Transmissão e Preservação do Texto Bíblico


Ekkehardt Mueller é diretor associado do Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral. Antes de se juntar ao instituto, o Pastor Mueller atuou como Pastor e Ministerial por mais de duas décadas. Atualmente, ele está muitíssimo envolvido em escrever artigos e lecionar classes ao redor do mundo. Ekkehardt adora jardinagem e pintura. Boa música é também um elemento importante no lar de  Ekkehardt, sendo sua esposa Geri uma professora de música. Quando seus filhos, Eike e Eno, estão em casa, o “quarteto” está completo.


Tradução: Hugo Martins

Revisão: Pastor Wilson Paroschi (Professor de Teologia no UNASP-EC)

O artigo “Transmissão e Preservação do Texto Bíblico” (Original em Inglês: “Transmission and Preservation of the Biblical Text”), por Ekkehardt Mueller, fora publicado, inicialmente, pelo Adventist Biblical Research Institute.  Usado com permissão.


Algumas pessoas ficam atônitas por causa da diferença de tradução de vários textos bíblicos, assim como por alguns acréscimos ou exclusões de partes de versos nas Escrituras. Para avaliarmos essas contestações, precisamos compreender como os textos bíblicos foram preservados e transmitidos. Este breve apanhado geral pretende prover alguns conceitos básicos com os quais responder tais inquietações. Em vista das limitações de espaço, o presente estudo focará na questão a partir da perspectiva do Novo Testamento.

Primeiramente, devemos ter em mente que os documentos do NT foram escritos em um curto período de poucas décadas em vez de mais de mil anos, como foi o caso do Antigo Testamento. Não temos, também, os autógrafos [manuscritos originais], somente cópias que foram preservadas em papiros e pergaminhos (peles de animais). Os livros do NT tinham de ser copiados não somente porque o material usado para a escrita estava se deteriorando, mas, também, porque o cristianismo crescia e as igrejas precisavam dos livros do NT.

Categorias de Manuscritos

Quase seis mil manuscritos do NT estão disponíveis atualmente. Ademais, há, também, traduções em línguas antigas—tais como siríaco, latim. copta, armênio e etiópico—e referências às Escrituras nos pais da igreja.1 O número de manuscritos gregos cresce à medida que novos documentos são descobertos. Os manuscritos do NT vieram até nós em quatro categorias:2

Papiros. Eles estão em escrita uncial (letras maiúsculas). Somente por volta de cem papiros foram preservados e encontrados. A maioria deles são provenientes do Egito onde o clima seco é apropriado para uma preservação mais longeva. “Esses manuscritos são antigos (do segundo ao oitavo século E.C.). E a maioria deles foi descoberta nos últimos cem anos. Apenas nove papiros foram descobertos antes do ano 1900.”3

Unciais. Esses são manuscritos escritos em pergaminhos, usando apenas letras maiúsculas. Eles datam do terceiro ao décimo séculos da E.C. Cerca de trezentos unciais foram encontrados até agora. Somente um tem o texto completo do Novo Testamento.

Minúsculos. Esses manuscritos usam grego minúsculo em uma escrita cursiva. Há cerca de 2850 deles. Datam do nono século E.C. em diante até que as cópias impressas substituíram as cópias manuais dos manuscritos.

Lecionários. Esses são manuscritos organizados para refletir o ano litúrgico e provê passagens para leitura diária. Eles podem ser unciais ou minúsculos. São o grupo de menor importância entre os quatro, embora existam cerca de 2400 deles.

Famílias Textuais

Estudiosos têm agrupado a maior parte dos manuscritos em três principais tipos ou famílias textuais. Não é uma decisão imutável, mas as similaridades entre os manuscritos permitem sua classificação. Embora no passado diversas famílias textuais foram sugeridas,4 os manuscritos hoje são classificados como: Texto Majoritário, Texto Alexandrino e Texto Ocidental.

Texto Majoritário. O Texto Majoritário é, também, chamado de Texto Bizantino. Lecionários, assim como uma grande parte dos minúsculos, pertencem a este tipo textual. O tão falado Textus Receptus derivou-se desta família de manuscritos, mas o Textus Receptus não é idêntico ao Texto Majoritário. É importante destacar isso porque, frequentemente, os dois são tratados como idênticos. Cerca de 80% dos manuscritos do NT pertencem ao Texto Majoritário. Os membros mais antigos desta família remetem-se ao quarto século E.C., mas a maioria dos manuscritos são datados de mil anos depois dos manuscritos originais. Eles são caracterizados pela “volubilidade, conflação (combinação de duas leituras variantes para formar uma nova leitura não exatamente idêntica a nenhuma das duas leituras originais), harmonização do texto (tornar passagens paralelas concordantes) e suas leituras liturgicamente motivadas.”5 Este tipo textual dominou o cristianismo oriental e foi o texto da Igreja Ortodoxa que manteve a língua grega, enquanto a Igreja Romana escolheu o latim. A Igreja Ortodoxa adotou, também, a LXX para o AT, incluindo alguns apócrifos que não se encontram no texto hebraico do Antigo Testamento.

Enquanto alguns cristãos apreciam o Texto Majoritário, outros os consideram inferior aos outros tipos textuais. A razão é porque esta família consiste em muitos documentos tardios e somente alguns poucos são entrados entre os manuscritos mais antigos. Este tipo textual não é encontrado nos papiros anteriores ao quarto século, nem nos Pais Ante-Nicenos e seu estilo é inferior a outros manuscritos. K. Aland, cujo texto do NT é eclético e não baseado no Texto Majoritário, busca, ainda, um ponto de equilíbrio. Este tipo textual não pode, simplesmente, ser ignorado, mas deve ser considerado como os outros tipos o são. Escreveu ele: “De fato, o ‘Texto Majoritário’ . . . pode ter, ainda, uma múltipla importância para a história do texto.”6 Por outro lado, não se deve presumir que os manuscritos do Texto Majoritário não diferem uns do outros. “Evidentemente, nenhuma história adequada já foi traçada do Texto Bizantino—um texto que de modo algum é um corpo monolítico em vista dos seus manuscritos terem o mesmo grau de variação característicos de todos os manuscritos gregos do NT.” Em outras palavras, os manuscritos desta família textual têm alguns pontos em comum, embora sejam distintos uns dos outros.

Texto Ocidental. Este tipo é o menos claramente definido. Origina-se por volta do ano 200 E.C. É “refletido nos escritores cristãos primitivos na Palestina e na Ásia Menor. . . O tipo textual ocidental tende a ser um texto completo e é especialmente importante quando concorda com um dos dois outros tipos textuais.”7 É, por exemplo, representado no Códice Beza, conhecido, também, como D.8

Texto Alexandrino. Este tipo textual é, tipicamente, encontrado nos mais antigos manuscritos, já no segundo século. É, também, chamado de Texto Egípcio ou Texto Neutro.9 Aland diz que “sua leitura tende a ser mais difícil (portanto, o que melhor explica a existência de variantes em outros tipos textuais) e mais curta. A maioria dos críticos textuais acredita que este tipo textual, conforme representado nos unciais (aqueles, posteriormente, chamados de Vaticano e Sinaítico) e nos papiros mais antigos, é o melhor texto existente na atualidade.10 Códice Alexandrino é parte bizantino e parte alexandrino.11

A questão levantada foi: por que temos tantas cópias do Texto Bizantino. Por causa da grande quantidade de manuscritos, as pessoas podem ser tentadas a preferir quantidade em lugar da qualidade. Aqui estão possíveis respostas: (1) o cristianismo com mais ou menos uma língua em comum—grego. Os pais da igreja ainda escreviam em grego. Entretanto, autores patrísticos tardios mudaram para o latim. Jerônimo já tinha completado sua tradução para o Latim em 405 E.C. que se tornou a Vulgata.12 Mas havia versões ou manuscritos anteriores também. À medida que o latim se tornava a língua do ocidente, os manuscritos gregos se tornavam menos importantes. Todavia, a Igreja Oriental continuou com o grego e, consequentemente, produziu centenas de documentos. (2) Aland sugere que, durante a perseguição de Diocleciano, os cristãos foram forçados a queimar todos os livros sagrados. Isto levou a uma falta de manuscritos bíblicos. Não obstante, logo após Diocleciano, a era de Constantino começou com uma mudança marcante para o cristianismo que se tornou a religião oficial do estado. Passou, então, a existir, repentinamente, uma demanda imensa por manuscritos do NT. Bispos fundaram scriptoria [recintos dedicados a escrever cópias]. “A escola exegética de Antioquia, onde os estudantes de teologia de Orígenes e os arianos mantinham um centro bem organizado, proveu bispos para muitas dioceses pelo Oriente . . . Cada um desses bispos levava consigo, para a sua diocese, o texto com o qual ele estava familiarizado, o de Luciano (i.e., o Texto Koiné), que, por sua vez, se tornou, rápida e amplamente, disseminado ainda no quarto século.”13 O Texto Koiné é o Texto Bizantino tardio. (3) O crescimento do Islã no Norte da África dificultou a propagação do cristianismo e conseguiu, até mesmo, tornar o Cristianismo quase extinto nesses territórios. Bauder sugere que “os muçulmanos queimavam, frequentemente, manuscritos cristãos quando conseguiam encontrá-los.” Isso pode explicar a predominância dos manuscritos do tipo textual bizantino.14

Problemas Textuais

Leituras variantes foram introduzidas nos manuscritos. Para alguns cristãos sinceros, isto pode parecer muito frustrante, visto que, à primeira vista, poderia lançar dúvidas na confiabilidade do texto bíblico. Entretanto, este não é caso, como demonstro a seguir.

Embora tenhamos um grande número de variantes, a Bíblia é melhor atestada do que qualquer outro livro da antiguidade. Na imensa maioria dos casos, leituras variantes são inconsequentes. Por exemplo, algumas vezes encontramos a partícula “e”, enquanto em outros casos ela é omitida (Ap 4:10); o apóstolo fala sobre “nós” e “vós”, e em alguns manuscritos ele inclui a si próprio com os crentes, enquanto em outros ele não se inclui (1 Jo 1:4) A maioria das variantes surgiu enquanto os manuscritos eram copiados. Essas variantes não mudam a teologia da Bíblia.

Em alguns poucos casos, modificações teológicas sutis foram introduzidas, mas esses manuscritos são tidos como esdrúxulos. Por qual motivo então? No fim do primeiro e durante o segundo séculos, o bem conhecido herege Marcião criou seu próprio cânone bíblico baseando-se na ideia de que o Deus de amor do Novo Testamento não tem nada a ver com o suposto Deus criador terrível do Antigo Testamento. Ele extraiu, então, de alguns livros do NT de referências ao AT e eliminou outros de seu cânone. Por que sabemos que ele estava errado? Por causa do testemunho contundente dos manuscritos do NT. Nenhuma doutrina bíblica é modificada por causa das variantes nos manuscritos. A propósito, doutrinas bíblicas não são, normalmente, baseadas em apenas um único texto bíblico, mas estão, frequentemente, distribuídas através da Bíblia.15 Ainda que um texto fosse mal copiado, o erro seria retificado por outros. Aland sumariza bem:

Quando identificando o tipo textual de um manuscrito, é demasiado fácil ignorar o fato de que o Texto Imperial Bizantino e o Texto Egípcio Alexandrino, para usar dois exemplos que estão, teórica e diametralmente, opostos, exibem, realmente, um grau extraordinário de concordância, talvez, algo em torno de 80%. Os próprios críticos textuais, e ainda mais especialistas do Novo Testamento, para não mencionar leigos, tendem a ficar fascinados pelas diferenças e se esquecem o quanto muitas delas são devido ao acaso ou às tendências escribas normais, e quão raramente variantes significativas ocorrem—cedendo à tentação de falhar em ver a floresta por causa das árvores.16

Ao lidarmos com a questão de qual variante é a melhor e reflete, mais fielmente, o texto original, não devemos ficar desalentados. A Palavra de Deus é confiável. D. A. Carson escreve: “Nada do que acreditamos ser doutrinalmente verdadeiro, e nada do que nos é incumbido de fazer, está, de algum modo, comprometido pelas variantes. Isto é válido para qualquer tradição textual. A interpretação de passagens individuais pode muito bem ser questionada; mas nunca uma doutrina é afetada.”17 Quais são as causas para as variantes nos manuscritos que podemos identificar? Há alterações não intencionais e raramente há alterações intencionais.18

As alterações não intencionais são causadas pelos seguintes erros escribais: (1) Scriptio continua: não há nenhum espaço entre as palavras nos manuscritos unciais, o que gera confusão e, no pior dos cenários, uma leitura diferente da intencionada pelo autor. (2) Confusão de letras: algumas letras parecem bastante similares. Se elas não estiverem escritas bem distintamente, ou se algo aconteceu ao manuscrito, o escriba pode confundi-las. (3) Ditografia e haplografia: por engano, o copista repete uma letra ou sílaba a mais, ou inadvertidamente omite a letra ou uma sequência de letras. (4) Fadiga: o escriba confunde casos ou outras coisas especialmente quando copiando o texto continuamente. (5) Homoioteleuton e homoioarcton: quando as palavras ou as frases começam com grupos similares de letras, é fácil para um olho se mover diretamente de um grupo ao outro e omitir material. (6) Itacismo: este é o perigo de homônimos serem mal interpretados, especialmente quando a cópia é feita mediante ditado. (7) Problema de pontuação: escrita continua não contém pontuação. Uma vírgula ou um ponto final no lugar errado pode fazer uma grande diferença (ver Lc 23:43). (8) Alteração de uma única letra: em Lucas 2:14, alguns manuscritos têm um sigma adicional no termo eudokia. Isto altera a tradução de “Paz na terra, boa vontade para com os homens” (ACF) para “Paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” (ARA).

As alterações intencionais são ainda mais desafiadoras. Entretanto, não devemos ter, de imediato, o pior dos cenários em mente. Algumas vezes, o escriba esta lidando com um texto que não parece fazer muito sentido; em certos casos, a linguagem original é tão difícil que as pessoas tentam aprimorá-la para torná-la compreensível. Aqui estão as alterações intencionais: (1) Suplemento explanatório: o escriba não está satisfeito com a leitura “os discípulos”, ele escreve, então, “Seus discípulos.” Em vez de “Ele disse,” o escriba acrescenta “o Senhor.” Algumas vezes, a devoção é expressada por meio desses acréscimos. “Jesus” torna-se “Jesus Cristo” e, finalmente, “Senhor Jesus Cristo.” (2) Mais estilisticamente polido: a linguagem e a gramática é aprimorada. (3) Harmonizações: o copista pode encontrar diferenças entre textos paralelos e tentar amenizá-las. (4) Uso de sinônimos: o escriba substitui palavras e/ou altera a ordem das palavras. Em contraste com os judeus, os gregos tinham como santo o conteúdo e não a letra—o que lhes permitia, então, a fazer alterações no texto. (5) Tenacidade de uma leitura: uma vez que uma leitura ocorre, esta persistirá não importa o que aconteça. (6) Leituras misturadas ou associadas: um escriba familiar com duas leituras diferentes as combinará. (7) Principais problemas no texto do NT: eles podem ser causados por motivações teológicas ou pastorais. Todavia, “os principais problemas na transmissão do texto do Novo Testamento pode, sempre, ser identificados com segurança.”19 Deve-se a outros manuscritos não afetados.

Podemos assumir que Deus guarda a Sua Palavra,20 de outro modo o Seu plano da salvação seria arruinado e os humanos não seriam salvos. Não ajuda ter as Escrituras dadas sob inspiração e permiti-las, então, ser desfiguradas e destruídas pela atividade humana. Mas esta proteção não significa que Deus não permitiria variantes nos manuscritos. A Bíblia tem um lado tanto divino quanto um lado humano. Não obstante, Deus nos ajuda a compreender a Sua Palavra e Ele não nos deixa sozinhos onde é crucial. Entretanto, não deveríamos esperar que Deus conferisse proteção especial sobre um manuscrito ou sobre uma família de manuscritos. Como E. Glenny diz: “É melhor dizer que Ele tem preservado Sua Palavra nos e por meio dos milhares de manuscritos sobreviventes e que aqueles que procuram a verdade devem comparar esses manuscritos para determinar a leitura correta quando os manuscritos diferirem.21

Aqui está o que Ellen G. White diz sobre este assunto:

Alguns nos olham seriamente e dizem: “Não acha que deve ter havido algum erro nos copistas ou da parte dos tradutores?” Tudo isso é provável, e a mente que for tão estreita que hesite e tropece nessa possibilidade ou probabilidade, estaria igualmente pronta a tropeçar nos mistérios da Palavra Inspirada, porque sua mente fraca não pode ver através dos desígnios de Deus. Sim, com a mesma facilidade tropeçariam em fatos simples que a mente comum aceita e em que discerne o Divino, e para quem as declarações de Deus são simples e belas, cheias de essência e riqueza. Mesmo todos os erros não causarão dificuldade a uma alma, nem farão tropeçar os pés de alguém que não fabrique dificuldades da mais simples verdade revelada.

Deus confiou o preparo de Sua Palavra divinamente inspirada ao homem finito. Esta Palavra, arranjada em livros — o Antigo e o Novo Testamentos — é o guia para os habitantes de um mundo caído, a eles legado para que, mediante o estudar as direções e obedecer-lhes, alma alguma perdesse o caminho do Céu. . . .

A Bíblia não nos é dada em elevada linguagem sobre-humana. A fim de chegar aos homens onde eles se encontram, Jesus revestiu-Se da humanidade. A Bíblia precisa ser dada na linguagem dos homens. Tudo quanto é humano é imperfeito. Significações diversas são expressas pela mesma palavra; não há uma palavra para cada ideia distinta. A Bíblia foi dada para fins práticos.

A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira de pensar e exprimir-se de Deus. Esta é da humanidade. . . . A mente divina, bem como Sua vontade, é combinada com a mente e a vontade humanas; assim as declarações do homem são a Palavra de Deus.22

Edições do Novo Testamento Grego

As divergências atuais giram em torno dos principais textos gregos e o que um aceita e os outros rejeitam. A questão se torna ainda mais complicada quando não se permite qualquer posição intermediária e os proponentes tornam-se excessivamente dogmáticos a respeito da confiabilidade absoluta de uma certa família textual. O perigo é, também, transformar possibilidades em certezas e julgar aqueles que tomam posições diferenciadas. W. Pickering tem, intensamente, lidado com esta questão e favorece, claramente, o Textus Receptus.23 Ele escreve: “Se as Escrituras não têm sido preservadas, a doutrina da inspiração é, então, um tópico puramente acadêmico sem nenhuma relevância para nós hoje. Se não temos as palavras inspiradas ou não sabemos, precisamente, quais sejam elas, a doutrina da inspiração é, então, inaplicável.”24 Isto não é completamente isento de problemas porque sua interpretação estrita da inspiração parece levá-lo a uma interpretação específica da preservação de Deus das Escrituras, que, por sua vez, o leva a um grupo específico de documentos. “Eu acredito na inspiração plenária verbal dos autógrafos. Eu acredito que Deus tem, providencialmente, preservado a terminologia original do texto até o nosso dia e que nos é possível conhecer, precisamente, qual ela é (embora, devido a nossa negligência e a nossa indolência, não a conheçamos agora).”25 Ademais, ele se posiciona “contra todas as tentativas de alteração do texto tradicional.”26 Examinaremos três textos: o Texto Eclético, o Texto Majoritário e o Textus Receptus.

Texto Eclético. Este texto grego não se baseia em um manuscrito e nem em uma família de textos. Em vez disso, faz uso de todos os tipos textuais. É o texto grego comumente usado pelos estudiosos do NT, quer seja na 28ª edição de Nestle-Aland, o Novum Testamentum Graece, quer seja na 4ª edição do Novo Testamento Grego das Sociedades Bíblicas Unidas.27 Os textos são iguais, mas o aparato difere em ambas as edições. Decisões sobre qual leitura escolher estão baseadas em evidências internas e externas. Este texto favorece, de certo modo, os manuscritos mais antigos. Difere-se do texto Westcott e Hort à medida em que não se restringe ao tipo textual Alexandrino, mas permite outros tipos textuais dar contribuições. Por exemplo, a NASB e a NVI baseiam-se no Texto Eclético.

Texto Majoritário. The Greek New Testament According to the Majority Text [O Novo Testamento Grego de acordo com O Texto Majoritário], editado por Zane C. Hodge e Arthur L. Farstad, foi publicado em 1982.28 Presume que uma leitura é genuína se estiver exaustivamente atestada pelos manuscritos. “Entretanto, o Tipo Textual Majoritário nem sempre é unânime. De fato, há cinco vertentes distintas dos manuscritos neste tipo textual e os manuscritos deste tipo textual diferem, frequentemente, em leituras individuais.”29 O Texto Majoritário difere do Texto Eclético em mais de 6500 pontos. Mas difere, também, do Textus Receptus em cerca de 1800 pontos. “Nenhuma tradução baseia-se no Texto Majoritário.”30

Aland parece sugerir que, com os manuscritos tardios do NT, a influência da igreja como um agente estruturador aumentou e que antes do quarto século havia mais liberdade. Por conseguinte, tem-se de esperar mais uniformidade do quarto século em diante:

Revisões importantes dos manuscritos gregos devem, certamente, ter ocorrido até o fim do terceiro ou o início do quarto século. Em nenhuma dessas circunstâncias a motivação primária da revisão era filológica. A revisão fora provocada, em vez disso, por interesses teológicos eclesiásticos. . . . O texto do período primitivo do terceiro/quarto século, em vigência, era, então, um texto ainda não organizados em tipos porque, até o início do quarto século, as igrejas ainda careciam de organização institucional para produzir um.31

Textus Receptus. Em 1633, este título fora dado ao texto publicado, originalmente, por Erasmo de Rotterdam, um sacerdote e humanista católico. Este texto foi editado diversas vezes por ele, assim como por outros. A primeira edição baseou-se em apenas sete manuscritos e foi, às pressas, redigido. Os manuscritos eram tardios, oriundos do décimo primeiro ao décimo quinto séculos. Nenhum deles continha o Novo Testamento completo. Para Apocalipse, ele tinha um único manuscrito que ele editou. Ocasionalmente, ele introduzia termos do latim no texto grego. Sob pressão, ele incluiu, também, o Comma Johanneum ([Interpolação Joanina], o acréscimo em 1 Jo 5:7–8) no texto grego que, de acordo com a sua e a nossa convicção não pertencia àquela porção textual.

Como já mencionado, o Textus Receptus difere, em muitos pontos, do Texto Majoritário e baseia-se somente em alguns poucos manuscritos em vez de centenas e milhares. Produziu leituras gregas que não estavam presentes antes de 1516. O Textus Receptus foi, também, editado por Estéfano, Beza e pelos Elzevires. Mas o desenvolvimento no Textus Receptus de Erasmo a Estéfano a Beza e aos Elzevires torna inadmissível a pretensão de inspiração ou preservação perfeita para o Textus Receptus. A história do Textus Receptus não deixa a menor dúvida de que o seu texto foi modificado diversas vezes. Este é o principal problema para aqueles que afirmam que ele representa, exatamente, os originais.32

Ademais, a King James Version não se baseou apenas no Textus Receptus, mas, também, em outros manuscritos e passou por revisões, pois a KJV atual difere, substancialmente, da edição de 1611. Portanto, a alegação de que a KJV é uma tradução inspirada e, não obstante, ter erros que deveriam ser alterados é embaraçosa para os aderentes da KJV. A próxima questão deveria ser: “Se ela teve alterações, qual edição é a edição inspirada?”33 Glenny afirma, até mesmo, que o Textus Receptus moderno é, também, um tipo de texto eclético. É, significativamente, diferente das edições originais.34

Como Os Estudiosos Bíblicos Lidam com As Diferentes Leituras? Nosso estudo tem, até agora, demonstrado como algumas dessas questões estão relacionadas aos manuscritos do NT. Aqui, a tão falada crítica textual atua para ajudar na solução dos problemas. Crítica textual é distinta do que Ellen G. White rejeita e chama de “alta crítica.”35 Glenny define crítica textual desse modo:

Crítica textual . . . é o estudo das cópias e das traduções de qualquer composição escrita da qual o autógrafo (o original) é desconhecido com o propósito de determinar tão próximo quanto possível o texto original.36

Traduções Modernas

Em seguida, surge a questão de quais traduções devem ser escolhidas. Qual é a melhor tradução? Não é fácil responder a esta questão. Depende das circunstâncias e dos propósitos.

Neste respeito, temos de pensar de forma mais abrangente. Muitas pessoas não têm uma opção. Elas podem ter de viver com a única tradução disponível em sua língua nativa. Pode não haver, até mesmo, qualquer tradução em sua língua. Podemos assumir que, mesmo no século vinte e um, muitas pessoas ficariam felizes de ter ao menos uma Bíblia [traduzida]. A questão, então, sobre qual versão escolher engloba apenas pessoas de nações industrializadas, tendo, à sua disposição, uma variedade de Bíblias [traduzidas]. Levando isso em consideração, esse contexto mais abrangente pode nos ajudar a ver um pouco mais claramente a natureza dessas questões. Contar a alguém que tem uma única Bíblia que a sua Bíblia pode não ser boa o suficiente ou, ainda pior, que tem de ser rejeitada—como alguns membros da igreja preocupados podem dizer—seria cruel e privar-lhe-ia, possivelmente, da sua única esperança. Enquanto reconhecemos que alguns tradutores são melhores do que outros, sob certas circunstâncias, deveríamos ficar felizes em ter qualquer Bíblia. Isto coloca a questão inicial em destaque, ensinando-nos a não ser dogmáticos acerca desta questão.

Para aqueles vivendo em nações prósperas com diversas opções de traduções da Bíblia, as questões podem ser sobre qual versão usar e como esses versículos diferem. Abordaremos, primeiramente, a questão de como as versões diferem entre si.

Primeiro, elas diferem em relação ao texto grego do Novo Testamento em que se basearam. Há duas opções principais. Pode-se usar o Textus Receptus e desconsiderar, ou rejeitar, todos os outros manuscritos ou se pode escolher um texto grego que seja eclético e se baseia em mais de um tipo textual. No segundo caso, há mais opções para traduções entre as quais escolher. Optar pelo Textus Receptus por supostamente ter um texto puro é questionável. Como demonstrado anteriormente, o Textus Receptus baseia-se em um número limitado de manuscritos e ignora milhares de manuscritos que o compilador desse texto—Erasmo de Roterdã—não tinha a sua disposição, mas que temos hoje. Confia, também, apenas em manuscritos tardios. Ademais, o texto não é mais puro em razão de que variantes são, também, encontradas no Textus Receptus. De fato, Textus Receptus passou por diversas revisões que não deveriam ter acontecido, se fosse realmente puro e o único texto inspirado.37 Não é errado ter uma preferência pelo Textus Receptus. O que está errado é desprezar e acusar aqueles que usam uma tradução diferente da KJV ou NKJV.

Segundo, as traduções diferem entre si em relação ao seu critério de tradução subjacente. Tradução é, sempre, uma tarefa difícil. E porque um processo de tradução nunca poder ser perfeito, estudantes de teologia têm de estudar grego e hebraico. Enquanto os bons tradutores têm a “meta de produzir a versão mais acurada do texto original,”38 a tarefa é significativa. Há a questão de como traduzir poemas e idiomatismos e como lidar com termos que são mais amplos ou mais estreitos na língua fonte ou na língua a ser traduzida. Exatidão significa fidelidade à terminologia e à gramática ou ao conteúdo? Algumas vezes, é “uma coisa ou outra,” e não um “ambas.” Além disso, “aprecupação deve ser mais com uma tradução palavra por palavra . . .? Ou demonstrar maior sensibilidade à língua a ser traduzida, convertendo o significado do texto fonte em formas . . . que o receptor ou o leitor melhor compreenderá de imediato?”39

As Bíblias são algumas vezes distinguidas em versões de equivalência formal, paráfrases e versões de equivalência funcional ou dinâmica. Excluiremos, da continuação da discussão, as paráfrases porque, frequentemente, não são traduções reais, mas são uma reformulação de uma tradução mais antiga na língua moderna sem remeter-se ao grego, ao hebraico e ao aramaico. Elas são interpretações que se distanciam do original e, portanto, bastante abertas, também, à interpretação do respectivo autor.

Versões de equivalência formal são bastante literais e tendem a preservar a ordem da palavra, da estrutura da sentença e da gramática da língua original. Ademais, o tradutor tenta traduzir um termo sempre com a mesma palavra no documento. Se palavras são adicionadas, elas são, normalmente, mostradas em itálico. Uma abordagem de equivalência formal é basicamente uma teoria de tradução palavra por palavra. Embora modernas teorias de tradução, normalmente, não busquem mais isso, a teoria de equivalência formal tem um lugar no cristianismo porque a interpretação é dependente de uma terminologia precisa. Entretanto, uma tradução palavra por palavra pode se tornar engessada e, certas vezes, até mesmo, ininteligível e tem, portanto, suas limitações.

A tradução de equivalência dinâmica tenta remediar esta situação ao revelar o significado intencionado pelo autor. A meta é permitir ao leitor ter uma melhor compreensão e uma leitura mais rápida. Tradutores adotando esta abordagem podem, por exemplo, traduzir substantivos como verbos. Eles podem prover uma definição em vez de uma palavra que não é compreendida (“propiciação”, “reconciliação”, “corpo”) e usar uma linguagem inclusiva. A possibilidade de influenciar a interpretação de uma passagem traduzida é, certamente, maior e o tradutor deve ter cuidado. Ambas as abordagens têm pontos fortes e fracos e podem, portanto, ser igualmente necessárias. RSV, NASB, ESV e NKJV pertencem às versões de equivalência formal. As versões de equivalência dinâmica são representadas pelas TEV, CEV e NLT. A NIV se situa entre ambas..

Qual versão, então, escolher? Para um estudo sério, uma tradução de equivalência formal deveria se usada. Normalmente, seria a NASB ou a ESV. Para uma leitura devocional, a NIV é uma boa escolha. Milliman sugere:

As pessoas às quais os cristãos esperam alcançar hoje—a pessoa sem igreja, o indivíduo pós-cristão, a criança, o desabrigado—precisam de uma Bíblia que esteja isenta de jargões teológicos difíceis, de orações subordinadas frequentes e vocabulário de nível acadêmico. Ademais, elas necessitam, também, de uma [Bíblia] que se adéque, precisamente, ao significado do [texto] original. . . . Paráfrases têm, também, o seu lugar na biblioteca cristã. Essas são ferramentas excelentes para introduzir às pessoas indagadoras no estudo da Bíblia. . . . Além disso, muitos crentes experientes têm sido confrontados pelas Escrituras de uma forma nova e revigorante com uma paráfrase, ou até mesmo com uma tradução de equivalência dinâmica. . . . Existe algo como uma Bíblia para “fins universais”? Provavelmente não. A NIV poderia prover o melhor equilíbrio entre o método da tradução de equivalência dinâmica e o literal. . . . Qualquer que seja a versão que se venha a escolher para ter, pegue sua Bíblia e leia! Leia, medite e a memorize. É uma lâmpada para os seus pés e luz para o seu caminho; é mais precioso do que o ouro e mais doce do que o mel. Somente nela, com clareza inconfundível, você O encontrará, Aquele que conhece a vida eterna.40

Conclusão

A Escritura é a Palavra de Deus vinda até nós em uma roupagem humana para que possamos entender o que Deus quer nos comunicar. Ao passo que não negamos os desafios e as dificuldades, não focaremos somente neles. Olhamos a um cenário mais abrangente. Ficamos admirados pela transmissão e pela comprovação maravilhosa da mensagem divina. Maravilhamo-nos quando vemos a harmonia e a unidade na Palavra de Deus. E seguimos a Jesus, nosso Senhor, que viveu pela Palavra de Deus e que nos desafiou a conhecer nossa Bíblia.


Notas:

1 Para maiores informações, ver Bruce Manning Metzger, The Text of the New Testament: Its Transmission, Corruption, and Restoration (Oxford: Oxford University Press, 1968), pp. 67–92.

2 Cp. Helmut Koester, Introduction to the New Testament, Volume 2: History and Literature of Early Christianity (Berlin: Walter de Gruyter, 1987), pp. 21–31.

3 W. Edward Glenny, “The New Testament Text and the Version Debate” em One Bible Only? Examining Claims for the King James Bible, ee. Roy E. Beacham e Kevin T. Bauder (Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2001), p. 76. Para a importância dos papiros, ver Eldon Jay Epp, “The Significance of the Papyri for Determining the Nature of the New Testament Text in the Second Century: A Dynamic View of Textual Transmission,” em Gospel Traditions in the Second Century: Origins, Recensions, Text, and Transmission, e. William L. Petersen (Notre Dame, MI: University of Notre Dame Press, 1989), pp. 71–103.

4 E.g., o Texto Cesareense; ver Richard N. Soulen, Handbook of Biblical Criticism, 3ª edição (Atlanta, GA: John Knox Press, 1981), p. 29; e Christopher Tuckett, Reading the New Testament: Methods of Interpretation (Philadelphia, PA: Fortress Press, 1987), pp. 24–25.

5 Glenny, 78.

6 Kurt Aland e Barbara Aland, The Text of the New Testament, 2ª edição (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1989), p. 146

7 Glenny, 78.

8 Soulen, 211.

9 Ibid., p. 4.

10 Glenny, 79.

11 Aland, p. 50, declara: “A mesma questão é levantada pelo Códice Alexandrino (A). Seu texto nos Evangelhos é muito pobre (diferindo muito pouco do Texto Majoritário). Mas, a partir de Atos, sua qualidade muda significativamente: Em Atos, é comparável a B e a N., enquanto em Apocalipse é superior a N. e, até mesmo, ao P47.”

12 Soulen, pp. 209–210.

13 Aland, p. 65. cp. Koester, p. 41.

14 Kevin T. Bauder, “Frequently Asked Questions in the Translation Controversy,” em One Bible Only? Examining Claims for the King James Bible, ee. Roy E. Beacham e Kevin T. Bauder (Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2001), p. 109.

15 Glenny, p. 125.

16 Aland, p. 28.

17 D. A. Carson, The King James Version Debate: A Plea for Realism (Grand Rapids, MI: Baker, 1979), p. 56.

18 Ver ibid., pp. 2–294.

19 Aland, p. 295.

20 Isto pode estar, indiretamente, indicado em textos como Ap 22:18–19.

21 Glenny, p. 109.

22 Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, 1:16, 20.

23 Wilbur N. Pickering, The Identity of the New Testament Text (Nashville, TN: Thomas Nelson Publishers, 1977)

24 Wilbur N. Pickering, “An Evaluation of the Contribution of John William Burgeon to New Testament Criticism,” Th. M. thesis, Dallas Theological Seminary, 1968, p. 88.

25 Pickering, The Identity of the New Testament Text, p. 143.

26 Ibid., p. 141.

27 United Bible Societies, Greek New Testament, 4ª edição (New York: American Bible Society, 1993) e Nestle-Aland, Novum Testamentum Graece, 28ª edição (Stuttgart: Deutsche Bibelge-sellschaft, 2012).

28 Zane C. Hodge and Arthur L. Farstad, The Greek New Testament according to the Majority Text (Nashville, TN: Nelson Publishers, 1982).

29 Glenny, p. 81.

30 Ibid.

31 Aland, pp. 50-51, 64.

32 Glenny, p. 86.

33 Ibid.

34 Ibid., p. 88.

35 Ellen G. White, Atos dos Apóstolos, pp. 474.

36 Glenny, p. 76.

37 Ver Robert W. Milliman, “Translation Theory and Twentieth-Century Versions,” em One Bible Only? Examining Claims for the King James Bible, ee. Roy E. Beacham e Kevin T. Bauder (Grand Rapids, MI: Kregel Publications, 2001), pp. 135–136.

38 Milliman, p. 137.

39 Ibid., p. 138.

40 Ibid., pp. 149-150.

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