Como Estudar um Texto dos Manuscritos do Mar Morto: O Contexto dos Manuscritos (Parte 4 de 4)

This entry is part 4 of 4 in the series Como Estudar um Texto dos Manuscritos do Mar Morto

Como Estudar um Texto dos Manuscritos do Mar Morto: O Contexto dos Manuscritos


Lawrence Schiffman

Lawrence H. Schiffman é Professor de Hebraico e de Estudos Judaicos na New York University e Diretor do Global Institute for Advanced Research in Jewish Studies. O Professor Schiffman é especialista em Manuscritos do Mar Morto e fez parte do grupo internacional de estudiosos que prepararam uma ampla publicação dos Manuscritos em 1991. Autor de diversos artigos e livros com destaque para “From Text to Tradition, A History of Judaism in Second Temple and Rabbinic Times”.


Tradução: Hugo Martins.

Tradução do artigo publicada com autorização expressa do autor. O original, em inglês, pode ser acessado no site oficial do autor .


Parece haver um entendimento comum do contexto em que estudamos os Manuscritos, mas aparenta [também] estar desarticulados. Isso deveria ser muito visível desde que temos sido testemunhas de um debate absurdo em relação à evidência arqueológica que tem, de fato, obscurecido as questões reais que precisam ser discutidas acerca do significado do contexto arqueológico. Não entrarei nos pormenores, não é a minha especialidade.

Em vez disso, quero falar acerca do que eu denomino contexto interpretativo. A isso, me refiro ao problema que todos nós nos deparamos com os vários tipos de materiais paralelos que citamos, a saber: Bíblia Hebraica, textos do Segundo Templo, Novo Testamento e Literatura Rabínica, apenas citando os significativos. Eu não quero aqui sugerir que temos que seguir abordagens errôneas, mas, em vez disso, não estamos, normalmente, autoconscientes ou, alternativamente, estamos receosos de usar essas fontes apesar delas serem quase sempre a chave para o entendimento dos nossos textos.

A maioria dos textos de Qumran, sectário ou não, são altamente dependentes do que chamamos de textos bíblicos; isso é inquestionável. Do meu ponto de vista, esta dependência é um dos indicadores de canonicidade, não como entendemos, mas como entenderam os autores da maioria de nossos textos. Mas, independentemente dessa questão, com frequência, os textos “bíblicos”, da perspectiva de seus autores, da sua Vorlage, podem diferir-se em um nível pouco ou muito diferente do nosso.  Nossos estudos de textos não-bíblicos de Qumran, precisam estar constantes a par que a Bíblia é, essencialmente, um alvo em movimento. A própria fonte do material que estamos investigando está, em si mesma, no processo de cristalização conforme o desenrolar. Pode-se, unicamente, dar a atenção apropriada a este fator quando real material em manuscritos de Qumran, em outras fontes e nas versões antigas são constantemente consultados, mas, também, unicamente, quando os modelos gerais para a variância textual bíblica e o desenvolvimento observado nos Manuscritos são levados em consideração. Podemos chamar isso de “contexto textual”. É [o fator] mais importante para os textos bíblicos que, essencialmente, se sobrepõem cronologicamente aos textos de Qumran. Daniel é o caso óbvio.

Mas o exemplo bíblico já aponta para uma questão cronológica que é o caso da Bíblia Hebraica, do Novo Testamento e da Literatura Rabínica. Eu me refiro ao frequente modo apologético o qual usamos textos de outras épocas para interpretar a nossa literatura. De algum modo isso é menos sensitivo quando usamos a Bíblia Hebraica, desde que ela representa uma fonte presumida como prímeva, e é, portanto, análogo ao uso longamente aceito (e, naturalmente, correto) dos textos do Antigo Oriente Médio, das línguas da Bíblia Hebraica e Bíblia Hebraica para pesquisa do Novo Testamento. Naturalmente, no caso do Novo Testamento, assim como dos Manuscritos, a Bíblia Hebraica é explicitamente citada. Mas eruditos em Novo Testamento também se empenham para entender o caráter textual das citações da Bíblia Hebraica e suas alusões no Novo Testamento tanto quanto nos empenhamos no estudo dos Manuscritos do Mar Morto.

Uma outra classe de material paralelo que usamos é outra literatura do Segundo Templo, aproximadamente contemporâneo ao corpus sectário de Qumran ou aos textos pré-Qumran que, corretamente, vemos como provendo um pano de fundo ou como sendo material de base para os Manuscritos do Mar Morto. Aqui, entretanto, nossa questão do contexto manifesta-se de um modo muito diferente. Precisamos, aqui, estar conscientes de que o contexto desses textos, e a maneira como agrupamos e analisamos eles, não pode estar em termos de como os encontramos, isso é, nas coleções do que chamamos de Apócrifos, Pseudoepígrafos e Manuscritos do Mar Morto. Cada vez mais, precisamos ver todos os textos do período do Segundo Templo como um corpus literário complexo e interligado, ainda que apenas parcialmente representativo do povo judeu e da tradição da época. Depois de tudo, devemos estar sempre conscientes enquanto lidando com o período que nós sabemos que é apenas uma pequena parte de uma moldura muito maior que simplesmente não se conhece.

Nossa maior hesitação, todavia, está no uso de materiais tardios: o Novo Testamento e a Literatura Rabínica. Eu quero me voltar diretamente a legitimidade de usar textos tardios, uma abordagem que denomino de “triangulação”. Naturalmente, nosso problema é que, frequentemente, materiais para contrastes ou comparações de valor, ou chaves para uma exegese de qualidade, são encontrados nesses textos tardios. Além do mais, sabemos que quaisquer conexões são andrógenos indiretos de transmissão que são, comumente, impossíveis de se traçar. Então, o que fazemos? A meu ver, nunca podemos afirmar que uma prática religiosa ou uma crença em um texto tardio pode ser entendido como representação de um costume antigo. Mas quando encontramos alusões a uma prática ou a uma oposição a ela em um texto dos Manuscritos, temos o direito de supor que a prática documentada de [materiais] tardios podem nos ajudar a entender materiais prímevos e vice-versa. A meu ver, a conjuntura de termos, ideias e práticas do judaísmo primitivo podem ser consideravelmente enriquecidas por este tipo de método e deveríamos acabar com a apologética nesta abordagem enquanto, cuidadosamente, distinguindo-a de anacronismo.

Esta discussão poderia ser, facilmente, estendida para discutir [ainda] mais aspectos sobre o modo como realizamos nossas atividades. Meu ponto, aqui, hoje, é apelar para uma reavaliação nossa de como nos adequamos intelectualmente à estrutura disciplinar integrativa da universidade moderna. Acredito eu que tal consideração poderia alavancar progressos em número considerável de questões relacionadas aos Manuscritos do Mar Morto. Temos que chegar em algum ponto já que temos edições textuais disponíveis, comentários, traduções e inúmeras ferramentas de pesquisa. Temos produzido excelentes artigos em larga escala. Espero que dando uma consideração maior aos cânones disciplinares com os quais nossos homólogos trabalham, podemos enriquecer nossas pesquisas e ajudar a abrir caminho para os manuscritos terem um papel central maior nos campos mais vastos do estudo do Judaísmo e Cristianismo Antigo.

 

Series Navigation<< Como Estudar um Texto dos Manuscritos do Mar Morto: Consenso e Dissidências (Parte 3 de 4)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.