Deveríamos Observar Os Festivais Levíticos? – Uma Perspectiva Adventista do Sétimo dia


jacques_doukhanJacques Doukhan é Professor de Hebraico, Professor de Exegese do Antigo Testamento e Diretor do Instituto de Estudos Judaicos-Cristãos na Andrews University. Autor de diversos livros como “The Mystery of Israel,” “On the Way to Emmaus”, “Israel and the Church;” escreveu, também, a Lição da Escola Sabatina de Provérbios do 1º Trimestre de 2015.


Tradução: Hugo Martins

O artigo “Deveríamos Observar Os Festivais Levíticos? – Uma Perspectiva Adventista do Sétimo dia” (Original em inglês: Should we observe the Levitical festivals?: A Seventh-day Adventist perspective), de Jacques Doukhan, aqui mesclado em um, fora publicado, inicialmente, publicado em duas partes; a primeira parte do artigo em junho de 2010 e a segunda parte do artigo em agosto de 2010 na revista Ministry,® International Journal for Pastors, www.MinistryMagazine.org.  Usado com permissão.


Qual a importância das festas e dos festivais do Antigo Testamento para os cristãos hoje? Como deveria a teologia adventista do sétimo dia, que reconhece a validade do Sábado do Sétimo Dia, ver as festas levíticas?

Argumentos pró e contra a observância das festas têm sido debatidos em círculos eclesiásticos recentemente, incluindo igrejas adventistas. Em razão disso, esta questão deve ser tratada. O artigo propõe realizar esta tarefa em duas partes. Na primeira parte examinaremos cinco argumentos geralmente empregados em relação à observância das festas: (1) o valor pedagógico da interpretação tipológica das festas; (2) a utilidade de relembrarmos a conexão histórica entre as festas de Israel e a proclamação cristã; (3) a relação das festas com o Sábado; (4) a relação da Festa da Lua Nova com o Sábado; e (5) o potencial para melhores relações entre judeus e cristãos. Ao lidar com cada questão, proponho examinar os problemas levantados pela observância cristã das festas e, então, discutir os argumentos negativos que se opõem a tal prática. A segunda parte do artigo sugerirá “uma abordagem apropriada,” além de apontar direções, junto com algumas aplicações práticas para a vida da igreja.

Festivais judaicos como uma ferramenta de ensino

Os festivais bíblicos estavam intrinsecamente ligados ao sistema sacrificial. De fato, os sacrifícios não eram mero rituais ou expressões culturais de piedade, ele eram centrais para o significado dos festivais. A Festa da Páscoa, por exemplo, não requeria apenas o sacrifício e comer um cordeiro (Ex 12:3-10); De fato, o cordeiro dava a Páscoa o seu significado fundamental e a sua razão de ser. A Páscoa fora especificamente designada como uma lembrança do sacrifício do cordeiro oferecido no evento do Êxodo: Deus passando por cima do sangue do animal sacrificado, garantindo, assim, a redenção (Ex 12:13). Esta conexão é tão forte que a Páscoa é, realmente, identificada com o cordeiro em si. Pesaḥ (Páscoa) é o cordeiro (2 Cr. 30:15).

Não apenas a Páscoa, mas, também, todos os outros festivais estavam envoltos em meio a sacrifícios em conexão com a expiação. Os textos bíblicos lidando com as festas estipulam o sacrifício de um bode como uma oferta pelo pecado para fazer expiação pelo povo (Nm 28:15, 22, 30; 29:5, 11, 28). No Novo Testamento, os sacrifícios apontam para a vinda e a obra de Cristo. Jesus é identificado com o cordeiro pascoal (Jo 1:36; cp. 1 Cr 5:7), com o sistema sacrificial todo visto como a sombra das “sombra dos bens vindouros” (Hb 10:1; cp. Cl 2:16-17). Os sacrifícios transmitem uma mensagem profética concernente ao processo de salvação: Deus descerá e oferecer-se-á como um sacrifício com o propósito de expiar o pecado e redimir a humanidade.

O efeito do sacrifício de Cristo é definitivo e perpétuo. Nesse sentido, temos que entender a frase “ ‘ “estatuto perpétuo por vossas gerações” ’ ” (Lv 23:14). A frase “estatuto perpétuo” não significa uma estipulação perpétua; caso contrário, isto significaria que ainda temos que realizar todos os sacrifícios.  De fato, a mesma frase “estatuto perpétuo” é, também, usada para os sacrifícios (Lv 3:17) e para todos os outros rituais associados com o tabernáculo: as abluções (Ex 30:21), vestes sacerdotais (Ex 28:43), o candelabro (Ex 27:20-21), etc. Em outras palavras, o uso da expressão “perpétuo” não significa uma obrigação perpétua, mas deve ser entendida no contexto do templo –isto é, enquanto o templo ainda operava. Agora que os sacrifícios não são mais possíveis em vista da ausência do templo e porque a profecia contida nos sacrifícios fora cumprida em Cristo, conclui-se que esses sacrifícios e rituais correlacionados, tais como os festivais levíticos, não são mais obrigatórios. O tipo encontrou seu Antítipo. Engajar-se em festivais com a ideia que eles são obrigatórios para a nossa própria salvação faz do Antítipo, o Messias, igualmente irrelevante.

Nota-se, também, que a mesma expressão “perpétuo” é usada para a aliança da circuncisão (Gn 17:13). Significa, então, que a circuncisão continua, ainda, válida nos dias de hoje? Se fosse esse o caso, estaria isto, então, em contradição a recomendação dos apóstolo em Atos 15. Todas essas observações ajudam-nos a entender o porquê a expressão “perpétuo” em relação a festas não apoiam uma ordenança eterna.

Com esse argumento aparte, é, precisamente, esta função tipológica/profética das festas que inspira aqueles que apoiam a observação das festas. Eles argumentam que a observância das festas ajudarão os cristãos a terem um melhor e mais rico entendimento do plano da salvação. O profundo significado das festas já era atestado no Novo Testamento; eles não apenas comemoravam eventos passados da salvação, especialmente a saída do Egito e os milagres do Êxodo, mas eles apontavam, também, para a salvação cósmica e escatológica. É, realmente, significante que Jesus morreu e fora ressuscitado durante o tempo da Páscoa, que Ele não apenas a celebrou, comemorando o Êxodo, mas, também, a investiu com um novo significado, aplicando-a a Si mesmo. Significativo, também, é o evento do dom do Espírito, associado com a proclamação do evangelho às nações, tomando lugar durante o Pentecostes [shavu‘ot], o tempo da colheita. Basicamente, os festivais apontavam para o primeiro passo da salvação: Primeira Vinda de Cristo, Sua morte, Sua ressurreição, Sua entronização ao lado direito do Pai e a abrangência universal da aliança através da proclamação global do evangelho. Os festivais do outono apontavam para o segundo passo da salvação: o juízo no céu e a proclamação das mensagens dos três anjos sobre a terra, preparando para a salvação cósmica e a Segunda Vinda de Cristo (Ap 14:6-13). Como Richard Davidson nota: “A primeira e a última festa do calendário cúltico de Israel parecem estar ligadas à inauguração e à consumação da história da salvação de Israel respectivamente.”[1] A progressão das festas no calendário anual, seguindo-se a progressão do plano histórico da salvação, tem, então, sido usada como um argumento em favor da adoção desses festivais como uma parte de nossa vida religiosa. Mas a função pedagógica das festas não implica que essas festas são leis divinas para ser perpetuamente observadas.

O problema principal permanece, entretanto, se no caso essas festas devem ser observadas por cristãos nos dias de hoje.

A conexão histórica

Uma função das festas era a sua a´licação a vida histórica de Israel em Canaã. Quando o templo fora destruído e os judeus foram exilados da terra e foram obrigados a criar e desenvolver novas tradições para a observância das festas adaptadas à situação do exílio, isto é, sem o templo e os sacrifícios.[2] Do mesmo modo, o fato que Jesus e Seus discípulos observaram os festivais e, posteriormente, cristãos primitivos (judeus cristãos) também, mesmo sem sacrifícios, sugere que não é incompatível para os cristãos celebrarem os festivais.

Além do que, este exemplo não pode ser usado como um argumento para justificar a celebração cristã das festas desde que Jesus e o primeiros cristãos não apenas observavam os festivais judaicos, mas também, outras práticas culturais e cerimoniais, tais como a circuncisão, o uso do talith (o xale de oração), etc., práticas que não foram adotadas pelos cristãos gentios baseando-se em Atos 15. Ademais, cristãos, especialmente adventistas do sétimo dia, não têm uma tradição festiva histórica mostrando como celebrar aqueles festivais. Como, então, celebrarão eles os festivais? Baseando-se no que justificarão eles uma prática após a outra? Seu clamor em observar os festivais à moda bíblica tropeça no fato que o modo bíblico requer as oferta de sacrifícios no templo (Dt 16:5). Sem a base de uma tradição histórica e cultural, a observação das festas está propensa a gerar tensões e dissensões na igreja. Além do mais, desde que não há uma lei bíblica específica sobre essas leis deveriam ser observadas fora do templo, elas terão que produzir leis e tradições próprias. Ángel Rodríguez está certo quando ele adverte que “Aqueles que promovem a observância dos festivais têm que criar a sua própria maneira pessoal de celebrar as festas e estar no processo de criar tradições humanas que não se baseiam em uma expressão explícita da vontade de Deus.”[3]

O Sábado e os festivais

A pratica dos festivais podem, até mesmo, afetar a nossa teologia do Sábado. A Bíblia claramente explica a diferença essencial entre as festas e o Sábado. Festivais não são como o Sábado semanal. Diferente dos festivais, o Sábado, como um sinal, relembra-nos da criação do universo e é, portanto, eterno em sua relevância. Deus deu o Sábado no fim da semana da Criação quando não havia pecado sobre a terra e, portanto, não havia sacrifício ou festas. O Sábado, diferente dos festivais, era parte do Dez Mandamentos e fora dado a toda a humanidade. De fato, sua origem é anterior a entrega da Torá a Israel no Sinai (Ex 16:23-28). Ademais, Levítico 23:3-4, que lista os festivais junto com o Sábado, sugere, claramente, que existe uma diferença essencial entre as duas categorias de dias sagrados. Em Levítico 23, o Sábado é mencionado no início da lista (v. 3). Então, os outros dias sagrados são listados sob a designação “ ‘ “São estas as festas fixas do SENHOR” ’ ” (v. 4), sugerindo, portanto, que o Sábado pertence a uma categoria aparte das festas. Embora o Sábado implica, também, em sacrifícios (Nm 29:9-11), é significante que frase regular “oferta pelo pecado, para fazer expiação,” que sempre aparece em relação aos festivais, é ausente em referência ao Sábado. Esta distinção clara sugere que a função dos sacrifícios no contexto do Sábado é, essencialmente, diferente da sua função no contexto dos festivais. O Sábado difere-se não apenas de qualquer outro dia da semana, mas também, de qualquer dia festivo. É importante destacar que esta diferença, e até mesmo a superioridade do Sábado sobre os festivais, está, sistematicamente, indicada na leitura litúrgica da Torá: temos mais ‘alyot (subidas à plataforma para ler a Torá) no dia de Sábado (sete) do que em qualquer dia festivo. Igualar o Sábado com os festivais é fundamentalmente errado e afeta o verdadeiro significado do Sábado, comprometendo, amplamente, seu caráter mandatório.

Compreender que o Sábado difere-se dos festivais, e é ainda mais importante do que eles, ajudar-nos-á a entender a natureza da conexão entre os dois santos apontamentos. O fato que Levítico 23 os trazem juntos, enquanto destacando a diferença entre eles, sugere, de fato, que o Sábado é a coroa, o clímax de todos os festivais.

Paradoxalmente, esta conexão especial entre o Sábado e os festivais levíticos trazem, de fato, uma lição acerca do valor relativo dos festivais versus o valor absoluto do Sábado. Em vez de levar à promoção da observância dos festivais, o estudo dos festivais deveriam levar-nos a um melhor entendimento, apreciação e experiência do Sábado. Pois o Sábado “é o fundamento de todo tempo sagrado”[4] e, portanto, contém e cumpre todos os valores e verdades intimadas pelos festivais.

O Sábado e o Festival da Lua Nova

Dentro dos festivais, o Festival da Lua Nova ocupa, unicamente, um lugar secundário. Diferente de outros dias sagrados, a lua nova qualifica como um dia sagrado em que todo trabalho é proibido.[5] Durante o período do Primeiro Templo, fora relegado a um status de “semi-festival” e sua observância desapareceu totalmente durante o período do Segundo Templo; assim, por volta da metade do quarto século, quando os sábios estabeleceram um calendário permanente, a proclamação do dia da lua nova fora descontinuado.[6] A tradição judaica designa, geralmente, um papel “menor” ao Festival da Lua Nova.[7]

Portanto, é de se surpreender que o Festival da Lua Nova tenha recebido uma atenção renovada, especialmente entre judeus messiânicos e, até mesmo, entre alguns adventistas. Uma justificativa para tal observância é Isaías 66:23: “E será que, de uma Festa da Lua Nova à outra e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o SENHOR.” Este texto é usado para sugerir que o Festival da Lua Nova será observado no céu junto com o Sábado. Mas o texto não fala tanto acerca da observância daqueles dois dias por si só; em vez disso, enfatiza a continuidade da adoração, uma característica da Nova Terra. Para esse propósito, o autor bíblico se refere às duas extremidades de tempo: “de um(a) … a outro(a).” O que este verso realmente diz é que a adoração continuará como uma atividade de eternidade –“de Lua Nova a Lua Nova” e de “Sábado a Sábado”; como se diz “de mês a mês”, “de semana a semana”.

A segunda razão oferecida para a observância da Festa da Lua Nova é que a lua determina o dia de Sábado. Baseando-se em textos bíblicos, tais como Gênesis 1:14 e Salmo 104:19, argumenta-se que o Sábado semanal era, originalmente, ligado ao ciclo lunar. De fato, ambos os textos relacionam a lua com as estações (mo‘adim). Desde que Levítico 23 inclui o Sábado na categoria de “estações” (“convocações”; ver v. 2), e desde que a lua governa as estações (Gn 1:14), alguns concluem que a lua, também, governa o Sábado. Este argumento apresenta diversos problemas, incluindo os seguintes:

  1. O significado do termo hebraico mo‘adim. Este termo está relacionado com o verbo y‘d com o qual está, também, associado (Ex 30:36; 2 Sm 20:5). Este verbo significa “apontar” um tempo ou um lugar (2 Sm 20:5; Jr 47:7). O termo mo‘adim se refere à “apontamentos”, “encontros” ou “convocações” no tempo ou no espaço. Agora, nem todos os apontamentos (mo‘adim) são governados pela lua. Quando Jeremias 8:7 usa o termo mo‘adim para se referir às estações migratórias da cegonha e de outros pássaros migratórios, não implica que as migrações da cegonha são governadas pela lua, desde que a cegonha retorna a Palestina regularmente a casa primavera. O termo mo‘adim simplesmente se refere a um tempo ou a um lugar específico apontado, ou por humanos (1 Sm 20:35) ou por Deus (Gn 18:14), e poderia ser semanal (1 Sm 13:8), mensal, anual (Gn 17:21), ou até mesmo profético (Dn 12:7); e não está, necessariamente, sempre dependente da lua.
  1. A ideia que o Sábado é dependente da lua fora, de fato, originalmente, emprestado da pressuposição crítico-histórica da influência babilônica sobre a Bíblia. De acordo com essa visão, o Sábado fora, originalmente, tomado ou do costume babilônio dos dias lunares, dias evil/taboo associados com fases lunares caindo sobre os dias 7, 14, 19, 21 e 28 do mês, ou mensal, o dia da lua cheia (shab/pattu). Mas este clamor não tem qualquer base bíblica e não é mais levado a sério por estudiosos bíblicos.[8]
  1. A ideia da dependência do Sábado sobre a lua –colocando o Sábado sobre qualquer dia da semana, dependendo dos movimentos da lua– vai contra o testemunho da história. Primeiro, vai contra o testemunho dos judeus. De fato, milhões de judeus tem guardado o Sábado do Sétimo Dia no Sábado por milhares de anos e esta prática nunca fora mudada ou perdida, nem pelo calendário juliano ou gregoriano; a mudança afetara, unicamente, o número de dias e nunca os dias da semana.[9] Os judeus ainda guardam o mesmo Sábado do Sétimo Dia que fora dado na Criação, o mesmo dia que fora ordenado no Sinai e guardado por Jesus e os apóstolos; isto é, nosso Sábado. Esta ideia que conecta o Sábado à lua e o faz cair na terça, ou em qualquer outro dia dependente da lua, é, de fato, um modo de trocar o verdadeiro Sábado com um outro dia, baseando-se em especulação humana, assim como a tradição humana trocou o Sábado pelo Domingo.
  1. O argumento que o dia da crucifixão de Jesus era a Páscoa –isto é, o 14º dia da lua nova (Ex 12:6; e, ao mesmo tempo, o dia de Sábado)– não pode ser usado para apoiar a ideia que o Sábado depende da lua. De acordo com o testemunho dos Evangelho, Jesus fora crucificado no dia da preparação (Sexta) e não no Sábado.
  1. O fato que a função da lua com nova começa no quarto dia da semana da criação (Gn 1:14-19) torna possível identificar o Sábado, vindo três dias depois, como um dia da lua.

A relação judaico-cristã

A prática cristã dos festivais pode contraprodutiva no que diz respeito às relações judaico-cristãs. Cristãos que se engajam nesses festivais, adotando tradições que pertencem a uma outra cultura, aparentarão artificialidade e farsa. Eles, também, serão ofensivos aos judeus que perceberão neste empreendimento uma intenção usurpadora em moldes de supercessionismo[10] ou meios enganosos para levá-los a conversão. Cristãos, que imitam os judeus na prática dos festivais, tendem a fazê-los no contexto de uma liturgia eclesiástica, envolvendo uma comunidade inteira, como um evento público. Não há a menor necessidade de dizer que esta adaptação cristã do costume judaico falha totalmente em seu propósito e é ultrajante aos judeus, pois, tradicionalmente, aquelas festas foram designadas para serem celebradas apenas em casa, no círculo íntimo da família e não em público. A reprodução cristã pode, portanto, frequentemente, tornar-se uma caricatura ou uma má representação –na melhor das hipóteses, uma imitação pífia da original judaica. Em vez de ser um meio de alcançar os judeus, as adaptações cristãs dos festivais judaicos podem afastá-los.

A celebração de festivais pode, por outro lado, tornar os cristãos mais próximos dos judeus, a quem a sua tradição os ensinara a desprezar. De fato, antissemitismo fora a principal motivação para a repudiação, não apenas do Sábado, mas, também, das festas. Parece, então, que por celebrar os festivais, os cristãos poderiam fazer uma declaração não apenas contra a voz antissemita de vários grupos, mas, também, ao mesmo tempo, produzir um meio de contextualização para alcançar os judeus.

Mesmo assim, a situação não é tão simples assim. Como tratei anteriormente, a observância dos festivais encontra sérios problemas teológicos, culturais, étnicos e práticos que trazem sérias precauções e desconfianças.

A segunda parte do artigo sugerirá “uma abordagem apropriada,” além de apontar direções, junto com algumas aplicações práticas para a vida da igreja.

Valorizando as riquezas e as bênção associadas com os festivais, mas, também, estando à par dos problemas implicados em observá-las, os cristãos, se assim desejarem, podem procurar um meio adequado para engajarem-se no festivais. Eles poderiam explorar um meio de realizar os festivais. Esta prática deveria não apenas ser conduzida com lucidez teológica, mas, também, com prudência, equilíbrio, sabedoria, humildade, mente aberta e um desejo de aprender. Diversas sugestões práticas podem ajudar os cristãos a encontrar uma implicação significativa dos festivais em sua vida e adoração cristã.

O poderia versus o deveria

Primeiro de tudo, entender o caráter não-normativo dos festivais é importante. O Novo Testamento oferece um bom exemplo de como os cristãs deveriam se relacionar com os festivais. De fato, muitos textos nos proveem com a função tipológica dos sacrifícios e, então, advertir-nos contra a ideia que eles são, ainda, normativo e necessários para a nossa salvação. Por outro lado, em nenhum lugar do Novo Testamento ouvimos que não deveríamos observá-las. Realmente, Jesus e Seus discípulos continuaram celebrando-as; e, posteriormente, os cristãos primitivos (judeus em si vivendo em um ambiente judeu), assim como o próprio Paulo seguia a mesma prática. Mas eles nunca sentiram ser necessário forçar a observância das festas aos gentios que desejavam juntar-se à comunidade dos crentes (Atos 15).

Sabiamente, chegaram eles à conclusão: “não devemos perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus, mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos [idolatrias], bem como das relações sexuais ilícitas [ética], da carne de animais sufocados e do sangue [princípios alimentares levíticos]. Porque Moisés tem, em cada cidade, desde tempos antigos, os que o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados” (At 15:19-21). Portanto, o decreto apostólico se refere aos três domínios da Lei de Moisés: idolatria, ética e alimentação. Todas essas prescrições foram baseadas na leitura dos livros de Moisés a “cada Sábado”, sugerindo que o respeito pelo quarto mandamento, “o Sábado,” estava, também, implicado no decreto apostólico. Nenhuma referência aos festivais é, até mesmo, implicitamente, dada no texto. Esta atitude contém um princípio de tolerância, não apenas para os gentios que não eram para ser perturbados pelo novo estilo de vida, com cargas desnecessárias, mas, também, implicitamente, para os judeus que queriam juntar-se à igreja. Pois se fora considerado inapropriado pelos apóstolos perturbar os gentios por impor sobre eles um novo estilo de vida implicando a observância das leis de circuncisão e dos festivais judaicos, teria, também, sido inapropriado perturbar os judeus por impor sobre eles a novo estilo de vida implicando o abandono daqueles costumes. A palavra não deveria ser usada nem para impor e nem para defender os festivais. Não deveríamos dizer “você deve observá-los” e nem dizer “você não deveria observá-los”.

Sabia e significativamente, Ellen White usa o termo “seria” e não “deveria” para expressar sua visão bastante positiva sobre o assunto: “bom seria,” diz ela, “que o povo de Deus na atualidade tivesse uma Festa dos Tabernáculos.”[11]­­ Embora sua declaração se refere a um único festival, sugere que Ellen White poderia ter sido a favor de explorar essa possibilidade, também, para outros festivais. Pela razão que ela dá para justificar esta prática, “uma jubilosa comemoração das bênçãos de Deus a eles,” pode-se aplicar para outros festivais semelhantemente. Em todo caso, este trecho mostra não apenas um atitude aberta por parte de Ellen White –ela não temia explorar novos horizontes– mas, também, uma atitude de tolerância e sabedoria. De fato, o uso do termo seria em vez do termo devia não apenas denota humildade e uma mente aberta, mas, também, mostra respeito por um outro ponto de vista. Tal postura de tolerância e prudência é recomendável, pois evitará o risco de reação e polarização, que sempre resultou em radicalismo e fanatismo e, ultimamente, resultou em divisões na igreja.

Uma celebração no calendário

Se escolhermos marcar a festa atrelada ao calendário secular, deveríamos fazê-lo com um claro entendimento do que a festa significa de uma perspectiva adventista do sétimo dia. A escolha de minha palavras aqui, celebrar em uma data no calendário em vez da liturgia, marcar os festivais em fez de fazê-los, guardá-los ou observá-los, é deliberada e intencional. A celebração de festivais não deveria ser imposta como uma obrigação doutrinária, litúrgica, religiosa ou, até mesmo, administrativa para a igreja como um todo. Deveria, em vez disso, ser sugerida como uma oportunidade opcional para relembrar do plano da salvação de Deus e da nossa missão e identidade profética. Poderia servir como uma oportunidade para ensinar, aprender e proclamar no lar, na igreja e no mundo, as grandes dimensões do plano da redenção de Deus.

Os festivais não são nada além de uma ferramenta pedagógica ou evangelística a ser usada, assim como alguma vezes usamos o modelo do santuário para testemunhar através desta lição objetiva à nossa mensagem singular. Deveria ser descritiva e instrutiva, não perceptiva. Se desejarmos marcar o festival, seria, contudo, aconselhável fazê-lo durante a sua estação, não porque queiramos ou necessitamos ser fiéis as normas agriculturais, ritualísticas ou legalísticas, mas, em vez disso, como um momento oportuno quando outras pessoas meditam sobre ele, assim como tradicionalmente fazemos com o Natal, a Páscoa ou Ação de Graças (embora esses festivais contenham elementos de origem pagã, tais como Papai Noel, Árvore de Natal e o Coelhinho da Páscoa). Fora da estação, esta prática parecerá inconveniente para uns, ofensiva para outros e perde seu poder significativo/semântico e comunicativo.

O problema principal encontra-se, todavia, no modo como os festivais poderiam ser marcados fora da Bíblia, considerando a ausência de instruções reveladas neste contexto e sem a ajuda de uma tradição desenvolvida da observância como temos no judaísmo. Para evitar iniciativas artísticas ou extravagantes que podem prejudicar ou comprometer o projeto inteiro, dois princípios fundamentais deveriam governar e orientar quaisquer tentativas de marcar os festivais:

  1. O respeito para com o lugar original de onde a inspiração das festas tem sido tirado, a saber, as Escrituras e o testemunho de Israel. Aprenda acerca do genuíno caráter da festa e informe-se sobre as tradições judaicas associadas a ela. Aparte-se de deturpações enganosas e confusas. Esteja certo de que as festas não tornem ocasiões para a promoção de ideia, fantasias e hobbies que não tenham nada a ver com as festas, tais como danças, aplicações carismáticas e espiritualísticas, sopro inadequado do shofar ou o uso de vestimentas exóticas. Tais expressões podem ser entendidas como uma brincadeira de mal gosto e comportamento desrespeitoso.
  1. O respeito ao novo local aonde a inspiração da festa foi importada, a saber, sua igreja. Consulte seus líderes, incluindo autoridades teológicas e seus amigos (até mesmo e especialmente aqueles que discordam de você), assegure-se que suas ideias de festivais e a informação que você reuniu estão bem fundamentadas e consistente com a teologia que você professa como um adventista do sétimo dia. Esteja certo, também, que seu experimento não seja mal compreendido, não venha a ferir outros membros e, de fato, sirva para o bem da igreja. Aparte-se de iniciativas separatistas, seja humilde e modesto e não tente impôr as suas visões e práticas a outros membros da igreja que podem não compartilhar da sua perspectiva e sensibilidade espiritual. Seja prudente para comem relação as suas emoções místicas e sentimentalistas sobre esses assuntos e suas convicções e não os confunda com a verdade divina ou o dom do Espírito.

Conclusão

Quanto a questão “Deveríamos Observar Os Festivais?”, minha resposta é, baseando-se na discussão acima, um claro e inequívoco “não, não nos é requerido observar os festivais” pelas seguintes razões:

(1) Festivais têm perdido a sua qualidade normativa assim que eles foram, essencialmente, cumpridos em Cristo e não mais dependentes das categorias de revelação bíblica. As leis de festas são distintas de outras leis tais como o Sábado e outras leis alimentares que não estão relacionadas aos sacrifícios ou dependentes do tempo e são de caráter universal. É, de fato, importante notar e compreender que Deus não nos proveu com quaisquer instruções, quaisquer leis sobre como esses festivais deveriam ser observados fora do templo. Se Deus não tem nos indicado como observá-los nessas condições, como poderia Ele, então, requerer a observância dessas leis? Estamos, aqui, dependentes, unicamente, de tradições humanas externas à revelação bíblica.

(2) Nenhuma costume e/ou tradição histórica adventista ou cristã existe acerca de como esses festivais foram e, portanto, poderiam ser observados.

(3) A missão e identidade específica do movimento adventista do sétimo dia não é definido como uma entidade litúrgica com uma tradição litúrgica histórica a testemunhar. Em contrapartida, a Igreja Adventista do Sétimo Dia identifica-se como uma mensageira profética com um escopo e missão universal, transcendendo a variedade de culturas e tradições e apontando para a ordem escatológica.

Por outro lado, este esclarecimento não deveria excluir as seguintes opções:

(1) O valor pedagógico de explorar e comunicar (verbalmente ou outro meio) as ricas verdades associadas com os festivais, a saber, seu significado no que diz respeito ao plano da salvação pelo passado, presente e futuro. Ainda que toda esta beleza e riqueza testificada pelas festas não as tornem leis normativas a ser imperativamente seguidas. Elas permanecem apenas como um ferramenta pedagógica.

(2) A celebração de festivais pode ser usada como meio de contextualização para alcançar judeus, assim como é feito com outros grupos culturais religiosos (Natal, Páscoa) ou secular (Ações de Graças). Ainda aqui, todavia, pode-se maravilhar acerca da eficiência e, até mesmo, caráter questionável deste método evangelístico de contextualização.

(3) Judeus adventistas, assim como os judeus cristãos primitivos, não deveriam sentir-se obrigados a abandonar a realização de festivais; e ninguém devia desencorajá-los de celebrá-los. Não apenas as festas pertencem a sua herança cultural, mas elas, também, os provê com um meio apropriado de alcançar outros judeus. Neste exemplo em particular, à luz de dimensões proféticas e teológicas da mensagem adventista do sétimo dia, sua experiência das festas podem, ainda, tornarem-se ainda mais significativa do que no passado. Essas práticas seriam implementadas, entretanto, com um entendimento claro que essas leis e tradições não são uma revelação profética e não são mais normativas.

A última lição a aprender dos festivais é relaxar e curtir a sua vida religiosa. Todas essas tensões e discussões se deveríamos, ou não, observar os festivais, vão, de fato, na contramão do espírito das festas. Longe de advertir contra uma discussão séria e tensa e forçar uma obrigação de observar ou não observar, a mensagem das festas é, pelo contrário, um convite gracioso para a alegria e a paz.

[1] Richard M. Davidson, “Sanctuary Typology,” em Symposium on Revelation–Book I, Daniel and Revelation Committee Series, vol. 6, ed. Frank B. Holbrook (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 1992), p. 120.

[2] Ver Talmude Babilônico, Ber. 4:1, 7; 26b; 32b.

[3] Ángel Rodríguez, Israelite Festivals and the Christian Church (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 2005), p. 9.

[4] Roy E. Gane, “Sabbath and Israelite Festivals,” Shabbat Shalom 50, no. 1 (2003): 28.

[5] Ibid., 414.

[6] The Oxford Dictionary of Jewish Religion (Oxford: Oxford University Press, 1997), p. 591; Encyclopaedia Judaica, corrected ed. (Jerusalem: Keter Publishing House, 1994), 12:1039.

[7] Irving Greenberg, The Jewish Way (New York: Simon & Schuster, 1993), p. 411.

[8] Gerhard Hasel, “The Sabbath and the Pentateuch,” emin The Sabbath in Scripture and History, ed. Kenneth A. Strand (Washington, DC : Review and Herald, 1982), p. 21; e id., “The Sabbath in the Prophetic and Historical Literature of the Old Testament,” em The Sabbath in Scripture and History, p. 45.

[9] Wikipedia, The Free Encyclopedia, s.v. “Gregorian calendar,” http://en.wikipedia.org/wiki/Gregorian_calendar (acessado em 30 de março de 2009).

[10] Acerca do significado e perigos do supercessionismo, a ideia que igreja substitui, “super-sucedeu”, Israel, ver ibid., 55–70; cp. id., The Mystery of Israel (Hagerstown, MD: Review and Herald, 2004), pp. 11-47.

[11] Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, pp. 540-541.

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