Ataques Recentes ao Caráter de Deus


Ataques Recentes ao Caráter de Deus

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Jiří Moskala Th.D., Ph.D., é Professor de Teologia e Exegese do Antigo Testamento e Diretor do Seminário Teológico Adventista da Andrews University em Michigan. Moskala começou o seu ministério como pastor na União Checoeslovaca, e fê-lo até 1989. Quando o regime comunista caiu após a Revolução de Veludo, ele estabeleceu o primeiro Seminário Teológico de Praga e serviu ao mesmo como seu primeiro reitor. Moskala também foi diretor da Sociedade de Vida e Saúde, Departamento de Educação e do Departamento de Saúde da União Checoeslovaca.


Tradução: Hugo Martins

“Ataques Recentes ao Caráter de Deus” (Original em Inglês: “Recent Attacks on the Character of God”) é uma publicação da revista Perspective Digest, a detentora dos direitos deste artigo que permitiu a tradução e a publicação da tradução para o nosso site.


“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (João 17:3).[1] Para o pensamento bíblico cristão, conhecer a Cristo significa, existencialmente, vida eterna. O pastor batista Jeremy LaBorde, corretamente, declara: “O que você crê ser a verdade, controlar-te-á.”[2]

Richard Rice, apropriadamente, observa: “Nosso entendimento de Deus tem enorme significado prático. . . . O que pensamos de Deus e como respondemos a Ele estão profundamente relacionados. Uma visão superficial de Deus pode ter um efeito desastroso na experiência religiosa pessoal. Jamais poderíamos amar um ser hostil, tirânico. . . . E não poderíamos respeitar uma personagem relapsa, indulgente, que jamais nos levaria a sério. Nossa experiência religiosa pessoal pode ser saudável unicamente se sustentarmos uma concepção adequada de Deus.”[3]

Felicidade e equilíbrio na vida dependem de uma imagem correta de Deus. Entretanto, ataques recentes ao caráter de Deus em formas diferentes —não somente por ateístas, mas, até mesmo, por pensadores cristãos— têm influenciado a muitos e resulta em uma compreensão da importância da teodiceia que é a combinação de dois termos gregos: theos (“Deus”) e diké (“justiça”). Teodiceia se refere a uma discussão do problema do mal e uma defesa da justiça de Deus no contexto da existência do mal.

Ateísmo em Minha Vida

Ateísmo fez parte da minha jornada pessoal ainda que eu nunca fosse um ateísta; por quase quarenta anos, fui confrontado diariamente com esta ideologia. Nasci e cresci em uma nação ateia (na República Tcheca, na antiga Checoslováquia) e frequentava escolas ateístas. Toda ideologia era ateísta e baseada na Teoria da Evolução e na premissa da sobrevivência do mais apto.

Mesmo embora eu fosse de uma família adventista do sétimo dia, um dos membros integrantes de nossa família era meu tio que vivia conosco e era um ateu convicto. Ele tentava arduamente me persuadir que a hipótese evolucionária era a melhor explicação para as origens da vida e que acreditar em Deus era absurdo, crido tão somente pelos fracos, incultos e idosos.

Minha estória está ligada mesmo com a perseguição sob o governo ateísta. Fui ridicularizado em escolas por ser um cristão adventista do sétimo dia; meu pai tinha imensas dificuldades no trabalho por causa de suas crenças, especialmente em relação à observância do Sábado; meu sogro foi preso por causa de sua fé. Durante meus estudos, eu tinha que frequentar muitas aulas ateístas e ler livros ateísta. Em meus estudos universitários em Praga, tive alguns dos melhores filósofos marxistas para me ensinar sua ideologia e filosofia. Era constantemente confrontado com ateísmo.

Aprendi que ateísmo é, também, uma espécie de religião que se baseia na razão como autoridade suprema. Em tal sistema, a Teoria da Evolução é intocável e alguns dos pensadores ateístas —Lenin, Marx, Engels, Nietzsche, Sartre e outros— são “adorados.”

Hoje, neo-ateístas —e até mesmo alguns estudiosos, teólogos e apologetas cristãos— não estão trabalhando contextual e teologicamente com o material bíblico. Eles são altamente seletivos e recontam a estória bíblica com suas próprias distorções com o propósito de ridicularizar a fé cristã em Deus intencionando negar Sua existência. Eles não fazem justiça à intenção original do texto bíblico e à real descrição bíblica geral de Deus. No entanto, tudo na vida espiritual depende de uma descrição verdadeira de Deus.

Ateísmo Clássico — Principais Argumentos e Afirmações

A principal asserção ateísta é que a religião é uma invenção humana, que é errônea e apenas para os fracos. “O homem faz a religião,” Karl Marx enfaticamente dizia: “religião não faz o homem, a religião é, de fato, a autoconsciência e o sentimento de si do homem, que ou não se encontrou ainda ou voltou a perder-se. . . . Religião é o ópio do povo!”[4] Lênin afirmava: “Religião é o ópio do povo: este dito de Marx é a pedra angular da ideologia inteira do marxismo acerca da religião.”[5]

Frequentemente, pessoas encontravam respostas às suas questões difíceis no ateísmo. A hipótese evolucionária provê uma solução fácil para a questão da origem da vida. Os mais fortes argumentos contra o cristianismo, entretanto, eram baseados na injustiça no mundo e o sofrimento dos inocentes. Como poderia o bom e onipotente Deus permitir campos de concentração, tortura, estupro e violência contra mulheres e crianças? Porque esses males existem, isso é certo, Deus não existe. Ateístas apontam com desdém as inúmeras guerras religiosas, a Idade das Trevas, a Inquisição e os ensinos das igrejas cristãs —tais como a doutrina do inferno, o ministério intercessor dos santos e a crença em milagres.

Bertrand Russell explicava que se alguém quisesse ser intelectualmente honesto e cientificamente informado, tal pessoa não poderia acreditar em Deus. Ele também rejeitava o Cristianismo por causa da doutrina do inferno: “Há um defeito muito sério em minha opinião no caráter moral de Cristo,” escreveu ele: “e este é que Ele acreditava no inferno. Eu mesmo não sinto que qualquer um que seja, realmente, profundamente, humano possa acreditar na punição eterna. . . . Eu penso que tudo desta doutrina, em que o fogo do inferno é uma punição para o pecado, é uma doutrina de crueldade. É uma doutrina que põe crueldade no mundo e deu ao mundo gerações de tortura cruel; e o Cristo dos Evangelhos, se você pudesse levá-lO como Seus cronistas O representam, teriam, certamente, que ser considerados parcialmente responsáveis por isso.”[6]

Ellen G. White tem um comentário profundo sobre a influência danosa de um entendimento errôneo da doutrina do inferno: “Está além do poder do espírito humano avaliar o mal que tem sido feito pela heresia do tormento eterno. A religião da Bíblia, repleta de amor e bondade, e abundante de misericórdia, é obscurecida pela superstição e revestida de terror. Ao considerarmos em que cores falsas Satanás esboçou o caráter de Deus, surpreender-nos-emos de que nosso misericordioso Criador seja receado, temido e mesmo odiado?”[7]

Ateístas clássicos, normalmente, não descrevem uma imagem negativa de Deus. Era suficiente para eles assegurar a não existência de Deus e a tolice de acreditar em Deus. Alguns, até mesmo, expressavam sua frustração e nostalgia porque as razões para acreditar em Deus não eram fortes o suficiente, mesmo que o coração humano anseie por um Deus de amor em quem descansar. Thomas Hardy, em seu poema “O Funeral de Deus,” expressa a melancolia de Deus estar morto; Matthew Arnold, no poema “Praia de Dover”, descreve, eloquentemente, descreve esses estranhos sentimentos quando se perde a certeza e a beleza da fé.

Poder-se-ia esperar que com a queda da Cortina de Ferro, e do comunismo em 1989 nos anos 1990, que a ideologia ateísta teria, do mesmo modo, também, morrido. Enquanto a ideologia do ateísmo e sua propaganda estavam perdendo espaço, ressurgira, todavia, especialmente após o 11 de setembro de 2001 porque as pessoas compreenderam como nunca antes a paixão da religião organizada pelo poder.

Ateísmo está, agora, revivendo e agindo de modos mais sutis. Tem, também, se tornado bastante agressivo e encontra-se, ainda, fundamentado da Teoria da Evolução de Darwin. Esta tem, também, nutrido a evolução de religião de muitos deuses para uma forma mais pura de um Deus e, então, ao pináculo da evolução da religião —sem Deus. Para o ateísta, sua própria razão e sua própria cosmovisão científica decidem todas as coisas.

Neo-Ateísmo

Com o despertar do neo-ateísmo surgiu um novo fenômeno. A origem naturalista da vida está agora misturada a ataques agressivos a religião, incluindo, especialmente, o Islã e o Cristianismo. Eles repetem os velhos argumentos ateístas com um raciocínio científico aprimorado e novas táticas. Eles tentam demonstrar que acreditar em Deus não é apenas uma tolice, mas que a religião é mal, perigosa e nociva. Eles, viciosamente, atacam o Deus do Antigo Testamento, assim como a religião em geral, expressam, até mesmo, sua fúria com charme e elegância. Os escritos de quatro proeminentes representantes do neo-ateísmo no mundo hoje:

  • Richard Dawkins é o mais famoso dos quatros e um prolífico autor. Professo emérito de biologia evolucionária na Universidade de Oxford, ele, agressivamente, desafia a religião cristã. Dawkins formulou o mais articulado e vicioso ataque ao Deus da Bíblia. “O Deus do Antigo Testamento” escreveu ele, “é, provavelmente, a mais desprezível personagem de todas as ficções: ciumenta e orgulhosa; uma manipuladora bizarra, injusta e impiedosa dos fracos; uma limpadora étnica vingativa e sedenta de sangue; uma opressora caprichosamente malevolente, misógina, homofóbica, racista, infanticida, genocida, filicida, pestilenta, megalomaníaca e sadomasoquista.”[8]

Marcião, no segundo século da era comum, já tinha expressado pensamentos negativos acerca do Deus do Antigo Testamento, mas Dawkins toca forte fortissimo com a mesma melodia e as pesadas afirmações que o Deus das Escrituras Hebraicas é um monstro moral. Ademais, Dawkins defende uma opinião que tudo tem, unicamente, uma origem biológica. Ele critica, também, o ensino do inferno por muitos cristãos.

  • Sam Harris é, também, um crítico de religião. Sei primeiro livro, “O Fim da Fé,” levantou um debate acerca da validade da religião. Em seu “Carta a uma Nação Cristã,” ele se posiciona contra sacrifícios de crianças a deuses sedentos de sangue e argumenta que o sacrifício expiatório de Jesus pelas transgressões da humanidade é uma reminiscência dessas práticas religiosas pervertidas. Ele escreveu, então, “A Paisagem Moral: Como a Ciência Pode Determinar os Valores Humanos” porque ele compreendia que a pessoas pensam que a ciência e a evolução nada têm a dizer da questão da moralidade e dos valores humanos. Ele tenta responder este quebra-cabeça através da ciência porque, do contrário, o comportamento ético das pessoas é uma das justificações primárias para a fé cristã.
  • Christopher Hitchens, falecido recentemente, era polemicista e jornalista que do ataque a religião uma questão pessoal. O título de sua principal obra descreve, eloquentemente, a razão e o objetivo de escrever o livro “Deus Não É Grande: Como A Religião Envenena Tudo.” Esta frase é uma referência à típica expressão muçulmana: “Deus/Alá é grande.” Hitchens negava a relevância de qualquer religião e define esta como um veneno social. Como um resultado de sua leitura dos principais textos religiosos, ele declara que a religião é um produto humano, uma causa do perigoso controle sexual e uma distorção de nosso entendimento das origens. Ele defende uma vida secular baseada na ciência e na razão.
  • Daniel Dennett, um cientista cognitivo da Universidade de Tufts, publicou, em 1991, um livro provocador, “Consciência Explicada” e qualquer um que lê este livro concordará que explicar a consciência humana não é uma tarefa fácil. Dennett explica tudo do ponto de vista naturalista. Ele afirma que a consciência humana, em vez de ser uma “rede de cabos” no maquinário inato do cérebro, é mais semelhantemente a um software que é executado no hardware do Ciências Humanas e é extensamente o produto da evolução cultural.

Em um outro de seus livros, “A Perigosa Ideia de Darwin: Evolução e Os Significados da Vida,” Dennett defende a força da teoria da seleção natural. Argumentação populista para defender a teoria da evolução de Darwin o levou à conclusão que a hipótese evolucionária é como um poderoso ácido, uma “solvente universal, capaz de dissolver tudo o que encontra pela frente.” Por fim, ele afirma que “o verdadeiro aspecto perigoso da ideia de Darwin é seu poder de sedução.”[9] Dennett em sua discussão da moralidade e da religião afirma que os cristãos produzem  terror, abuso psicológico, inferno e fobias.[10]

As visões desses pensadores e cientistas neo-ateístas estão fundamentadas em visões romantizadas da natureza humana e na negação do poder do pecado. Esta compreensão positivista de nossa natureza está fadada ao fracasso como a história da humanidade demonstra. O egoísmo do coração humano é naturalmente incurável e não vai bem a melhor, mas de mal a pior. No Comunismo, todos eram consideráveis iguais, mas alguns (membros diretores do partido) eram mais iguais. Corrupção, infortunadamente, é um problema notório em qualquer sistema político.

É verdade que muitos crimes têm sido cometidos e guerras travadas em nome de Deus ou de Alá. (Como adventistas do sétimo dia, protestamos fortemente contra uso impróprio da religião —a Inquisição, escravidão, ataques terroristas, etc.). Violência em nome de Deus é uma mancha escura, uma maldição e uma praga na história do cristianismo e traz uma vergonha imensa aos Cristãos. Mas atrocidades foram, também, cometidas por ditadores ateístas como um resultado de uma negação de Deus: Hitler, Stalin, Pol Pot e Mao Tse-Tung.

Contar uma ilustração da Revolução Francesa deve ajudar. Em 1793, quando a religião fora substituída pela razão, quando Maron Roland, uma advogada de princípios democráticos, estava indo ser executada, ela curvou-se sarcasticamente em direção à estátua da liberdade na Praça da Concórdia e proferira as palavras as quais por elas é lembrada: “Ó Liberdade, quantos crimes cometem-se em teu nome!”[11]

A desumanidade, de fato, é um elemento comum na natureza humana pecaminosa, sem considerar se os perpetradores são religiosos ou ateísta. O coração pecaminoso não pode ser mudado meramente pela educação, uma melhor economia ou circunstâncias diferentes. Unicamente uma verdadeira conversão operada pelo poder da graça de Deus, Seu Espírito e Sua Palavra podem, definitivamente, moldar o coração humano. Nenhum amor verdadeiramente altruísta é possível mediante inclinações biológicas. Na melhor das hipóteses, o comportamento humano pode demonstrar amor altruísta, mesmo ainda tingido com egoísmo. De uma perspectiva evolucionária consistente, é impossível um autossacrifício genuíno ou a moralidade brotar do coração naturalmente. De acordo com a ideologia ateísta, unicamente os fortes e poderosos sobrevivem no final.

Descrições Negativas do Caráter de Deus por Teólogos Cristãos

Juntos a esses quatro arautos do neo-ateísmo, alguns pensadores cristãos descrevem uma imagem negativa de Deus com seus argumentos pragmáticos e bíblico-teológicos que têm aparecido na literatura atual. Textos difíceis das narrativas bíblicas são conjecturados, comumente, baseando-se na própria interpretação do autor.

Construções teológicas são muitas e deve-se, seriamente, perguntar se elas descrevem e explicam da melhor maneira o significado de textos bíblicos difíceis. Por exemplo, a estudiosa bíblica Julia O’Brien define descrições de Deus como “um marido abusivo,” ”uma pai autoritário” e um “guerreiro irado.”[12] David Penchansky intitula os seis capítulos de seu livros como: “O Deus Inseguro,” “O Deus Irracional,” “O Deus Vingador,” “O Deus Perigoso,” “O Deus Malevolente” e “O Deus Abusivo.”[13] Leitores das Escrituras Sagradas debatem-se, sinceramente, com tais descrições de Deus. Um dos ataques mais agressivos ao caráter amoroso de Deus é perpetrado por Bart D. Ehrman, autoridade proeminente em Igreja Primitiva, Crítica Textual do Novo Testamento e Vida de Jesus em seu livro: “O Problema Com Deus – As Respostas Que a Bíblia Não Dá ao Sofrimento.”

Os argumentos mais comuns para detratar a Deus são os seguintes:

  1. Deus não é bom porque há muito sofrimento inocente no mundo e Ele é culpado de todo o mal.
  1. Fora ordenado a Abraão sacrificar seu próprio filho porque Deus é um monstro sedento de sangue demandando um sacrifício humano (Gênesis 22);
  1. Abuso infantil —quarenta e duas crianças foram mortas por dois ursos porque elas estavam ridicularizando o profeta Elias (2 Reis 2:23–25);
  1. Deus não é grande ou bom, contrariando os dizeres religiosos mais populares.
  1. Josué cometeu genocídio em Canaã;
  1. Guerras foram perpetradas em nome de Deus e sob Seu comando;
  1. Deus é cruel porque Ele permite pessoas sofrerem, por exemplo, punindo os egípcios com 10 pragas incluindo a matança de seus filhos primogênitos;
  1. Deus é um ser invejoso e egocêntrico em Seu clamor que outros deuses precisam ser destruídos;
  1. Etnocentrismo e racismo, chamando Abraão, por exemplo, de fundador de uma nação específica a ser a portadora de luz e de maldição em Canaã;
  1. Dotes e escândalos sexuais;
  1. Inferioridade das mulheres em relação aos homens;
  1. Instituição do casamento levirato;
  1. Poligamia no Antigo Testamento;
  1. A legislação veterotestamentária é preenchida com violência, tais como olho por olho e punição capital;
  1. Incesto de Ló e suas duas filhas;
  1. Estupro e violência no Livro dos Juízes;
  1. Vida de David —guerreiro, polígamo, assassino, adúltero e, mesmo assim, um homem segundo o coração de Deus;
  1. Sofrimento do inocente Jó para “não provar coisa alguma” no final da estória.

Epícuro, um filósofo grego do terceiro século A.E.C., afirmou: “Ou Deus quer abolir o mal e não pode; ou Ele pode, mas não quer. Se Ele quer, mas não pode, Ele é impotente. Se Ele pode, mas não quer, Ele é mau. Se Deus pode acabar com o mal e realmente quer fazê-lo, por que ainda existe o mal no mundo?”[14] Por causa de conflitos malignos com a existência de Deus, muito fazer conclusões fáceis, simplistas e falsas: ou Deus não existe ou Ele não se importa. Como pode um Deus alegadamente perfeito, amoroso e onipotente existir com tanto mal, sofrimento e morte no mundo?

O que fazer diante dessas questões e da vasta literatura teológica e ateísta sobre a descrição bíblica de Deus? Tratar a Deus como imoral ou impotente não é nada novo, mas recentes interpretações ateísta e, até mesmo, bíblicas surgem com argumentações e distorções inovativas que são perturbadoras, chocantes e humilhantes.

O Livro do Escândalo de Jó

O sofrimento inocente de Jó é a objeção mais notória e significante para se crer na bondade e na justiça de Deus. Deve-se perguntar, qual é o propósito primário deste antigo documento? Pretende o autor responder a questão do porquê o inocente sofre como normalmente é afirmado? É uma estória sobre a aposta feita entre Deus e Satanás? Uma estória sobre quem está certo e quem vencerá?

Bart Ehrman dá sua resposta negativa para essas questões enfaticamente: “O próprio Deus gerou a miséria, a dor, a agonia e as perdas que Jó experimentou. . . . E com que propósito? Sem ‘sem razão alguma’ —a não ser provar a Satanás que Jó não amaldiçoaria a Deus mesmo se ele tivesse o direito de fazer isso. . . . Deus fez isto a Jó apenas para ganhar uma aposta de Satanás. . . . Mas Deus está, evidentemente, acima da justiça que Ele pode fazer o que quiser se Ele quiser provar alguma coisa.”[15]

Mas o que Deus permite não quer dizer que Ele faça. O texto bíblico revela que fora Satanás que trouxera as calamidades sobre Jó e não Deus (Jó 1:12; 2:6–7). Deus é o Criador da vida e criou tudo muito bom (Gn 1:31). O mal vem de uma outra fonte (Mt 13:38–39).

A questão mais crucial no livro não é o sofrimento de Jó; nem é a aposta particular ou caprichosa entre Deus e Satanás porque o drama inteiro do livro começa no Céu quando os filhos de Deus se reúnem diante do soberano Senhor (Jó 1:6). Neste cenário cósmico, O Grande Conflito se desenrola, sinalizando, portanto, que o problema é universal. O reconhecimento desta dimensão cósmica é a questão crucial.

Satanás se opõe a Deus, pronunciando a justiça de Jó (1:8; 2:3) e O ataca com uma questão medonha e aparentemente inocente: “Será que Jó não tem razões para temer a Deus?” Esta pergunta cínica introduz todo o enredo do livro porque Satanás, categoricamente, nega que Deus é justo em justificar a Deus e proclamá-lo como perfeito. À primeira vista, a observação parece estar direcionada a Jó, mas é, na realidade, um ataque a Deus por tentar refutar Sua declaração sobre Jó. Portanto, o tema principal do Livro de Jó é a justiça de Deus —a confiabilidade de Sua palavra. O drama real volta-se para o fato que Deus é por nós e proclama-nos justos, e o Livro de Jó é, realmente, uma indagação para a presença de Deus na vida?

Como Satanás pode ser derrotado? Esta questão precisa ser respondida para derramar luz sobre a questão inteira da teodiceia e o conflito no Livro de Jó. Surpreendentemente, Satanás não pode ser derrotado pela lógica porque para cada argumento há um contra-argumento. Refutar alguém apenas com fatos externos não leva a resultados duradouros. Se Satanás pudesse ser derrotado por meio de debate, Deus o teria feito há muito tempo atrás, pois Ele é a Verdade (Ex 34:6; Dt 32:4; Sl 31:5; Jr 10:10; Jo 17:17).

Satanás pode ser derrotado pela força? Nada o agradaria mais do que o uso da força em qualquer forma a ser usada. Isto é exatamente o que ele quer provar acerca de Deus. Ele que acusá-lO de usar a força, mas falta-lhe evidência; ele não consegue demonstrar. Naturalmente, Satanás poderia ser silenciado pelo poder de Deus se Deus assim escolhesse fazer. O Criador onipotente é, também, o Homem de guerra (Ex 15:3; Is 42:13; Jr 20:11). Nesse caso, entretanto, Deus seria acusado de não jogar limpo porque Ele é mais forte e, portanto, tem uma vantagem sobre Satanás. O Grande Conflito necessita ser vencido —mas de uma forma diferente, pelo poder moral.

Satanás pode ser derrotado unicamente por alguém que seja mais fraco do que ele e Deus pode fazê-lo tão somente com munição de pureza —amor, verdade, justiça, liberdade e ordem. Satanás saca diferentes armas de um arsenal maligno: ambição, orgulho, mentiras, enganos, violência, fúria, ódio, preconceito, racismo, terrorismo, vícios, manipulação, etc. Quão frequentemente questiona-se o porquê o Deus Todo Poderoso permitir tragédias acontecerem nas vidas de pessoas boas, esquecendo que a vitória de Deus não é vencida pelo poder ou pela força. Um Senhor gracioso não age como um Superman. Ele vence pela humildade.

Esta é a razão para a encarnação. O Deus do universo inteiro tivera que tornar-se fraco para derrotar o mal. Unicamente com as fragilidades da humanidade poderia Ele derrotar Satanás. Na cruz do Calvário, o Deus Criador demonstrara Seu amor, verdade e justiça. O Deus sofredor, pendurado na cruz, é um Deus vitorioso. Ele vivera uma vida em total dependência do relacionamento com o Seu Pai.

Que paradoxo! O pecado começou com o orgulho, mas foi sobrepujado pela humildade (Fl 2:5–11).

Na estória de Jó, unicamente o próprio Jó, que era mais fraco que o demônio, poderia refutar o argumento de Satanás, derrotá-lo e provar, portanto, que Deus estava certo quando Ele o justificara e ficou do lado de Jó. Jó sobrepujou o demônio não porque ele era bom ou forte (Jó 10:6; 14:17), mas porque ele totalmente entregara a sua vida a Deus. Ele fizera isto em confiança e segurança no Deus que deu a ele força e vitória (Jó 13:15; 19:25–27; 42:5). Paulo, eloquentemente, diz: “Quando sou fraco, então, é que sou forte” (2 Co 12:10).

Quando Jó demonstrou que ele amava a Deus acima de tudo, a posição de Deus em sua causa fora vindicada. Sua justiça prevalecera. Deus é justo em nos justificar porque Sua graça e presença, mesmo que muito frequentemente não vista e silente, sustêm Seu povo. Deus demonstra que Ele governa com amor e justiça. A beleza do caráter de Deus brilha intensamente porque Deus é Deus de amor, verdade e justiça.

A Tarefa Primária do Cristão

A primeira tarefa dos seguidores de Cristo é apresentar ao mundo uma descrição precisa de Deus. Esta é a obra que precisa ser realizada antes da segunda vinda de Cristo porque Satanás tem, grotescamente, distorcido o caráter de Deus desde o início (Gn 3:1–6). Ataques pós-modernos a Deus, ao Seu caráter e às Escrituras estão mais sofisticados e mais fortes do que nunca. A tarefa do discípulo de Cristo é ser uma testemunha para Deus e deixar Sua glória brilhar em seu caráter (Ap 14:4).

Apocalipse 18:1 declara que, no fim da história, a glória de Deus brilhará através do mundo. A obra final do povo de Deus será deixar que Deus ilumine o mundo com a Sua glória por meio dele. Este será o mais poderoso argumento em favor da existência e do amor de Deus e Seu verdadeiro caráter será defendido. Somos um espetáculo ao mundo e ao universo inteiro (1 Co 4:9). O povo de Deus precisa viver para a glória de Deus, refletindo em suas vidas o caráter amorável de Deus.

De acordo com 2 Tessalonicenses 1:3–5, a fé e o amor que vive nos crentes são a evidência que Deus é verdadeiro e Seus juízos são justos. Ellen G. White explica que o papel do cristão na parábola acerca das 10 virgens: “A escuridão do falso conceito acerca de Deus é que está envolvendo o mundo. Os homens estão perdendo o conhecimento de Seu caráter. Este tem sido mal compreendido e mal interpretado. Neste tempo deve ser proclamada uma mensagem de Deus, uma mensagem de influência iluminante e capacidade salvadora. O caráter de Deus deve tornar-se notório. Deve ser difundida nas trevas do mundo a luz de Sua glória, a luz de Sua benignidade, misericórdia e verdade. . . . Os últimos raios da luz misericordiosa, a última mensagem de graça a ser dada ao mundo, é uma revelação do caráter do amor divino. Os filhos de Deus devem manifestar Sua glória. Revelarão em sua vida e caráter o que a graça de Deus por eles tem feito.”[16]

Muitos textos bíblicos afirmam o amor abundante de Deus (Ex 34:6–7; Sl 100:5; 117:2; 136:1–26; Rm 5:5, 8; 1 João 3:1; 4:16). Experimentar pessoalmente a bondade de Deus (Sl 34:8) leva ao arrependimento (Rm 2:4). O Deus da Bíblia é o Deus de amor, verdade, justiça, liberdade e ordem.

A melhor prova da existência de Deus e de Sua bondade é nossa experiência pessoal com Ele. Unicamente a nossa apreciação do sacrifício supremo de Cristo por nós na Cruz pode dar paz interior e certeza de Seu amor em tempos quando calamidades, guerras e tragédias da vida ocorrem. Cristãos semelhantes a Cristo são a melhor prova da presença de Deus. Cristãos que amam são o argumento máximo do Deus de amor.

Em tempos de grande sofrimento, não há respostas fáceis. Naquelas situações, precisaremos nos focar no grande cenário da revelação de Deus que proeminentemente testifica da bondade de Deus. Uma inscrição foi encontrada no muro de uma adega em Colônia, Alemanha, onde os Judeus se escondiam dos nazistas. O autor anônimo deixou para trás as seguintes palavras profundas: “Eu acredito no sol quando ele não brilha. Eu acredito no amor, mesmo quando eu não o sinto. Eu acredito em Deus, mesmo quando Ele está silente.”[17]

[1] Caso não seja especificado, todas as citações das Escrituras são da Almeida Revista e Atualizada.

[2] Citado em “What You Believe to Be True Will Control You”: http://bigthink.com/search?utf8=%E2%9C%93&q=Jeremy+LaBorde. Acessado em agosto de 2015.

[3] Richard Rice, God’s Foreknowledge and Man’s Free Will (Minneapolis: Bethany House, 1985), p. 10.

[4] Karl Marx e Friedrich Engels, The Collected Works of Karl Marx and Friedrich Engels (Moscow: Progress Publishers, 1975–2005), vol. 3, p. 1.

[5] Vladimir I. Lenin, “About the Attitude of the Working Party Toward the Religion,” em Lenin’s Collected Works, 47 vols. (Moscow: Progress Publishers, 1960-1980), 17:41.

[6] Bertrand Russell, Why I Am Not a Christian, and Other Essays on Religion and Related Subjects, em Paul Edward, ed. (London: Allen & Unwin, 1957), pp. 12, 13.

[7] O Grande Conflito, p. 536.

[8] Richard Dawkins, The God Delusion (New York: Bantam Books, 2006), p. 31.

[9] Daniel Dennett, Darwin’s Dangerous Idea: Evolution and the Meanings of Life (New York: Simon & Schuster, 1995), p. 521.

[10] Daniel Dennett, Breaking the Spell: Religion as a Natural Phenomenon (New York: Viking, 2006), pp. 279-283.

[11] http://www.thisdayinquotes.com/2009/11/o-liberty-what-crimes-are-committed-in.html. Acessado em agosto de 2015.

[12] Julia M. O’Brien, Challenging Prophetic Metaphor: Theology and Ideology in the Prophets (Louisville, Ky.: Westminster John Knox, 2008).

[13] David Penchansky, What Rough Beast? Images of God in the Hebrew Bible (Louisville, Ky.: Westminster John Knox, 1999).

[14] Citado em Chad Meister, Evil: A Guide for the Perplexed (New York: Continuum, 2012), p. 6.

[15] Bart D. Ehrman, God’s Problem: How the Bible Fails to Answer Our Most Important Question—Why We Suffer (New York: HarperOne, 2008), p. 168.

[16] Parábolas de Jesus, pp. 415–416. Itálicos acrescidos

[17] Ver Shmuel Waldman, Beyond a Reasonable Doubt (Nanuet, N.Y.: Feldheim Publishers, 2005), p. 197.

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