A Criação e As Três Mensagens Angélicas
Kwabena Donkor é diretor associado do Biblical Research Institute [Instituto de Pesquisas Bíblicas] na Conferência Geral dos Adventistas do Sétimo Dia em Silver Spring, Maryland. Ele é editor de The Church, Culture, and Spirits: Adventism in Africa [A Igreja, Cultura e Espíritos: Adventismo na África] e contribuiu para diversos jornais e para o livro Reclaiming the Center: Confronting Evangelical Accommodation in Postmodern Times [Reinvindicando O Centro: Confrontando A Acomodação Evangélica nos Tempos Pós-modernos]. Ele e sua esposa Comfort têm dois filhos, já adultos.
Tradução: Hugo Martins
Colaboração: Pastor Gabriel Lincy
O artigo “A Criação e As Três Mensagens Angélicas” (Original em Inglês: “Creation and the Three Angels’ Messages”), por Kwabena Donkor, fora publicado, inicialmente, pelo Adventist Biblical Research Institute. Usado com permissão.
As três mensagens angélicas de Apocalipse 14: 6–12 foram fundamentais para os primeiros adventistas após o Grande Desapontamento de 1844, mas as implicações teológicas das mensagens se desenvolveram ao longo do tempo e continuam a exercer uma influência importante sobre o pensamento e a missão adventistas até hoje. A reflexão inicial (até 1849) se concentrou nos mandamentos de Deus e na fé de Jesus. Após 1849, a reflexão sobre as mensagens aumentou para incluir uma compreensão completa de seus vários aspectos, incluindo o sábado e sua conexão com a doutrina da criação. Ellen G. White entendeu que as mensagens são parte integrante das crenças fundamentais dos adventistas.
“O período pós-1844 foi repleto de grandes eventos, descortinando diante de nossos olhos atônitos a purificação do santuário em andamento no Céu e tendo clara relação com o povo de Deus na Terra, [também] as mensagens do primeiro e do segundo anjos, e a terceira, desfraldando a bandeira sobre a qual se acham gravados: “Os mandamentos de Deus e a fé de Jesus.” Um dos marcos dessa mensagem era o templo de Deus, visto no Céu por Seu povo amante da verdade, e a arca contendo a lei de Deus. A luz do sábado do quarto mandamento irradiava seus potentes raios sobre o caminho dos transgressores da lei de Deus. A não imortalidade dos ímpios constitui também um marco. Não me lembro de mais nada que possa estar incluído na categoria dos antigos marcos.[1]
Adventistas, hoje, continuam afirmando as alusões à criação e ao sábado nas três mensagens angélicas, e, mais especificamente, na conexão da doutrina do sábado com as doutrinas de Deus como Criador, Redentor, Proponente de Aliança, Doador de bons dons e Sustentador de sua Criação.[2] Talvez, mais do que nunca, os desafios contemporâneos da doutrina bíblica da criação tenham direcionado o foco do pensamento adventista para a teologia da criação. O presente estudo representa um esforço para compreender a importância da criação nas três mensagens angélicas. O objetivo é focar mais precisamente na conexão exegética e teológica entre a doutrina da criação nas três mensagens angélicas e nos outros temas das mensagens.
A discussão a seguir é dividida em duas partes principais. Na primeira parte, como a criação fornece a base teológica para temas relacionados nas três mensagens angélicas, o tema da criação no Livro do Apocalipse como um todo e as três mensagens angélicas, em particular, serão estudados. A segunda parte da discussão procura elaborar as inter-relações entre os temas nas mensagens. No entanto, antes de estabelecer o tema da criação nas três mensagens angélicas, é proveitoso enxergar as mensagens em seu contexto, ou seja, as circunstâncias que cercam a proclamação das mensagens.
Contexto das Três Mensagens Angélicas
Apocalipse 11:19–14:20 retrata o longo conflito entre o bem e o mal na terra e seu resultado.[3] Após apresentar uma mulher, a verdadeira Igreja de Deus, e o Dragão [Satanás], Apocalipse 12 chama a atenção para a encarnação de Jesus e o conflito que ele teve que suportar durante seu tempo na terra. Ele é retratado como o governante das nações e “arrebatado para junto de Deus e do seu trono” (Ap 12: 4–5). Claramente, com sua referência a uma mulher, uma serpente, a semente da mulher e a inimizade, Apocalipse 12 é baseado no protoevangelho de Gênesis 3:15. Temos, aqui, a promessa do Redentor e a redenção após a queda da humanidade no pecado no Jardim do Éden e as terríveis consequências decorrentes. Na visão, o ataque de Satanás a Jesus é seguido por sua guerra contra a igreja, o povo de Deus ao longo dos tempos do Novo Testamento, ou seja, a história da igreja (Ap 12:6, 13–16). Mas Apocalipse 12 também abre a cortina que separa a realidade celestial da terrena, retratando nos bastidores uma batalha celestial mortal entre Miguel e o dragão, ou seja, entre o Filho de Deus e Satanás (Ap 12:7-10). Essa luta termina com a derrota de Satanás, mas não com sua aniquilação. Consequentemente, o último verso do Apocalipse 12 se concentra no conflito intenso no final da história da Terra, onde Satanás tenta destruir o fiel remanescente de Cristo (Ap 12:17; 13:1–18).
De Apocalipse 13, aprendemos que essa guerra é uma guerra por procuração, já que o dragão usa a besta do mar para fazer guerra contra os santos.[4] Infelizmente, os crentes, que “superaram” Satanás “pelo sangue do Cordeiro” (Ap 12:11),[5] agora são “superados” pela besta do mar (Ap 13: 7), pelo menos temporariamente e, muito provavelmente, em outro sentido. Eles venceram espiritualmente, mas não conseguiram escapar da perseguição. Satanás também usa uma segunda besta extremamente enganosa: a besta que saiu da terra, posteriormente chamada de falso profeta. Esta segunda besta se opõe tanto ao verdadeiro povo de Deus que impede os crentes de comprar e vender (Ap 13:17) e, assim, ameaça a existência deles. Além disso, cria uma imagem da primeira besta e a traz à vida. Esta imagem, após ser trazida de volta, se empenha para matar os que não a adoram (Ap 13:15). O final do capítulo 13 deixa o leitor com a impressão de que as pessoas fiéis a Deus não têm chance de sobreviver ao ataque do mal.
Neste contexto, Apocalipse 14 ganha ainda mais importância. Os sobreviventes são retratados como já em pé triunfantemente com Jesus no Monte Sião. A visão termina com uma descrição dos 144.000 (Ap 14:1–5), suas mensagens (Ap 14:6–12) e a segunda vinda de Cristo, que é um tipo de juízo para os descrentes (Ap 14:14–20).[6] É significativo também que a segunda vinda não é apenas um evento negativo como um tipo de juízo para os ímpios, mas, também, uma experiência positiva de juízo quando a possibilidade de “duas colheitas” é reconhecida em Apocalipse 14:14–20, representando julgamento para os crentes nos vv. 14-16.[7]
Esta visão central também é conhecida por vários nomes: por exemplo, “A Visão sobre A Trindade Satânica,” “A Visão da Mulher e Os Poderes do Mal,” “A Visão do Grande Conflito” e “A Visão da Grande Guerra.” É difícil resumir a visão em um título, porque ela tem muitos aspectos diferentes. Assim, também se poderia concentrar mais no lado positivo da história do que no negativo e chamá-la de “visão do triunfo do Cordeiro e seu povo.”
Na visão central do Apocalipse, as três mensagens angélicas são as mensagens finais e universais destinadas a todas as pessoas na última vez na história da Terra. Chega no fim da parte histórica do Apocalipse 1–14, mas também está ligado à parte escatológica do Apocalipse 15–22. A partir de Apocalipse 15, os últimos momentos desse drama são revelados. A intervenção de Deus em favor de seus santos acontece na forma das sete taças ou pragas. Essas pragas são as últimas na história humana. Eles são derramados sobre aqueles que aceitaram a marca da besta e adoraram sua imagem (Ap 16:2). A sexta e a sétima praga retratam o colapso da Babilônia na Batalha do Armagedom. Apocalipse 17 e 18 descrevem com mais detalhe esta queda do tempo do fim da Babilônia, já mencionada na segunda mensagem angélica (Ap 14: 8), e Apocalipse 19 descreve a intervenção de Jesus como o cavaleiro montado no cavalo branco com seu exército. Desta forma, a visão após Apocalipse 12–14 retorna ao tempo pouco antes do segundo advento (Ap 15–18) para se mudar novamente para a Parousia (Ap 19). Apocalipse 20 descreve o tempo após o segundo advento de Cristo, o milênio, seguido pela Nova Jerusalém na Nova Terra (Ap 21–22).
Esta breve revisão da visão central de Apocalipse (12–14) é crucial para entender o tempo e o conteúdo das três mensagens angélicas. É uma mensagem para a humanidade no último período da história da humanidade pouco antes da Parousia.[8] Além disso, todo o livro de Apocalipse contribui para a interpretação e relevância das três mensagens angélicas.
Ao focar nas três mensagens angélicas e nos temas do evangelho, adoração e juízo em particular, defendemos que a doutrina da criação é fundação para os outros temas. Portanto, é importante demonstrar esse fato amplamente antes de examinar os temas individualmente para ver suas conexões com a doutrina da criação.
Criação no Livro do Apocalipse e As Três Mensagens Angélicas
Embora o evangelho seja mencionado antes da criação nas três mensagens angélicas, não tem precedência cronológica e teológica. A criação precede a salvação, mas os dois estão ligados. Sem a doutrina da criação, muitos temas teológicos do Livro do Apocalipse, incluindo as três mensagens angélicas, não teriam contexto. Desta forma, é importante, desde o início, retratar a doutrina da criação conforme expressa no livro. Como observado, na mensagem do primeiro anjo, as boas novas da salvação são baseadas na adoração ao criador.
Apocalipse tem referências mais diretas e indiretas à criação do que pode parecer à primeira vista.[9] Grande parte desta linguagem de criação aponta para o Criador em Apocalipse 14:7.
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A primeira referência direta à criação aparece em Apocalipse 3:14, onde Jesus é apresentado como o início ou a origem (archē) da criação de Deus.[10] Este verso pertence às sete cartas em Apocalipse 1–3. Consequentemente, quando falamos sobre o Criador em Apocalipse, Jesus deve ser incluído.
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Na visão do selo, Apocalipse 4:11 se refere ao Criador: “Digno é você, nosso Senhor e Deus, para receber glória, honra e poder, pois você criou todas as coisas e, pela sua vontade, existiam e foram criadas.” Este hino é precedido por outro: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir” (Ap 4:8). Apocalipse 4 se foca na adoração a Deus, o Pai, em sua magnificência e poder, e em suas atividades. O verbo ktizō (“criar/construir”) é usado duas vezes em Apocalipse 4:11. Esta declaração contém diversos pontos importantes: a) O “você” é enfático. Enfatiza e destaca Deus como o criador no sentido de que “a criação é um componente fundamental de quem é Deus.”[11] b) Deus criou todas as coisas. Isso inclui todos os seres vivos e todas as coisas inanimadas. Mas Deus não faz parte da criação. c) A criação por Deus é mencionada duas vezes em Apocalipse 4:11, uma vez no modo indicativo (“porque criaste”) e uma vez no passivo (“foram criadas”). O passivo é um passivo divino. Nenhum ser pode afirmar que não existe como resultado da criação divina. d) Criação não é um acidente ou uma mera coincidência. A criação está enraizada na vontade de Deus. e) A ordem dos verbos “criou”, “existiam” e “foram criados” pode enfatizar Deus como mantenedor da criação.[12] f) Reconhecer Deus como criador tem repercussões sobre a humanidade. Assim como os vinte e quatro anciãos se prostram diante de Deus, reconhecendo-o como a autoridade suprema do universo, os humanos na terra devem fazer a mesma coisa. O ato simbólico dos anciãos de lançar suas coroas diante do trono enfatiza o completo compromisso deles com o Todo-Poderoso. Eles reconhecem sua dependência do Criador,[13] e os humanos devem igualmente expressar sua dependência do Criador.
Os dois hinos de Apocalipse 4 ocorrem no mesmo contexto imediato de adoração: Deus Santo se senta no trono, o Senhor Deus Todo-Poderoso, aquele que era e está por vir, o Deus Criador. Em outras palavras, as designações divinas em Apocalipse 4:8 e similares em Apocalipse 1:8 devem ser entendidas como descrições do Deus Criador. Ao menos de Apocalipse 4 em diante, os nomes e títulos divinos carregam consigo a noção de que Deus deve ser entendido como o criador.[14]
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Em Apocalipse 5:13, a terminologia da criação ocorre novamente: “Então ouvi que toda criatura [ktisma] que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há.” Substantivo ktisma se refere a “criaturas” e “tudo criado.”[15] A criação adora o criador porque ele é digno. Portanto, o primeiro anjo do Apocalipse 14:4–7 pode exigir adoração.
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Apocalipse 10:6 ocorre na expansão da sexta trombeta da visão das sete trombetas. Provavelmente, o anjo forte de Apocalipse 10:1–7 deve ser entendido como Jesus. “por aquele que vive para todo o sempre, o mesmo que criou o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há” (Ap 10:6). Importante mencionar as áreas da criação: céu, terra, mar e o que está nelas. A referência do anjo ao Criador e ao escopo da criação lembram aos estudantes da Bíblia de Gênesis 14:19, 22 (LXX); Neemias 9: 6; Salmo 146: 6; Atos 4:24; 14:15; e o mandamento do sábado em Êxodo 20:11, enfatizando a criação universal de Deus, e, portanto, sua autoridade universal. A repetição tríplice da frase “e tudo o que neles há” reforça a ênfase na onipotência e soberania do criador. O mandamento do sábado é especialmente importante, não apenas porque tem uma conexão literária com a criação, mas porque o sétimo dia é um elemento da criação. O Criador e o Senhor do sábado “precede todas as coisas, e ele trará todas as coisas à realização escatológica. Ele é a origem e o objetivo de toda história. Ele tem a primeira palavra na criação. Ele tem a última palavra na nova criação.”[16] A contribuição da Apocalipse 10: 6 para a teologia da criação da Apocalipse é que ela vincula a protologia à escatologia.[17] É o Deus Criador que controla os eventos na Terra e conduz o final na forma de juiz e nova criação. Como já mencionado na discussão do Evangelho, Apocalipse 10 termina com a comissão ao ministério profético no contexto de povos, nações, línguas e reis. Ele se prepara para as três mensagens angélicas.
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Apocalipse 14:7 é construído sobre três imperativos. O primeiro chama as pessoas a temer a Deus, o segundo a lhe dar glória (a hora do juízo é mencionada como uma razão) e o terceiro a adorá-lo porque ele é o criador. “E adorem aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas” (Ap 14:7). Esses imperativos parecem construir um sobre o outro e podem ser paralelos até certo ponto. A importância deste ponto será explorada quando considerarmos a conexão entre criação e adoração.
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Até agora, os leitores e ouvintes do Apocalipse encontraram a criação original de Gênesis 1 e 2. Em Apocalipse 21 e 22, eles são confrontados com uma nova criação, mas futura. Apocalipse 21:1–2 apresenta um novo céu e uma nova terra, além da cidade santa. A descrição da cidade domina a segunda parte do Apocalipse 21. A primeira parte de Apocalipse 22 acrescenta os elementos do imaginário do jardim, bem como o rio com a água da vida e a árvore da vida. John retrata a Nova Jerusalém como noiva, cidade e jardim. Obviamente, é uma cidade-jardim.[18] Tudo isso está presente na terminologia do santuário. Todavia, o mais importante é a presença abundante de Deus com a humanidade salva. Deus habitará com seu povo, como habitou no Jardim do Éden com Adão e Eva (Gn 2).[19] O resultado maravilhoso de sua presença é descrito com a afirmação positiva de que Deus, no amor paternal, enxugará todas as lágrimas de seus filhos. Pessoalmente e com ternura, ele removerá a origem da dor e da mágoa. Isto é seguido pela ruína de quatro aspectos prejudiciais da vida atual que não foram encontrados na primeira criação: morte, luto, choro e dor. Jonathan Moo observa que, com esses efeitos positivos, a maldição da queda de Gênesis 3 é desfeita.[20] O aspecto verdadeiramente novo na nova criação e no santuário escatológico, no entanto, é a salvação. Não continuaremos, aqui, a explorar a nova criação, porque ela não está diretamente em vista nas três mensagens angélicas.[21] A descrição da atividade criativa de Deus em Apocalipse 14:7 é restrita ao passado. Somente a terceira mensagem usa tempo futuro, criando uma sequência cronológica entre as três mensagens.
Em Apocalipse, a criação é entendida como um dom. Deus criou todas as coisas. Isso inclui tudo não apenas em nosso sistema solar, mas também no universo. Deus é a fonte da vida e não faz parte da criação. Portanto, há, e sempre haverá, uma diferença significativa entre Criador e Criação/Criatura. Mas, uma vez criado, Deus quis estar perto de suas criaturas, incluindo a humanidade. O Deus transcendente se aproximou e se encontrou com seus seres criados. Esta é sua imanência. Desta singularidade como Criador, derivam a propriedade e a autoridade de Deus sobre toda a criação. Ele pode criar, não criar e recriar. Ele é o Todo-Poderoso, o Alfa e o Ômega, o Início e o Fim. Ele deve ser louvado e adorado ainda mais porque o Deus Criador da Bíblia não é deísta, como um relojoeiro que constrói e dá corda ao relógio, mas depois o deixa funcionar sozinho. Ele cuida e se importa com a criação. Apocalipse nos ensina que não apenas Deus é o Pai Criador, mas Jesus Cristo também. Isto destaca ainda mais seu amor e cuidado pela humanidade.
A criação não apenas nos informa sobre a natureza de Deus, mas também nos ajuda a entender melhor a humanidade. Seres humanos não são um acaso da natureza.
Fazemos parte da criação de Deus, e, no entanto, podemos pensar além da criação. Sendo seres morais dotados de vontade e livre-arbítrio, podemos distinguir entre o bem e o mal, escolher entre o certo e o errado, ou a morte, e se devemos seguir a Deus ou se opor a ele (Ap 14:6–12). Saber o que a criação significa, e como ela conecta a humanidade a Deus, permite que as pessoas encontrem o sentido da vida.
Evangelho, Adoração e Juízo nas Três Mensagens Angélicas
A discussão anterior sobre a teologia da criação deixa claro que os temas do evangelho, adoração e juízo estão inextricavelmente ligados: não apenas nas três mensagens angélicas, mas também em Apocalipse como um todo. Na segunda parte desta discussão, examinamos essas conexões mais profundamente.
Criação e Evangelho
O primeiro anjo com sua mensagem mundial tem que eungelizein (“anunciar/trazer boas novas/proclamar o evangelho”) euangélion (“boas novas/evangelho”). Isto pode parecer redundante porque as boas novas do evangelho estão contidas no verbo e no substantivo. Normalmente, o “evangelho” (euangélion) designa as boas novas da salvação através de Cristo. O termo é usado apenas uma vez em todos os escritos de João. O verbo euangelizō aparece apenas duas vezes, ambas em Apocalipse (10:7; 14:6).[22] Mas não há dúvida de que João conhece o conceito das boas novas do evangelho. Provavelmente, seu verso mais conhecido seja João 3:16: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” O verso seguinte menciona a salvação: Jesus não veio condenar o mundo, mas veio à sua salvação (Jo 3:17).
No entanto, a questão frequentemente levantada é se o “evangelho eterno” em Apocalipse 14:6 deve ser definido apenas através de seu contexto imediato; se assim for, seria um juízo punitivo. Vários estudiosos conhecidos, incluindo intérpretes evangélicos, apontaram que, aqui, o termo “evangelho” deve ser entendido em um sentido restrito, apontando principalmente para o juízo em um sentido negativo.[23]
Além de chamar a atenção para o contexto em que o evangelho eterno aparece, outros observaram que ocorre sem o artigo. Portanto, algumas traduções leem a frase como “o evangelho eterno” (e.g., KJV, NKJV, NIV), enquanto outras traduzem “um eterno Evangelho” (e.g., ESV, NASB, Net, NRSV) e não usam artigo algum: “boas novas eternas” (ASV, CEB, NAB). Argumenta-se que, no Novo Testamento, o evangelho no sentido positivo (i.e., não definido no contexto de juízo negativo) é identificado com o artigo (o grego tem apenas um artigo definido ou nenhum artigo, mas não um artigo indefinido) e que a falta do artigo grego aponta para outro evangelho. Sigve K. Tonstad afirma: “A palavra euangélion não tem o artigo e não deve ser confundida como o NT usa ‘evangelho’ em outras partes. . . . Uma concepção tradicional para as ‘boas novas’ não funciona.”[24] G. K. Beale observa: “A natureza furiosa desse anjo e seu ‘evangelho’ são sugeridos pela semelhança com o mensageiro dos três ais em [Apocalipse] 8:13.”[25] No entanto, ele admite que “a ausência do artigo antes de εὐαγγέλιον ([euangélion] ‘evangelho’) pode refletir apenas variação estilística.”[26]
Parece, contudo, que distinguir o “evangelho” no Novo Testamento com base na presença ou ausência do artigo é desnecessário. No Novo Testamento, euangélion é a boa nova do Reino de Deus (Mt 4:23). São as boas novas do reino, cujo conteúdo é explicado pelo próprio Jesus (Mc 1:14–15). O conteúdo do evangelho, como Jesus descreve aqui, torna-se “o ponto de referência para todas as menções seguintes à proclamação iniciada por Jesus e confiada por ele a seus seguidores.”[27] De acordo com Mateus, antes do fim, essa boa nova será pregada em todo o mundo para todas as nações (Mt 24:14). Na compreensão de Paulo, o evangelho está associado a Cristo (2 Co 10:14), e é “¹⁶ é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1:16), o evangelho da graça de Deus (Atos 20:24), o “evangelho da salvação“ (Ef 1:13) e o evangelho da paz (Ef 6:15). Também está associado à verdade (Cl 1: 5) e à esperança (Cl 1:23). “Nosso Salvador Cristo Jesus. Ele não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho“ (2 Tm 1:10). G. B. Caird argumenta que “A palavra euangélion só pode significar ‘boas novas ‘, e é improvável que João tenha pensado em usá-lo cinicamente. . . . É um evangelho eterno, um evangelho enraizado e fundamentado no caráter imutável e no propósito de Deus. Se o anjo carregou um evangelho que era uma boa nova eterna para todas as nações, tribos, línguas e pessoas, é difícil ver como isso pode diferir do evangelho.”[28]
De fato, a definição de Jesus do conteúdo do Evangelho em Marcos 1:14–15 como ponto de referência para seus seguidores fornece um paralelo à mensagem do primeiro anjo. Sua mensagem do evangelho em três partes em Marcos 1:15 inclui uma profecia de tempo (o tempo cumprido), uma promessa pactual (o reino próximo) e um chamado ao discipulado (arrependam-se e creiam). Interessantemente, Apocalipse 14:6–7 tem os mesmos conceitos: uma profecia de tempo (chegada a hora do juízo), uma promessa pactual (juízo, no contexto de Daniel 7:22, onde os santos recebem o reino), e um chamado ao discipulado (um mandamento para temer, glorificar e adorar a Deus). Voltando ainda mais no Antigo Testamento, argumenta-se que as quatro palavras-chave do primeiro anjo— “medo”, “glória”, “juízo” e “adoração” —podem ser rastreadas ao Salmo de Ação de Graças de Davi em 1 Crônicas 16:8–36.[29] Diz-se que esta passagem, “tem paralelos em três salmos do salmista, que se basearam ou forneceram a fonte da qual é constituído: Salmo 96 (1 Cr 16:23–33); 105:1–15 (1 Cr 16:8–22); e 106:1, 47–48 (1 Cr 16:34–36).”[30]
Ainda assim, procurar primeiramente pelo uso do termo “evangelho” em outras partes do Novo Testamento, talvez não seja a melhor opção, mas, em vez disso, investigar primeiramente como Apocalipse entende o conceito de salvação, e, consequentemente, os termos “evangelho” e “pregar o evangelho.”
Em Apocalipse, o evangelho aparece nas passagens que direta ou indiretamente mencionam a salvação e a redenção: nos convites para tomar uma decisão por Deus, como aceitar a água da vida sem pagamento (Ap 22:17); no desejo apostólico para os leitores e ouvintes do Apocalipse receber graça (Ap 1:4; 22:21); e na promessa escatológica da presença de Deus entre seu povo (Ap 21:3–7; 22:1–5) e acesso à árvore da vida (Ap 2:7; 22:2, 14). O prólogo de Apocalipse contém uma descrição clara do evangelho. Jesus—a testemunha fiel, o primogênito dos mortos, e o governante dos reis da terra—nos ama e nos redimiu por meio do seu sacrifício expiatório (Ap 1:5). Em Apocalipse 3: 9 e 19, a audiência de João ouve novamente sobre o amor de Jesus. O título principal usado para Jesus em Apocalipse é “cordeiro.” Porque Jesus foi crucificado (Ap 11: 8), abatido como cordeiro (Ap 5: 6, 9, 12; 13:8) e derramou seu sangue (Ap 1: 5; 5: 9; 7:14; 12:11), mas, também, ressuscitou dos mortos (Ap 1: 5, 17–18), ele é capaz de salvar os humanos (Ap 7:10). Salvação é descrita em Apocalipse 5:9; 7:14; 12:11; 14: 3–4; 21:27; 22:14; e, em outros lugares, como algo sendo ser comprado, lavando as vestes e tendo o nome de alguém escrito no Livro da Vida.
O contexto imediato de Apocalipse 14:6, a visão central do Apocalipse, também é esclarecedor (Ap 11: 19–14:20). A Arca da Aliança em Apocalipse 11: 19—a cena introdutória para a visão desta grande guerra—com o assento implícito da misericórdia e o Decálogo enfatiza a mensagem evangélica. Apocalipse 12 é o cumprimento da predição pós-queda divinamente proclamada do protoevangelho em Gênesis 3:15 sobre o Messias que derrota Satanás. Uma mulher, a semente—o descendente—uma serpente e uma batalha mortal aparecem em ambas as passagens. A encarnação de Jesus aumentou o conflito com Satanás e o trouxe para a cruz. Mas, ao mesmo tempo, ele derrota Satanás. Por este motivo, ouve-se um clamor alto e triunfante: “Agora veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos. . . . Eles o venceram por causa do sangue do Cordeiro” (Ap 12:10–11). O sangue de Jesus derramado em prol da humanidade, um ato de expiação substitutiva, garante a salvação àqueles que aceitam o sacrifício de Jesus e se entregam a ele.
No conflito tentador dos santos com a besta do mar, o Livro da Vida é mencionado (Ap 13:8). Os habitantes da terra, seguidores da besta, não são escritos neste livro,[31] mas os verdadeiros crentes na igreja de Sardes não serão apagados do Livro da Vida (Ap 3: 5). O Livro da Vida também é o Livro da Vida do Cordeiro (Ap 21:27), no qual os nomes dos verdadeiros crentes são registrados. Claramente, a salvação não é um ato atemporal e irrevogável de Deus, pois depende do relacionamento de alguém com Cristo. A frase “Livro da Vida” tem conotações positivas da vida eterna e é outra imagem para descrever o efeito potencial do evangelho, dependente da decisão do indivíduo.
Posteriormente, na mesma visão, os leitores e ouvintes encontram os 144.000 com Jesus no Monte Sião. Eles são seguros e seguros porque “foram comprados (agorazō) “dentre todos os seres humanos, primícias para Deus e para o Cordeiro” (Ap 14: 4). Aqueles que não conseguiram mais comprar e vender (Ap 13:17), se tornaram propriedade de Deus e do Cordeiro. O conceito de redenção por meio de uma “compra” aparece pela primeira vez em Apocalipse 5:9: “Com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação.” Interessante e notavelmente, este versículo está conectado a Apocalipse 14:6 através da menção dos mesmos quatro grupos, embora em uma ordem diferente: nações, tribos, idiomas e pessoas. Apocalipse 5:9 é o primeiro dos sete textos em que os quatro grupos da humanidade aparecem.[32] Embora não pareça que os quatro grupos como um todo sejam salvos, os membros desses grupos são redimidos. A grande multidão dos salvos inclui pessoas dos quatro grupos (Ap 7:9). Outros membros dos quatro grupos, no entanto, estão sob a influência da besta do mar (Ap 13: 7), constituindo as águas onde a Babilônia, a prostituta, se senta (Ap 17:5). No entanto, os membros dos quatro grupos ouviram o evangelho e foram salvos. O anjo do Apocalipse 14: 6 pretende alcançar esses grupos com o verdadeiro evangelho; e Apocalipse 7:9–10, que em uma linha do tempo segue a proclamação das três mensagens angélicas, declara que o esforço será bem-sucedido e que uma grande multidão dos países, tribos, povos e idiomas será salva quando confrontada com o evangelho.
Ainda há mais indicadores no contexto imediato sugerindo que o evangelho não é diferente daquele nas outras partes do cânone do Novo Testamento. Uma das características dos santos é que eles mantêm tēn pistin iēsou. Esta frase é ambígua; pode significar “fé em Jesus,” “fé de Jesus,” “fidelidade a Jesus,” ou “a fidelidade de Jesus.”[33] No entanto, é Jesus em quem os santos acreditam e em cuja fidelidade confiam. E isso tem a ver com o evangelho. R. D. Philipps sugere:
Quando João nos pede a continuar na “fé em Jesus,” ele quer dizer que devemos continuar prestando atenção no evangelho carregado pelo anjo no céu. Diz-nos isso que, através da fé, somos perdoados pelo sangue de Cristo e reconciliados com Deus. São as boas novas que nosso Salvador derrotou o poder maligno sob o qual sofremos.[34]
Finalmente, em Apocalipse 14:13, uma voz do céu pronuncia e abençoa “os mortos que, desde agora, morrem no Senhor.” Eles têm certeza do descanso (anapáuō) “de seus trabalhos.” Enquanto os adoradores da besta e sua imagem “não têm descanso [anápausis] algum, nem de dia nem de noite” (Ap 14:11), os seguidores de Jesus têm. O verbo anapáuō já ocorreu com os mártires em Apocalipse 6:11. Esses mártires, que questionam quanto tempo levaria para Deus trazer justiça, recebem roupas brancas escatológicas, mas precisam descansar um pouco mais. Obviamente, o restante dos mortos no Senhor implica um despertar daquele descanso na ressurreição. Essas são novas extremamente boas.
John Christopher Thomas e Frank D. Macchia descrevem a salvação em Apocalipse da seguinte maneira: 1) Salvação está ligada à criação. 2) “Salvação é . . . focada no cordeiro, que foi morto, para a redenção do mundo.” 3) Salvação não deve ser entendida apenas como redenção ou resgate, mas, também, como libertação. 4) Salvação implica transformação “de todas as maneiras imagináveis.” 5) Juízo “é o outro lado da salvação. . . . De fato, juízo é vital para o cumprimento da salvação em Apocalipse. . . . Justiça divina é cumprida na misericórdia, mas envolve a exclusão daqueles que persistem em se opor.” 6) “Deus não apenas salva à distância . . . mas nos convida a participar da vida divina renovada.” 7) “Embora a salvação seja possível em Apocalipse apenas pela obra do Cordeiro e pelo Espírito, os crentes também devem pela graça de Deus se arrepender, obedecer e suportar pacientemente para superar as forças das trevas.” 8) Salvação não é limitada, mas “é tanto para as nações quanto para os indivíduos.” 9) Ter o nome no Livro da Vida significa pertencer ao cordeiro. 10) “Salvação em Apocalipse é uma graça cara . . . Esta graça é gratuita, mas não é barata.”[35]
Igualmente importante para um entendimento adequado do evangelho e das três mensagens angélicas é Apocalipse 1:4–8. A mensagem que João recebeu nesta passagem não apenas descreve a divindade e a obra de Jesus, mas também parece resumir todo o Apocalipse: 1) Jesus nos ama.[36] Seu amor é “completo e final—Jesus ‘amou-os até o fim’ ([João] 13:1). É sacrificial”[37] 2) Jesus nos libertou de nossos pecados. Seu amor o levou à cruz.[38] “João continua descrevendo a salvação/vindicação alcançada por Cristo como um resgate do pecado (cp. Isa 40:2). Este é o único pareamento linguístico entre pecado e redenção em Apocalipse.”[39] 3) Jesus nos tornou reis e sacerdotes. Thomas e Macchia observam que Apocalipse 1:5–6 é o “primeiro ato de adoração em Apocalipse, [e] João toma a iniciativa em glorificar e honrar a Jesus. O louvor ilimitado ‘para sempre’ corresponde à dignidade ilimitada de Jesus. A oração ‘Amém’ ou ‘então deixe ser’, conclui a doxologia.”[40] Além disso, ele virá com as nuvens (Ap 1: 7). Glória e domínio pertencem a ele (Ap 1:6). E Deus Pai é o Alfa e Ômega, o Senhor, e aquele que é, que era, e está por vir, o pantokratōr (“o Todo-Poderoso”, Ap 1:8)—“uma identificação que atuará como um refrão durante todo o apocalipse (4:8; 11:17; 15:3; 16:7, 14; 19:6, 15; 21:22).”[41] A mensagem de Apocalipse 1:4–8 é fundamental para as três mensagens angélicas. A tabela a seguir mostra a interconectividade da mensagem inicial de Apocalipse e das três mensagens angélicas. As passagens são comparadas em um nível literário e tópico—uma abordagem que pode ser possível para outras passagens. A comparação da mensagem de Apocalipse 1 e das três mensagens angélicas mostra que estão intimamente conectadas. Sugerimos, portanto, que a mensagem na introdução de Apocalipse deve ser considerada quando se interpretam as três mensagens angélicas.
Comparação entre Apocalipse 1:4–8 e 14:6–12 com seu contexto imediato
| Referência em Apocalipse 1 | Conteúdo | Referência em Apocalipse 14 | Conteúdo |
| 1:4, 6, 8 | Deus | 14:7, 9, 12 | Deus |
| 1:4, 6, 8 | Deus como criador (o Alfa; aquele que era) | 14:7 | Deus como criador |
| 1:5–7 | Jesus Cristo | 14:10, 12–13 | Jesus, Cordeiro, Senhor |
| 1:5–7a, 12 | Evangelho (tópico) | 14:6 | Evangelho eterno |
| 1:5, 7 | Terra | 14:6–7 | Terra |
| 1:7 | Todas as tribos | 14:6 | Cada tribo |
| 1:7 | Segunda vinda e juízo | 14:7, 11 | Juízo pré-advento/juízo final |
| 1:6 | Glória | 14:7 | Glória |
| 1:5–6 | Cenário de adoração (doxologia) | 14:7, 9 | Adoração. |
| 1:7 | Para sempre | 14:11 | Para sempre |
| 1:4 | O Espírito Santo | 14:13 | O Espírito Santo |
| 1:5 | Os mortos (ressurreição implícita) | 14:13 | Os mortos (ressurreição implícita) |
| 1:7 | Segunda Vinda | 14:14–20 | Segunda Vinda |
O evangelho eterno de Apocalipse 14:6 deve ser lido neste contexto. O autor conhece e entende o evangelho, as boas novas. Substantivo (euangélion) e verbo (euangelizō) reunidos descrevem de uma maneira poderosa que a mensagem do primeiro anjo se baseia no evangelho e não é apenas julgamento em um sentido negativo. Quando o primeiro anjo apresenta sua mensagem como “evangelho eterno,” é evidente “que o evangelho do tempo do fim, embora relevante, em particular para as pessoas que vivem no período de encerramento da história da Terra, não é um evangelho diferente daquele pregado por Paulo. É o mesmo e inalterado evangelho, cuja proclamação começou em Pentecostes.”[42] De fato, como indicado anteriormente, é o evangelho que Jesus proclamou e forneceu o ponto de referência para seus seguidores (Marcos 1:14–15). Caird sugere: “Tendo escrito a palavra evangelho, ele [João] esperava que seus leitores o preenchessem com o rico conteúdo da pregação apostólica.”[43] Quando se refere a ele, João tem em mente as principais características do evangelho, incluindo os detalhes que ele menciona nos próximos versos. São as boas novas que até mesmo no último instante da história da salvação do mundo estarão disponíveis. São as boas novas porque o juízo investigativo ainda está em andamento e “Cristo ainda está intercedendo no santuário celestial em nosso favor.”[44] Vale ressaltar que Ellen G. White captura a dimensão positiva da mensagem de juízo do primeiro anjo. Ela observa que “o anúncio: ‘vinda é a hora do seu juízo,’ aponta para a obra finalizadora do ministério de Cristo para a salvação dos homens.”[45] A mensagem é uma boa notícia, porque as pessoas podem deixar o engano e sair da Babilônia (Ap 18: 4). Por outro lado, a fase executiva do juízo mencionado posteriormente garante aos crentes justiça e vindicação. O futuro brilhante para eles é desenvolvido em Apocalipse 21 e 22.
A resposta esperada à proclamação do evangelho eterno é temer a Deus, dar-lhe glória e adorá-lo (Ap 14:7). O tema do evangelho eterno, no entanto, não pode ser totalmente apreciado separado da criação. Embora o evangelho apareça primeiro em Apocalipse 14:6 e é seguido pelas mensagens de Deus como Criador, na realidade, a criação teologicamente precede a salvação. A salvação não é possível sem criaturas criadas. No entanto, com a entrada do pecado, a criação por si só não atinge o objetivo pretendido por Deus da restauração de todas as coisas, se não houver salvação. Visto que a criação foi seguida pela queda, o problema do pecado só poderia terminar com a morte global dos seres criados — não era para a intervenção de Deus em termos de redenção. Somente a salvação por meio do cordeiro abre a porta para uma nova criação. Logo, criação e salvação são interdependentes e inseparáveis.
Vê-se isto no início do Apocalipse e precisa informar a situação nas três mensagens angélicas. Jesus é apresentado como Redentor em Apocalipse 1:5,[46] mas pouco depois ele aparece também como Criador (Ap 3:14). Ele se apresenta à igreja de Laodiceia — morna, mas autoconfiante e financeiramente abastada — como o “início da criação de Deus.” Nesta frase, a questão não é sobre Jesus como um ser criado, ou mesmo como o primeiro ser criado.[47] No entanto, permanece a questão se a frase se refere a ele como causa e originadora da criação ou como governante da criação que não tinha nada a ver com o processo de criação. Alguns sugerem que com Jesus veio a nova criação em um sentido espiritual ou a criação da igreja.[48] Deve-se enfatizar que o papel de Jesus como criador autoritativo da criação não pode ser perdido. Seguindo a descrição de João dos Logos Divinos como Criador em João 1:1–3, Jesus é claramente apresentado como envolvido no relato da criação de Gênesis. Richard Bauckham argumenta: “Cristo precedeu todas as coisas, sendo a fonte delas. Nesta crença no papel de Cristo na criação, Apocalipse está em sintonia com a literatura paulina (1 Co 8:6; Cl 1:15–17), Hebreus (1:2) e o Quarto Evangelho (1:1–3).” E ele continua chamando Jesus de “agente divino na criação de Deus de todas as coisas e no cumprimento escatológico de Deus de todas as coisas.”[49] Grant R. Osborne sugere que “início” (archē) significa não apenas preeminente ou governante, mas também “fonte” ou “origem,” a provável conotação aqui. . . . Jesus é o início e a fonte da “criação de Deus.” Novamente, esta é uma mensagem para os laodiceianos. Em sua riqueza e complacência, eles pensavam estar no controle; Jesus está dizendo a eles que ele sozinho controla a criação; ele é a própria fonte de sua riqueza e poder.[50]
Posteriormente, no Apocalipse, Jesus é chamado de Alfa e Ômega, primeiro e último, começo e fim (Ap 22:13), apropriando-se dos títulos de Deus Pai. Se esses títulos se referem indiretamente a Deus como criador, como propusemos, Jesus também precisa ser visto como criador e autoridade. Na mensagem para Laodiceia, Jesus como criador adverte a igreja do juízo divino, mas, também, oferece a salvação à medida que os membros da igreja se arrependem. “A mensagem para os laodiceanos é que o orgulho deles nas riquezas terrenas é extraviado porque todas as coisas pertencem a Jesus, que é digno de louvor e glória.” Assim, nos primeiros capítulos do Apocalipse, Jesus aparece como Redentor e associado à criação. Ambos os conceitos cruciais são reunidos em uma pessoa: Cristo.
Posteriormente, no Apocalipse, Jesus é chamado de Alfa e Ômega, primeiro e último, começo e fim (Ap 22:13), apropriando-se dos títulos de Deus Pai. Se esses títulos se referem indiretamente a Deus como criador, como propusemos, Jesus também precisa ser visto como criador e autoridade. Na mensagem para Laodiceia, Jesus como criador[51] adverte a igreja do juízo divino, mas, também, oferece a salvação à medida que os membros da igreja se arrependem. “A mensagem para os laodiceanos é que o orgulho deles nas riquezas terrenas é extraviado porque todas as coisas pertencem a Jesus, que é digno de louvor e glória.”[52] Assim, nos primeiros capítulos do Apocalipse, Jesus aparece como Redentor e associado à criação. Ambos os conceitos cruciais são reunidos em uma pessoa: Cristo.
A criação e a salvação aparecem novamente na visão do selo, especialmente nas cenas introdutórias de Apocalipse 4 e 5. Deus Pai,é retratado e adorado como Criador (Ap 4: 8–11) e Jesus é louvado como Salvador (Ap 5:9–12). Dois hinos são dedicados a Deus Pai e dois hinos são dedicados ao Filho, o Cordeiro. Ao longo desses hinos é possível observar um crescendo à medida que os grupos e o número de adoradores aumentam. Tanto Pai quanto Filho são abordados da mesma maneira, com a frase “digno é” (Ap 4:11; 5: 9), e diversos atributos idênticos são atribuídos a ambos (Ap 4:9; 5:12–13). Mas o primeiro hino para o Filho é destacado e descrito como um “novo hino.” Por mais importante que seja a criação, algo de tirar o fôlego aconteceu com a encarnação e a morte de Jesus Cristo, revelando à humanidade e ao universo não apenas o poder ilimitado de Deus, ainda mais importante: o caráter de Deus; não apenas sua maravilhosa santidade, mas também seu amor incompreensível. Deus Criador possibilitou a salvação dos pecadores por meio da morte e na pessoa de seu próprio Filho. Isso leva a um quinto hino em Apocalipse 5:13, onde Deus Pai e Jesus Cristo são louvados e adorados. Mas a visão contém mais dois hinos. A grande multidão dos redimidos na frente do trono de Deus canta: “Ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro, pertence a salvação” (Ap 7:10) diante de todos os anjos cair em seus rostos e glorificar Deus no último hino da visão do selo (Ap 7:11). Bem como Jesus é Salvador e Criador, Deus Pai é Criador e Salvador. Visto que Pai e Filho são inseparáveis, os conceitos de criação e salvação são inseparáveis na teologia bíblica e na teologia do Apocalipse. Elas são complementares no melhor sentido termo, e só é possível passar da antiga criação para a nova criação por meio da salvação. Thomas e Macchia observam:
Como toda a criação tem seu ser na criação e sustentação do poder do Criador, ela pode ser resgatada, libertada e feita finalmente nova apenas por esse mesmo Deus. À luz do que Apocalipse diz sobre a criação em relação ao Criador, é inimaginável a salvação vir de outra fonte que não seja Deus.[53]
A conexão entre criação e redenção também é verdadeira para a visão seguinte em Apocalipse: a visão da trombeta. O poderoso anjo com características divinas (Ap 10:1–2), obviamente Jesus, jura pelo Deus Criador, provavelmente Deus Pai (Ap 10:6). No capítulo seguinte, Jesus aparece como Senhor crucificado (Ap 11:8), fazendo declarações sobre sua morte, ressurreição e salvação feitas anteriormente em Apocalipse (Ap 1:5, 18; 5:9, 12). Com a última trombeta, o plano de salvação — que consiste na criação, salvação, juízo e nova criação— terminou. Pai e Filho estão novamente unidos em um hino cantado por vozes celestiais: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre” (Ap 11:15).
No tocante a Apocalipse 11:19–14:20, já discutimos extensivamente os temas de salvação e criação. Enfatizamos que o pano de fundo do capítulo 12 é o protoevangelho de Gênesis 3. Com exceção dos dois últimos versículos, Gênesis 3 ocorre no Jardim do Éden, e, portanto, está contextualizado na criação. A introdução de Satanás como “a antiga serpente” (Ap 12:9) destaca o pano de fundo da criação. Em outras palavras, a visão central de Apocalipse começa com a criação e se move diretamente para a salvação (Ap 12: 10–11). Os dois tópicos são novamente combinados em Apocalipse 13:8, onde o Livro da Vida do Cordeiro é mencionado —aqueles escritos nele são salvos (Ap 21:27)— “desde a fundação do mundo” (Ef 1:4; Ap 13:8) O texto foi traduzido e interpretado de duas maneiras principais: 1) “. . . todo aquele que não teve seu nome inscrito desde a fundação do mundo no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto” (ESV) e 2) “. . . aqueles que não tiveram os seus nomes escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.”[54] No primeiro caso, o significado seria que a salvação foi determinada para os seres humanos antes da criação por estarem inscritos no Livro da Vida.[55] No segundo caso, significa que o plano de salvação com a morte do Messias foi elaborado antes da fundação do mundo—“ou seja, a morte de Cristo foi um sacrifício redentor decretado nos conselhos da eternidade.”[56] Não importa como Apocalipse 13: 8 seja interpretado, o plano de salvação e a criação estão intimamente ligados. O plano para salvar a humanidade se os seres humanos tomassem uma decisão contra Deus não é uma reflexão tardia divina, mas é elaborado no plano da criação. Portanto, criação e salvação também aparecem juntas nas três mensagens angélicas da mesma visão. Sugerimos que a salvação seja abordada pela pregação do evangelho eterno (Ap 14:6), pela descrição dos crentes (Ap 14:12) e o adendo da segunda bem-aventurança do Apocalipse (Ap 14:13). Por que a menção do evangelho precede a referência à criação (Ap 14:7)? Talvez essa seja a maior necessidade do tempo do fim, quando as pessoas precisam tomar uma decisão entre vida e morte, Cristo ou Satanás. No entanto, é baseado no fato de que Deus é o Criador, o doador da vida e o proprietário de tudo, o Pai, Jesus Cristo e o Espírito Santo que respira a vida —literalmente “sopro/espírito (pneuma) de vida vindo da parte de Deus, e eles se ergueram sobre os pés, e aqueles que os viram ficaram com muito medo” (Ap 11:11).[57]
Enquanto a partir de Apocalipse 15 se lida principalmente com juízo em sentido negativo, ainda mais páginas contêm passagens sobre criação e salvação. Uma nota sobre criação: 1) O anúncio “está feito” alude à criação finalizada. O grego consiste em uma palavra: gégonen (Ap 16:17). Derivada do verbo gínomai, tem vários significados dependendo do contexto.[58] Esse termo é frequentemente usado em Gênesis e se relaciona especialmente aos atos criativos de Deus em Gênesis 1, onde parece não menos de vinte e três vezes.[59] Dependendo da forma verbal, egéneto em seu contexto no Livro de Gênesis, significa “haja” (Gn 1:3), “houve” (Gn 1:5) ou junto com a partícula “assim foi” (Gn 1:6). 2) As sete pragas descrevem uma calamidade da criação. 3) Parte das sete trombetas se refere a uma reversão da criação. J. Ramsey Michaels observa: “As quatro áreas afetadas —terra, mar, água fresca e céu— compunham todo o ambiente humano como os antigos entendiam. Essas quatro esferas são o que judeus e cristãos reconhecem como a criação de Deus (cp. 14:7).”[60] Isso vale para as últimas sete pragas/taças, sendo as pragas apenas uma intensificação das trombetas. A primeira praga afeta a terra, a segunda o mar, a terceira as águas/nascentes, a quarta o sol, a quinta traz escuridão intensa e a sexta inaugura o Armagedom onde os seres humanos são diretamente afetados (Ap 16). U. B. Müller sugere que, com o derramar das quatro primeiras taças, toda a criação de terra, mar, rios e corpos celestes é afetada.[61] As taças descrevem a ruína completa da criação, e, portanto, contrastam com a nova criação em Apocalipse 21–22a. 3) O abismo é mencionado diversas vezes (e.g., Ap 17:8; 20:1, 3). Aparece em Gênesis 1:2 (LXX). A “face do abismo” (Gn 1:2), conectada ao estado do planeta Terra sem forma ou vazia, é traduzida do hebraico para o grego como ἄβυσσος [ábyssos] “‘Sobre a face do abismo faz paralelo com ‘sobre as águas’ na cláusula subsequente. . . . No segundo e terceiro dias, essas águas são finalmente separadas do firmamento e da terra e chamadas de ‘mar’ (vv. 6–10).”[62] Após a separação, o mar (thalassa) e a Terra (gē) se tornaram visíveis. Precisamente destas duas áreas surgem as duas bestas de Apocalipse 13: besta do mar e besta que sobe da terra. Em Apocalipse 17:8, surge outra besta, mas surge do abismo. Obviamente, João tem seu pensamento atrelado ao relato da criação em Gênesis 1.[63] Entrelaçadas com as alusões à criação estão as referências à recriação: 1) Os redimidos no mar de vidro cantando o cântico de Moisés e do Cordeiro (Ap 15:2–4) aparecem na introdução às sete pragas. 2) A bem-aventurança daqueles acordados na segunda vinda ocorre na sexta praga (Ap 16:15). 3) Os seguidores de Cristo cantam sobre a salvação após o julgamento da Babilônia sentada sobre a besta do abismo (Ap 19:1), então é anunciada a ceia das bodas do Cordeiro, para a qual são convidadas pessoas que não estão associadas à Babilônia (Ap 19:7–9). 4) A ressurreição dos crentes fiéis e o seu reinado com Cristo são registados enquanto Satanás está preso e os adoradores da besta e da imagem estão mortos. Isto ainda é indicado na mensagem do terceiro anjo, embora não seja discutido em detalhes.
Os dois últimos capítulos do Apocalipse são majoritariamente positivos. O tema da nova terra combina criação e salvação. Embora a nova criação se baseie na criação de Gênesis e a suplemente, ela também contém o conceito de salvação (Ap 21:1–7, 22; 22:1–7). Isto também é verdade para o epílogo (Ap 22:12–14, 16–17, 20–21). Embora a salvação seja um tema central das três mensagens angélicas, a ligação da salvação com outros temas em outros lugares —como a criação em Gênesis como base da nova criação— não é desenvolvida detalhadamente.
Em resumo: As mensagens da criação e da salvação aparecem nas visões de Apocalipse. Embora possam ser estudadas separadamente, é importante também analisá-las em conjunto para que tenhamos um quadro mais amplo. Em Apocalipse, o Criador não é apenas Deus Pai, mas também Jesus e o Espírito Santo. Em Apocalipse, a salvação não é obra apenas de Jesus, o Salvador, mas Deus Pai e o Espírito Santo também estão envolvidos.[64] A salvação não é uma reflexão tardia, mas foi prevista desde a criação. A criação e a possibilidade da queda originaram o plano de salvação na mente de Deus, e, de fato, a criação será restabelecida após o milênio. Nesse ínterim, a salvação é uma espécie de renovação e recreação espiritual, embora não tão enfatizada em Apocalipse. As três mensagens angélicas podem ser entendidas como um resumo do relato da criação em Gênesis e das passagens de salvação do Apocalipse. Ao discutir as três mensagens angélicas, outras passagens também precisam ser consultadas. Notamos, também, uma conexão entre criação, salvação e juízo. Muitas mensagens de Apocalipse vêm em contexto de santuário, que, embora mencionadas brevemente, não trataremos neste estudo. Talvez seja suficiente mencionar que o santuário aparece enfaticamente em todas as cenas introdutórias das visões de Apocalipse (Ap 1; 4–5; 8:2–5; 11:19; etc.) e em muitas outras passagens (Ap 7; 14; 15; 21–22; etc.)
Elias Brasil de Souza está correto ao enfatizar que tudo isso ocorre em um contexto de santuário:
“Em Apocalipse, as interconexões entre a salvação e a criação ocorrem dentro da estrutura do imaginário do santuário. Como mostram claramente os capítulos finais de Apocalipse, o resultado da salvação é a restauração completa da criação quando estiver “o tabernáculo de Deus com os seres humanos” (Ap 21:3).[65]
Jesus nas Três Mensagens Angélicas
No geral, Jesus está indiretamente implícito como aquele por meio de quem as boas novas da salvação se tornaram realidade. Ao longo de todo o Novo Testamento, Jesus é o Criador, juntamente com Deus Pai e o Espírito Santo; ele, portanto, merece ser adorado. Como Criador, ele também é o Senhor do sábado, como afirmou ser nos Evangelhos (Mt 12:8; Mc 2:28; Lc 6:2). Em razão disto, não basta se sentir atraído apenas emocionalmente por Jesus, mas, também precisamos ouvi-lo como Senhor e seus ensinamentos sobre a vida cristã, incluindo a observância do sábado do sétimo dia.
Na mensagem do terceiro anjo, Jesus é mencionado enquanto as pessoas estão sendo atormentadas “diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro” (Ap 14:10). Este texto não deve ser entendido como Jesus tendo “prazer no tormento dos seus adversários.”[66] “João enfatiza aqui a inevitabilidade e a finalidade do juízo, não a satisfação que ele poderia proporcionar àqueles que o testemunham.”[67] A questão é justiça e respeito pelas escolhas individuais. Curiosamente, Apocalipse não registra os remidos observando quando seus perseguidores serão julgados.[68] Não há virtude no prazer do sofrimento de outros. Os anjos se alegram quando um pecador se arrepende (Lc 15:10). Jesus não triunfa quando seus adversários sofrem. Ele veio para salvar pessoas. Sua morte na cruz demonstra um amor que o fez oferecer o sacrifício extremo. Mas o amor não ofusca a justiça, e o ministério de Jesus como Redentor não exclui o juízo punitivo. Essas pessoas são confrontadas com Jesus, a quem devem reconhecer como Senhor,[69] compreendendo simultaneamente a extensão do que fizeram e o que vão perder. Eles viveram suas vidas com prioridades erradas, decisões falsas, e oposição e rejeição àquele que é a fonte da vida.[70]
Jesus é mencionado novamente no final da terceira mensagem angélica. Como apontado anteriormente, a expressão pistis Iēsou (Ap 14:12) pode ser traduzida de forma diferente. Mas quer seja entendida como fé em Jesus (ARA), fé de Jesus (ACF), nossa fidelidade a Jesus (“permanecem fiéis a Jesus” (NVI), ou a fidelidade de Jesus,[71] o foco está e sempre deve estar em Jesus. Embora os seguidores de Cristo tenham fé nele e sejam fiéis, eles podem confiar na fidelidade de Jesus e devem viver com a certeza da salvação. A salvação é um dom a ser recebido.
O adendo às três mensagens angélicas (Ap 14:13) menciona o Senhor. Seus seguidores morrem nele e descansam—a menos que ele retorne enquanto ainda estão vivos, caso em que serão transformados diretamente, sem provar a morte. Aconteça o que acontecer, este versículo contém uma forte esperança. Mas também lembra aos leitores e ouvintes do Apocalipse a solidariedade de Cristo com a humanidade quando ele se entregou para se tornar um de nós, vivendo, sofrendo e morrendo como um ser humano. Contudo, Jesus não permaneceu na sepultura: ele ressuscitou para nossa garantia. Jesus é o “primogênito dos mortos” (Ap 1:5).[72]
Criação e Adoração
Conforme descrito anteriormente, o cenário de Apocalipse 14:6–12 mostra claramente que a passagem está centrada no conflito sobre a adoração. Na verdade, o livro do Apocalipse é o livro mais litúrgico do Novo Testamento. Está repleto de cenas de adoração.[73] O grego proskyneō (“adoração”) é aplicado no cenário do templo celestial tanto a Deus quanto ao Cordeiro (Ap 4:10; 5:14; 7:11; 11:16; 15:4; 19:4; 20:4), mas também aparece em cenas terrenas que designam a adoração de forças do mal[74] (Ap 9:20; 13:4, 8, 12, 15; 14:9, 11; 16:2; 19:20). Esta dualidade realça a centralidade do problema da idolatria, uma adoração mal orientada no drama do Apocalipse, e esclarece a autoridade soberana de Deus contra as tentativas de usurpação das forças do mal. Apocalipse 12 descreve claramente um conflito entre Cristo e Satanás. À medida que os detalhes do conflito se desdobram em Apocalipse 13, torna-se claro que, embora a besta do mar receba adoração quase mundial, ela está decidida a proferir arrogâncias e a blasfemar contra Deus, seu santuário e aqueles que habitam no céu (Ap 13:3–6). Além disso, o versículo 8 descreve uma polaridade onde todos os que habitam na terra adoram a besta do mar, exceto aqueles cujos nomes foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro. Da sua parte, o foco da besta terrestre na adoração é evidente (Ap 13:12, 15). Não é surpresa alguma, portanto, que as três mensagens angélicas, o contra-ataque de Deus às ações da trindade satânica, se concentrem na adoração.
Primeira Mensagem Angélica
Nenhuma parte do Apocalipse é tão dominada pelo termo “adorar” como é a sua visão central (Ap 11:19–14:20). Dos oito usos do termo nesta visão central, um ao dragão, três à besta do mar, uma à imagem da besta e duas simultaneamente tanto à besta do mar quanto à imagem da besta. Ademais, esta adoração é universal[75] e imposta pelos poderes do mal. Não é surpresa que a primeira mensagem angélica seja um chamado ao mundo a adorar a Deus. A ordem para adorar a Deus é mencionada apenas uma vez, em contraste com as imposições para adorar um ou mais dos três poderes do mal. Mas o chamado tem peso e determina o destino eterno da humanidade. Enfatizar o fato de que Deus é o Criador “do céu e da terra, do mar e das fontes das águas” revela a verdade sobre a estrutura do universo e define o caráter da existência humana. Se o mundo é entendido como criação de Deus, então ele está sob o governo de Deus. A primeira mensagem angélica é um chamado aos seres humanos para que reconheçam a condição deles de criatura e ajam de acordo com a ordem da criação.[76] Esta proclamação contrasta com as reivindicações da besta que nega a ordem da criação e se esforça para enganar os habitantes do mundo para cumprir as ambições dela. Suas pretensões se materializam na exigência de lealdade dos habitantes do mundo através da adoração. A sua autoimagem ecoa em uma afirmação litúrgica em duas partes: “Quem é semelhante à besta? Quem pode lutar contra ela?” (Ap 13:4). Esta expressão de incomparabilidade reflete a linguagem do Antigo Testamento aplicada a Deus, por isso funciona como uma imitação de “Quem é como Deus?”[77] Além disso, a expressão de invencibilidade reflete o papel de Miguel em Apocalipse 12:7, que “lutou contra o dragão” e venceu.[78] Ao confessarem a natureza incomparável e invencível da besta, os habitantes da terra reconhecem que ela ocupa uma posição de autoridade que pertence a Deus.[79]
Dado o contexto anterior, a primeira mensagem angélica proclamada em alta voz é “Temam a Deus e deem glória a ele, pois é chegada a hora em que ele vai julgar. E adorem aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas” (Ap 14:7). É instrutivo comparar a ordem deste anjo para adorar com o contexto de adoração em Apocalipse 4:11. Em Apocalipse 4:11, Deus é adorado pelos vinte e quatro anciãos no céu. A cena se passa na sala do trono do templo celestial. A adoração é contínua e tem-se a impressão de que a adoração ao Criador é uma adoração alegre e de profunda gratidão. A forma literária de Apocalipse 4 é uma narrativa, e a adoração contínua pode ser entendida como uma adoração do passado, do presente e do futuro.[80] Deus é louvado por causa de quem ele é —neste caso, sua imensurável santidade, onipotência e existência eterna— e pelo que ele fez: ele tem sido ativo na criação e no sustento do que e de quem ele criou. Contudo, Apocalipse 14:7 retrata uma situação completamente diferente. O cenário está na terra e não no céu. Aqui, Deus não está lidando com a sua leal comitiva celestial, mas com seres humanos pecadores atraídos para uma grande guerra com foco na adoração e na lealdade. Eles têm de decidir se seguem o tangível: o enorme poder, influência e propaganda dos poderes do mal, que apelam ao pior que há no ser humano; ou optam pelo menos tangível: o santo Deus Criador.
Teologicamente, a primeira mensagem angélica incorpora, em princípio, tudo o que pode ser dito formalmente sobre a adoração verdadeira no que diz respeito aos seres humanos. Notavelmente, a adoração é apresentada essencialmente como uma responsabilidade humana fundamental; portanto, a mensagem do anjo é dada como uma “ordem” com algumas palavras-chave executórias usadas em conjunto: “medo”, “glória” e “adoração”. A sugestão parece ser que a responsabilidade que os humanos têm de adorar (prostrar-se diante de Deus) consiste no temor a Deus (reverenciá-lo), glorificando-o (honrando-o). “Dar glória a Deus é o efeito colateral de temer a Deus,”[81] observa Ranko Stefanovic, que também resume a dinâmica destes aspectos constituintes da adoração.
Segundo Salomão, temer a Deus e guardar os seus mandamentos é o primeiro dever do ser humano (Ec 12:13). É no sentido de obedecer a Deus e aos seus mandamentos que a dádiva da glória a Deus em Apocalipse 14:7 deve ser entendida. O povo de Deus do tempo do fim em Apocalipse é referido como aqueles que temem a Deus (Ap 11:18; 15:4; 19:5) e guardam os seus mandamentos (cp. Ap 12:17; 14:12).[82]
O significado único da observância dos mandamentos como um aspecto da adoração no contexto do tempo do fim se destaca ao comparar Apocalipse 10:6 com Apocalipse 14:7. Na estrutura geral do livro de Apocalipse, os dois textos da criação, Apocalipse 10:6 e Apocalipse 14:7, aparecem em contextos paralelos — nomeadamente, pouco antes da segunda vinda de Cristo. Eles são bastante semelhantes, mesmo assim diferentes. 1) Apocalipse 10:6 usa o verbo ktizō (“criar”) para descrever a criação; Apocalipse 14:7 emprega o termo mais amplo poieō (“fazer”). Contudo, poieō é usado em Gênesis 1 e 2 (LXX),[83] e a conexão de Apocalipse 14:7[84] com Gênesis 1 e 2 é mais direta. 2) Apocalipse 10:6 enumera três esferas da criação mais “o que há nelas” (céu, terra, mar e o que há nelas); Apocalipse 14:7 contém quatro elementos (céu, terra, mar e fontes de água). Em ambos os casos, os três primeiros elementos da criação vêm na mesma ordem e, portanto, referem-se ao sábado (Êx 20:8–11). No entanto, a ligação da criação com o sábado é ainda mais clara em Apocalipse 14:7 porque o seu contexto se refere também ao Decálogo.[85] Consequentemente, aqueles que vivem na terra nos últimos dias precisam reconhecer o Criador, respeitando-o, sua vontade e recuperando o verdadeiro sábado que ele instituiu na criação e pede à humanidade que o observe. 3) Embora contextualmente ambos os textos tratem de acontecimentos finais, Apocalipse 10:6 apela mais a igreja, enquanto Apocalipse 14:7 é um apelo à humanidade para fazer escolhas corretas. Em Apocalipse 13 e 14, a questão de quem adorar atinge o seu ponto culminante. Adoração verdadeira e falsa são colocadas uma contra a outra.
O mandamento do sábado se torna verdadeiramente significativo. É o único lugar no Decálogo onde a lógica da autoridade de Deus sobre a realidade é declarada: ele é quem fez tudo. Portanto, funciona como um selo de propriedade e autoridade do Decálogo. Não é surpreendente, portanto, que o sábado tenha se tornado um sinal de aliança (Ez 20:12, 20) — uma manifestação visível do fato de que um relacionamento entre um ser humano e o Deus Criador está vivo. Como clímax do relato de Gênesis (Gn 2:1–3),[86] o sábado funciona como “o memorial da origem e do propósito da vida,”[87] um lembrete de que Deus deve ser adorado como Criador. Logo, não podemos falar da criação sem falar do sábado.
De acordo com o drama do tempo do fim de Apocalipse 13–14, a humanidade é confrontada com uma escolha entre dois sinais: a marca da besta (Ap 13:16–18) e o selo de Deus (Ap 7:1–3; 14:1). Estes dois sinais representam os dois lados opostos no conflito escatológico que propagam duas visões diferentes da realidade: a cosmovisão antropocêntrica que glorifica a autoridade humana e a cosmovisão teocêntrica que dá glória a Deus como Criador.[88] À luz da forte teologia da criação, parece que a marca da besta funciona como um sábado falso, uma espécie de anti-sábado — um sinal que sinaliza a autoridade da besta.[89] Assim, a forte advertência da mensagem do terceiro anjo contra o recebimento da marca da besta (Ap 14:9–11) pode ser vista como um chamado indireto para escolher receber o selo de Deus, tomando a decisão de adorar o Criador. Enfatiza que é possível resistir às forças que são indignas de adoração, por mais atraentes que sejam seus encantos, e procurar o alinhamento da aliança com a autoridade real do universo. Nesta escolha, não há lugar para confusão e imprecisão. Aqueles que, apesar da advertência, recebem a marca da besta “não têm descanso” (ouk echousin anapausin, Ap 14:11). Por outro lado, o chamado tempo do fim para adorar a Deus em Apocalipse 14:7 é feito na linguagem de descanso (aludindo ao sábado), convocando os habitantes do mundo a “ adorar aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas” (Ap 14:7).[90] Apocalipse 14:7 desafia as pessoas a se comprometerem completamente com o Criador. Toda a humanidade é chamada ao arrependimento.[91] “Os habitantes da terra ficaram maravilhados com os poderes demonstrados pela besta e seu falso profeta ([Ap] 13:12–14); eles agora são lembrados de que têm a ver com alguém que é mais poderoso que a besta — com aquele que é a fonte de todas as coisas no céu e na terra.”[92]
Mas a motivação interna para a adoração indicada na primeira mensagem angélica precisa ser enfatizada. Nesta ótica, Michaels observa: “No caso da ordem, temer a Deus e dar-lhe glória é um equivalente bastante exato de ‘arrepender-se’ (ver 16:9), exceto que a visão de João explica outras implicações deste arrependimento: Adorai aquele que fez os céus, a terra, o mar e as fontes das águas [Ap 14:7].”[93] A verdadeira adoração a Deus, então, é precipitada pelo arrependimento que resulta no “temor de Deus”, significando “reverência” e “respeito” pela autoridade de Deus que permite às pessoas obedecer aos seus mandamentos (Gn 22:12; Jr 32:40; Sl 111:10).[94] Tal arrependimento também envolve dar “glória” a Deus. Embora dar glória a Deus implique lhe dar honra, louvor e homenagem, também devemos ter em mente que
a ordem para lhe dar glória é um ditado hebraico que aparece tanto no Antigo como no Novo Testamento: Josué disse a Acã para dar glória ao Senhor (Js 7:19; ver Jr 13:16), e os fariseus ordenaram ao cego de nascença que desse glória a Deus (João 9:24). A frase significa dizer a verdade por meio de pecadores que comparecem diante do tribunal de Deus.[95]
A ideia de “dizer a verdade” pelos pecadores, como um aspecto de dar glória a Deus, enquadra-se bem na lógica dada pelo anjo para a adoração. Como no caso de Paulo e Barnabé em Listra (At 14:15), Deus, como o Criador de todas as coisas, é a motivação dada para as pessoas “adorarem” a ele em vez da criação. No contexto geral das atividades mentirosas das bestas em Apocalipse 12 e 13, a ordem do primeiro anjo de dizer a verdade como um aspecto de dar glória a Deus é a declaração verdadeira do destinatário legítimo da adoração: “aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas” (cp. Êx 20:4–6, 11; Dt 10:12–15). Evidentemente, “dar glória a Deus”, observando o quarto mandamento, enraizado como está na história bíblica da criação, é, em última análise, um ato de adoração. “Aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas.” Numa passagem extensa, White captura as conexões entre a adoração, a observância dos mandamentos e a criação de Deus:
Pelo primeiro anjo, os homens são chamados a “temer a Deus e dar-lhe glória” e a adorá-lo como o Criador dos céus e da terra. Para fazer isso, eles devem obedecer à sua lei. Diz o sábio: “Tema a Deus e guarde os seus mandamentos, porque isto é o dever de cada pessoa” (Ec 12:13). Sem obediência aos seus mandamentos, nenhuma adoração pode agradar a Deus. “³ Porque este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1 Jo 5:3). “Quem desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável” (Pv 28:9). O dever de adorar a Deus se baseia no fato de que ele é o Criador e que todos os outros seres devem a ele a existência deles. E onde quer que na Bíblia seja apresentada sua reivindicação de reverência e adoração, acima dos deuses dos pagãos, é citada a evidência de seu poder criador. “Porque todos os deuses dos povos não passam de ídolos; o Senhor, porém, fez os céus” (Sl 96:5). “Com quem vocês vão me comparar? A quem eu seria igual? — diz o Santo. Levantem os olhos para o alto e vejam. Quem criou estas coisas?” (Is 40:25–26). “Porque assim diz o Senhor, que criou os céus — e ele é o único Deus; que formou a terra e a fez . . . Eu sou o Senhor, e não há outro” (Is 45:18). Diz o salmista: “Saibam que o Senhor é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio” (Sl 100:3). “Venham, adoremos e prostremo-nos; ajoelhemos diante do Senhor, que nos criou” (Sl 95:6). E os seres santos que adoram a Deus no céu afirmam, como razão pela qual sua homenagem lhe é devida: “Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque criaste todas as coisas” (Ap 4:11). Em Apocalipse 14, os homens são chamados a adorar o Criador; e a profecia apresenta uma classe que, como resultado da tríplice mensagem, está guardando os mandamentos de Deus.[96]
Segunda Mensagem Angélica
Enquanto a primeira mensagem angélica fornece um resumo da verdadeira adoração, a segunda mensagem descreve a falsa adoração, especialmente na sua manifestação escatológica. Somos apresentados a um quadro da idolatria do tempo do fim e dos seus elementos constituintes, particularmente dos seus fatores causais. A mensagem angélica é “Caiu! Caiu a grande Babilônia que fez com que todas as nações bebessem o vinho do furor da sua prostituição” (Ap 14:8) Trataremos sobre a natureza de Babilônia posteriormente, mas, para contextualizar a discussão sobre a adoração, algumas coisas sobre ela devem ser ditas primeiro. O eco da queda e destruição da Babilônia em Isaías 21:9 foi notado por estudiosos como G. K. Beale.[97] Beale considera que todos os sistemas mundiais iníquos assumem o nome simbólico de “Babilônia, a Grande.”[98] Ele talvez esteja correto na sua avaliação geral da manifestação universal da Babilônia simbólica nos sistemas mundiais iníquos. Contudo, um exame cuidadoso da Babilônia escatológica no livro de Apocalipse sugere, forte e definitivamente, que ela é “idêntica à trindade satânica, consistindo no dragão, na besta do mar e na besta que sai da terra — isto é, o paganismo e o espiritismo, a Roma eclesiástica e a América com o protestantismo apóstata.”[99]
Mas é importante observar cuidadosamente o que Babilônia representa no sistema de adoração falsa. Babilônia é a causa instrumental da falsa adoração; a razão para o juízo que em breve cairá sobre Babilônia é que ela “fez com que todas as nações bebessem o vinho do furor da sua prostituição” (Ap 14:8). Em outras palavras, a própria Babilônia está imersa na imoralidade, mas incentiva o mundo com uma paixão pela sua imoralidade.[100] Ela faz isso por meio da sedução do vinho inebriante. Assim, o mundo é desencaminhado e enganado. No contexto escatológico, porém, como o engano é operado? Comparando Apocalipse 14:8 com 17:2 e 18:3, Beale comenta:
A cooperação das nações com a Babilônia garante a sua segurança material (cp. 2:9, 13; 13:16–17). Sem esta cooperação, a segurança seria eliminada. Tamanha segurança é uma tentação grande demais para ser resistida. Portanto, a ideia causativa do verbo πεπότικεν ([pepótiken] “ela fez beber”) significa que as nações foram forçadas a “beber”, a obedecer . . . se quisessem manter a segurança econômica.[101]
A conjunção da cooperação com Babilônia (a ser tomada na sua manifestação tripartida, como mencionado anteriormente) e a promessa de bem-estar econômico parecem notáveis, mas não podem ser totalmente exploradas aqui.
Comparando a primeira e a segunda mensagem angélica do ponto de vista da adoração, o contraste é bastante claro. Primeiro, enquanto a verdadeira adoração consiste em dar glória e adorar (cair diante) “Aquele que fez os céus, a terra, o mar e as fontes das águas”, a adoração falsa consiste em confiar a segurança da pessoa aos sistemas mundanos, criados pelo homem. Em segundo lugar, enquanto a verdadeira adoração é motivada pelo arrependimento que resulta no temor (reverência) de Deus, permitindo assim a obediência aos mandamentos de Deus, a falsa adoração é induzida pelo engano da segurança material que leva alguém a “temer” os sistemas mundanos e criados e a prestar obediência às suas exigências. A marcação ou selamento simbólico dos “servos do Senhor” na testa (Ap 7:3), enquanto os falsos “servos” recebem a marca na testa ou na mão (Ap 13:16), mostra que a falsa adoração baseada na segurança material evidencia um problema mais profundo de adoração idólatra. O contexto deste simbolismo, apresentado em Deuteronômio 6:1–8, chama a atenção para a observância da lei de Deus. No contexto das três mensagens angélicas, a obediência aos mandamentos de Deus, incluindo o sábado do sétimo dia, será “uma diferença definidora entre os seguidores do verdadeiro evangelho e os do falso.”[102] Este ponto mostra a estreita ligação teológica entre a primeira e segunda mensagem.
Terceira Mensagem Angélica
Com a terceira mensagem, encontramos a particularização tanto dos “sujeitos” como dos “objetos” da falsa adoração no contexto do fim dos tempos. O anjo declara:
Seguiu-se a estes outro anjo, o terceiro, dizendo com voz forte: — Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na testa ou na mão, também esse beberá do vinho do furor de Deus, preparado, sem mistura, no cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro. A fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre. E os adoradores da besta e da sua imagem e quem quer que receba a marca do nome da besta não têm descanso algum, nem de dia nem de noite (Ap 14:9–11).
Na terceira mensagem angélica, Babilônia cai não porque fosse diretamente objeto de adoração, mas por causa de sua má influência. A terceira mensagem angélica trata de entidades que se tornaram objetos de adoração: a besta e sua imagem. O anjo também marca com particularidade os sujeitos da adoração falsa: aqueles que recebem uma marca na testa ou na mão direita. Consequentemente, somos apresentados à besta e à sua imagem como um princípio teleológico alternativo ao Deus Criador no que diz respeito à adoração. E o anjo anuncia o juízo daqueles que abraçam este princípio alternativo: tormento com fogo e enxofre na presença dos santos anjos e na presença do Cordeiro. A mensagem é claríssima. Focar no objetivo errado na adoração leva a um beco sem saída.
Receber a marca na testa ou na mão direita pode significar identificação com a trindade satânica (Babilônia) a quem eles adoram.[103] Se a verdadeira adoração termina com a obediência, Stefanovic pode estar correto na sua avaliação de que “em última análise, a marca da besta na mão direita ou na testa serve de identificação para os adoradores da trindade satânica, como contrapartida do selo de Deus.”[104] No contexto imediato do capítulo 14, Apocalipse fala das qualidades morais dos selados. “E não se achou mentira na sua boca; não têm mácula” (Ap 14:5). E, ao descrever a sua vitória na luta espiritual do fim dos tempos, João observa que os selados “não se macularam com mulheres, porque são virgens. Eles seguem o Cordeiro por onde quer que ele vá” (Ap 14:4). Aqui é apresentada a luta daqueles que estão selados contra a prostituta Babilônia e suas filhas que representam a religião apóstata. É a guerra contra o remanescente (Ap 12:17) — contra aqueles que se recusam a seguir o programa da Babilônia (Ap 13:15–17). Na verdade, aqueles que estão selados parecem estar envolvidos na proclamação das três mensagens angélicas, advertindo o mundo contra as terríveis consequências de seguir Babilônia (Ap 14:6–12).[105] Obediência aos mandamentos de Deus, incluindo o sábado do sétimo dia, será “uma diferença definidora entre os seguidores do verdadeiro evangelho e os do falso.”[106] Será a prova final que determinará o destino de cada ser humano.[107] Neste contexto, White fala sobre os observadores dos mandamentos serem deturpados e condenados nas salas legislativas e nos tribunais de justiça. Ela então acrescenta que “no conflito que está por vir, veremos exemplificadas as palavras do profeta: O dragão ficou irado com a mulher e foi travar guerra com o restante da descendência dela, ou seja, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12:17).[108] Ao contrário dos poderes do Anticristo, que são enganosos, os selados são verdadeiros, leais e andam nos caminhos de Deus. A adoração da besta e a recepção da sua marca estão em antítese à obediência aos mandamentos de Deus, substituindo a obediência a Deus pela obediência à trindade satânica.[109] Esta avaliação parece ainda mais apropriada tendo em vista a conclusão das três mensagens angélicas: “Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus” (Ap 14:12).
Sumário
Os três anjos de Apocalipse 14:6–12 retratam um conflito de adoração no tempo do fim. Juntos, eles pintam um quadro composto da estrutura e dos contornos da adoração verdadeira e falsa.
Primeiro, o fato de no tempo do fim toda a humanidade ser constituída por dois campos de adoração opostos sublinha o ponto de que a adoração é fundamentalmente um aspecto essencial da vida humana. A verdadeira adoração impõe aos humanos a responsabilidade — um imperativo — de adorar o Deus Criador. No conflito do tempo do fim, contudo, as forças que se opõem ao Deus Criador estabeleceram um sistema falsificado, criado por criaturas, que exige uma adoração alternativa.
Segundo, a verdadeira adoração é motivada por uma resposta de arrependimento ao evangelho que cria reverência, respeito e temor para com o Deus Criador e resulta em lhe dar glória, incluindo a obediência aos seus mandamentos. Por outro lado, a adoração falsa é encorajada pelo engano. No contexto do tempo do fim, a sedução é de segurança material que leva um segmento da humanidade a “temer” um sistema mundano, criado por uma criatura, posto em prática por uma trindade satânica que exige obediência sob a dor da morte.
Terceiro, o destinatário legítimo da adoração verdadeira é o Deus Criador, o único digno de adoração.
Temas de Criação e Juízo
Já observamos que Apocalipse 13–14 apresenta duas comunidades de adoração. Uma adere à aliança com o Deus Criador, guardando os seus mandamentos e a fé de Jesus (Ap 14:12; cp. 12:17), enquanto o outro ignora o Criador e a sua aliança, dando glória à besta, dizendo: “Quem é semelhante à besta? Quem pode lutar contra ela?” (Ap 13:4). O conflito entre Cristo e o anticristo e entre o povo de Deus e a Babilônia chega a um fim dramático na cena final da visão do conflito cósmico (Ap 14:14–20). Antes disso, porém, uma forte advertência de um juízo é emitida nas três mensagens angélicas (Ap 14:6–13). Embora o juízo nas três mensagens angélicas não seja apenas condenação, uma advertência severa permeia todas elas. A primeira mensagem anuncia a chegada da “hora” do juízo de Deus e apela à adoração do Criador (Ap 14:7). A segunda mensagem declara a queda de Babilônia com uma linguagem intensa: “Caiu, caiu Babilônia, a Grande!” (Ap 14:8) — e a terceira mensagem, dada em voz alta, é a advertência mais assustadora do Novo Testamento (Ap 14:9–11).
O primeiro anjo proclama as “boas novas eternas” (euangélion aiōnion), um ponto de vista sob ataque da campanha das forças do mal. A proclamação contraria a deturpação da cosmovisão que se centra no Deus Criador e afirma aquilo que é eternamente válido.[110] A humanidade é chamada a adorar o Criador “porque chegou a hora do seu juízo” (Ap 14:7), uma cláusula causal introduzida por hoti (“para”). Claramente, esta “hora” é um momento crítico. No entanto, não se trata de um único momento ou de uma hora literal de sessenta minutos. No contexto da visão, a “hora do seu juízo” (hē hōra tēs kriseōs autou) precede “a hora da colheita” (hē hōra therisai, Ap 14:15), uma expressão que designa a segunda vinda de Cristo, quando a colheita para a eternidade será feita. Ambas as “horas” são introduzidas pela mesma palavra, “chegou” (ēlthen), o que mostra que estão relacionadas. Antes da colheita ser colhida, há necessidade da “hora do seu juízo,” um processo no qual são tomadas decisões sobre aqueles que constituirão a colheita. O objetivo deste juízo é proporcionar clareza e segurança.[111] Como observa Gerhard F. Hasel: “Antes da colheita ser colhida, deve ocorrer um juízo para decidir quem dentre os professos filhos de Deus pode ser ceifado e levado para o reino eterno.”[112] Um notável paralelo temático pode ser observado entre Daniel 7 e Apocalipse 14. Jacques Doukhan argumenta que a cena do juízo de Daniel 7 fornece o pano de fundo principal da advertência das três mensagens angélicas.[113] Ela fornece urgência às três mensagens.[114]
O anúncio da chegada da hora do juízo em Apocalipse 14:7 não é apenas um aviso, mas também uma boa notícia. Ou seja, a primeira mensagem angélica afirma que o juízo está em andamento e este ainda é um momento durante o qual a pessoa tem a oportunidade de se associar a Deus no conflito cósmico.[115] Além disso, é uma boa notícia, uma vez que o juízo fornece uma resposta à pergunta “Até quando, ó Senhor?” (Ap 6:10) feita ao povo de Deus, assegurando-lhes o triunfo dos propósitos de Deus e que há justiça no universo.[116] Assim, em Apocalipse 14, a graça divina e a justiça divina estão intimamente ligadas: são dois aspectos da mesma obra de Deus — o processo de resolução do problema do mal na sua obra de renovação da criação.[117]
Juízo e Queda de Babilônia
A interpretação do conceito de Babilônia do tempo do fim e de sua queda em Apocalipse requer uma compreensão do caráter teológico da antiga Babilônia. Peter J. Leithart observa corretamente que, devido à sua rica associação bíblica, o termo “Babilônia” “toca um acorde, não uma única nota.”[118] No Antigo Testamento, Babilônia aparece como arqui-inimiga de Deus e perseguidora do povo da aliança, destruindo o templo e levando seu povo ao cativeiro. Desta forma, a queda da Babilônia histórica, que ocorreu pouco depois de anunciar a sua queda moral (Dn 5:27–28), abriu um caminho para a liberdade de Israel. Hans K. LaRondelle observa a repetição do mesmo padrão no cenário do tempo do fim de Apocalipse: primeiro, o veredito da queda da Babilônia no tempo do fim é pronunciado (Ap 14:8), antes de sua destruição real durante a sétima praga (Ap 16:17-21).[119]
Os capítulos finais da história de Apocalipse narram a história de duas cidades: Babilônia e Jerusalém — uma “grande” cidade (Ap 14:8) e uma cidade “santa” (Ap 21:2).[120] “Grande” é claramente um epíteto irônico para a Babilônia escatológica (Babylōn hē megalē), como foi para a “Babilônia” histórica em Daniel 4:30. O título está associado à arrogância da Babilônia.[121] Realmente grande, é a queda dela (Ap 18).[122] Babilônia é contrastada em Apocalipse com a nova Jerusalém, a cidade-templo sagrada na qual habita a presença de Deus (Ap 21:3).[123] As duas cidades são personificadas como duas mulheres: a meretriz Babilônia (Ap 17:1) e a noiva de Cristo (Ap 21:9). O paralelismo antitético é significativo, uma vez que a embriaguez e a fornicação (Ap 14:8) contrastam com a fidelidade e a castidade (Ap 19:8).[124]
A característica mais surpreendente de Babilônia, a cidade prostituta, é que ela viola a aliança. A estrutura da aliança é um ponto crítico de orientação para a interpretação do tema da “queda da Babilônia.”[125] A representação simbólica de Babilônia como uma “grande meretriz” (Ap 17:1) que “fez a todas as nações beber do vinho da ira da sua prostituição” reflete a linguagem da aliança (Ap 14:8). Esta metáfora deve ser entendida à luz das profecias de Isaías, Jeremias, Ezequiel e Oseias, que retratam o Israel apóstata como a esposa infiel de Yahweh que se tornou uma prostituta.[126] Nos oráculos do Antigo Testamento, a idolatria é designada como o principal meio de abandonar a aliança com Yahweh (Ez 16:38). Significativamente, a questão crucial no drama escatológico de Apocalipse 13 e 14 é a questão da adoração verdadeira em contraste com a idolatria. Desta forma, o juízo sobre a cidade meretriz, a Babilônia escatológica, deve ser interpretado em termos da aliança, como o enfrentamento das maldições da aliança que são a consequência de suas ações.
Os paralelos antitéticos sugerem que, em Apocalipse, a Babilônia representa um sistema contrarreligioso àquele que exige a adoração do Deus Criador (Ap 14:7). É um sistema idólatra que “valoriza a ambição humana, a luxúria, a riqueza e o poder”[127] e seduz “todas as nações” para ter “relações sexuais” com ela (Ap 14:8). Sua influência inebriante, baseada na promessa de bem-estar próspero (Ap 17–18), é desmascarada por uma advertência alarmante do segundo anjo: “Caiu, caiu a grande Babilônia!” (epesen, epesen Babilônia hē megalē). O uso do aoristo para anunciar um evento futuro, também uma característica dos oráculos proféticos do Antigo Testamento, e o uso da reduplicação da palavra “caiu” enfatizam a certeza do destino de Babilônia. Embora ela tenha sucesso no estabelecimento de um império mundial baseado na busca de sua própria glória (Ap 13), ela é finalmente desmascarada pela última advertência de Deus (Ap 14:6–13) como “uma cidade charlatã vestida de escarlate roubado e brilhando com ouro de tolos, cuja maquiagem de grife cobre seu rosto feio.”[128] Como tal, a Babilônia não tem futuro.
Juízo como Consequência de Uma Aliança Malformada
Embora a mensagem do segundo anjo enfatize o fato do juízo sobre Babilônia e a sua causa, a terceira mensagem angélica discorre sobre o destino dos habitantes da terra que se alinham com o sistema diabólico que atua como rival de Deus — embora Deus, como o Criador (Apocalipse 14:7) não possa ter quaisquer rivais à altura. Assim, juntamente com a primeira mensagem, as duas mensagens formam uma unidade inquebrável. Eles continuam voando em sincronia como uma advertência escatológica tripla e unificada emitida por Deus. Contudo, a terceira mensagem constitui a intervenção mais forte e assustadora, implicando urgência.
A terceira mensagem angélica começa e termina com a razão para o juízo: adorar a besta e a sua imagem e receber a sua marca (Ap 14:9, 11).[129] O uso da técnica literária de inclusio neste ponto destaca que o juízo final é o veredito que os seres humanos “transmitiram a si mesmos por meio de sua atitude para com Deus e seu propósito salvador.”[130] A ênfase na adoração equivocada como causa de condenação liga as mensagens às mensagens do primeiro anjo (“Temam a Deus e deem glória a ele . . . adorem aquele que fez . . ., indicando que os condenados rejeitaram o chamado para adorar aquele que é digno de adoração.[131] Visto que se identificaram com o mal de Babilônia, devem partilhar do destino dela: seu juízo anunciado na segunda mensagem angélica.[132]
O julgamento sobre o condenado é declarado em termos de beber “o vinho do furor de Deus [tou oinou tou thymou tou theou], preparado, sem mistura, no cálice da sua ira” (Ap 14:10). A expressão contrasta com “o vinho da prostituição” (tou oinou tou thymou tēs porneias) da fornicação da meretriz (Ap 14:8). O fato de que “o vinho do furor de Deus” é “derramado sem diluir” (kekerasmenou akratou) e que no texto tymos (“furor”) e orgē (“ira”) aparecem juntos indica a intensidade e a determinação da reação de Deus ao mal.[133] A imagem do vinho de Deus sendo “misturado sem mistura” (tradução literal de kekerasmenou akratou) se baseia no antigo consumo de vinho, já que a prática comum no primeiro século era misturar água com vinho pelo menos pela metade, mas às vezes até mesmo numa proporção de três para um em favor da água.[134] Visto que está claramente afirmado que a ira de Deus está preparada com força total, a conclusão lógica é que o vinho da prostituta está diluído. Como observa Beale: “embora o efeito embriagante do vinho de Babilônia parecesse forte, não é nada em comparação com o vinho de Deus.”[135] A influência da Babilônia em enganar as pessoas foi muito eficaz, conforme descrito em Apocalipse 13. No entanto, a resposta de Deus à distorção da verdade sobre a realidade será definitiva e a experiência da ira de Deus será ainda pior.[136]
A severidade da ira de Deus é definida mais precisamente em termos de tormento eterno. A linguagem da destruição dos adoradores da besta é extraída de Isaías 34:9–10, que retrata o juízo de Deus sobre Edom: “Os seus riachos transformar-se-ão em piche, e o seu pó em enxofre; a sua terra tornar-se-á em piche ardente. O fogo não se apagará nem de noite nem de dia, e a sua fumaça subirá para sempre.” A linguagem forte destaca o destino permanente de Edom: nunca mais se levantará. Da mesma forma, o juízo dos adoradores da besta será definitivo. Embora o Apocalipse tenha sido frequentemente acusado de violência e vingança devido à sua linguagem de juízo,[137] a sua linguagem é hiperbólica e tem uma função retórica. As mensagens assustadoras de Apocalipse 14:9–11 funcionam como uma advertência, uma espécie de terapia de choque, destinada a levar as pessoas a mudar de rumo: a reconhecer o Deus Criador na adoração e a boicotar a quase-soberania que usurpa o Seu lugar.
O paralelo entre Apocalipse 14:11b e 4:8, e o uso da frase “dia ou noite,” também tem um importante significado teológico que ilumina a relação entre juízo e criação. O primeiro texto afirma sobre o destino dos adoradores da besta que “eles não têm descanso dia ou noite” (ouk echousin anapausin hēmeras kai nyktos) do tormento, enquanto na visão da sala do trono de Apocalipse 4, que retrata uma realidade contínua, os adoradores paradigmáticos de Deus “não descansam dia ou noite” (anapausin ouk echousin hēmeras kai nyktos) louvando a Deus. Por causa da sua lealdade equivocada, escolhendo adorar a besta em vez do Deus Criador, o castigo final dos condenados é não ter “descanso.” Deve ser mencionado, contudo, que estas expressões não devem ser interpretadas como indicando um estado de perpetuidade na experiência dos ímpios.[138] Ter o descanso divino tem sido um privilégio de todos os seres humanos desde a semana da criação, quando Deus descansou no sétimo dia após a sua obra de criação (Gn 2:2–3), mas o destino eterno dos adoradores da besta é perder a oportunidade de encontrar “descanso.” O sábado do sétimo dia, o memorial da criação e o sinal da aliança, aponta para Deus que permanece fiel à sua criação. Ignorar sua aliança adorando um poder que é indigno dela resulta no caos e na perda do descanso. Larry Lichtenwalter conclui: “Este cenário de criação destaca a natureza essencial do ataque do dragão a Deus e ao seu povo. É a decriação — a reversão da criação.”[139] É a consequência do afastamento da verdade concedida aos seres humanos (Ap 14:6–7).
Embora a impressão seja de que a maioria das pessoas concorda com a agenda idólatra da Babilônia, Apocalipse apela aos seus leitores para que tenham paciência (hypomonē tōn hagiōn, Ap 14:12), assegurando-lhes que a justiça triunfará no final. A ideia subjacente por trás da justiça como um conceito associado ao juízo de Deus é a justiça do Criador em relação ao mundo (“Seus julgamentos são verdadeiros e justos!,” Apocalipse 16:7; cp. 15:3; 16:5; 19:2). Seus juízos não são decisões arbitrárias. Como destaca Bauckham: “O juízo de Deus não é uma autoridade externa que impõe a sua vontade às pessoas, mas a luz da verdade que expõe o mal para que todos vejam.”[140] Assim, Deus julgará os atos humanos e os resultados serão evidentes quando chegar a hora e o mal for finalmente derrotado.
Após esta análise dos temas da criação e do juízo nas três mensagens angélicas, passamos agora à discussão do seu relacionamento.
Vinculando Criação e Juízo
Uma ligação direta entre os temas da criação e do juízo aparece em Apocalipse 11:18, um texto que lança alguma luz sobre a natureza da relação entre os dois temas em 14:6–13. Este texto, que aparece bem no final da sétima trombeta, começa e termina com a noção de juízo, enquanto o meio do verso se refere à “recompensa” que será dada aos fiéis. Afirma que chegou o tempo (ēlthen . . . ho kairós) de administrar a justiça e estabelecer o reino de Deus (Ap 11:15-17), o que, entre outras coisas, envolve “destruir os que destroem a terra” (NVI). Em Apocalipse existem quatro principais agentes de destruição: 1) Satanás, 2) a besta, 3) o falso profeta e 4) Babilônia. A forma como arruínam os outros resulta finalmente na sua própria ruína (lex talionis).[141] Por outro lado, para o povo de Deus, o tempo do juízo é a demonstração do fato de que Deus não desistiu de sua criação. A alusão à história do dilúvio em Gênesis em Apocalipse 11:18 serve ao propósito de enfatizar o tema da fidelidade do Criador à sua criação. Bauckham comenta que “A extensão em que a fidelidade do Criador à sua criação é o tema de Apocalipse pode ser apreciada se notarmos uma alusão significativa à história do Dilúvio de Gênesis em Apocalipse 11:18 . . . a frase — ‘destruir os que destroem a terra’ — também alude ao jogo de palavras equivalente em Gênesis 6:11–13, 17, onde o verbo hebraico . . . ([תחש] tachash) . . . tem o mesmo duplo sentido.”[142] Em outras palavras, o juízo de Deus deve ser visto como um passo crucial no processo de restauração da sua boa criação pelo bom Criador. Sua essência é que “o Deus de Israel [está] lidando firme e decididamente com tudo o que distorceu e corrompeu a sua boa criação, para que a própria criação possa ser resgatada de todos os seus males e transformada no novo mundo” (Ap 21–22).[143] Desta forma, o quadro mais amplo que fornece um contexto interpretativo para o conceito de juízo é a obra de Deus de recuperar e restaurar a sua criação, resolvendo o problema do mal.
A visão bíblica de Deus como Criador pressupõe sua fidelidade à criação. A fidelidade de Deus está enraizada na sua relação de aliança com o mundo que ele criou. Embora o termo “aliança” (berît) não apareça na história da criação de Gênesis 1–2, ele não precisa aparecer para que uma aliança exista.[144] O básico da aliança é a lealdade à aliança — não apenas da humanidade (Gn 2:15–17), mas do Deus Criador para com a sua criação. Assim, a obra da criação e a aliança formam “uma unidade teológica inquebrantável.”[145]
O elo que liga os conceitos de Deus como Criador e Deus como Juiz nas três mensagens angélicas é a sua fidelidade à aliança. No Antigo Testamento, a imparcialidade e a justiça de Deus eram os pressupostos básicos da aliança. O povo da aliança de Deus esperava que o Criador investigasse e corrigisse as questões exercendo juízo (Gn 16:5; 31:53; 1Sm 24:15; 2Sm 18:19; Sl 7). Os atos de juízo do Senhor visavam salvaguardar o relacionamento pactual com seu povo, portanto, eram a demonstração de sua fidelidade. Um bom exemplo é a narrativa do dilúvio em Gênesis, na qual a fidelidade do Criador é claramente uma ideia central. Isto é sugerido pelo significado central da expressão “então Deus se lembrou de Noé” (Gn 8:1) na narrativa.[146] A referência à criação das “fontes de água” na primeira mensagem angélica (Ap 14:7) como uma alusão à narrativa do dilúvio (Gn 7:11) parece servir o mesmo propósito: recordar a fidelidade de Deus à sua criação como um contexto para interpretar o juízo (cp. Ap 4:3).
Portanto, o juízo nas três mensagens angélicas é uma consequência lógica da fidelidade do Deus Criador. Porque ele, como criador, é fiel à sua criação, ele não permite que o mal tenha a última palavra. Com o juízo sobre Babilônia, ele estabelece limites à obra do mal que arruína a criação com violência, opressão e o estabelecimento de um sistema global de adoração idólatra. A fidelidade de Deus à sua criação exige destruir o mal e erradicá-lo do universo, a fim de preservar e restaurar um mundo criado no início como “muito bom” (Gn 1:31).[147] Seu propósito é “levar a criação para além da ameaça do mal” e transformá-la em um lar onde a glória divina habite junto com a humanidade (Ap 21:3, 22–23; 22:3–5).[148]
As três mensagens angélicas são um apelo final para a humanidade responder ao Deus Criador, buscando um relacionamento de aliança com ele. Em contraste com as afirmações enganosas das forças do mal, Apocalipse 14:6–13 deixa claro que existe um Deus de quem todas as coisas se originam, a quem os seres humanos devem lealdade. Sua fidelidade pactual à sua criação exige que ele corrija o que está errado em seu cosmos e resgate sua criação daquilo que a destrói. Seu plano final é criar um mundo sobre os fundamentos do antigo (Ap 21:1–8). Claramente, a visão do futuro do Apocalipse é profundamente criacional: as coisas que representam uma ameaça à bondade e à dádiva de Deus da ordem criacional de Deus devem ser derrotadas e o reinado de Deus sobre toda a criação deve ser restaurado. O tema do juízo deve ser entendido neste contexto como um passo crucial no programa de renovação do Criador, e como um passo pelo qual a saúde da criação é restaurada e pelo qual o caos é substituído pela ordem (Gn 1:1–2).[149] White parece escrever deste ponto de vista quando observa:
O grande conflito terminou. O pecado e os pecadores não existem mais. O universo inteiro está purificado. Uma única palpitação de harmonioso júbilo vibra por toda a vasta criação. Daquele que tudo criou emanam vida, luz e alegria por todos os domínios do espaço infinito. Desde o minúsculo átomo até ao maior dos mundos, todas as coisas, animadas e inanimadas, em sua serena beleza e perfeito gozo, declaram que Deus é amor.[150]
Portanto, o juízo é uma “boa notícia” (euangélion) porque é um “não” a tudo o que se opõe aos bons propósitos de Deus para o mundo e um “sim” à restauração da própria criação, em linha com a visão original em Gênesis 1–2.[151] Como tal, é uma expressão responsável do amor divino.
Conclusão
Uma característica única do Apocalipse de João, que se encontra no centro do livro, é as três mensagens angélicas em sequência. É uma proclamação direcionada especialmente às pessoas que vivem no último período da história humana. Embora muitas mensagens do livro se reúnam em poucas palavras em Apocalipse 14:6–12, o Apocalipse de João não para aí. A segunda vinda de Cristo não aparece diretamente nas três mensagens angélicas; sua representação segue imediatamente (Ap 14:14–16). E embora a criação ocorra na mensagem de Apocalipse 14:7, é a criação de Gênesis — aquilo que foi feito (Ap 14:7) — descrita lá.
Teologicamente, a centralidade da mensagem na estrutura do livro do Apocalipse lhe confere uma relevância notável. A ligação da doutrina do sábado à criação bíblica que lhe está subjacente requer em si um exame mais atento da doutrina da criação e da sua relação com as três mensagens angélicas. Na verdade, a natureza fundamental da doutrina da criação para outras doutrinas bíblicas foi reconhecida: “Altere a doutrina da criação em qualquer ponto, e você também terá alterado estes outros aspectos da doutrina cristã.”[152] Consequentemente, é necessária uma concepção bíblica adequada da ligação entre a doutrina da criação e os outros temas bíblicos nas mensagens. As três mensagens angélicas falam sobre Deus, criação, redenção, adoração e julgamento, e tentamos mostrar as conexões entre esses temas. Claramente, criação, aliança e juízos juntos pertencem ao pensamento teológico de João como expressões relacionadas à obra de Deus como parte integrante do “evangelho eterno” (Ap 14:6). Parte disso pode parecer ameaçador e ser visto como uma motivação negativa para “temer a Deus.” Não obstante, a motivação positiva é o conceito de salvação nas três mensagens angélicas e na nova criação em comunhão com o Deus de amor, santidade e justiça sendo proclamada em Apocalipse 21 e 22. Até mesmo os juízos divinos devem ser vistos como expressões do amor de Deus, por meio do qual ele procura proteger a sua criação.
O significado das três mensagens angélicas em seu âmbito universal exige que as mensagens sejam partilhadas não apenas como conhecimento mental (embora a verdade cognitiva seja importante). As pessoas precisam ser desafiadas a se voltarem para Deus, seguirem Jesus e amarem o Senhor de todo o coração, de toda a alma e de todo entendimento. Por fim, embora a mensagem seja a mensagem final que chama a humanidade a tomar uma decisão por Deus, ela deve ser compreendida e compartilhada através das lentes da totalidade das mensagens do Apocalipse.
GUIAS DE ESTUDO PARA A CRIAÇÃO E AS TRÊS MENSAGENS ANGÉLICAS
Estes guias de estudo foram preparados para tornar o material apresentado neste documento mais acessível. Para cada seção principal do texto escrito, fornecemos um diagrama conceitual que resume os pontos-chave dessa seção. Seguindo o diagrama, algumas perguntas específicas são oferecidas para ajudar o leitor a compreender as conexões teológicas e lógicas entre os conceitos das três mensagens angélicas apresentadas neste documento.
Contexto das Três Mensagens Angélicas: Um Esboço Cronológico (Ap 11:19–14:20)
Visão Central de Apocalipse (Ap 11:19–14:20)
Arranjo Cronológico
Estude este diagrama em conexão com a seção “Contexto das Três Mensagens Angélicas” (p. 6ss e responda às seguintes questões:
- A visão registrada em Apocalipse 11:19–14:20 é um retrato do esboço da história cristã em símbolos. Como você descreveria o esboço dos eventos descritos em Apocalipse 12?
- Como os personagens da visão de Apocalipse 13 contribuem para o programa iniciado pelo dragão em Apocalipse 12?
- Reflita sobre Apocalipse 12 e 13. Em vista do que foi revelado nesses capítulos, que contribuição o capítulo 14 fornece à narrativa nesta visão central do Apocalipse?
Criação no Livro do Apocalipse e As Três Mensagens Angélicas
Estude este diagrama em conexão com a seção “Criação no Livro do Apocalipse e As Três Mensagens Angélicas” (p. 9ss) e responda às seguintes perguntas:
- Familiarize-se com as passagens identificadas como textos da criação no livro do Apocalipse, lendo-as atentamente. Preste atenção especial aos contextos em que elas ocorrem. Como você explicaria a alguém a mensagem sobre a criação que cada passagem transmite?
- Como as passagens da criação no livro de Apocalipse ecoam a criação no livro de Gênesis? Quais passagens em particular se destacam para você?
- Quais aspectos das três mensagens angélicas você acha que são esclarecidos pelas passagens da criação de Apocalipse 4 e 5?
- Por que a criação é tão importante para a nossa compreensão de Deus e de quem somos?
Criação e Evangelho
Estude este diagrama em conexão com a seção “Criação e Evangelho” (p. 14ss) e responda às seguintes perguntas:
- Examine as passagens do livro de Apocalipse que abordam o conceito do evangelho. Como essas passagens contribuem para que o “evangelho eterno” de Apocalipse 14:6 seja o mesmo evangelho proclamado por Jesus, pelos apóstolos e por Paulo?
- Como este evangelho está conectado com a doutrina da criação na primeira mensagem angélica? Como a conexão entre criação, evangelho e salvação em outras partes do Apocalipse apoia sua resposta?
- Estude cuidadosamente as passagens do livro de Apocalipse que conectam criação e salvação antes e depois da visão central de Apocalipse 11:19–14:20. Como você pode relacionar essas passagens com a primeira mensagem angélica?
Criação e Adoração
Estude este diagrama em conexão com a seção “Criação e Adoração” (p. 31ss) e responda às seguintes perguntas:
- O que significam as frases “temam a Deus” e “deem glória a ele” no contexto da adoração?
- A ordem da primeira mensagem para temer a Deus, dar-lhe glória e adorá-lo se baseia na posição de Deus como Criador. Como você explicaria que a orientação dada aos humanos de adorar a Deus é adequada e merecedora?
- No contexto das três mensagens angélicas, como você responderia à alegação de que a ênfase na observância dos mandamentos, incluindo o mandamento do sábado, é uma forma de legalismo?
- Como você poderia demonstrar que a primeira mensagem angélica envolve uma situação de conflito em relação à adoração?
- De acordo com a segunda mensagem angélica, Babilônia “caiu” porque “fez com que todas as nações bebessem o vinho do furor da sua prostituição.” Como você entende esta frase em relação à questão da adoração anunciada pelo primeiro anjo?
- Como Babilônia é uma ameaça à adoração que só Deus, como Criador, merece?
Criação e Juízo
Estude este diagrama em conexão com a seção “Temas de Criação e Juízo” (p. 45ss) e responda às seguintes perguntas:
- Reflita sobre o fato de que o anúncio do juízo pelo primeiro anjo não indica um único momento no tempo, mas sim um processo. Quais momentos-chave do processo você consegue identificar nas três mensagens angélicas?
- Considere Apocalipse 11:18 cuidadosamente e explique como, em termos de aliança, a terceira mensagem angélica sobre o juízo está ligada ao ensino de Apocalipse sobre a criação.
- Do ponto de vista do juízo, como o juízo anunciado pela primeira mensagem está relacionado com o juízo anunciado pela terceira mensagem?
Este livro é uma iniciativa do Conselho de Fé e Ciência através do Instituto de Pesquisas Bíblicas. Explora a conexão teológica entre o relato da criação em Gênesis e as três mensagens angélicas proféticas de Apocalipse 14 e fornece uma exposição sólida desta importante conexão bíblica. A crença da Igreja Adventista do Sétimo Dia no sábado do sétimo dia como o dia de descanso de Deus e na sua relevância especial para o nosso tempo está enraizada nestas mensagens e molda os esforços missionários da igreja. Entre os temas teológicos presentes nas três mensagens angélicas, três se destacam: 1) evangelho, 2) adoração e 3) juízo. Cada um desses temas bíblicos é cuidadosamente examinado no contexto da criação bíblica, no contexto das três mensagens angélicas e do livro do Apocalipse como um todo. Um guia de estudo prático está incluído no final para facilitar o estudo pessoal e a discussão em grupo deste importante tópico. O Conselho Fé e Ciência apoia a investigação científica e teológica, a fim de fornecer recursos que ajudem a confirmar e compreender melhor o relato da criação em Gênesis, no qual se baseiam muitas doutrinas bíblicas, incluindo o sábado.
Notas
[1] Ellen G. White, Conselhos para Escritores e Editores, pp. 30–31.
[2] Ver Kenneth A. Strand, “The Sabbath,” em Handbook of Seventh-day Adventist Theology,” e. Raoul Dederen, SDA Commentary Reference Series 12 (Hagerstown, MD: Review and Herald, 2001), pp. 493–513, edição eletrônica.
[3] Para uma análise geral do livro de Apocalipse em termos de sua estrutura e relações temáticas, ver Kenneth Strand, “The Eight Basic Visions,” em Symposium on Revelation: Livro 1, e. Frank B. Holbrook, Daniel and Revelation Committee Series 6 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 1992), pp. 35–72.
[4] O dragão foi poiēsai polemon meta tōn loipōn (“fazer guerra ao remanescente,” Ap 12:17). A besta do mar recebe poder para poiēsai polemon meta tōn hagiōn (“fazer guerra aos santos) e vencê-los (Ap 13:7).
[5] Todas as citações bíblicas são da NAA, a menos que indicado de outra forma.
[6] Para um esboço mais detalhado desses capítulos e a conexão entre eles, bem como o conflito entre o remanescente e os poderes do mal, ver Ekkehardt Mueller, “O Remanescente no Tempo do Fim em Apocalipse,” https://estudosadventistas.com.br/o-remanescente-no-tempo-do-fim-em-apocalipse/, acessado em 22/08/2026. Este artigo também explica o quadro temporal da visão.
[7] Ver Grant R. Osborne, Revelation, Baker Exegetical Commentary on the New Testament (Grand Rapids, MI: Baker, 2002), p. 551, que sugere que “o juízo em 14:14–16 é dos crentes e, portanto, centra-se na misericórdia, enquanto em 14:17–20 é dos incrédulos e centra-se na justiça.”
[8] Para interpretações históricas e cronológicas dos detalhes desta visão central do livro do Apocalipse, ver William G. Johnsson, “The Saints’ End-Time Victory Over the Forces of Evil,” em Symposium on Revelation: Volume 2, ee. Frank B. Holbrook, Daniel e Revelation Committee Series 7 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 1992), pp. 3–40.
[9] Discutiremos brevemente as declarações diretas de criação, mas as referências indiretas também devem ser levadas em consideração. Alusões à criação de Gênesis são referências a 1) céu, mar e terra; 2) presença de Deus; 3) vida; 4) pedras preciosas e ouro; 5) corpos celestes (sol, lua e estrelas); 6) dia e noite; e 7) governo da humanidade. Outras alusões são as frases “desde a fundação do mundo” e “está feito,” o silêncio no céu e os animais vindos do mar e da terra. Os temas da criação ocorrem com as designações divinas, o verbo poieō (fazer), a destruição da criação na visão da trombeta, o abismo, e os humanos como almas.
[10] NAA chama Jesus de “o princípio da criação de Deus.” Mas tal tradução pode ser mal interpretada como sendo Jesus o primeiro ser criado por Deus, e não o próprio Criador. Em Apocalipse, “princípio” (archē) se aplica a Jesus e Deus deve ser entendido ativamente, como fazemos quando dizemos que Jesus é “o Princípio e o Fim” (Ap 22:13). Esta frase também é usada literalmente para Deus, o Pai, que é igualmente “o Princípio (archē) e o fim” (Ap 21:6). Algumas traduções inglesas preferem “governante” como a tradução de archē (por exemplo, a NVI). No entanto, isso não parece ser provável devido ao uso do termo por João. O significado “governante” ou “poderes” é encontrado principalmente em Paulo (e.g., Rm 8:38; 1 Co 15:24, Ef 1:21; 3:10; 6:12; Cl 1:16; 2:10, 15; Tt 3:11), mas não, contudo, em Hebreus (e.g., Hb 1:10; 2:3; 3:14; 5:12; 7:3). Além disso, João parece distinguir entre archē e archōn (“governante, autoridade”) em Apocalipse.
[11] Gregory Stevenson, “The Theology of Creation in the Book of Revelation,” Leaven 21, nº 3 (2013): 140.
[12] A estranha ordem dos verbos desencadeou uma série de sugestões, entre elas a de que Deus planejou a criação em sua mente antes de executá-la. Ver Robert H. Mounce, “The Book of Revelation,” New International Commentary on the New Testament (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1990), p. 127; G. K. Beale, “The Book of Revelation: A Commentary on the Greek Text,” New International Greek Testament Commentary (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1999), p. 335, propõe que o significado das linhas 2 e 3 é que “elas existem continuamente e passaram a existir.” David E. Aune, “Revelation 1–5,” Word Biblical Commentary 52A (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2014), p. 312, fala sobre “um exemplo de hysteron-proteron, isto é, a inversão de eventos, que às vezes ocorre em Apocalipse.” Por outro lado, Osborne, p. 242, sugere um padrão quiástico ABA, no qual a criação é reafirmada sem implicar uma ordem cronológica.
[13] Ver Craig S. Keener, “Revelation,” The NIV Application Commentary (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2000), p. 181; e Mounce, p. 126.
[14] Craig R. Koester, “Revelation,” The Anchor Yale Bible (New Haven, CT: Yale University Press, 2014), p. 265, entende o título “aquele que é, que era e que há de vir” como “afirmando o presente, o passado e o futuro de Deus . . . como Criador.” Referindo-se a Alfa e Ômega, ele afirma: “Como o Deus Alfa é o Criador, o princípio de todas as coisas (4:11); como o Ômega, ele completa todas as coisas na nova criação (21:1)” (ibid., p. 230).
[15] ktisma também ocorre em Apocalipse 8:9, a segunda trombeta, onde um terço das criaturas marinhas morre. Em Apocalipse 5:13, porém, as criaturas de Deus incluem “todas as criaturas do universo.”
[16] Larry L. Lichtenwalter, “Creation and Apocalypse,” Journal of the Adventist Theological Society 15, nº 1 (2004): 127. Cp. John Sweet, “Revelation,” New Testament Commentaries (Philadelphia, PA: Trinity Press, 1990), p. 178,
[17] Ver Gerald L. Stevens, Revelation: The Past and Future of John’s Apocalypse (Eugene, OR: Pickwick Publications, 2014), p. 386.
[18] Michael J. Gorman, Reading Revelation Responsibly: Uncivil Worship and Witness: Following the Lamb Into the New Creation (Eugene, OR: Cascade Books, 2011), p. 164, conclui, “Assim, este paraíso não é apenas um jardim, mas um jardim urbano, ou melhor ainda, uma cidade-jardim.”
[19] Em Jesus, Deus “tabernaculou” também entre os humanos, embora de uma forma mais oculta (João 1:14).
[20] Jonathan Moo, “The Sea That Is No More: Rev 21:1 and the Function of Sea Imagery in the Apocalypse of John,” Novum Testamentum 51 (2009): 165.
[21] Apocalipse 14:7, com a adição das fontes de água à tríplice esfera da criação como céu, terra e mar, pode ter em mente a água escatológica da vida disponível gratuitamente (Ap 21:6; 22:17). Mas ainda assim a criação é expressa na primeira mensagem angélica com um aoristo e no contexto do relato da criação em Gênesis.
[22] Embora João use os termos apenas com moderação, Paulo parece gostar deles. Das setenta e seis ocorrências do termo “evangelho” no Novo Testamento, sessenta são encontradas nos escritos de Paulo; dos cinquenta e quatro usos da frase “proclamar o evangelho” no Novo Testamento, vinte e três são de Paulo.
[23] E.g., Simon J. Kistemaker, New Testament Commentary: Exposition of the Book of Revelation (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 2001), p. 407; Mounce, pp. 270–271; e Stephen S. Smalley, The Revelation to John: A Commentary on the Greek Text of the Apocalypse (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2005), p. 361.
[24] Sigve K. Tonstad, “Revelation,” Paideia Commentaries on the New Testament (Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2019), p. 203.
[25] Beale, Revelation, p. 748.
[26] Ibid.
[27] R. T. France, The Gospel of Mark: A Commentary on the Greek Text (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2002), p. 90.
[28] G. B. Caird, The Revelation of St. John the Divine, Harper’s New Testament Commentaries (Peabody, MA: Hendrickson, 1987), p. 182. Peter J. Leithart, “Revelation 12–22,” The International Theological Commentary on the Holy Scripture of Old and New Testaments (London: T&T Clark, 2018), pp. 94–95, defende, “O reino de Deus vem por meio do juízo, e o juízo é uma boa notícia porque significa que Deus finalmente lidará com os iníquos. . . . Por que não seria este o próprio evangelho, o anúncio de que o Criador está assumindo o poder como Senhor de todas as nações, que ele derrubou a ‘Babilônia’? E que ele recompensará seus seguidores leais ao julgar seus adversários?”
[29] Willem Altink, “1 Chronicles 16:8–36 as Literary Source for Revelation 14:6–7,” Andrews University Seminary Studies 22, nº 2 (1984), p. 187.
[30] Ibid. Embora Altink reconheça que o livro de Apocalipse pode muitas vezes ter múltiplas fontes para uma única passagem, ele observa que “entre essas várias seções dos Salmos, apenas o Salmo 96 contém as quatro expressões-chaves de Apocalipse 14:7. Contudo, em um caso uma palavra grega diferente é usada no Salmo 96 (LXX, Sal 95); e os paralelos contextuais mais amplos entre 1 Crônicas 16 e Apocalipse 14 também faltam no Salmo 96. Por tais razões, 1 Crônicas 16:8–36 fornece a melhor evidência de ser o contexto literário bíblico básico para Apocalipse 14:6–7” (ibid., p. 188).
[31] O Livro da Vida ocorre em Apocalipse 3:5; 13:8; 17:8; 20:12, 15; e 21:7. Em metade dos casos, Apocalipse menciona aqueles que não estão escritos no livro (Ap 13:8, 17:8; 20:15).
[32] Esses quatro grupos aparecem sete vezes em Apocalipse (Ap 5:9; 7:9; 10:11; 11:9; 13:7; 14:6; 17:15). Em dois casos, um dos quatro termos é substituído por outro termo semelhante (Ap 10:11; 17:5).
[33] Sigve Tonstad, Saving God’s Reputation: The Theological Function of Pistis Iesou in the Cosmic Narratives of the Apocalypse, Library of New Testament Studies 337 (London: T &T Clark, 2007), pp. 193–194. Tonstad sugere que “todas as quatro principais alternativas . . . reivindicam uma medida de legitimidade e relevância. Nenhuma das opções possíveis é totalmente inaceitável. . . . E assim eles suportam, estes quatro, ‘a fidelidade de Jesus’, ‘a fé de Jesus’, ‘fé em Jesus’ e ‘fidelidade a Jesus’, e a maior entre estas é a fidelidade de Deus em Jesus” (ibid.).
[34] Richard D. Phillips, “Revelation,” Reformed Expository Commentary (Phillipsburg, NJ: P&R, 2017), p. 407. Ver, também, Kistemaker, p. 413.
[35] John Christopher Thomas e Frank D. Macchia, Revelation, The Two Horizons New Testament Commentary (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2016), pp. 537–543.
[36] Foi apontado que os elementos desta doxologia são incomuns porque o amor ocorre no presente, enquanto a redenção e o novo status dos crentes são descritos com aoristos. Peter J. Leithart, “Revelation 1–11,” International Theological Commentary (London: T&T Clark, 2018), p. 91, observa: “Ele nos ama, não apenas nos amou no passado, mas nos ama agora com um amor expresso em sua morte.”
[37] Thomas e Macchia, p. 77.
[38] Buist M. Fanning, Revelation, Zondervan Exegetical Commentary on New Testament (Grand Rapids, MI: Zondervan Academic, 2020), p. 82, aponta que aqui ocorre um segundo elemento incomum: “Também incomum é o foco no amor de Cristo que levou à cruz — o Novo Testamento cita com mais frequência o amor de Deus, o Pai, conforme expresso na expiação (e.g., Jo 3:16; Rm 5:8; 8:39; Ef 2:4; 1 Jo 4:8–10).”
[39] Brian K. Blount, Revelation, The New Testament Library (Louisville, KY: Westminster John Knox, 2009), p. 36;
[40] Thomas e Macchia, p. 77.
[41] Thomas e Macchia, p. 77.
[42] Ranko Stefanovic, Revelation of Jesus Christ: Commentary on the Book of Revelation, 2ª e., (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2009), p. 453.
[43] Caird, p. 183.
[44] Ángel Manuel Rodríguez, Future Glory: The 8 Greatest End-Time Prophecies in the Bible (Hagerstown, MD: Review and Herald, 2002), p. 131.
[45] Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 435.
[46] De acordo com Apocalipse 1:18, ele tem as chaves da morte e do Hades, e é capaz de trazer a ressurreição para a vida eterna.
[47] Ver nota de rodapé 10 do presente estudo.
[48] E.g., Beale, Revelation, p. 298, que entende Jesus como “soberano inaugurador da nova criação”, mas não o vê como soberano “sobre a criação original”. Ele também menciona a visão de que Jesus é “o começo, não da criação original, mas da igreja recém-criada ou da nova era da igreja.” Fanning, p. 8, afirma que “Cristo nunca é apresentado neste livro como criador ou agente da criação,” mas isso não significa necessariamente que ele não seja seu governante (ibid., p. 185). Ver, também, M. R. Mulholland Jr., “Revelation,” em James, 1–2 Peter, Jude, Revelation, e. Grant R. Osborne e M. R. Mulholland Jr., Cornerstone Biblical Commentary 18 (Carol Stream, IL: Tyndale House, 2011), p. 452. Detendo-se no aspecto de “governante,” Robert M. Royalty Jr., The Streets of Heaven: The Ideology of Wealth in the Apocalypse (Macon, GA: Mercer University Press, 1998), p. 165, sugere “a frase ‘o princípio da criação de Deus’ (ή ἄρχή τῆς κτίσεως [hē archḗ tēs ktíseōs]) evoca o tema político do proêmio, onde Cristo é chamado de governante (ἅρχων [árchōn]) dos reis da terra (Ap 1:5). Este jogo de palavras (paranomasia) sobre árchōn e archḗ em Apocalipse 1:5 e 3:14 fundamenta a autoridade política de Cristo sobre os reis da terra em sua autoridade cósmica como o início ou origem da criação (ver, também, Apocalipse 22:13).
[49] Cp. Richard Bauckham, The Theology of the Book of Revelation, New Testament Theology (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), p. 56. Ver, também, Aune, Apocalipse 1–5, p. 256; Sweet, p. 107; e Paige Patterson, “Revelation,” New American Commentary 39 (Nashville, TN: Broadman e Holman, 2012), p. 138.
[50] Osborne, p. 205. Leon Morris, Revelation: An Introduction and Commentary, Tyndale New Testament Commentaries 20 (Downers Grove, IL: InterVarsity, 1987), p. 84, opta por ambos: “Cristo tem a autoridade suprema sobre a criação e . . . ele é a origem do ser criado.”
[51] Para uma discussão sobre a conexão entre juízo e criação no contexto das três mensagens angélicas, ver Clinton Wahlen, “The Letter to Laodicea and the Eschatology of Revelation,” Journal of the Adventist Theological Society 29, nº 1–2 (2018), pp. 142–143.
[52] Kistemaker, p. 169;
[53] Thomas e Macchia, p. 538.
[54] O texto paralelo em Apocalipse 17:8 é claro: os nomes dos habitantes da terra “não estão escritos no Livro da Vida desde a fundação do mundo.” Mas a mensagem de Apocalipse 13:8 pode ter uma ênfase diferente. No texto grego, o antecedente direto é “o Cordeiro que foi morto.”
[55] O plano de Deus é salvar todas as pessoas, mas nem todas as pessoas permitem que Deus as salve. Portanto, elas podem ser apagadas do Livro da Vida (Ap 3:5; 22:19) ou seus nomes não são encontrados no Livro da Vida (Ap 20:15).
[56] Mounce, p. 252.
[57] Pneuma significa “respiração,” [“sopro,”] mas também “espírito” e pode se referir ao Espírito Santo. Esta frase foi traduzida como “sopro de vida” por uma variedade de traduções modernas para o português (e.g., NVI, NTLH, CNBB). No entanto, foi traduzido como “Espírito de vida” por versões em português mais antigas, como a ACF, ARA, ARC. “Espírito de vida” é também a escolha da tradução francesa de Louis Segond (1910) e da Nouvelle Édition de Genève (1979). Muitas, senão a maioria, das traduções alemãs usam “Espírito de vida” (e.g., Lutero [1545, 1912, 1984, 2017], Elberfelder Bibel revisada [1993], Münchner NT, Schlachter [2000] e Zürcher [2007/2008]). Enquanto alguns comentaristas optam por “sopro de vida” (e.g.), J. Ramsey Michaels, “Revelation,” The IVP New Testament Commentary Series [Downers Grove, IL: InterVarsity, 1997], 142), outros permitem a tradução “espírito de vida” ou até mesmo a escolhem (e.g., Keener, p. 296; e Jürgen Roloff, “Revelation,” A Continental Commentary [Minneapolis, MN: Fortress Press, 1993], p. 134). O pano de fundo do Antigo Testamento para Apocalipse 11:11 é Ezequiel 37, o vale dos ossos secos onde os ossos ganharam vida através do Espírito. Thomas e Macchia, p. 207, parecem estar corretos quando afirmam: “Significativamente, o Espírito que agora entra nos dois profetas é o mesmo Espírito que inspirou sua atividade profética.”
[58] Esses significados incluem “ser nascido,” “ser produzido,” “ser feito,” “ser criado,” “surgir,” “acontecer,” “tornar-se” e “ser”. Ver Moisés Silva, e., New International Dictionary of New Testament Theology and Exegesis, 2ª e. (Grand Rapids, MI: Zondervan, 2014), pp. 196–199.
[59] Gn 1:3 (2x), 5 (2x), 6 (2x), 8 (2x), 9, 11, 13 (2x), 14, 15, 19 (2x), 20, 23 (2x), 24, 30, 31 (2x); 2:4, 5, 7. Ver Jon Paulien, “Creation in the Johannine Writings,” em The Genesis Creation Account and Its Reverberations in the New Testament, e. Gerald A. Klingbeil (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, ainda não publicado).
[60] Miguel, p. 121.
[61] Ulrich B. Müller, Die Offenbarung des Johannes, Ökumenischer TaschenbuchKommentar zum Neuen Testament 19 (Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus Gerd Mohn, 1984), p. 281.
[62] Kenneth A. Mathews, “Genesis 1–11:26,” New American Commentary 1A (Nashville, TN: Broadman and Holman, 1996), p. 133.
[63] Para uma discussão mais detalhada sobre o abismo, ver Ekkehardt Mueller, “The Beast of Revelation 17—A Suggestion (Part 1),” Journal of Asia Adventist Seminary 10, no. 1 (2007): 40–50.
[64] Veja o Espírito Santo como aquele que também comunica as mensagens às sete igrejas e que ressuscita da morte as duas testemunhas.
[65] Elias Brasil de Souza, “Sanctuary: Cosmos, Covenant, and Creation,” Journal of the Adventist Theological Society 24, nº 1 (2013): 37.
[66] Roloff, p. 176. Ver, também, Patterson, p. 293.
[67] G. R. Beasley-Murray, “Revelation,” The New Century Bible Commentary (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1983), p. 226.
[68] Ver Ian Boxall, “The Revelation of Saint John,” Black’s New Testament Commentary (Peabody, MA: Hendrickson, 2009), pp. 209–210.
[69] Cp. Beale, Revelation, p. 760.
[70] Richard Lehmann, L’Apocalypse de Jean: Commentaire biblique (Collonges-sous-Salève: Faculté Adventiste de Théologie, 2018), p. 387, observa: “Pode-se argumentar que não são os anjos e o Cordeiro que estão diante dos condenados como observadores irônicos do sofrimento deles, mas os idólatras que estão diante dos anjos. Estão paralisados pela realidade cuja existência negaram. Após terem zombado daquele que usava uma coroa de espinhos, eles o encontraram coroado de glória. O tempo da graça passou. A oportunidade foi perdida. Não receber a graça é enfrentar a triste realidade do próprio fracasso” (trad. por Deepl.com).
[71] Ver Tonstad, Revelation, p. 210.
[72] Isto não significa negar que a morte de Jesus teve dimensões que a nossa não tem.
[73] No material hínico do Apocalipse, ver Justin Jeffcoat Schedler, A Heavenly Chorus: The Dramatic Function of Revelation’s Hymns, Wissenschaftliche Untersuchungen zum Neuen Testament, 2º ser., vol. 381 (Tübingen: Mohr Siebeck, 2014); e Steven J. Grabiner, “Revelation’s Hymns: Commentary on the Cosmic Conflict,” The Library of New Testament Studies 511 (London: T&T Clark, 2016).
[74] Osborne, pp. 46–48.
[75] White, O Grande Conflito, 450, destaca que “No desfecho desta controvérsia, toda a cristandade estará dividida em duas grandes classes — os que guardam os mandamentos de Deus e a fé de Jesus, e os que adoram a besta e sua imagem, e recebem o seu sinal.”
[76] A noção de ordem na criação é claramente comunicada no relato da criação em Gênesis. Gênesis 1:1–2:4 apresenta uma terra cuidadosamente ordenada. Para a simetria do relato da criação em Gênesis apresentado diagramaticamente, ver Laurene A. Turner, Genesis, Readings (Sheffield: Sheffield Academic Press, 2000), pp. 19–20. A ordem já estava estabelecida antes da criação dos seres humanos. A tarefa dos seres humanos não era colocar as coisas em ordem, mas exercer domínio sobre a criação ordenada como imagem de Deus (Gn 1:26–27). A ordem da criação pressupõe uma ética da criação. A fé no Criador que reconhece sua alteridade é um aspecto básico do que significa ser criado. Reconhece que a existência humana não é um dado adquirido, mas é um dom de Deus; ver Hans Schwartz, Creation (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2002), p. 177. Portanto, uma confiança existencial no Criador define fundamentalmente a direção de toda atividade humana; ver Christoph Schwöbel, “God, Creation and the Christian Community: The Dogmatic Basis of a Christian Ethic of Createdness,” em The Doctrine of Creation: Essays in Dogmatics, History and Philosophy, e. Colin E. Gunton (Edinburgh: Clark, 1997), pp. 150–153. Assim, a ordem é tida como certa no mundo dado por Deus e os seres humanos não são chamados a refazer a criação à sua própria imagem; ver Richard Bauckham, Bible and Ecology: Rediscovering the Community of Creation (London: Darton, Longman and Todd, 2010), p. 32.
[77] Êx 8:10; 15:11; Dt 3:24; Is 40:18, 25; 44:7; 46:5; Sl 35:10; 71:19; 86:8; 89:8; 113:5; Mq 7:18. Como Pierre Prigent, Commentary on the Apocalypse of St. John, trad. Wendy Pradels (Tübingen: Mohr Siebeck, 2001), p. 407, observa, nesses textos, “o ponto focal é um argumento polêmico contra falsos deuses e ídolos.”
[78] Osborne, pp. 497–498.
[79] Prigent, p. 407.
[80] Ekkehardt Mueller, “Reflections on Worship in Revelation 4 and 5,” Reflections 39 (2012): 1–6, sugere que a verdadeira adoração é teocêntrica, trinitária, objetiva, e não apenas subjetiva, universal e abrangente, contínua e interminável, mantém a tensão entre a imanência de Deus e a sua transcendência, exalta o caráter e a natureza de Deus, louva as obras de Deus e fornece uma nova perspectiva para a vida na terra. A conclusão do plano de salvação ocorre em um ambiente de adoração.
[81] Stefanovic, p. 451.
[82] Ibid.
[83] Aplicado aos atos criativos de Deus, poieō aparece em Gênesis 1:1, 7, 16, 21, 25, 26, 27 (3x), 31; 2:2 (2x), 3, 4 e 18. De acordo com Gênesis 3:21, Deus fez roupas para Adão e Eva.
[84] Ver Jon Paulien, “Revisiting the Sabbath in the Book of Revelation,” Journal of the Adventist Theological Society 9, nº 1–2 (1998): 179–186.
[85] Apocalipse 11:19 menciona a arca da aliança, que continha os Dez Mandamentos (Êx 25:21; Dt 10:1–2). A observância dos mandamentos ocorre em Apocalipse 12:17; 14:12, rejeição em Apocalipse 12:4, 15; e 13:15 (matar); 13:4, 8, 12, 14, 15; e 14:11 (idolatria); e 13:6 (blasfêmia).
[86] Turner, pp. 19–20, demonstra o movimento organizado do relato da criação em Gênesis, do caos (Gn 1:2) ao descanso (Gn 2:1–4a). Ele ressalta que o sétimo dia, “único em seu conteúdo e forma narrativa, constitui o ápice e a meta da criatividade de Deus” (ibid., p. 25).
[87] Sigve K. Tonstad, The Lost Meaning of the Seventh Day (Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2009), p. 119.
[88] Ibid., p. 459, caracteriza apropriadamente a essência da narrativa do conflito de Apocalipse 13-14 como um “confronto de sinais.”
[89] Anthony MacPherson, “The Mark of the Beast as a ‘Sign Commandment’ and ‘AntiSabbath’ in the Worship Crisis of Revelation 12–14,” Andrews University Seminary Studies 43 (2005): 267–283.
[90] Para uma discussão mais aprofundada sobre a teologia do sábado em Apocalipse, ver Larry L. Lichtenwalter, “The Seventh-Day Sabbath and Sabbath Theology in the Book of Revelation: Creation, Covenant, Sign,” Andrews University Seminary Studies 49 (2011), pp. 285–320.
[91] Ver George Eldon Ladd, A Commentary on the Revelation of John (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1991), p. 193.
[92] Ladd, p. 194.
[93] Michaels, p. 173.
[94] David E. Aune, “Revelation 6–16,” Word Biblical Commentary 52C (Nashville, TN: Thomas Nelson, 1998), p. 827,
[95] Kistemaker, p. 408.
[96] White, O Grande Conflito, pp. 436–437.
[97] Beale, Revelation, p. 754.
[98] Ibid.
[99] Ekkehardt Mueller, “Babylon Identified,” em The Word: Searching, Living, Teaching, e. Artur A. Stele (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2015), p. 169.
[100] Osborne, p. 538. Ver, também, Beale, Revelation, 755: “Tanto τοῦ θυμοῦ ([tou thymou] ‘de paixão’) quanto τῆς πορνείας ([tēs pornéias] ‘de fornicação’ ou ‘relação sexual’) devem ser tomados como genitivos de causa, propósito ou resultado: ‘o vinho que causa [ou “leva a” ou “resulta em”] paixão pela relação sexual com ela’ (cf. NVI: ‘fez todas as nações beber do vinho enlouquecedor dos seus adultérios’).”
[101] Beale, Revelation, p. 756, expande a interpretação econômica: “Esta interpretação econômica da paixão inebriante das nações pela Babilônia fica clara no capítulo 18, especialmente 18:3, onde ‘(eles tiveram) relações sexuais com ela’ é equivalente a ‘eles enriqueceram com o poder resultante do seu luxo.’ Além disso, 18:9 coloca em conjunção ‘eles tiveram relações sexuais’ e ‘eles viveram luxuosamente [sensualmente] com ela.’ Consonantemente, é interessante que στρῆνος [strēnos] e o verbo cognato, ocorrendo respectivamente em 18:3 e 18:9, possam ser traduzidos com o sentido de ‘luxo’ ou ‘sensualidade.’ É evidente que o amor da humanidade ímpia pela Babilônia reside na sua capacidade de proporcionar prosperidade econômica (18:11–19). As nações ‘choram e lamentam’ a queda de Babilônia porque ‘temem’ que isso signifique a sua própria morte iminente (18:9–10, 15, 19).”
[102] Jon Paulien, Armageddon at the Door (Hagerstown, MD: Review and Herald, 2008), p. 163.
[103] Selamento na Bíblia é significativo por diversas razões. Primeiro, a marcação ou selagem de um objeto, animal ou pessoa indicava propriedade. Por exemplo, a orelha de um servo era furada para indicar que seu senhor o possuía para sempre (Êx 21:6) e a circuncisão era a marca definitiva de que Israel pertencia a Yahweh (Gn 17:9–12). Segundo, na Bíblia, o selamento também é uma indicação de proteção. Qualquer objeto ou pessoa que tenha ficado sob a impressão do selo ou marca de uma pessoa também ficava sob a proteção dessa pessoa. Um caso clássico é o sangue do cordeiro pascal nas ombreiras das portas dos filhos de Israel na noite em que o anjo destruidor passou pela terra do Egito (Êx 12:7–13). Da mesma forma, na visão de juízo de Ezequiel, aqueles que suspiravam e gemiam por causa das abominações cometidas entre o povo de Deus deveriam ser marcados pelo escritor com o tinteiro como sinal de proteção contra o carrasco (Ez 9:4–5). Terceiro, o selamento marcava algo ou uma pessoa como genuína. Para uma pessoa, era uma prova de lealdade e comprometimento constantes e inabaláveis. Assim, os vencedores na igreja de Filadélfia têm o nome de Deus escrito neles, e eles se tornam colunas no templo de Deus, e dele não sairão mais (Ap 3:12).
[104] Stefanovic, p. 451.
[105] Ekkehardt Mueller, “Os 144.000 e A Grande Multidão,” https://estudosadventistas.com.br/os-144-000-e-a-grande-multidao/, acessado em 23/08/2026.
[106] Paulien, Armageddon at the Door, p. 163.
[107] Beatrice S. Neall, “Sealed Saints and the Tribulation,” em Holbrook, Symposium on Revelation: Livro 1, p. 258.
[108] Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 592.
[109] Stefanovic, p. 461.
[110] Tonstad, Lost Meaning, p. 477.
[111] Tonstad, Revelation, p. 204.
[112] Gerhard F. Hasel, “Divine Judgment,” em Dederen, p. 834.
[113] Jacques B. Doukhan, Secrets of Revelation: The Apocalypse Through Hebrew Eyes (Hagerstown, MD: Review & Herald Publishing Association, 2002), p. 123;
[114] Hans K. LaRondelle, How to Understand the End-Time Prophecies of the Bible: A Biblical-Contextual Approach (Sarasota, FL: First Impressions, 2007), p. 340.
[115] Rodríguez, p. 132.
[116] Stefanovic, p. 454.
[117] Jan Paulsen, “A Theology of Judgment” (manuscrito não publicado, PDF, Northern European Division, St. Albans, 1981), p. 12.
[118] Leithart, Revelation 1–11, p. 9.
[119] Hans K. LaRondelle, “The Remnant and the Three Angels’ Messages,” em Dederen, p. 877.
[120] Para uma análise aprofundada do tema da cidade do Apocalipse, ver Barbara R. Rossing, The Choice Between Two Cities: Whore, Bride, and Empire in Apocalypse (Harrisburg, PA: Trinity Press International, 1999); e Eva Maria Räpple, The Metaphor of the City in the Apocalypse of John, Studies in Biblical Literature 4 (New York: Peter Lang, 2004).
[121] Sobre a importância teológica da arrogância em Daniel, ver Ivan Milanov, “Lords and the Lord: The Motifs of Hubris in Daniel 1–6” (PhD diss., Newbold College, 2014).
[122] Gordon Campbell, “Antithetical Femine-Urban Imagery and a Tale of Two Women-Cities in the Book of Revelation,” Tyndale Bulletin 55 (2004), p. 87.
[123] Para a nova Jerusalém como cidade-templo, ver, por exemplo, Pilchan Lee, “The New Jerusalem in the Book of Revelation: A Study of Revelation 21–22 in the Light of Its Background in Jewish Tradition,” Wissenschaftliche Untersuchungen zum Neuen Testament, 2º ser., vol. 129 (Tübingen: Mohr Siebeck, 2001), pp. 281–285; e G. K. Beale, “The Temple and the Church’s Mission: A Biblical Theology of the Dwelling Place of God,” New Studies in Biblical Theology 17 (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2005), pp. 313–334.
[124] Para correspondências antitéticas entre a Babilônia e a nova Jerusalém, consulte Campbell, pp. 98–106.
[125] Isto foi reconhecido por Hans K. LaRondelle, “Babylon: Anti-Christian Empire,” em Holbrook, Symposium on Revelation: Livro 2, 157–163, mas infelizmente não tem sido dada muita atenção a este importante ponto pelos estudiosos.
[126] Is 1:22; Jr 3:1–3, 8–9; Ez 16:15–34; Os 2:2, 4.
[127] Brian J. Tabb, “All Things New: Revelation as Canonical Capstone,” New Studies in Biblical Theology 48 (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2019), p. 184.
[128] Ibid.
[129] A mudança para o presente (em Apocalipse 14:8 os verbos estão em aoristo e perfeito) enfatiza o caráter contínuo das ações: “adorar” (proskynei) da besta e “receber” (lambanei) sua marca identificadora.
[130] John A. Bollier, “Judgment in the Apocalypse,” Interpretation 7 (1953), p. 24.
[131] Roberto Badenas, “Wahre und Falsche Anbetung in der Drei-Engels-Botschaft,” em Studien zur Offenbarung: Die Bedeutung der drei Engelsbotschaften—Heute (Offenbarung 14, 6–12), 2 vols. (Bern: Euro-Afrika Division, 1988), 1:257–292, argumenta que o leitmotiv que liga as três mensagens é a questão da adoração: a primeira mensagem é um apelo à adoração verdadeira, a segunda mensagem é uma condenação da adoração falsa e a terceira mensagem é uma advertência contra a adoração falsa. Tanto contextual quanto textualmente, esta sugestão é convincente.
[132] Richard Bauckham, “Judgment in the Book of Revelation,” Ex Auditu 20 (2004): 20.
[133] Os dois termos ocorrem juntos também em Apocalipse 16:19 e 19:15.
[134] Aune, Revelation 6–16, p. 833.
[135] Beale, Revelation, p. 759.
[136] No Antigo Testamento, alguns inimigos do povo de Deus tiveram que beber o cálice da ira. A imagem do juízo é beber até a extinção: “. . . beberão sem parar; irão beber, engolir, e serão como se nunca tivessem existido” (Ob 1:16). “Bebam, fiquem bêbados e vomitem; caiam e não mais se levantem, por causa da espada que estou enviando para o meio de vocês” (Jr 25:27). Às vezes, até mesmo o Israel que quebrou a aliança teve que beber o vinho da ira de Deus (Sl 60:3; 75:8; Is 51:17, 22; Jr 25:15–16, 27; 49:12; Ez 23:31–34). Os tormentos de Jesus no Getsêmani são retratados, neste contexto, como a aceitação do cálice da ira divina das mãos de Deus (Mt 20:22; 26:39, 42).
[137] Para um resumo das discussões recentes sobre a linguagem violenta do Apocalipse, ver Paul Middleton, The Violence of the Lamb: Martyrs as Agents of Divine Judgment in the Book of Revelation, The Library of New Testament Studies 586 (London: T&T Clark, 2018), pp. 1–13.
[138] Visto que o significado da expressão eis tous aiōnas tōn aiōnōn pode ser derivado daquilo com o qual está associada, “o que se segue é uma possível explicação do uso da expressão composta aqui [Apocalipse 14:11]. O assunto é o tormento dos adoradores da besta num inferno de fogo e enxofre. A idade de um homem em tal ambiente seria muito breve, de modo que se a expressão eis ton aiōna, “até a idade”, tivesse sido usada, seria possível concluir que a punição seria apenas momentânea. A expressão composta mostra que o tormento duraria um certo período, não interminável, é claro, como fica evidente em outras escrituras que mostram que o destino dos ímpios será a aniquilação (ver Mt 10:28; Ap 20:14);” Francis D. Nichols, e., The Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 7 [Washington, DC: Review and Herald], p. 832.
[139] Lichtenwalter, “Seventh-Day Sabbath,” p. 305.
[140] Bauckham, “Judgment,” p. 3.
[141] Koester, p. 517.
[142] Bauckham, Theology, p. 52.
[143] N. T. Wright, Paul and the Faithfulness of God, Christian Origins and the Question of God (London: SPCK, 2013), p. 482.
[144] Para evidência de uma aliança na criação, ver, e.g., Thomas R. Schreiner, Covenant and God’s Purpose for the World (Wheaton, IL: Crossway, 2017), pp. 19–29.
[145] Hans K. LaRondelle, Our Creator Redeemer: An Introduction to Biblical Covenant Theology (Berrien Springs, MD: Andrews University Press, 2005), p. 17.
[146] Para a estrutura quiástica da narrativa do dilúvio centrada na lembrança de Noé por parte de Deus (Gn 8:1a), ver Turner, p. 55.
[147] Bauckham, Theology, p. 52.
[148] Bauckham, Theology, p. 53.
[149] Wright, p. 481.
[150] White, O Grande Conflito, p. 678.
[151] Wright, p. 483.
[152] Millard Erickson, Christian Theology (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1998), p. 393.




