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Como Estudar um Texto dos Manuscritos do Mar Morto: Consenso e Dissidências


Lawrence Schiffman

Lawrence H. Schiffman é Professor de Hebraico e de Estudos Judaicos na New York University e Diretor do Global Institute for Advanced Research in Jewish Studies. O Professor Schiffman é especialista em Manuscritos do Mar Morto e fez parte do grupo internacional de estudiosos que prepararam uma ampla publicação dos Manuscritos em 1991. Autor de diversos artigos e livros com destaque para “From Text to Tradition, A History of Judaism in Second Temple and Rabbinic Times”.


Tradução: Hugo Martins.

Tradução do artigo publicada com autorização expressa do autor. O original, em inglês, pode ser acessado no site oficial do autor .


Quero introduzir um problema relacionado ao entendimento de nosso próprio campo. Tem a ver com a discussão do “consenso” versus o que tão frequentemente denomina-se “teorias dissidentes”. Esta terminologia mascara algumas questões muito importantes na epistemologia acadêmica e penso eu que fazemos a nós mesmos um desserviço com este tipo de descrição. Para muitos, este termo implica em uma Weltanschauung [visão de mundo] política, em vez de uma Weltanschauung acadêmica.

Ciências Humanas não é uma ciência exata. Precisamos lembrar que, até mesmo, em uma ciência exata há uma avaliação humana dos resultados da observação ou da experimentação. Uma vez que os fatos estiverem corretamente estabelecidos, cientistas debaterão o significado daqueles fatos. A incapacidade de demonstrar que os fatos são fatos reais, resulta, normalmente, em uma desqualificação completa da pesquisa. Em Ciências Humanas, lidamos, também, com fatos e com a avaliação daqueles fatos. Entretanto, de fato, há três categorias: fatos reais; fatos prováveis, similares àqueles das ciências exatas, o que, então, denomino de “fatos conjecturados”, significando que os eruditos têm opiniões diferentes acerca dos dados em si. Uma categoria intermediária é característica da atividade de todas as Ciências Humanas; finalmente, há a categoria da avaliação, comum, até mesmo, as ciências exatas.

Quando aplicada ao nosso campo, funciona do seguinte modo: Primeiro, há um conjunto de fatos que resultam de nossa observação de materiais textuais, achados arqueológicos e do contexto histórico; este conjunto de fatos, como a datação do corpus geral da pluriformidade dos textos bíblicos, está, teoreticamente, sujeito a refutação e, consequentemente, pode ser considerado factual. Segundo, podemos debater, apropriadamente, se um dado fragmento é o Deuteronômio ou a Torah expandida; esta é a categoria dos fatos conjecturais; há fatos, mas podemos, legitimamente, discordar quais são. A terceira categoria, nossas avaliações individuais ou compartilhadas, para ser legítima, tem de estar baseada em fatos comprovados, particularmente os argumentos em relação aos fatos conjecturados, e tem de ser capaz de ser comprovada para fluir de fatos comprovados para conjecturados, se não for o caso de da obra de um erudito em geral, ou de uma contribuição particular, não é científico e nem aceitável. Para que uma teoria alternativa seja exatamente assim, tem de ser analisada neste modo e proceder de acordo com este padrão acadêmico lógico. Se assim não for, é charlatanismo.

Deste ponto de vista, podemos reavaliar a ideia de um consenso. Declarações que fazem asserções acerca de tais coisas como a identificação dos essênios para efeitos de constituir um consenso, estejam elas certas ou erradas, passam a impressão de uma disputa pelo controle de ideias e, assim, esses tipos de declarações deturpam o modo que realizamos nossa atividade acadêmica. Em vez disso, o consenso indiscutível é acerca do modus operandi que eu tenho proposto que fui das abordagens tradicionais das Ciências Humanas. É um consenso que aceita a realidade de fatos cientificamente comprovados e trabalha a partir deles. Isto é o que separa os principais eruditos em Estudos dos Manuscritos das tão aclamadas visões dissidentes.

 

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