Ellen G. White e O Reavivamento de 1873: Um Estudo de Caso em Reavivamento e Reforma

Ellen G. White e O Reavivamento de 1873: Um Estudo de Caso em Reavivamento e Reforma


Donny Chrissutianto, MDiv, está estudando atualmente para um PhD em História da Igreja e Teologia Histórica no Adventist International Institute of Advanced Studies, em Silang, Cavite, nas Filipinas.


Tradução: Hugo Martins

O artigo “Ellen G. White e O Reavivamento de 1873: Um Estudo de Caso em Reavivamento e Reforma” (Original em inglês: Ellen G. White and the 1873 revival: A case study in revival and reformation), de Donny Chrissutianto, fora publicado, inicialmente, em dezembro de 2015 na revista Ministry,® International Journal for Pastors, www.MinistryMagazine.org.  Usado com permissão.


Introdução

O crescimento eclesiástico na jovem Igreja Adventista do Sétimo Dia viera a ter uma parada virtual durante os anos 1870. Em 1871, a tendência de crescimento rápido revertera-se tão tragicamente que o número de membros da igreja declinou nesse ano.[1] Dois anos depois, após sua primeira década formativa, a Igreja Adventista do Sétimo Dia alcançara um ponto crítico.

A condição da igreja

Talvez um dos sintomas mais óbvios de que as coisas não estavam tão bem era que os membros falharam em praticar o que eles acreditavam. Parte deste desafio para a vida adventista em 1873 é refletida pela resolução feita pelos líderes da igreja na 12ª Conferência Geral, realizada em Battle Creek, Michigan. Eles observaram a “oposição de muitos do povo do advento para com o Sábado e a lei de Deus.”[2] Enquanto em teoria essas eram verdades fundamentais do adventismo, a realidade é que os líderes da igreja notaram que a crença em uma doutrina fundamental tais como o Sábado e a lei de Deus fizeram pouco para mudar o clima espiritual.

Percebendo o problema, Ellen G. White advertiu: “Difícil é aos que se acham seguros em suas realizações, e que se acreditam ricos em conhecimento espiritual, receber a mensagem que declara se acharem enganados e necessitados de todas as graças espirituais.”[3] Ela desenvolveu suas preocupações em relação a vida espiritual mais sucintamente no Testemunho Nº 23, acerca da “Mensagem de Laodiceia.” Ela continuou a demonstrar essas preocupações em uma série de artigos na Review and Herald, de setembro a outubro daquele ano[4]. Advertiu ela: “Foi-me mostrado que a maior causa de o povo de Deus se achar agora nesse estado de cegueira espiritual é não aceitarem a correção.”[5]

Resistência às advertências de Ellen White estava causando cegueira espiritual. Ela advertira-lhes que eles ainda não reconheciam seu perigo espiritual. Essa apatia espiritual resultou em outros aspectos pragmáticos de suas vidas, mais notavelmente um desprezo estarrecedor pelo estilo de vida adventista, com uma nova luz sobre a importância de uma vida saudável e da “reforma do vestuário.”[6]

No fim de 1872, quando Ellen White inicialmente escrevera o Testemunho Nº 22,[7] ela, especificamente, advertiu sobre a falta da reforma da saúde na igreja de Battle Creek. Os membros desta congregação, de acordo com Ellen White, não reconheciam a luz que eles tinham recebido mesmo embora eles tiveram aprendido “firmes princípios religiosos.” Eles não tinham implementado mudanças no estilo de vida. Muitos trataram a reforma do vestuário “com uma enorme indiferença e . . . com desdém.”[8]

Uma outra área que sofria uma desconsideração estarrecedora era o novato sistema educacional. Líderes da igreja não tinham apoiado a nova escola e, portanto, “Eles não compreendiam então o significado da pequena escola da igreja iniciada em Battle Creek por Goodloe H. Bell.” Ellen White apelou aos membros da igreja a acordar e perceber a importância da educação para a juventude.[9]

Antes de 1873, o evangelismo centrara-se primariamente na América do Norte. Neste estágio primário, alguns “missionários” prímevos começaram a viajar para a Califórnia.[10] A casa publicadora precisava de um “esforço renovado” para expandir-se para além dos Estados Unidos e “para pessoas de outras línguas”. Esta era a situação durante a 11ª Conferência Geral em março de 1873, onde várias decisões foram tomadas para seguir em frente. Entretanto, a ação não fora tomada imediatamente. A missão da igreja estava em perigo. Um reavivamento era necessário para retornar o coração do povo a Deus e para eles tornarem-se renovadamente motivados em fazer Sua obra.

Apelo das Rocky Mountains

Em 22 de abril, Tiago White experimentou um outro problema de saúde, o pior dos últimos quatro eventos debilitantes subsequentes.[11] Enquanto em retiro nas Rocky Mountains com o propósito para Tiago se recuperar, os Whites não ficaram ociosos. Eles continuaram a escrever para periódicos da igreja, especialmente sobre a profunda preocupação pelo progresso da obra de Deus e do bem-estar espiritual da igreja.[12] Durante este tempo, eles focaram-se, também, em seu relacionamento pessoal com Deus. Ellen White descreveu seu tempo: “Devotamo-nos à oração e à escrita.  Clamamos fervorosamente a Deus para conhecermos nosso dever em relação a Battle Creek.”[13] Os Whites passaram tempo meditando e voltando-se para mais próximos a Deus, refletindo acerca da obra que eles fizeram, da condição espiritual do povo de Deus e da direção geral de suas vidas e da igreja.

Conforme eles abriam suas mentes a Deus e pediam por sua direção, Deus os guiara a escrever o Testemunho Nº 23 e An Earnest Appeal [Um Apelo Fervoroso], o que expandira suas visões do ministério progressivo da igreja. Ellen White, no Testemunho 23, focara-se extensamente sobre como a justiça própria, a autossuficiência e a relutância em não receber correção tornam-se barreiras para o crescimento espiritual do povo de Deus.[14]­ Tiago White escrevera sobre a necessidade de o povo ser corrigido por um instrumento de Deus. Enquanto isso, ele dirigira seu tratado Um Apelo Fervoroso aos líderes da igreja, dizendo que eles não deveriam depender de uma única pessoa como um líder. Ele apelara a todos os líderes para unirem-se e trabalharem juntos. Ele ofereceu ideias sobre como avançar a obra na educação, na saúde e no ministério de publicações.[15]

Tiago White focara-se nas questões práticas relacionadas a administração. Ellen White focara nos corações do povo de Deus e seu relacionamento com Deus. Seus conselhos deram energia revigorante por desafiar os líderes da igreja a lembrarem-se de sua obra em termos de serviço para o Senhor. A reação de alguns líderes mostrara o impacto positivo dos esforços combinados dos Whites.

Reação dos líderes da igreja

A obra dos Whites tocou umas poucas pessoas-chaves em diferentes áreas. S. N. Haskell respondeu que os dois panfletos combinados, o Testemunho Nº 23 e Um Apelo Fervoroso, eram importantes porque “chegamos em uma crise preocupante na história de Sua obra.” Ele concluiu: “parece a mim que todos aqueles que acreditam esta obra ser de Deus, deveriam estar movidos em um novo empenho por causa da solene admoestação dada no Testemunho Nº 23. Deveria ser lido com oração e meditação por cada adventista do sétimo dia na terra.”[16].

G. I. Butler ficou em sintonia com Haskell quando ele observou que uma enfermidade espiritual estava permeando a denominação. Ele fora convencido pela mensagem dos White que tal enfermidade espiritual era um estorvo para a igreja. Ele admitiu: “estão sobretudo adormecidos; e quando recebemos uma advertência, se diretamente do Senhor ou daqueles a quem o Senhor te, chamado para agir como vigias, aparentamos como sendo pessoas sonolentas, em uma situação deplorável.” Butler não ficou apenas no discurso; ele reagiu rapidamente por correr para Battle Creek de Iowa e organizar a próxima Conferência Geral.[17] Tiago White sugerira a data do encontro, e esta fora aprovada.[18] Agora, a igreja estava pronta para a 12ª Conferência Geral.

Um reavivamento começa na 12ª Conferência Geral

O encontro, que fora realizado em Battle Creek de 14 a 18 de novembro de 1873, fora uma assembleia extraordinária porque era a segunda sessão da Conferência Geral realizada nesse ano. Durante o atual encontro, um reavivamento significativo tomou lugar. A espiritualidade da igreja fora prioridade conforme a primeira resolução destacou: “arrependemos nos, profundamente, da oposição de muitos do povo do advento ao Sábado e à lei de Deus.”[19]­ Corporativamente, os membros da igreja afirmaram sua necessidade de obedecer às verdades que Deus confiara a Igreja Adventista do Sétimo Dia.­

Um outro tópico para discussão na 12ª Conferência Geral fora um reconhecimento por parte dos líderes da igreja e uma afirmação do dom da profecia conforme manifestado no ministério de Ellen G. White. Como um resultado, o comitê executivo da Conferência Geral precisou preparar várias razões para “acreditar que os testemunhos da Irmã White ser o ensino do Espírito Santo.”[20]

Conforme o encontro tomava lugar, uma mudança ocorrera de suas necessidades apenas para as necessidades dos outros, especialmente daqueles que não falavam inglês. Esta sessão encorajou a disseminação do material onde haviam muitas pessoas esperando pela mensagem da verdade das publicações adventistas. O caso do ministério de publicações fora apresentado, onde todas as conferências e sociedades de publicação pudessem caminhar juntas em espalhar as publicações adventistas tanto para membros da igreja quanto para não-adventistas.­

Uma outra área de evangelismo centrara-se na necessidade de educar jovens adventistas para uma vida de serviço. A Conferência Geral formou um comitê de quatro pessoas no qual eles discutiriam o desenvolvimento da educação adventista. Uma outra questão importante era a consciência da igreja de não depender de uma única pessoa liderar a obra de Deus e que deveria haver algumas pessoas eleitas para cooperar com o líder. A ideia de liderança coletiva fora confirmada.­[21]

As características do reavivamento

O que estava acontecendo era que o ambiente da igreja tivera mudado. Eles agora tinham um senso de sua necessidade espiritual e coletivamente afirmaram a importância do conselho de Ellen G. White. Butler, presidente da sessão, dera seu testemunho acerca deste encontro: “Eu o considero como um dos mais importantes encontros já realizados entre os adventistas do sétimo dia.” Butler concluíra a situação da sessão como: “Nunca houveram tão claras evidências que o Espírito de Deus estivera unindo corações que tinham estado em maior ou menor grau divididos. Nunca houveram princípios são claramente vistos antes, nos quais a verdadeira união deve estar fundamentada.”[22] O ambiente de reavivamento sentido por Butler fora descrito como único comparado com qualquer encontro anterior que ele já tivera comparecido.­

J. N. Andrews, o primeiro missionário oficial da denominação, comentou sobre a sessão “extraordinária”, escrevendo que “os corações dos servos de Deus estão mais proximamente unidos nos laços do amor cristão e, provavelmente, nunca houvera um tempo quando tal unanimidade de sentimento perfeita e de juízo tem existido como no tempo presente.”[23] Ele sabia que o Espírito de Deus esta operando no encontro da 12ª Conferência Geral e um reavivamento estava ocorrendo nos corações dos presentes.

J. H. Waggoner, um outro ministro adventista prímevo presente, disse que todas as pessoas, incluindo ele, regozijaram-se. Ele sentira que todos os encontros “foram proveitosos. A mais alta harmonia prevalecera. Aqueles que tinham duvidado foram confirmados na fé e os desconfiados tornaram-se confiantes. A pregação fora prática e comovente, e os encontros sociais foram marcados com um sentimento profundo.”[24] Ele ficara impressionado com a atmosfera e que esta conferência trouxera um grande avanço da obra adventista.

Conclusão

O dom da profecia, conforme manifestado através da vida e do ministério de Ellen G. White, combinado com a liderança espiritual de Tiago White, desempenhou um papel primordial como um catalisador para o reavivamento. Quando os líderes adventistas prímevos ignoravam a correção, eles caiam em uma profunda escuridão espiritual. Entretanto, quando eles prestavam atenção ao conselho inspirado, um reavivamento espiritual significante tomava lugar. O reavivamento e a reforma em 1873 demonstraram que os pioneiros humilharam a si mesmos e receberam orientação de Ellen White, o reavivamento tomara dimensões que se expandiram para incluir reforma na educação, publicação e instituições de saúde da obra. ­­­

O reavivamento ocorrera em 1873, depois que Ellen G. White escreveu o Testemunho Nº 23, contendo a mensagem de Laodiceia que fora endereçada ao povo adventista. A mesma situação ocorrera na igreja cristã primitiva quando a igreja de Laodiceia sentia-se rica e abastada com bens e não compreendia sua fraqueza espiritual (Ap 3:14–18). A mensagem entregue à igreja em Laodiceia fora repetida aos adventistas do sétimo dia em 1873. Os ingredientes que impulsionaram o reavivamento e a reforma no passado poderiam ser os mesmos ingredientes que podem resultar em reavivamento e reforma hoje.

[1] Tiago White, “Business Proceedings of the Ninth Annual Session of the General Conference of S. D. Adventists,” Review and Herald,14 de fevereiro de 1871, p. 68. Ver, também, Malcolm Bull and Keith Lockhart, Seeking the Sanctuary (Bloomington, IN: Indiana University Press, 2007), p. 138.

[2] G. I. Butler, “Business Proceedings of the Twelfth Annual Meeting of the S. D. A. General Conference,” Review and Herald, 25 de novembro de 1873, p. 190.

[3] Ellen G. White, “The Laodicean Church,” Review and Herald, 16 de setembro de 1873, p. 109.

[4] A mensagem apareceu na Review and Herald em 16, 23 e 30 de setembro e 7 de outubro de 1873.

[5] Ellen White, Testimony No. 23 (Battle Creek, MI: Seventh-day Adventist Publishing Association, 1873), pp. 5, 12.

[6] G. I. Butler, “Proceedings of the Eleventh Annual Meeting of the General Conference of S. D. Adventists,” Review and Herald,18 de março de 1873, p. 108.

[7] Arthur L. White, Ellen G. White: Biography (Hagerstown, MD: Review and Herald Pub. Assn. 1981), 2:376.

[8] Ellen G. White, Testimony No. 22 (Battle Creek, MI: Steam Press 1872), pp. 57, 65.

[9] Ellen White, Testemunhos para A Igreja, vol. 3, pp. 5, 131.

[10] No relatório de membros do 11º encontro da Conferência Geral. G. I. Butler, Review and Herald,18 de março de 1873, p. 108.

[11] Ellen G. White, Manuscript 6, 22 de março de 1873, Ellen G.  White Estate.

[12] A. L. White, Ellen G. White, 2:386.

[13] Ellen G. White, Manuscript 12, 11 de outubro de 1873, p. 6.

[14] Ellen G. White, Testemunho Nº 23, pp. 3–71.

[15] Tiago White, An Earnest Appeal [Um Apelo Fervoroso, em Testemunho Nº 23, pp. 1–47. Ver, também, A. L. White, Ellen G. White, 2:389.

[16] S. N. Haskell, “Testemunho Nº 23,” Review and Herald, 21 de outubro de 1873, p. 152.

[17] G. I. Butler, “Testemunho Nº 23 e Bro. White’s Address,” Review and Herald, 4 de novembro de 1873, p. 164.

[18] Ellen G. White, Manuscript 12, 23 de outubro de 1873, p. 9.

[19] Butler, “Business Proceedings of the Twelfth Annual Meeting,” p. 190.

[20] Ibid.

[21] Ibid.

[22] G. I. Butler, “The Conference and the Work at Battle Creek,” Review and Herald, 25 de novembro de 1873, p. 188.

[23] J. N. Andrews, “The General Conference,” Review and Herald, 25 de novembro de 1873, p. 188.

[24] J. H. Waggoner, “Blessings Acknowledged,” Review and Herald, 25 de novembro de 1873, p. 188.

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