O Dilema do Pecador em Romanos 7


T. Richard Rice é escritor e teólogo adventista. Ele é um proponente defensor do “teísmo aberto”, um termo que ele inventou e usou, em 1980, em seu livro “The Openness of God: The Relationship of Divine Foreknowledge and Human Free Will” [A Abertura de Deus: A Relação entre a Onisciência Divina e O Livre Arbítrio Humano]. O Livro foi publicado pela Review and Herald, mas gerou controvérsia interna e não foi reimpresso. Desde 2007, ele é Professor de Religião nas áreas de Teologia e Filosofia da Religião na Universidade de Loma Linda.


 

Tradução: Hugo Martins

O artigo “O Dilema do Pecador em Romanos” (Original em inglês: “The sinner’s plight in Romans 7”), por Richard Rice, fora publicado, inicialmente, em maio de 2008 na revista Ministry,® International Journal for Pastors, www.MinistryMagazine.org.  Usado com permissão.


 

Poucas passagens nos escritos de Paulo têm recebido mais atenção, ou gerado uma divergência tão grande de interpretações quanto Romanos 7:7–25.1 A passagem fala de uma luta difícil, um conflito que se encontra no interior da condição humana e contém algumas das exclamações mais lamentáveis dentre todas as cartas de Paulo. Qual é a natureza do conflito? Onde este conflito ocorre? Devemos interpretá-lo como autobiográfico ou teológico? E quando este conflito ocorre? É uma luta pré-conversão ou pós-conversão? A salvação a soluciona ou a causa? Estudiosos têm sugerido muitas interpretações para este conjunto de problemas. Vamos começar com o tema central da passagem, a saber, a preocupação de Paulo com a lei.

Contexto de Romanos 7:7–25

Em Romanos 1-8, Paulo apresenta o plano da salvação. Em 1:17-3:20, ele afirma que a condenação divina repousa sobre todos os seres humanos—sobre os gentios que pecam sem conhecer a lei e aos judeus que pecam apesar de conhecer a lei. Em 3:21-3,1 o apóstolo apresenta a sua tese central de que Deus oferece a salvação como um dom, muito aparte de obras humanas, em especial, das obras da lei. No capítulo 4, Paulo fornece apoio bíblico para esta tese, e, nos capítulos 5 a 8, ele responde algumas questões importantes que a sua tese levanta. Ele discute sobre vida e a morte no capítulo 5; sobre pecado e santidade em 6:1–7:6.

Isso prepara o cenário para a preocupação central de Paulo em Romanos 7:7-25. De tudo o que foi dito até agora, ele deixa claro que pecado e lei estão intimamente relacionados. Isso levanta sérias questões. Há algo pecaminoso na lei? São pecado e prática da lei equivalentes? Paulo levanta esta questão: “Que diremos, pois? É a lei pecado?” E esta conclusão ele rejeita imediatamente. “De modo nenhum!”2 Como esta exclamação indica, o propósito do que se segue esclarece a relação entre o pecado e a lei.3 Paulo quer evitar que alguém conclua a partir de suas observações em 7:1-6 que “a lei é pecado.”4

A relação entre o pecado e a lei

Entre a natureza essencial da lei e a sua real função na vida humana, existe uma clara disjunção. Sendo a expressão formal da vontade de Deus, a lei é santa, justa e boa (v. 12); promete, em si, a vida (v. 10). Como funciona vida humana prática, no entanto, a lei leva à morte (v. 10), e a razão para esta discrepância não é o pecado.5 Como a expressão da vontade de Deus, as funções da lei são proibir e condenar o pecado, e quando a lei entra no domínio dos assuntos humanos, onde o pecado reina, o pecado toma estas funções da lei e lhas usa para proteger e completar a sua dominação de seres humanos. Usando o mandamento divino para obter vitória sobre os seres humanos, o pecado torna a lei, que é, em si, santa e boa, em um instrumento de morte.6 O pecado é muito mais do que a falha moral de um indivíduo; é um poder ativo e escravizador.7

Em Romanos 7 Paulo entrelaça os temas lei, pecado e morte, interpretação de cada um em relação aos outros dois. Embora inerentemente boa, a lei resulta em morte em virtude de sua apropriação pelo pecado (v. 10). Isto não significa que a lei traz morte; o pecado traz morte por meio da lei. Desde que o pecado e a morte derivam, cada um, o seu poder sobre a humanidade do outro, a sua relação é de “cumplicidade recíproca.” A morte tem a sua influência sobre a humanidade por causa do pecado; por outro lado, o pecado reina pela morte, que é o seu fim normal.8

A morte, como o pecado, depende de lei para a sua existência. A lei se conecta com a morte em virtude de sua introdução no reino de sarx, a palavra grega para “carne”, que sofre de uma série de más interpretações nas traduções em português.9 Essencialmente, sarx é a esfera natural da atividade humana, a esfera onde os humanos entendem a si próprios em termos de visível e demonstrável. O problema é que o pecado agora domina a esfera da atividade humana normal, e, como resultado, torna-se o domínio da morte. Assim, a lei que deveria leva à vida, torna-se o agente ou o instrumento de morte.

Que conflito? A resposta psicológica

Tudo isso prepara o cenário para a parte mais controversa da passagem, a descrição de uma pessoa que descobre um horrível abismo entre a intenção e a realização. Este conflito é completamente desconcertante: “Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir” (v. 15) e muito angustiante: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (v. 24). Mas onde ocorre este conflito? Que está sendo descrito, e por quem, ou a partir de que ponto de vista? As principais respostas a esta questão caem em duas principais categorias: a autobiográfica psicológica e a soteriológica histórica.10

Aqueles que aceitam a primeira abordagem consideram Romanos 7:7–25 como “uma análise psicológica direta da experiência da salvação do pecado.”11 Mais especificamente, eles interpretam a passagem como uma descrição da própria luta interior de Paulo, fundamentada em uma introspecção dolorosa.12 Eles levam em consideração o uso por Paulo do pronome na primeira pessoa do singular, e eles acreditam que lamento de horror—“Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (v. 24)—poderia ser proferido unicamente por alguém que tivera experienciado tamanha luta.13

Aqueles que concordam que Paulo descreve a sua própria experiência nesses versículos discordam, no entanto, se esta luta aconteceu antes ou depois da conversão do apóstolo, e as respostas divergentes para esta questão têm uma longa história. Os pais gregos, geralmente, interpretaram como a experiência da pessoa não regenerada, enquanto os pais latinos e os reformadores interpretaram como a experiência do regenerado.14 Intérpretes mais recentes tendem a localizar a luta aqui descrita na experiência pré-conversão de Paulo. Para C. H. Dodd, esta passagem descreve o estado interior de Paulo quando ele partiu para Damasco, relatando “o início marcante de sua carreira cristã.”15

De acordo com a interpretação autobiográfica psicológica, os versos 7–13 descrevem estágios na consciência crescente de Paulo do pecado, e os versos 9–11 iluminam este despertar com uma interpretação alegórica da queda de Adão.16 Havia, portanto, dois estágios na experiência pré-conversão: um período de ignorância relativamente feliz seguido por um conflito intenso entre a lei e as suas paixões pecaminosas levando ao ato. O primeiro estágio representa uma infância feliz, antes de qualquer consciência do pecado.17 Com o alvorecer da consciência moral, no entanto, o menino que cresce descobre desejos em si mesmo que travam um conflito direto com a lei de Deus. Ele foi imergido em uma perplexidade moral por causa da discrepância radical entre suas aspirações para guardar a lei e sua incapacidade de guardá-la (v. 15).18 A ideia desta luta com a tentação ser interna, subjetiva, encontra apoio no fato do mandamento mencionado aqui (v. 7) ser o único no Decálogo que pode ser cumprido apenas com uma atitude mental interior.19

W. D. Davies acredita que Romanos 7:7-25 reflete a doutrina rabínica dos dois impulsos,20 de acordo com a qual cada pessoa experimenta um conflito entre um impulso mau e um impulso bom. Assim como Paulo divide a sua vida em um período de relativa inocência quando o pecado estava dormente e um período quando o mandamento surgiu o pecado veio à vida, os rabinos discutiram os diferentes estágios do desenvolvimento humano. O impulso para o mal entra nascimento e reina sozinho por treze anos durante o qual um indivíduo não era moralmente responsável. Aos 13 anos, o impulso para o bem entra e, então, a luta entre os dois não cessa. Para Davies, Romanos 7 nos fornece um relato de Paulo de sua luta com o impulso para o mal.21

De acordo com a interpretação autobiográfica, os 21–25 descrevem uma divisão trágica dentro da personalidade de Paulo, especificamente uma divisão entre o seu querer e o seu fazer, o que o leva às profundezas do desespero.22 O que presumivelmente conta para a intensidade desta luta interna é o extraordinário compromisso de Paulo com a ética farisaica do legalismo, esta que o levara a buscar aspirações que ele nunca pôde alcançar, a saber, obediência perfeita à lei. Quando ele falhou em atingir esse objetivo, ele começou a duvidar da validade de seu esforço e questionou a lei como uma fonte de justiça. Assim, a desilusão de Paulo para com o legalismo, como um fariseu, serviu como preparação direta para seu encontro com o evangelho, que proporcionou uma “solução nova e melhor” para o seu problema pré-conversão e o preencheu o “lugar vago” criado pela falha de suas tentativas em guardar a lei.23

Sobre a interpretação autobiográfica psicológica, as experiências de pré-conversão e de pós-conversão de Paulo estão unidas por uma desilusão comum com o legalismo. O evangelho forneceu uma solução para o seu problema farisaico. A falha pré-conversão de Paulo em alcançar a justiça por guardar a lei lhe preparou psicologicamente para o evangelho. A lei era, assim, válida como um “disciplina salutar e necessária” e o evangelho “suplementou” a obra da lei.24

Mas nem todos os que interpretam Romanos 7 psicologicamente se referem a experiência pré-conversão. Muitos veem isto como uma descrição da experiência de Paulo após ter aceitado a Cristo, e um paradigma da luta que todos os cristãos encontram quando eles se esforçam para viver uma vida cristã e descobrem que eles estão longe de serem perfeitos. Aqueles que no caminho cristão necessitam da graça salvadora mais do que outrora, e eles compreendem isso quanto mais o tempo passa. Neste sentido, G. C. Berkouwer insiste que o tema de Romanos 7 descreve “não o homem natural, como visto pelo crente, mas o crente filho de Deus quando pela graça de Deus tem aprendido a ver a si mesmo.”25

James Dunn tem uma posição similar. A angústia existencial de 7:14-24, argumenta ele, “parece ser uma experiência que Paulo conhecia muito bem.” Além disso, a conclusão da seção, que segue diretamente a exclamação de vitória—“De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado”—seria inteiramente confusa se ele descreveu um estado passado. E, finalmente, a noção de que o eu dividido continua e passa pelo processo de salvação se encaixa muito bem com a tensão “já/não ainda” característica esquema escatológico de Paulo.26

Atrativa como parece em nossa era introspectiva, a interpretação psicológica de Romanos 7 levanta sérios problemas: se a aplicamos a experiência pré-conversão ou pós-conversão de Paulo. Por um lado, ela está em desacordo com o argumento geral de Romanos, onde Paulo não mostra nenhum interesse em experiências e confissões pessoais, nem na evolução moral da alma individual.27 Em vez do desenvolvimento de nossa consciência moral, a preocupação explícita de Paulo é o curso da salvação e a situação dos seres humanos em relação a ela.

Um problema maior reside no fato de que a interpretação autobiográfica contradiz a própria avaliação de Paulo de sua experiência pré-conversão. De acordo com Filipenses 3:6, Paulo, o Fariseu, considerava a si próprio como “irrepreensível” com respeito à justiça sob a lei. Por sua própria estimativa, as tentativas de Paulo de guardar a lei foram completamente bem-sucedidas, e ele não obteve nada além de orgulho e de satisfação delas. Neste sentido, o legalismo de Paulo foi um sucesso, não um fracasso.

Ademais, a noção de Paulo como um fariseu que experimentou a lei como um estímulo ao pecado está em desacordo com a interpretação rabínica, pois, de acordo com como o estudo da Torah, é exatamente o controla a influência do pecado.28 E, finalmente, não existe evidência nenhuma de que Paulo considerou em algum momento a sua conversão como um momento psicológico decisivo. Em vez disso, o seu interesse nela reside tão somente no discernimento teológico que ela trouxe.29

Que conflito? A resposta teológica

Aqueles cuja abordagem para com Romanos 7 é teológica, em vez de psicológica, interpretam esta passagem no contexto histórico soteriológico. Eles notam que Romanos se refere frequentemente a três grandes estágios da história: antes da entrega da lei, entre a entrega da lei e o evento Cristo, e após o evento Cristo. E eles interpretam Romanos 7:7-25 como uma análise de humanidade durante o segundo desses períodos, isto é, na era da lei.30

Nesta perspectiva, o uso de eu nesta passagem não pode ser necessariamente considerado uma referência autobiográfica. Paulo faz uso do eu em outras ocasiões quando está claro que ele não se refere primariamente a ele (1 Co 13; Rm 13).31 Similarmente, o eu de Romanos 7 se refere não a uma pessoa em particular, mas a humanidade em geral.

A interpretação histórica soteriológico entende o “mandamento” do verso 9 como uma referência ao Decálogo, e traça paralelos importantes entre Romanos 7 e 5.32 Ambos os capítulos estão preocupados com uma “história que molda a natureza humana.” Romanos 7, no entanto, se reduz a soma total da humanidade—a “todos os homens” incluídos na correlação Adão/Cristo de Romanos 5—para as experiências de um único eu. Assim compreendidas, a duas passagens, Romanos 5:12–21 e Romanos 7:7–25, são mutuamente corretivas. Esta última impede Adão/Cristo de ser mal interpretada como mera especulação, e a primeira impede Romanos 7 de ser mal interpretada como uma mera análise da vida interior.33 Nesta visão, a declaração “Outrora, sem a lei, eu vivia” (v.9) se refere à situação da humanidade em geral antes da época de Moisés (Rm 5:12–14), quando o pecado estava morto (v. 8). Mas uma vez que a lei, isto é, por meio de Moisés, entrou na história humana (Rm 5:20), por sua natureza santa e boa (v. 12), o que, em si, prometia a vida, resultou, na verdade, na morte (v. 10).34

Rudolf Bultmann acrescenta uma nota importante para a interpretação histórica soteriológica de Romanos 7.35 Conforme ele entende, Romanos 7:7–25 não somente nos dá um “quadro da situação objetiva do homem-sob-a-lei,”36 mas descreve esta situação “tal como aparece aos olhos daquele que tem sido liberto da lei por Cristo.”37 Em outras palavras, é uma análise pós-conversão de uma situação pré-conversão.

De acordo com Bultmann, interpretações subjetivas de Romanos 7 perdem a ideia central da passagem. A principal preocupação de Paulo é mostrar a situação da humanidade pecadora como totalmente desesperada. Uma das coisas que torna tão desesperadora é o fato de que os seres humanos sob a lei estão pateticamente ignorantes de sua situação. O pecado prejudicou o entendimento deles de tal maneira que eles pensam que podem obter justiça por guardar a lei. Não são apenas os seus esforços estão fadados ao fracasso, não apenas ninguém pode alcançar a justiça mediante as obras da lei, mas a própria intenção de assim proceder é um pecado. Como Bultmann interpreta Paulo, o legalismo, a tentativa de obter justiça por guardar a lei, não é uma mera boa ideia que se torna inviável, mas um erro em si. Na verdade, a sua própria premissa é pecaminosa.

Nesta leitura, o oủ ginṓskō do versículo 15—“Porque nem mesmo compreendo”—reflete a falha do pecador em não compreender a sua própria situação. O que o pecador “nem mesmo compreende” é que sua tentativa de alcançar a justiça por meio da lei é pecaminoso. E em vista deste discernimento aparecer apenas aos olhos da fé Cristã, não pode se referir a uma divisão interior que Paulo experienciou enquanto tentava em vão servir a lei como um fariseu.38

Para Paulo, então, o mais patética vítima do pecado não seria uma pessoa sofrendo os resultados das óbvias transgressões, nem a que luta para ser santo, nem aquela que tenta repetidamente e não consegue viver de acordo com os ideais da lei. Em vez disso, é a pessoa boa, a pessoa moral, que acredita que a sua bondade legalista, a bondade alcançada pelos esforços para guardar a lei melhora, na verdade, a sua posição diante de Deus. Essa pessoa é a mais patética dos pecadores. Essa pessoa é a miserável de quem Paulo fala.

Afinal, o discernimento que nosso esforço sempre falha em relação à nossa aspiração está visível a qualquer pessoa que reflete, como a observação de Ovídio frequentemente citada atesta—“vejo e aprovo o melhor, mas sigo o pior.” E os Judeus estavam bem cientes de que transgredir os mandamentos da Torah é pecado. Esses discernimentos são dificilmente peculiares à fé cristã.

Em vez disso, o “choque de valor” desta passagem reside no fato de que ela contradiz toda a sabedoria convencional dos dias de Paulo e dos nossos. Não é um discernimento disponível a seres humanos em geral, e—este é o ponto de Paulo aqui—, é especificamente obscurecido ao seres humanos debaixo da lei. A contenção radical de Paulo diz que os seres humanos são pecadores, não apenas em suas violações da lei, mas precisamente em suas tentativas de guardá-la. Assim, Bultmann escreve: “O caminho da lei é errado, não em razão da consequência de transgressões que não levam ao esperado, mas porque a sua direção é errada, pois é caminho que supõe-se levar ‘a sua própria justiça’ (Rom. 10:3). Não se trata meramente de maus atos já cometidos que faz um homem repreensível aos olhos de Deus, mas a intenção do homem de tornar-se justo diante de Deus por guardar a lei.”39

Uma vez vemos esta passagem como uma descrição de “pecado” a partir da perspectiva de “salvação”, tudo se encaixa.

Uma vez que uma pessoa debaixo da lei não enxerga a sua verdadeira situação, “aquele que quer” descrito nos versos 15–20 não pode estar se referindo à atos conscientes de volição. Não é um movimento do querer subjetivo, ou consciente, mas, nas palavras de Bultmann, “a propensão transubjetiva da existência humana como tal.”40 E em razão do “fazer” do verso 15 ser transubjetivo, ele não se refere a feitos empíricos de transgressão, mas o resultado do fazer. Para aqueles que estão debaixo da lei, todo ato, bom ou mau aos padrões convencionais, tem o mesmo resultado: a morte.41

A divisão da humanidade descrita nos versos 21–25 é também transubjetiva e não uma divisão entre elementos superiores e inferiores em nossa constituição ou entre as dimensões interior e exterior de nossa existência. Esta divisão não pressupõe um dualismo naturalista por meio do qual nosso inefetivo fazer torna-se atribuído a um elemento inferior, tal como a “carne,” enquanto nosso querer está atribuído a um elemento superior, tal como a “mente” ou o “homem interior.”42 Em vez disso, se refere ao fato que tudo que pretendemos ou queremos para levar a vida leva apenas à morte. Tudo empreendido por seres humanos debaixo da lei—se relativamente bom ou ruim—é desde o início direcionado contra si mesmo. Em vez de levar a vida, leva apenas à morte.43

A interpretação soteriológica histórica conforme modificada por Bultmann tem diversas vantagens em relação a abordagem autobiográfica psicológica. Primeiro, leva seriamente a avaliação de Paulo de sua experiência pré-conversão. Filipenses 3:6 nos fornece um relato pré-conversão de Paulo de sua vida como um fariseu e, desta perspectiva, estava tudo bem. As suas tentativas para guardar a lei foram completamente bem-sucedidas. Romanos 7 nos fornece a visão de Paulo da mesma experiência do ponto de vista da fé cristã. E desta perspectiva, a sua autoavaliação anterior foi uma terrível ilusão.44 Ele pensava que estava ganhando vida, quando, na realidade, ele estava caminhando para a morte.

A perspectiva histórica soteriológica fornece, assim, uma avaliação consistente e profundamente negativa do legalismo. Para interpretações subjetivistas, o legalismo é simplesmente uma impossibilidade prática, e pode ter, até mesmo, valor pedagógico positivo. Pode preparar as pessoas para o evangelho mostrando-lhes como é difícil guardar a lei. Para a interpretação histórica soteriológica, no entanto, o legalismo não é nem positivo, nem neutro, mas completamente negativo. Inalteravelmente oposto à salvação como um dom de Deus para nós em Cristo, o legalismo, é, portanto, essencial e incorrigivelmente, pecaminoso. Interpretado como uma crítica enfática ao legalismo, Romanos 7 encaixa-se perfeitamente dentro posição teológica de Paulo como um todo.

A interpretação de Bultmann tem gerado considerável oposição ao longo dos anos. Para Herman Ridderbos, o existencialismo de Bultmann distorce a sua própria exegese. O efeito produtor de pecado da lei em Romanos 7 não se refere à tentativa de estabelecer a sua própria justiça diante de Deus, mas ao desejo pecaminoso e aos atos de transgressão.45 Uma crítica mais detalhada crítica surge dos defensores da “Nova Perspectiva sobre Paulo.”46 Para esses estudiosos, “A crítica de Paulo ao legalismo” tem sido drasticamente exagerada. “Lutero e seus sucessores bultmannianos estavam . . . errados em atribuir a Paulo uma compreensão da essência do pecado como guardar a lei ‘muito bem.’ ” Proponentes da “difícil compreensão luterana” falham em questionar como qualquer judeu, mesmo Paulo, “poderia em algum momento imaginar o guardar a Torah como algo pecaminoso.” Na verdade, alguns estudiosos da Nova Perspectiva afirmam que Paulo opôs-se, a não observância da lei em geral, mas a dar uma importância inflacionada a certas “sinais identificadores” judaicos tais como a circuncisão, regime alimentar e a observância do sábado.47

A Nova Perspectiva tem estimulado o interesse na questão por completo da judaicidade de Paulo e, consequentemente, a relação entre o cristianismo e as suas origens judaicas.48 Fornece uma reinterpretação radical de Romanos 7? Não, a menos que percamos de vista a preocupação essencial da passagem. Com o propósito de Romanos 7:7–25 é distinguir a lei do pecado e esclarecer a relação entre eles. A verdadeira antítese, como Brendan Byrne observa, não é entre o evangelho e a lei, mas entre a graça e o pecado.49 A lei é boa por natureza, mas o pecado usa a lei e, em última instância, ele nos mata.50

Conclusão

Qual é, então, o dilema do pecador em Romanos 7? Há um argumento conclusivo para uma interpretação ou outra dentre a diversidade considerável que temos observado? Talvez não. Mas uma frustração de um ponto de vista exegético pode ser um encorajadora de um ponto de vista pessoal. Como a verdade de toda grande literatura, o significado das cartas de Paulo nunca pode ser completamente examinado ou perfeitamente compreendido. Permanece, todavia, indefinido quem nós somos no dilema do pecador em Romanos 7—se nos encontramos antes ou após a conversão, se o vemos como um conflito subjetivo ou transubjetivo— esta tamanha incerteza permite que cada um de nós veja a sua própria luta com o pecado no espelho que ele oferece. O mais importante, há uma coisa a qual podemos estar certos, isto é, a solução para o problema. Como Paulo deixa claro como cristal, Jesus Cristo é a nossa única esperança.


NOTAS

[1] De acordo com James D. G. Dunn, “A função de Romanos 7:7–25 é uma das questões mais disputadas em estudos do NT.” The Theology of the Apostle Paul (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1998), p. 472.

[2] Caso não seja especificado, as citações bíblicas são da ARA (Almeida Revista e Atualizada).

[3] W. Sanday e A. C. Headlam, “The Epistle to the Romans,” International Critical Commentary (Edinburgh: T. & T. Clark, 1902), p. 179.

[4] Rudolf Bultmann, “Romans 7 and the Anthropology of Paul,” em Existence and Faith: Shorter Writings of Rudolf Bultmann, trad. Schubert M. Ogden (New York: Meridian Books, 1960), p. 153.

[5] W. Gutbrod, “Nomos,” em Theological Dictionary of the New Testament, e. Gerhard Kittel, trad. e e. Geoffrey Bromiley (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1965–74), 4:1073, 1074. (Doravante, o Theological Dictionary of the New Testament será TDNT). Esses são simplesmente o lado negativo da função positiva da lei, como a expressão da vontade de Deus.

[6] Walter Grundmann, “Hamartano,” em TDNT, 1:311.

[7] Günther Bornkamm, Paulo, trad. D. M. G. Stalker (Nova York: Harper & Row, 1969), p. 125. E por virtude de sua ligação com o pecado, com a morte, é, também, um poder que faz suas vítimas prisioneiras e coloca o selo sobre seu estado perdido.

[8] Pierre Benoit, “La Loi et la Croix D’Apres Saint Paul,” Revue Biblique, 47 (1938): 489, 490.

[9] Como “natureza inferior”, por exemplo, na Nova Versão Internacional.

[10] Ethelbert Stauffer, “Egō,” em TDNT, 2:358.

[11] C. H. Dodd, The Epistle of Paul to the Romans (Glasgow: Fontana Books, 1959), p. 123.

[12] Sanday e Headlam, p. 186.

[13] Dodd, p. 125.

[14] Sanday e Headlam, pp. 184, 185.

[15] Dodd, p. 125.

[16] Dodd, pp. 123, 124

[17] Dodd, p. 128. Sanday e Headlam, p. 186.

[18] Este é um dilema universal humano. Tanto Aristóteles quanto Ovídio descrevem a experiência descrita em Dodd, pp. 130, 131.

[19] Dodd, pp. 127, 128

[20] W. D. Davies, Paul and Rabbinic Judaism, e. rev. (New York: Harper and Row, 1955), p. 27.

[21] Ibid., pp. 23–24.

[22] Dodd, p. 131.

[23] Sanday e Headlam, p. 187.

[24] Sanday e Headlam, pp. 188, 189.

[25] G. C. Berkouwer, “Faith and Sanctification,” Studies in Dogmatics, trad. John Vriend (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1952), p. 63.

[26] Dunn, pp. 475, 476.

[27] Stauffer, “Egō” em TDNT, 2:359.

[28] Davies, p. 22.

[29] Bultmann, “Paul,” em Existence and Faith, p. 114.

[30] Stauffer, “Egō” em TDNT, 2:359.

[31] Ibid., p. 358.

[32] Gottlob Schrenk, “Entolē,” em TDNT, 2:550, 551. Além de Schrenk, outros fazendo esta conexão incluem Bornkamm, p. 125; Bultmann, “Romans 7,” p. 157; e Stauffer, “Egō” em TDNT, 2:358, 359.

[33] Bornkamm, pp. 125, 127.

[34] Stauffer, “Egō” em TDNT, 2:358, 359.

[35] Bultmann se refere a “o propósito da lei na ‘história da salvação’,” e ele considera Romanos 7:7-25 paralela a Romanos 5:12-21. “Romans 7,” em Existence and Faith, p. 157.

[36] Rudolf Bultmann, Theology of the New Testament, trad. Kendrick Grobel (New York: Charles Scribner’s Sons, 1951), 1:266

[37] Bultmann, “Romans 7,” em Existence and Faith, p. 147.

[38] Bultmann, Theology of the New Testament, 2:267.

[39] Ibid., 2:266, 267.

[40] Bultmann, “Romans 7,” em Existence and Faith, p. 150.

[41] Ibid., p. 155.

[42] Ibid., p. 151.

[43] Ibid., pp. 155–156.

[44] Ibid., pp. 361–362.

[45] Herman Ridderbos, Paul: An Outline of His Theology, trad. John Richard De Witt (Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans, 1975), pp. 145, 146.

[46] Esta expressão aparece no título de um artigo de James D. G. Dunn publicado primeiramente no Bulletin of John Rylands Library 65 (1983): 95-122.

[47] Brendan Byrne, “Interpreting Romans: The New Perspective and Beyond,” Interpretation, 58 (July 2004): 248, 249.

[48] É a “judaicidade” de Paulo, em particular, para a sua afirmação de ser um “hebreu de hebreus,” uma base para afirmar ou rejeitar as origens judaicas do cristianismo. Andrew S. Jacobs trata esta importante questão em “A Jews’ Jew: Paul and the Early Christian Problem of Jewish Origins,” Journal of Religion, 86 (April 2006): 258–286.

[49] Byrne, p. 249.

[50] Como Beverly Roberts Gaventa coloca: “o mais elemento preocupante no resumé do pecado é a afirmação feita no capítulo 7 de que ‘o pecado é capaz de exercer o poder até mesmo sobre a lei.’ ” “The Cosmic Power of Sin in Paul’s Letter to the Romans: Toward a Widescreen Edition,” em Interpretation, 58 (July 2004), p. 234.

One thought on “O Dilema do Pecador em Romanos 7”

  1. QUEM É O HOMEM DE ROMANOS SETE?
    Ao relembrar a função da lei na sua conversão, Paulo diz: “eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: não cobiçarás”. Rm 7:7. [Êxo, 20:17].
    “O décimo mandamento fere a própria raiz de todos os pecados, proibindo o desejo egoísta, do qual nasce o ato pecaminoso”. PP, p 309.
    O pecador só pode convencer-se de sua culpa quando compreende o que constitui pecado. “O pecado é a transgressão da lei.” I João 3:4. “Eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei.” Rom. 7:7. A pessoa precisa primeiro convencer-se do pecado antes que o pecador sinta o desejo de ir a Cristo.
    “De maneira que a lei nos serviu de aio para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados por fé.” Gl 3:24.
    Em Rom. 7:9, Paulo diz: “houve um tempo em que eu não conhecia a lei e não me sentia condenado. Mas, quando fiquei conhecendo o mandamento, o pecado mostrou que eu estava condenado a morte”.
    Disse Jesus: “aquele que comete pecado é escravo do pecado.” João 8:34.
    Em Rom. 7:14 Paulo reconhece: “sou carnal, escravo do pecado”.
    Ao olhar para a lei, o escravo do pecado reconhece-a como, santa, justa e boa. (Rom. 7:12).
    No entanto, o pecado que o escraviza, não lhe permite guarda-la. (Rom. 7:15-23).
    Ao olhar para a lei, Paulo viu a si mesmo como Deus o via, cheio de faltas, manchado pelo pecado exclamou: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” Rom. 7:24.

    Os primeiros quatro dos dez mandamentos resumem-se num grande preceito: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração.” Os últimos seis estão incluídos no outro: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” Mat. 22:37-39. Ambos estes mandamentos são uma expressão do princípio do amor. “Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.” Mat, 22:40.
    Não basta reconhecermos a sabedoria e justiça de Sua lei, e que ela se baseia sobre o eterno princípio do amor. Paulo, o apóstolo, reconheceu tudo isto quando exclamou: “Consinto com a lei, que é santa; e o mandamento, santo, justo e bom.” Acrescentou, porém, na amargura de sua íntima angústia e desespero: “Mas eu sou carnal, vendido sob o pecado.” Rom. 7:16, 12 e 14. Ansiava a pureza, a justiça, as quais era impotente para alcançar por si mesmo e exclamou: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” Rom. 7:24.
    Cristo veio quebrar as algemas da escravidão do pecado “Se pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” João, 8:36. “A lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus” nos liberta “da lei do pecado e da morte.” Rom. 8:2. “para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito”. Rom. 8:4
    “porque a inclinação da carne é morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz, porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode estar, portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus. Rom. 8:6-8.
    “nossa velha natureza pecadora já foi morta com Cristo na cruz a fim de que o nosso eu pecador fosse morto, e assim NÃO SEJAMOS MAIS ESCRAVOS DO PECADO.” Romanos 6:6.
    “graças a Deus porque, OUTRORA, escravos do pecado, contudo, viestes a obedecer de coração à forma de doutrina a que fostes entregues” Rm 6:17
    “nós também, OUTRORA, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros”.Tt 3:3.
    “andastes OUTRORA, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos OUTRORA, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, naturalmente, filhos da ira” Ef 2:2, 3.
    “Todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.” I João 5:4.
    … Quantos estão vivos sem a lei! Na espessa treva em que se encontram, olham-se complacentemente: revele-se-lhes, porém, a lei de Deus à consciência, como aconteceu com Paulo, e verão estar vendidos sob o pecado. Testemunhos Seletos, v 1 p. 401
    “A lei de Deus é o espelho que apresenta um reflexo completo do homem como ele é” Fé e Obras, pág. 31.
    … Quando o espelho da lei foi colocado diante dele, (Paulo) e viu a si mesmo como Deus o via, cheio de faltas, manchado pelo pecado exclamou: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” Rom. 7:24. Resolveu apossar-se dos benefícios da graça que salva, estar morto para as transgressões e pecados. Tinha a fé que extrai vida de Cristo, que o habilitava a harmonizar a vida com a do Exemplo divino. Ellen White – Exaltai-o, p. 40.
    … Cristo veio quebrar as algemas da escravidão do pecado “Se pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.” (João, 8:36) “A lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus” nos liberta “da lei do pecado e da morte.” Rom. 8:2. O Desejado de Todas as Nações, p. 466.
    Uma analise inteligente de Rom. 7:19, deixa claro que Paulo não está falando de um converso a Cristo.
    Exemplos:
    “não faço o bem que quero, mas o adulterar que não quero, esse faço”.
    “não faço o bem que quero, mas o matar que não quero, esse faço”.
    “não faço o bem que quero, mas o roubar que não quero, esse faço”.
    Romanos 8 é a resposta de Paulo a Romanos 7. Em Romanos 7, Paulo fala de frustração, fracasso e condenação. Em Romanos 8, a condenação está anulada, substituída pela liberdade e vitória provida por Jesus Cristo. Em Romanos 7, Paulo disse que se você se recusar a aceitar Jesus Cristo, terá a experiência infeliz ali descrita “escravo do pecado”. Impossibilitado de fazer o que preferir.
    Infelizmente, por não renovarem sua devoção a Cristo diariamente, muitos cristãos estão, de fato, servindo ao pecado, por mais que detestem admiti-lo. Eles racionalizam e argumentam que, na realidade, estão passando pela experiência normal da santificação e que simplesmente ainda têm um longo caminho a percorrer. Assim, em vez de levarem a Cristo pecados conhecidos e pedir a vitória sobre eles, essas pessoas se escondem atrás de Romanos 7, que lhes diz, pensam elas, que é impossível fazer o que é certo. Na verdade, esse capítulo revela que é impossível fazer o certo quando uma pessoa é escrava do pecado, mas a vitória é possível em Jesus Cristo.

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