar em direção ao norte através dos túneis, chega-se a um ponto onde o pavimento do período herodiano termina, e andamos sobre uma passarela plástica com a água fluindo abaixo.

As escavadeiras revelaram o antigo túnel de água que fornecia água para o Beit Hamikdash no período hasmoneano. Este sistema de água se originava do sul de Beit Lechem (Belém), e percorria uma grande distância, usando colinas inclinadas para mover a água por gravidade. Encontra o Beit Hamikdash em ponto a noroeste. Contudo, quando Herodes expandiu o Har Habayit no norte e no sul, esta fonte de água fora cortada e coberta com pavimento similar aos outros. Este é o ponto onde o Har Habayit termina nos tempos hasmoneanos. Norte dali estava uma fortaleza chamada Birah (Baris), com a qual os reis macabeus protegiam o templo. Pode também ter servido como uma residência real. Toda essa área fora incluída por Herodes em sua expansão norte do Har Habayit. Embora não seja tão seguro visitá-lo hoje à pé, no lado oriental do Har Habayit, em direção ao sul, não longe do canto sudeste, pode-se ver uma clara emenda separando a cantaria do período hasmoneano do área onde os construtores herodianos estenderam o Monte do Templo para o sul. Em boa parte desta ampliação está a área conhecida como os Estábulos de Salomão, onde os árabes construíram uma mesquita subterrânea enorme. A Mishná (Middos 2:3) registra que os reis da Grécia, claramente os selêucidas, fizeram 13 de aberturas no soreg, uma cerca em torno do recinto do Templo no Har Habayit. 1 Macabeus (9:54) atribui a responsabilidade a Alcimo, e os estudiosos têm explicou que ele buscava destruir as divisas em que foram publicadas os sinais indicando que a partir dali os não-Judeus não tinham permissão para ir adiante. Os reparos mencionados na Mishná foram, certamente, feito pelo hasmoneus, que devem ter sido os responsáveis pela expansão do Har Habayit descrito na Mishná.

A razão pare isto ser tão importante é porque este segundo, o Beit Hamikdash hasmoneano que existia antes da expansão e reconstrução massiva de Herodes, é aquele que se encaixa na descrição do Beit Hamikdash em Maseches Middos. Esta é uma descrição bem conhecida do Har Habayit de 500 x 500 ammas (côvados, uma unidade de aproximadamente 46 cm). Inúmeros estudiosos têm tentado conciliar esta descrição mishnaítica com a provida por Josefo para a Templo Herodiano. Tudo não passa de um engano. Ambas as descrições estão corretas, mas descrevem estágios diferentes na arquitetura do Beit Hamikdash. Portanto, aquele que queira saber como o templo se parecia no tempo do Império Hasmoneano precisa somente se atentar para as descrições da Mishná. O belo modelo de Jerusalém que é agora apresentado no Templo do Livro, a edificação do Museu de Israel dedicada aos Manuscritos do Mar Morto, representa a cidade e o Templo conforme descritos por Josefo, como existia no tempo de Herodes, e depois.

O período dos governantes hasmoneanos fora central para a história judaica. Infelizmente, o declínio desta dinastia abriu o caminho para a tomada romana de Eretz Yisrael, em 63 A.E.C., e, por sua vez, o Segundo Templo, em 70 E.C. Todavia, precisamos relembrar que aqueles foram os anos dos zugos, os pares de Tannaim listados em Pirkei Avot (A Ética dos Nossos Pais). Dos sábios, Josefo coletou e transmitiu a nossa mesorah (tradição judaica), e passou adiante para os grandes mestres Hillel e Shammai, e os seus estudantes. Este é também o período o qual aprendemos muito de Chazal, Josefo e Manuscritos do Mar Morto sobre os grupos sectários concorrentes. A Jerusalém hasmoneana serviu como pano de fundo para as disputas famosas entre os Perushim (separatistas) e os Tzedukkim (justos), e era a cidade a partir da qual os sectários do Mar Morto se retiraram, incapazes de viver no mundo real da capital da Judeia. Esses são os anos os quais temos tentado aqui, apesar da escassa evidência, obter uma imagem de Jerusalém e do Beit Hamikdash, e, ao fazê-lo, colocar um outro elo na cadeia de nossa relação eterna com Jerusalém e Eretz Yisrael.

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