Pornéia: Um Estudo sobre O Uso do termo Grego


Ekkehardt Mueller é diretor associado do Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral. Antes de se juntar ao instituto, o Pastor Mueller atuou como Pastor e Ministerial por mais de duas décadas. Atualmente, ele está muitíssimo envolvido em escrever artigos e lecionar classes ao redor do mundo. Ekkehardt adora jardinagem e pintura. Boa música é também um elemento importante no lar de  Ekkehardt, sendo sua esposa Geri uma professora de música. Quando seus filhos, Eike e Eno, estão em casa, o “quarteto” está completo.


Tradução: Hugo Martins

O artigo “Pornéia: Um Estudo sobre O Uso do termo Grego” (Original em Inglês: “Fornication”), por Ekkehardt Mueller, fora publicado, inicialmente, pelo Adventist Biblical Research Institute.  Usado com permissão.


Introdução

A questão da fornicação é repetidamente mencionada tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento. O problema é o que o termo realmente significa. Focar-nos-emos nos termos gregos conforme encontrados na Septuaginta (LXX) e no Novo Testamento. Cinco termos gregos formam a família de palavras que descrevem fornicação. Consiste em três substantivos e dois verbos. Em ordem alfabética, os termos são: ekpornéuō, pornéia, pornéuō, pórnē e pórnos. A definição léxica do substantivo pornéia é “prostituição, impureza, fornicação, todo tipo de relação sexual pecaminosa.”1 Os verbos ekpornéuō e pornéuō podem ser traduzidos como “prostituir-se” ou “praticar prostituição ou imoralidade sexual.” Uma pórnē é uma prostituta, uma meretriz. Um pórnos representa um prostituto ou um fornicador, aquele que pratica a imoralidade sexual. Neste artigo, “fornicação” é usado para se referir a esta família terminológica grega, especialmente para pornéia.

I. Fornicação no Grego Extrabíblico

No mundo grego não judeu, uma pórnē era uma prostituta contratada, frequentemente uma escrava comprada. Por outro lado, um pórnos era um homem que tinha relações com meretrizes ou que se permitia ser abusado por dinheiro, em outras palavras, um prostituto. O termo é traduzido também como “catamita” e “sodomita”. Pornéia não se encontra com frequência no grego clássico. Pode ser empregada como “fornicação”, “licenciosidade”, “prostituição” ou “impureza” e inclui homossexualidade. Os dois verbos mencionado anteriormente, e encontrados, também, no grego extrabíblico, significam praticar e prostituir-se. Ekpornéuō parece ser mais enfático do que pornéuō. Ademais, o grego clássico tem diversos termos compostos que se referem a um bordel, a um dono de bordel, nascido de uma prostituta, etc., sinônimos para pornéia e pórnē que usam a mesma raiz e outros termos correlatos que pertencem à mesma família de palavras.2

II. Fornicação na Septuaginta

1. Observações

A família do termo grego –pórn– encontra-se, aproximadamente, 147 vezes nos livros canônicos da LXX. É, predominantemente, usado de forma simbólica3 e significa afastar-se do Senhor e envolver-se em idolatria. Em Jeremias 3:1–10, tanto o reino do norte quanto o reino do sul são acusados de prostituir-se com muitas amantes em vez de ser fiéis ao Senhor.

Entretanto, os termos são, também, usados em um sentido literal. Eles se aplicam tanto para a prostituição secular quanto para a tão falada prostituição cultual. Tamar comportou-se como uma prostituta, e Judá a considerou como tal. Enquanto grávida, ela foi acusada de ter prostituído-se (Gn 38:13–24). Como uma viúva, ela teve relação sexual com um homem—neste caso com o seu sogro—e isso foi considerado fornicação.

Filhas não eram para ser feitas prostitutas por seus pais e foram advertidas contra fornicação (Lv 19:29; 21:9). Em Shittim, os israelitas tiveram relações sexuais com a mulheres de Moabe, o que é chamado de fornicação.

Um outro caso é apresentado em Deuteronômio 22:13–21. Um marido descobre que sua esposa não era virgem quando eles se casaram. Novamente, a família de palavras –pórn– é usada para descrever o que a mulher tem feito. Obviamente, este é um caso de sexo pré-marital descrito com o termo “fornicação”. A punição é morte por apedrejamento.

Deuteronômio 23:17 adverte aos filhos e filhas de Israel a não se envolverem como prostitutas. Em vez do termo hebraico normalmente usado para traduzir prostituir-se (zānāh), o termos hebraicos qedēšāh e qādēš prostituta e prostituto são empregados. Alguns entendem esses termos como designando os prostitutos cultuais e afirmam que a prostituição cultual era uma prática comum no Antigo Oriente Médio.4 Outros questionam seriamente esta interpretação.5 O termo zônāh descrevendo uma prostituta encontra-se no próximo verso e pode ser usado como um tipo de sinônimo.

Em Oséias 2:2–7, a experiência de Oséias com a sua esposa torna-se uma ilustração da experiência de Deus com Seu povo. Em Oséias 2:2, prostituição e adultério encontram-se em paralelismo.6 Por envolver-se com prostituição, uma mulher casada também adultério. Em Ezequiel, embora seja usado com um significado simbólico, prostituição é adultério. Jerusalém prostitui-se e cometeu adultério contra Deus, seu esposo.7 Israel e Judá são descritas como duas esposas de Deus, chamadas de Oolá e Oolibá, que têm multiplicado sua prostituição e, por conseguinte, têm cometido adultério.8 Em Isaías 57:3, os termos adultera e prostituta têm significado próximo. Eles podem ser usados intercambiavelmente, se o gênero for ajustado, apenas para evitar duplicação de um termo.

2. Sumário

A seguinte descrição aparece no Antigo Testamento:

  1. A família de palavras –pórn– descreve prostituição, prostituir-se.
  2. É predominantemente usada em um sentido figurado, mas tem, também, seu significado literal. Tanto o significado simbólico quanto o significado literal são correlatos e, até mesmo, usado em justaposição.
  3. A família de palavras é usada para sexo pré-marital.
  4. Prostituição ou fornicação pode ser adultério.
  5. Quando Tamar é acusada de fornicação, é, na realidade, uma forma de incesto que é proibida, posteriormente, pela lei em Levítico 18.

III. Fornicação no Novo Testamento

No Novo Testamento, a família de palavras –pórn– aparece 56 vezes. O termo predominante é o substantivo pornéia (fornicação) que ocorre 25 vezes.9 A família de palavras encontra-se com mais frequência nos escritos paulinos incluindo Hebreus, 24 vezes, seguida pelos escritos joaninos, 20 vezes.10 O Livro de Apocalipse é a obra que emprega esta família de palavras com mais frequência, 19 vezes, seguida, imediatamente, por 1 Coríntios que tem 14 referências.11

Com muita frequência, a família de palavras tem um significado simbólico, mas no Novo Testamento esta não é a compreensão predominante. Ademais, o significado simbólico é restrito ao Livro de Apocalipse. Mesmo o Apocalipse usa os termos respectivos literalmente também.

1. Significado Simbólico

Apocalipse 2:18–29 remete-se à igreja em Tiatira. Nesta igreja, a mulher Jezabel ensina e pratica a fornicação (Ap 2:20–21). Jezabel é uma personagem simbólica. Como a esposa do rei Acabe, ela já tinha morrido a vários séculos atrás. Entretanto, o passagem maior parece conter uma definição do termo fornicação. Os seguidores de Jezabel têm se prostituído e cometido adultério com ela (Ap 2:20–22). Mesmo os outros, que não se portavam assim, não são descritos como aqueles que não se prostituíram, mas como aqueles que “não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás” (Ap 2:24). Portanto, fornicação não é uma fornicação literal neste caso, mas tem a ver com a aceitação deliberada de ensinamentos falsos e um afastamento do Senhor que, no fim, é aproximar-se de Satanás. Fornicação espiritual é infidelidade a Deus que em contextos simbólicos é, frequentemente, considerado o esposo de Seu povo.12 Por outro lado, é muito interessante destacar que aqueles a quem Jezabel encoraja a cometer adultério no verso 20, que são também chamados de servos de Deus, têm, ao menos, parcialmente, cometido adultério com ela (Ap 2:22). Portanto, fornicação inclui, claramente, adultério, mesmo quando usado em um contexto figurativo.

Na igreja precedente, encontra-se uma referência a Balaão. Ele ensinou Balaque a seduzir os israelitas para cometer fornicação (Ap 2:14). O respectivo relato do Antigo Testamento deve ser compreendido literalmente. Entretanto, aqueles que sustentam o ensino de Balaão na igreja de Pérgamo parecem abraçar a fornicação espiritual. Mesmo que a igreja em si não renuncia a fé em Jesus (Ap 2:13). A mesma frase “comerem coisas sacrificadas aos ídolos e praticarem a prostituição” (Ap 2:14) encontra-se em ordem reversa em Apocalipse 2:20 e parece apontar para a fornicação espiritual. Babilônia é a grande meretriz (Ap 17:1, 15–16; 19:2) e a mãe das meretrizes (Ap 17:5). Os reis da terra têm cometido fornicação com ela (Ap 17:2; 18: 3, 9). Ela oferece o vinho (da fúria) da fornicação (Ap 14:8; 17:2; 18:3). Seu copo está repleto de abominações e coisas impuras de sua fornicação (Ap 17:4). Ele corrompe a terra inteira com sua fornicação (Ap 19:2). Claramente, esta é uma fornicação simbólica.

2. Significado Literal

a. Referências a Eventos Históricos

O Novo Testamento contém diversas referências a eventos do Antigo Testamento os quais ocorre fornicação. Em Hebreus 12:16, Esaú é chamado de pórnos. Em Hebreus 11:31, Raabe, a prostituta, é chamada de pórne. Tiago 2:25 também se refere a Raabe como uma prostituta (pórne) que, todavia, fora justificada. O episódio de Balaão já tem sido mencionado anteriormente (Ap 2:14). Em 1 Co 10:8, o mesmo incidente é relatado. Homens israelitas cometeram fornicação com mulheres moabitas acrescentado de idolatria. Como resultado, milhares morreram (Nm 25:1, 9). Números 31:16 menciona o conselho de Balaão para derrotar Israel por meio de fornicação e idolatria. Fornicação, nesses casos, descreve atos sexuais não relacionados ao casamento. Eles podem ser extraconjugais, assim como casos pré-maritais.

Judas 1–7 fala sobre Sodoma, Gomorra e as cidades circunvizinhas. Elas se envolveram em fornicação e seguiram “após outra carne.” O último termo parece significar homossexualidade. O texto do Antigo Testamento de Gênesis 19:4–8 fornece o contexto para Judas 1–713 e implica, claramente, em atos homossexuais. Os habitantes de Sodoma queriam “conhecer” os homens que visitaram Ló, isto é, eles queriam ter relação sexual com eles,14 embora eles não estivessem a par do fato que aqueles homens eram anjos.15 Por causa de sua homossexualidade, seguiram, inconscientemente, “após outra carne” (ACF).16 Portanto, em Judas, a frase “seguindo após outra carne” aponta para a homossexualidade, sendo, aparentemente, também, equivalente ao termo “fornicação”. O próprio contexto do Antigo Testamento descreve o que Judas chama de entregar-se à fornicação e seguir outra carne. Há pouca dúvida de que a última frase descreve, mais claramente, a antiga.17 Se o termo kai, normalmente traduzido por “e”, é usado epexegeticamente, isto é, significando “ou seja”, fornicação é, então, equivalente a homossexualidade. Se não é usado epexegeticamente, fornicação, em Judas 1:7, seria um termo mais abrangente que, entretanto, neste contexto, parece incluir a homossexualidade.18

Nos tempos do Novo Testamento, alguns incidentes são registrados em que fornicação ocorreu. Em Mateus 21:31–32, Jesus fala favoravelmente sobre os coletores de impostos e prostitutas não por causa do que eles têm feito no passado, mas porque eles acreditaram em João e se arrependeram. Unir-se com uma prostituta (pórnē) é discutido em 1 Coríntios 6:15–16. Obviamente, membros da igreja em Corinto argumentavam que isto é permissível (1 Co 6:12) e podem tê-lo praticado. O filho pródigo é acusado por seu irmão de ter desperdiçado a propriedade de seu pai com meretrizes (Lc 15:30). Portanto, fornicação aponta para prostituição conforme se sabe desde os primórdios da humanidade até os dias de hoje.

Um caso específico de fornicação está relatado em 1 Coríntios 5 e os fornicadores são mencionados nos versos 9–11. Neste texto, a forma masculina do mesmo substantivo é usada (pórnos) que em 1 Coríntios 6:15–16 se refere às meretrizes (pórnē). Entretanto, o caso de 1 Coríntios 5:1 implica mais do que prostituição. Neste texto, um homem comete fornicação por se relacionar com a esposa do seu pai. Esta mulher não chamada de sua mãe. Ela pode ser a sua madrasta. O caso é muito grave. É uma imoralidade até mesmo para o ambiente gentio. Mesmo que a igreja pareça não se incomodar com isso. O ato de ter intimidade sexual com a sua madrasta é chamado de pornéia. Alguns versos depois, Paulo adverte contra fornicadores na igreja cristã e aconselha seus companheiros crentes a não se associar com eles. O caso de 1 Coríntios 5:1 é claramente tratado em Levítico 18:8. Levítico 18 discute relações sexuais proibidas. Primeiramente, é evidente que Paulo considerava Levítico 18, ou pelo menos partes dele, como ainda válido para os cristãos. Segundo, o termo pornéia significa, claramente, relações incestuosas e pode incluir todas as atividades sexuais não permitidas tratadas em Levítico 18, isto é, diferentes formas de incesto, relações sexuais com uma mulher durante seu período menstrual, relações sexuais com a esposa de um outro homem, homossexualidade e relações sexuais com animais.19

A questão da fornicação fora discutida e decidida no Concílio de Jerusalém (At 15:20, 29; 21:25). Aos cristãos gentios foi ordenado abster-se de fornicação. Obviamente, o Concílio de Jerusalém não discutiu a validade do Decálogo. O termo que eles trataram fora pornéia, enquanto os Dez Mandamentos usa o verbo moichéuō. Parece quase certa que os delegados deste concílio, e especialmente Tiago, tinham Levítico 18 em mente.20 Paulo, então, no caso do homem de Corinto seguiu as decisões do Concílio de Jerusalém. Pornéia se referia a uma gama abrangente de desvios sexuais, incluindo prostituição como encontra-se em 1 Coríntios 6.

Em João 8, um diálogo entre Jesus e o judeus ocorreu focando na questão se no caso ou não Abraão é mais do que o pai físico deles. Em João 8:41, os judeus dizem a Jesus: “Nós não somos bastardos [lit.: não fomos gerados da fornicação]” e pode implicar “mas você são”. Se este é o caso, aquelas pessoas parecem, então, estigmatizar Jesus por implicar que Ele era um filho ilegítimo. Consequentemente, o termo pornéia parecia incluir sexo pré-marital.

b. Lista de Imoralidades

O Novo Testamento fornece diversas listas de imoralidades Entre os elementos dessas listas, fornicação encontra-se com frequência. Entretanto, frequentemente, fornicação não é o único elemento que se refere a desvios sexuais.

Na longa lista de imoralidades em Mateus 15:19 e em Marcos 7:21–22, Jesus menciona adultério (moichéia) e (pornéia).21

Muito frequentemente, o Apóstolo Paulo usa enumerações similares. 1 Coríntios 6:9–10 cita “fornicadores”, “idólatras”, “adúlteros”, “efeminados”, “homossexuais”.22 Por duas vezes fornicação encontra-se próximo de impureza [(akarthasía); Ef 5:3, 5;23 Cl 3:524] e por duas vezes próximo a impureza e sensualidade [(asélgeia); 2 Co 12:21; Gl 5:1925]. Na lista de 1 Timóteo 1:9–10, novamente, fornicadores e arsenokóitais são mencionados. O último termo é traduzido como “sodomitas” pela NRSV e “homossexuais” pela NASB. Portanto, nessas listas de imoralidade, fornicação é distinta de adultério, impureza e homossexualidade e podem não incluir esses outros desvios sexuais. As duas listas em 1 Coríntios 5:9–11 usam apenas um termo sexual, a saber, pornéia. Certamente, o contexto de incesto é muito importante, mas, provavelmente, pornéia é usado aqui em um sentido mais abrangente que inclui todas a imoralidades sexuais, especialmente em vista da admoestação de Paulo já ter sido dada em uma carta anterior aos Coríntios antes que o caso de 1 Coríntios 5:1 chegasse ao conhecimento de Paulo.

O Livro de Apocalipse contém três listas de imoralidades em Apocalipse 9:21, 21:8 e 22:15 nas quais a família de palavras –pórn– ocorre. Provavelmente, os termos nessas listas, especialmente aqueles em Apocalipse 21 e 22 devem ser compreendido literalmente. Um único desvio sexual é dado nome dentre todos os outros pecados e este é fornicação.26 Pois, nesses casos, fornicação é um termo abrangente incluindo todos os outros males sexuais porque outros termos apontando para delito sexual estão ausentes.

c. Exortações

Em 1 Coríntios, Paulo devota quase três capítulos inteiros a questões sexuais. O fornicador de 1 Coríntios 5:1 foi discutido. Em 1 Coríntios 5:9–11, Paulo remete-se, primeiro, a uma carta anterior em que ele admoestou os membros da igreja a não se associarem com fornicadores. O significado do termo fornicador no verso 9 não está restrito a incesto. Na presente carta, ele especifica sua admoestação apelando aos crentes a dissociarem-se e afastarem completamente de um fornicador que é um membro da igreja e não comer com tal pessoa. Fornicação, neste caso, pode incluir incesto, mas abrange, certamente, mais do que isso. Embora fornicação jamais possa ser uma opção aos seguidores de Cristo, eles não podem evitar todo contato com fornicadores no mundo e obviamente não deveriam assim proceder porque esses devem ser ganhos para Cristo.

Em 1 Coríntios 6, Paulo continua sua discussão sobre questões sexuais.27 Os versos 13–18 contêm a família de palavras –pórn– cinco vezes. Em razão do corpo ser o templo do Espírito Santo, deve afastar-se de toda fornicação. Imoralidade sexual afeta diretamente o corpo. Em vista do corpo ser um membro de Cristo, nunca deve se tornar um com uma meretriz. Juntar-se a uma prostituta não é uma opção para aquele que tem se juntado ao Senhor. Enquanto Paulo em 1 Coríntios 5 adverte os cristãos a dissociarem-se dos fornicadores que são membros da igreja, em 1 Coríntios 6 ele ordena-lhes a não cometerem atos de fornicação. Portanto, fornicação é prostituição assim como um ato sexual extraconjugal ou pré-marital. Em 1 Coríntios 7:2, o apelo de Paulo para cada um ter sua própria esposa, isto é, estar casado para evitar a fornicação, pode definir fornicação como sexo pré-marital. Entretanto, o verso seguinte apontando em direção à obrigação marital mútua dos respectivos casais parece formar uma outra salvaguarda contra a fornicação. Portanto, para evitar a fornicação pode desejar casar-se e usar do dom da sexualidade no modo como dado por Deus dentro do casamento. Aparentemente, fornicação se refere tanto envolvimento pré-marital quanto extraconjugal.28 A demanda para evitar a fornicação é repetida em 1 Coríntios 10:8. Desde que nem todos dentre os milhares que foram mortos eram homens não casados, fornicação se refere, novamente, a relação pré-marital e extraconjugal.

Em 1 Tessalonicenses, Paulo declara que é a vontade de Deus absterem-se de fornicação. Este versos é parte de uma perícope que vai dos versos 3–6. A passagem inclui os próximos dois versos. É um parágrafo sobre a vontade de Deus, a saber, a santificação. Começa com a vontade de Deus e a santificação. Conclui com o conceito de vontade de Deus e o mesmo termo santificação que é encontrado uma terceira vez no meio da passagem.29

1 Tessalonicenses 4:3

Vontade de Deus: santificação → sem fornicação (pornéia)

1 Tessalonicenses 4:7–8

O chamado de Deus: santificação → sem impureza (akarthasía)

Isto parece indicar que, ao menos aqui, fornicação é idêntica a impureza. Dentro da perícope maior dos versos 3–6, fornicação é mencionado primeiro: devemos nos abster de fornicação. É falado, então, o que isso significa: ”possuir o próprio corpo [provavelmente sua própria esposa] em santificação e honra . . ., e que, nesta matéria, ninguém ofenda nem defraude a seu irmão . . .” Portanto, fornicação é ter relação com a esposa de um companheiro crente. Este é um caso claro de adultério, se o fornicador é casado. Por conseguinte, fornicação pode incluir adultério e, algumas vezes, ser chamada de impureza.

Em Hebreus 12:16, os crentes são aconselhados a não serem fornicadores como Esaú era. O contexto fala da santidade que os crentes devem demonstrar porque sem santificação ninguém verá o Senhor (Hb 12:14). Hebreus 13:4 é um chamado a fidelidade conjugal contido em uma passagem com diversas exortações: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula; porque Deus julgará os impuros e adúlteros.” Neste texto, fornicação é diferente de adultério a menos que kai seja usada epexegeticamente.30 Adultério pode se referir a uma pessoa casada que tem relação com uma outra pessoa diferente do cônjuge, enquanto fornicação pode se referir a uma pessoa não casada que se envolve em atividades sexuais com uma pessoa casada.

Em Mateus 5:32 e 19:9, Jesus adverte contra o divórcio. Ambos os versos falam sobre fornicação (pornéia) e cometer adultério (moichéuō e moicháomai). O argumento em Mateus 5:32 se foca na esposa e parece dizer o seguinte: se você se divorcia de sua esposa e ela não tem cometido fornicação, por indiretamente forçá-la a casar novamente, ela se torna uma adúltera porque o seu primeiro casamento ainda é válido. Uma leitura alternativa seria: por divorciar-se de sua esposa você a estigmatiza como uma adúltera. Por outro lado, o argumento em Mateus 19:9 se concentra no marido: um homem que se divorcia e casa novamente, enquanto sua esposa não se envolveu em fornicação, comete adultério. O que Jesus quis dizer com o termo fornicação? Dependendo de sua natureza precisa, o ato de fornicação pode ser adultério.31 Esta poderia ser a razão pela qual até mesmo a mais recente revisão da tradução de Martinho Lutero emprega o termo pornéia como “adultério.” Porém não parece sensato limitar a interpretação a adultério apenas. Obviamente, o termo pornéia foi escolhido deliberadamente para diferenciá-lo de moichéia. Em Mateus 5:32, Jesus cita Deuteronômio 24:1. Este texto não somente menciona uma certidão de divórcio, mas, também, a razão para o divórcio. O respectivo termo hebraico erwāh pode ser empregado como nudez, pudenda, vergonha, algo indecente ou, metaforicamente, a uma área indefesa. É um termo negativo com fortes conotações sexuais. Sua tradução predominante é nudez. O termo é encontrado mais frequentemente no contexto de imoralidades sexuais em Levítico 18 e 20 e em conexão com pornéia em Ezequiel e Oséias.32 A frase completa “coisa indecente” é encontrada apenas em Deuteronômio 23:14 e 24:1. No primeiro texto se refere a substâncias fecais, enquanto no capítulo 24 descreve, obviamente, algum tipo de delito sexual.33 Em Mateus 5:32, Jesus usa pornéia como a única razão legítima para o divórcio,34 rejeito, no mínimo, a interpretação de Deuteronômio 24:1 da Escola de Hillel que permitia a um marido divorciar-se de sua esposa por questões triviais tais como queimar um prato de comida.35 Em Mateus 19:9, Jesus usa cláusula de exceção similar—“exceto em caso de relações sexuais ilícitas”—como em Mateus 5:32. Em razão de em ambos os casos o contexto literário não especificar o que fornicação significa, a compreensão Antigo e o Novo Testamentos da família de palavras –pórn– deve ser considerada.36 Pornéia parece incluir diversos pecados sexuais conforme, anteriormente, indicado na seção Sumário do Antigo Testamento deste artigo e na seção Sumário do Novo Testamento a seguir, isto é, relações sexuais fora da relação marital.

3. Sumário

Em relação a família de palavras –pórn-, a seguinte descrição pode derivar-se do Novo Testamento:

  1. Fornicação descreve prostituição, praticar o meretrício.
  2. É predominantemente usada em um sentido literal, mas no livro de Apocalipse, tem, também, um sentido figurado. Ambos os sentidos são encontrados próximos um do outro nas cartas às sete igrejas.
  3. Fornicação pode significar relações sexuais pré-maritais.
  4. Em alguns casos, fornicação é adultério ou pode incluir adultério, em outro é distinto de adultério.
  5. Impureza e fornicação podem, em alguns casos, ser usados como sinônimos.
  6. Incesto é fornicação. Os pecados sexuais listados em Levítico 18, incluindo a homossexualidade, podem ser incluídos no termo fornicação.

Conclusão

Neste estudo, temos analisado a família de palavras –pórn– na literatura grega extrabíblica, no Antigo Testamento e no Novo Testamento. Em todas as fontes, pornéia e os termos relacionados se referem somente a atos sexuais. Tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos correspondem amplamente quando se trata de família de palavras. Embora o Antigo Testamento favoreça o sentido figurado e o Novo Testamento o significado literal, os diferentes aspectos de pornéia são encontrados em ambos os testamentos. Eles incluem prostituição, relações sexuais pré-maritais, adultério, incesto e homossexualidade; resumindo: relações sexuais fora do casamento. Portanto, o Antigo e o Novo Testamentos ampliam a compreensão de fornicação conforme encontra-se no mundo grego. Obviamente, nas Escrituras, fornicação é termo amplo descrevendo vários tipos de aberrações sexuais (relações sexuais), mas pode, também, se usado em um sentido mais estrito, referindo-se a atos sexuais ilícitos de pessoas casadas ou relação sexual de pessoas não casadas. Normalmente, um significado restrito pode ser determinado investigando o contexto.

Nas Escrituras, os termos descrevendo fornicação são usados de forma negativa. Fornicação, em todas as suas formas, deve ser evitada pelo povo de Deus (Ef 5:3; Co 3:5; 1 Ts 4:3). As Escrituras, em contraste com o mundo grego, nem tolera a pornéia nem faz exceções em qualquer ponto. Aqueles que têm se envolvido com fornicação são chamados ao arrependimento, receber o perdão por esses pecados e mudar o seu estilo de vida (Ap 9:21; 1 Co 6:9–11). Cristãos estão frequente e particularmente interessados nos dizeres de Jesus em relação a pornéia e o divórcio. Embora haja muitos males na sociedade, e infelizmente, também, em muitos casamentos, fornicação descreve somente pecados sexuais e não diz respeito a questões tais como violência e abando conjugal. Entretanto, as boas novas do Evangelho é que Deus deseja abençoar-nos com a cura e o perdão, que, por sua vez, somos chamados a estendê-los a outros.


Notas:

[1] William F. Arndt e F. Wilbur Gingrich, A Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Chicago: The University of Chicago press, 1957), p. 699; cp. Walter Bauer, Wörterbuch zum Neuen Testament, 6ª ed. por K. e B. Aland (Berlin: Walter de Gruyter, 1988), p. 1389.

[2] Cp. Friedrich Hauck and Siegfried Schulz, “πόρνη, πόρνος, πορνεία, πορνεύω, ἐ‎κπορνεύω” em Theological Dictionary of the New Testament, ed. by Gerhard Friedrich (Grand Rapids: Wqm. B. Eerdmans Publishing Company, 1968), 6:580-584; Henry George Liddell e Robert Scott, A Greek-English Lexicon, revisado e ampliado por H. S. Jones (Oxford: At the Clarendon Press, 1968), p. 1450.

[3] Ver, por exemplo, Lv 17:7; 20:5; Nm 15:39; Os 4:12–13.

[4] Cp. Francis D. Nichol e., The Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 1 (Washington, DC: Review and Herald Publishing Association, 1953), 1034-1035; P. C. Craigie, The Book of Deuteronomy, NICOT (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1976), p. 301; ver, também, traduções como a New American Standard Bible e a New Revised Standard Version.

[5] Cp. Karel van der Toorn, “Cultic Prostitution,” em The Anchor Bible Dictionary, vol. 5, e. D. N. Freedman (New York: Doubleday, 1992), 510-513; e Elaine Adler Goodfriend, “Prostitution,” ibid., 507-509.

[6] Ver, também, Os 3:1,3; 4:13–14; 6:10; 7:4.

[7] Ver o capítulo inteiro de Ez 16. A família de palavras –pórn– ocorre cerca de 17 vezes. Ademais, em Ez 16:32, a mulher que tem praticado a prostituição (vv 30–34) é chamada de adúltera.

[8] Em Ez 23, a família de palavras –pórn– é usada cerca de 15 vezes. Em Ez 23:37, 43, 45, a prostituição de Oolibá é adultério. No verso 43, ambas as expressões são usadas.

[9] O substantivo pórnē (prostituta) ocorre 12 vezes; o substantivo pórnos (prostituto, fornicador) 10 vezes; o verbo ekpornéuō (praticar a prostituição) 8 vezes; e o substantivo ekpornéuō (o que pratica a prostituição) uma vez.‎

[10] Além do mais, Atos usa 3 vezes, Tiago 1 vez e Judas, também, uma vez. Os evangelhos sinópticos têm 7 referências, sendo 5 em Mateus.

[11] Em Apocalipse, a maior concentração encontra-se no capítulo 17. Em 1 Coríntios, ocorre nos capítulo 5 e 6.

[12] Este conceito já se encontra no Antigo Testamento; e.g., em Ez 16.

[13] Eberhard Nestle, Erwin Nestle e outros ee., Novum Testamentum Graece, Editione Vicesima Septima Revisa (Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1993), p. 629, menciona, também, Gn 19. Esta interpretação é apoiada por diversos comentaristas. Cp., Richard J. Bauckham, Jude, 2 Peter, Word Biblical Commentary, vol 50 (Texas: Word Books, 1983), 54.

[14] O mesmo verbo “conhecer” é encontrado no verso 8 e se refere, claramente, à relação sexual. As filhas de Ló “que ainda não conheceram homens.” Cp., Victor R. Hamilton, The Book of Genesis Chapters 18-50, NICOT (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1995), pp. 33-34

[15] Mesmo Ló não sabia ao certo que aqueles homens eram anjos. Eles se apresentaram como mensageiros ou anjos em Gn 19:1, mas esta informação não estava disponível para Ló e os sodomitas. Posteriormente, no capítulo, eles são consistentemente chamados de “homens” (e.g., vv. 5, 8, 10). Como tais eles foram percebidos pelos habitantes de Sodoma. Somente do verso 11 em diante pode ter Ló começado a compreender que aqueles homens era seres supernaturais.

[16] A expressão “outra carne” [ACF] pode apontar para os anjos. Uma outra opção seria compreender como se referindo ao pecado de sodomia, isto é, ter relações com o mesmo sexo.

[17] Cp. Bauckham, p. 54; Walter Grundmann, Der Brief des Judas und der zwete Brief des Petrus, Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament (Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1979), p. 34.

[18] Judas é o único livro do Novo Testamento que usa o termo ekpornéuō. Embora este termo seja encontrado 42 vezes no Antigo Testamento e descreve a prática da prostituição, o Novo Testamento o emprega uma única vez. Por outro lado, o verbo pornéuō sem sufixo ocorre 17 vezes no Antigo Testamento e 8 vezes no Novo Testamento. Portanto, o verbo predominante no Antigo Testamento para descrever o ato de fornicação é ekpornéuō, enquanto o verbo predominante no Novo Testamento é pornéuō. Por ser significante que o termo ekpornéuō é encontrado apenas em Judas e pode ter um significado um pouco diferente ou mais compreensivo. Michael Green, 2 Peter and Jude, edição revisada, Tyndale New Testament Commentaries (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1987), p. 180, nota de rodapé 3, declara: “A rara composição ekpornéuō, ‘fornicar’, pode ser indicada pelo uso de ek, ‘contra o curso da natureza’.”

[19] Frequentemente, quando o Novo Testamento alude ou cita um texto do Antigo Testamento não se refere ao texto específico, mas, também, ao contexto inteiro. Quando, por exemplo, em Ap 12:5, o filho varão é mencionado, que há de governar todas as nações com uma vara de ferro, a referência não é apenas a Sl 2:9, mas aos Sl 2 inteiro. Este princípio, tão frequentemente encontrado no Novo Testamento, pode, também, ser aplicado a 1 Co 5:1 e a sua fonte do Antigo Testamento, Lv 18.

[20] Isto é apoiado, por exemplo, pelo aparato do Nestle-Aland’s Greek New Testament, assim como sua lista de citações e alusões do Antigo Testamento. Quando discutindo o Concílio de Jerusalém em At 15, Bruce se remete a Lv 18. F. F. Bruce, Commentary on the Book of Acts, NICNT (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1966), p. 315.

[21] Os dois termos estão no plural.

[22] Esses são os termos usados pela NASB. O texto grego fala sobre pórnoi, eidōlolátrai, moichói, malakói e arsenokóitai.

[23] Enquanto no verso 3 fornicação e impureza são encontrados, o verso 5 fala sobre o fornicador e o impuro.

[24] Outros termos nos respectivos versos podem, também, ter implicações sexuais.

[25] 2 Co 12:21 se foca apenas em pecados sexuais. Gl 5, por outro lado, contém uma lista mais abrangente que é continuada no verso 20.

[26] As listas mencionam fornicadores.

[27] Ademais, a lista de imoralidade na primeira parte do capítulo inclui, também, pecados sexuais.

[28] Esta observação não apoia a visão que homens cometem pecados sexuais apenas se ele tiverem relações sexuais com uma ou mais esposas de outros homens, se eles, por assim dizer, envolvem-se com mulheres casadas, mas estão livres para ter relações com mulheres não casadas enquanto essas concordarem, enquanto é pecado para essas mulheres ter tal relação.

[29] Aqui está uma forma abreviada de uma diagrama sintético de 1 Ts 4:3–7:

Τοῦτο γάρ ἐστιν θέλημα τοῦ θεοῦ, ὁ ἁγιασμὸς ὑμῶν,

  1. ἀπέχεσθαι ὑμᾶς ἀπὸ τῆς πορνείας, 
  2. εἰδέναι ἕκαστον ὑμῶν 

    a. τὸ ἑαυτοῦ σκεῦος κτᾶσθαι

    • ἐν ἁγιασμῷ καὶ τιμῇ,
    • μὴ ἐν πάθει ἐπιθυμίας . . .

b. τὸ μὴ ὑπερβαίνειν καὶ πλεονεκτεῖν ἐν τῷ πράγματι τὸν ἀδελφὸν αὐτοῦ, . . . οὐ γὰρ ἐκάλεσεν ἡμᾶς ὁ θεὸς

    • ἐπὶ ἀκαθαρσίᾳ
    • ἀλλ᾽ ἐν ἁγιασμῷ . . .

[30] F. F. Bruce, The Epistle to the Hebrews, NICNT (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1970), p. 392,escreve: “Fornicação e adultério não são sinônimos no Novo Testamento; adultério implica infidelidade de alguma das partes ao voto matrimonial, enquanto o termo traduzido ‘fornicação’ abrange um amplo espectro de irregularidades sexuais, incluindo uniões com dentro dos limites proibidos por lei.”

[31] Se, por exemplo, a esposa estivesse envolvida em incesto ou prostituição enquanto casada, se ela tivesse relações sexuais com um outro homem, isto é, também, adultério.

[32] O termo encontra-se 54 vezes no Antigo Testamento. É usado metaforicamente para uma área indefesa em Gn 42:9, 12. Dt 23:14 e 24:1 falam sobre uma coisa indecente. Vergonha parece ser o significado em Is 20:4, mas, em 1 Sm 20:30, vergonha e nudez encontram-se próximas um do outro. O termo é usado para Egito, Babilônia e Jerusalém. Cerca de 50 vezes, o termo é traduzido por nudez. Encontra-se 34 vezes em Levítico e 8 vezes em Ezequiel. O termo ocorre 24 vezes em Lv 18 e 8 vezes em Lv 20 que descreve, também, práticas sexuais ilícitas. Em Ezequiel é encontrado 4 vezes no capítulo 16 que se refere a Jerusalém como a noiva de Deus. Mas porque Jerusalém tem descoberto sua nudez em sua pornéia (Ez 16:36), que em seu caso é, também, adultério, Deus exporá a sua nudez (Ez 16:37). Em Ezequiel, Oolá e Oolibá, representando Israel e Judá, são descritas. Novamente, pornéia e nudez estão correlacionadas (Ez 23:10, 18, 29). O verso 18, então, lê: “Tendo ela posto a descoberto as suas devassidões (pornéian) e sua nudez . . .” Nudez é mencionada em Os 2:9. O contexto fala sobre fornicação (Os 2:2, 4–5). Descobrir sua nudez pode apontar para relação sexual (Lv 20:21).

[33] Não pode incluir adultério porque a penalidade para adultério era a morte por apedrejamento (Lv 20:10; Jo 8:5), não uma certidão de divórcio. Por outro lado, nem todo marido exporia sua esposa à punição extrema, mas preferiria, em vez disso, receber um divórcio. Ver José e Maria em Mt 1:19.

[34] Basicamente, há duas opções. (1) Jesus está em oposição a Moisés. Ele permite o divórcio apenas em caso de fornicação. Fornicação e “coisa indecente” de Dt 24:1 não estão descrevendo o mesmo delito severo. (2) Jesus concorda com Moisés. “Coisa indecente” é o mesmo ato que Jesus descreve com o termo pornéia. Jesus rejeita as distorções e as más interpretações rabínicas de Moisés.

[35] Cp. Mishnah, Gittin 9. 10.

[36] Samuele Bacchiocchi, The Marriage Covenant: A Biblical Study on Marriage, Divorce, and Remarriage (Berrien Springs, MI: Biblical Perspectives, 1991), pp. 179-189, e outros têm defendido limitar fornicação nas passagens de Mateus a incesto apenas. Andrew Cornes, Divorce and Remarriage: Biblical Principles and Pastoral Practice (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publishing Company, 1993), p. 202, e outros têm se oposto a essa sugestão.

  1. Argumenta-se que se Jesus permite o divórcio por pecados sexuais além do incesto, não deveria ser diferente da escola de Shammai que, em contraste com a escola de Hillel, não permitia o divórcio por motivos triviais tais como queimar um prato de comida, mas restringia a má conduta sexual e ele não faria justiça ao Seu clamor que a justiça de Seus discípulo deve ser maior do que a justiça dos escribas e dos fariseus. Este argumento é infundado. Mesmo a posição da conservadora Escola de Shammai era maior e mais aberta do que a de Jesus. Ver Herman L. Strack e Paul Billerbeck, Das Evangelium nach Matthäus erläutert aus Talmud und Midrasch,Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und Midrasch, Band 1 (München: C. H. Beck’sche Verlagsbuchhandlung, 1986), pp. 304, 315-320.
  2. Embora nem todas as ‘antíteses’ do Sermão da Montanha são antíteses no sentido mais estrito do termo, Jesus, obviamente, vai além de Dt 24:1 e sua interpretação em Seu tempo. Por conseguinte, Jesus fora considerado muito radical. Até mesmo os discípulos decidiram ficar com a posição dos Fariseus em Mt 19:10.
  3. Aparentemente, a cláusula de exceção não requer que o divórcio acontece, mas o permite acontecer. Se pornéia estivesse limitado a incesto, ficaria difícil entender o porquê Jesus, neste caso, não insistiu em um divórcio, especialmente desde que nesta conexão com o Antigo Testamento falava em ser eliminado do povo (Lv 18:29). Ademais, a questão a ser feita é se no caso ou não uma relação incestuosa pode ser considerada um casamento de todo modo e, portanto, podendo estar sujeito ao divórcio.
  4. O argumento que havia um perigo maior entre os judeus do entre os gentios de envolver-se m incesto e que, então, Mateus conteria a cláusula de exceção não parece ser convincente. Obviamente, os judeus no tempo de Jesus tentavam obedecer as leis de Deus. Incesto, em 1 Co 5, pode não estar relacionado aos cristãos judeus. De acordo com At 15, o mais novos conversos gentios tinham de ser instruídos a abster-se de fornicação conforme descrito em Lv 18 e isto incluía, certamente, incesto.

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