O Dinheiro do Templo Judaico

O Dinheiro do Templo Judaico


Stan Hudson, quando escreveu este artigo, era pastor da Igreja Adventista do Sétimo Dia de Whittier, na Califórnia. Ele tem sido um especialista numismático para o   Siegfried Horn Archeological Museum na Andrews University em Berrien Springs, Michigan.


Tradução: Hugo Martins

O artigo “O Dinheiro do Templo Judaico” (Original em inglês: “The Money of Jewish Temple”), por Stan Hudson, fora publicado, inicialmente, em setembro de 1984 na revista Ministry,® International Journal for Pastors, www.MinistryMagazine.org.  Usado com permissão.


Dinheiro e a igreja organizada— eles têm estado juntos há séculos. Ocasionalmente, alguns podem sentir que eles estão se tornando muito íntimos! Não obstante, tem sempre um custo para manter as portas da igreja abertas. Hoje, podemos usar dólares, euros ou ienes. Três mil anos atrás, quando o belo Templo de Salomão começava a operar, não havia um dólar sequer! Que tipo de dinheiro que os judeus usavam para manter o Templo funcionando?

De Salomão ao Cativeiro: o período do primeiro Templo

Deus inaugurou, para o antigo Israel, seu primeiro programa de gestão para um ministério eclesiástico. A fim de prover os fundos consideráveis e consistentes necessários para um tabernáculo ou templo, de Moisés em diante, cada homem de 20 anos ou mais, rico ou pobre, tinha que pagar meio shekel como “uma oferta ao Senhor” no tempo do censo (Êx 30:11-16). O shekel era, então, um peso—não uma moeda—equivalente de dez a doze gramas. Poderia ser feito de ouro ou prata nas formas de barras, braceletes e colares. Na verdade, kikkar, o termo hebraico para “talento”, no Antigo Testamento, significa, literalmente, “em forma de anel”. Pessoas vestiam seu dinheiro!

Quando Salomão construiu seu espetacular Templo por volta de 960 A.E.C., esta “taxa do Templo” se tornou especialmente importante para financiar tamanho empreendimento. O homem que quisesse pagar sua taxa de meio shekel deveria vir com seus anéis de prata ou barras ao pátio do Templo. Ali, o sacerdote ou levita pesaria meio shekel em uma balança de peso com um peso padrão inscrito no outro prato (tais pesos foram encontrados, embora não na Palestina). O adorador poderia receber seu “troco” e até mesmo um recipiente na forma de um pedaço de cerâmica ou um tablete de barro como um recibo e com “PAGO” devidamente registrado nele.

De Zorobabel até a primeira revolta: o Período do Segundo Templo

O primeiro templo (ou Templo de Salomão) fora destruído pelo babilônios em 586 A.E.C. Após os persas terem conquistado a Babilônia em 539 A.E.C., Dario I Histaspes (522–486) introduziu um sistema econômico de câmbio revolucionário pelo Império Persa, incluindo dentes empalidecidos. Este novo sistema de cunhagem foi copiado dos recém-conquistados lidianos da Ásia Menor que o tinham inventado. Os discos padronizados, ou moedas, foram produzidos em massa em prata e ouro, cada disco tendo a imagem de Dario estampado nele. Isso marcou o nascimento da cunhagem.

Quando o governador judeu Zorobabel começou a recolher ofertas para reconstruir o Templo, daricos persas (chamamo em razão de Dario) e os arrateis de prata (moedas persas adotadas dos lidianos) foram recebidas, de acordo com Esdras 2:69 (Ver imagem 1 para uma imagem de um duodarico). Essas são as únicas moedas mencionadas pelo nome no Antigo Testamento.

[Imagem 1: Duodarico Persa (Quarto Século A.E.C)]

No século seguinte (quinto século A.E.C.), Neemias fez um acordo com as pessoas para restabelecer a antiga taxa do Templo, com uma nova taxa de um terço por ano, em vez da antiga taxa de meio shekel. Essa oferta era “para o serviço do templo de nosso Deus” (Ne 10:32). A razão mais provável pela qual a taxa fora reduzida era que um terço de shekel equivalia exatamente a um siclo persa, a menor moeda disponível naquele tempo (não havia moedas de bronze ainda).

Os arqueólogos não têm certeza se as moedas persas eram usadas nos serviços do Templo de fato, uma vez que o Templo tivera sido reconstruído. Possivelmente, a imagem de um ser vivente (o rei persa) teria sido considerada uma violação do segundo mandamento. Na verdade, é possível que nenhuma moeda fosse usada do tempo de Zorobabel até o segundo século A.E.C. porque a arqueologia sugere um longo tempo antes que escalas e pesos fossem completamente substituídos. Os termos talento e mina, referindo-se a pesos em particular, não moedas, ainda eram usados no tempo de Cristo.

Em todo caso, por volta do fim do segundo século A.E.C., moedas eram, provável e plenamente aceitas nos serviços do Templo. Desse momento até o primeiro século E.C., os judeus não conseguiam cunhar suas próprias moedas de prata, por razões políticas—os governadores sírios e romanos não lhes permitiria. Então, eles escolheram as moedas de prata de uma cidade próxima, Tiro, que gozava de status político especial. Especificamente, as moedas escolhidas foram as didrácmas de Tiro (duas postas de dracma) e tetradracmas (quatro postas de dracma) que pesavam, aproximadamente, meio shekel e um shekel, respectivamente. Primeiramente cunhadas em 126 A.E.C., elas apareceram em larga escala e com qualidade suficiente para por um fim a real necessidade de escalas e pesos (se esses ainda fossem usados). Aquelas moedas foram datadas de acordo com o ano da dinastia de Tiro, 126 A.E.C. sendo o “ano um”.

É irônico que moedas de Tiro tivessem como desenho a Melcarte, o equivalente fenício de Baal, um velho inimigo de Israel. Isto certamente provocou um ressentimento de alguns judeus piedosos adorando no Templo. A parte de trás portava uma águia de estilo egípcio e a inscrição “Tiro, a santa e inviolável”. A data ficava a esquerda da águia (Imagens 2 e 3).

[Imagem 2: Siclo Persa (31 A.E.C), 25mm]

[Imagem 3: Acima, Meio Siclo de Tiro (11 A.E.C.), 14mm]

A motivação dos judeus, tão logo o reavivamento religioso dos macabeus, escolherem moedas contaminadas com paganismo para o serviço sagrado é baseada em dois fatores: (1) os saduceus helenistas liberais ganharam o controle administrativo do Templo, e (2) ninguém queria usar moedas romanas, tais como os tetradracmas de Alexandria ou Antioquia. Aparentemente, ninguém queria “a imagem de César” circulando pelo Templo. Mesmo Baal era preferível a César.

Em razão dos judeus virem de todo o mundo civilizado para adorar em Jerusalém, eles, obviamente, não portavam moedas de Tiro. Esse problema foi resolvido organizando mesas no pátio do Templo com balconistas chamados de “cambistas” (literalmente “mesários”) que fariam câmbio entre a moeda do templo e estrangeiras. No tempo de Cristo, essa “conveniência” se transformou, aparentemente, em uma extorsão fraudulenta, com lucros exorbitantes à custa de adoradores peregrinos. Foi esta prática, juntamente a venda de animais para sacrifício visando lucro, que enfureceu Jesus ao ponto de expulsar a todos do solo sagrado, acusando-lhes de tornar o Templo em um “covil de ladrões” (Mt 21:13).

No tempo de Cristo, a taxa do Templo anual foi reinstituída ao velho patamar de meio shekel por ano. Os coletores dessa taxa enganaram Pedro ao constranger Jesus quanto a seu pagamento, ainda que profetas fossem considerados isentos por emenda de Esdras 7:24. Jesus, não querendo causar problemas desnecessários, proveu a taxa para Si e para Pedro por meio do milagre da moeda na boca do peixe (Mt 17:24–27). Essa moeda teria sido um siclo de Tiro, ou tetradracma. Por trair Cristo, Judas recebeu 30 siclos de Tiro dos chefes dos sacerdotes, que retiraram, provavelmente, o dinheiro dos cofres do Templo. Sem dúvidas, eles consideraram os melhores interesses de seu ministério.

Ao contrário das moedas de prata, as moedas de bronze que eram usadas no Templo no primeiro século A.E.C eram judias. A viúva mencionada em Lucas 21:1–4 colocou na caixa de ofertas duas pequenas moedas macabeias, lepta (literalmente, “pequenas coisas”), traduzido como “óbolo” na King James Version (Imagem 4). Embora muito menor do que uma penny estadunidense, a oferta da viúva era generosa aos olhos de Deus.

[Imagem 4: Lepta de Bronze Macabeia (103–76 A.E.C.), 13mm. 1 denário = 128 lepta]

A primeira revolta judaica

Em 66 E.C., os judeus se revoltaram contra o jugo de Roma. Durante essa revolta, eles derreteram todos os siclos de Tiro no cofres dos Templos e refizeram tudo em novas moedas judaicas. Aquelas foram as primeiras moedas judaicas fabricadas em prata (Imagem 5).

[Imagem 5: Shekel da Primeira Revolta Judaica, “ano um” (66 E.C.), 23 mm]

Aquelas moedas portavam inscrições hebraicas datadas de acordo com o ano da revolta, “ano um” sendo 66 E.C., e assim por diante. Enquanto anteriormente os siclos do templo liam “Tiro A Santa” em grego, agora eles leem “Jerusalém A Santa,” um avanço intencional. Essas foram as últimas moedas usadas nos serviços do Templo, pois os soldados romanos queimaram o Templo em 70 E.C.

A segunda revolta judaica

Mas, curiosamente, a estória das moedas do Templo não termina aqui. Fora somente em 132 E.C., pouco mais de 60 anos após a destruição do templo, que os judeus começaram a cunhar shekels com a imagem do Templo. Primeiramente, isto aconteceu quando os judeus se revoltaram novamente contra Roma, desta vez sob a liderança de Simão bar Kochba.

Durante essa segunda revolta, os tetradracmas de Antioquia foram substituídos por um novo desenho da fachada do templo anteriormente destruído, completado com uma cerca protuberante na frente para manter afastado gentios ou romanos (Imagem 6). Dentro do Templo pode ser vista a Arca da Aliança, representada longitudinalmente. Parte do desenho romano original era sempre propositalmente deixada, naturalmente, para ser vista—um insulto tenebroso à Roma imperial.

[Imagem 6: Shekel da Segunda Revolta Judaica (134/135 E.C.), 36mm]

Historicamente, essa notável moeda deixou perplexo peritos em moedas porque continha a inscrição “Simão” (“Shim‘on”) nela. Primeiramente, a maioria dos peritos pensaram que se referia a Simão Macabeu, que, de acordo com 1 Macabeus 15:6, fora dada autoridade pelo governador sírio da Judeia para cunhar as suas próprias moedas. Isso foi em 140 A.E.C., muito tempo antes do Templo ter sido destruído pelos Romanos. Arqueologia, no entanto, veio para reconsiderar e provar conclusivamente, com a descoberta de mais moedas, que elas pertenciam ao tempo de Simão bar Kochba, não ao tempo de Simão Macabeu. Seria mais difícil cunhar moedas no segundo século A.E.C. do que cunhar moedas no segundo século E.C.!

Arqueologia tem fornecido evidência que mesmo após o Templo ter sido destruído, o “dinheiro do Tempo” ainda estava sendo usado.

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