As Duas Testemunhas de Apocalipse 11

As Duas Testemunhas de Apocalipse 11


Ekkehardt Müller é diretor associado do Instituto de Pesquisas Bíblicas da Associação Geral. Antes de se juntar ao instituto, o Pastor Mueller atuou como Pastor e Ministerial por mais de duas décadas. Atualmente, ele está muitíssimo envolvido em escrever artigos e lecionar classes ao redor do mundo. Ekkehardt adora jardinagem e pintura. Boa música é também um elemento importante no lar de  Ekkehardt, sendo sua esposa Geri uma professora de música. Quando seus filhos, Eike e Eno, estão em casa, o “quarteto” está completo.


Tradução: Hugo Martins

O artigo “As Duas Testemunhas de Apocalipse 11” (Original em Inglês: “The Two Witnesses of Revelation 11”), por Ekkehardt Mueller, fora publicado, inicialmente, pelo Adventist Biblical Research Institute.  Usado com permissão.


Apocalipse 11:1-13 contém dois cenários, o primeiro com foco em um ato de medir e o segundo tratando acerca das duas testemunhas. O último cenário, uma das passagens mais difíceis de Apocalipse, tem sido explicado de várias maneiras. As duas testemunhas têm sido entendidas como a representação de Enoque e Elias, Moisés e Elias, Elias e Jeremias, profetas escatológicos não diretamente identificados com os profetas do AT, Pedro e Paulo, Estevão e Tiago o Justo, Tiago e João, João Batista e Jesus, Tiago o Justo e a Tiago filho de Zebedeu, os sumos sacerdotes Ananias e Josué, o AT e o NT, a Lei e os Profetas, o testemunho profético da igreja, “o verdadeiro valor espiritual da religião Israelita, mantido intacto no Cristianismo,” e a Palavra de Deus e o Testemunho de Jesus Cristo.1

É óbvio que a passagem Apocalipse 11:3–13 é altamente simbólica, assim como é verdade para toda a parte apocalíptica de Apocalipse (capítulos 4–22a). Isso nos deixa com duas opções importantes. Se as duas testemunhas apontam para a igreja ou para a igreja e a sinagoga, ou as duas testemunhas representam o AT e o NT. Embora muitos expositores identificam as duas testemunhas com duas pessoas históricas, principalmente do AT, eles, no entanto, muitas vezes, as consideram como representantes da igreja. Muito pode ser dito sobre a passagem sob análise, mas focar-nos-emos principalmente se as duas testemunhas representam a Igreja ou as Escrituras.

I. Contexto

1. A Visão da Trombeta. Apocalipse 11:1–13 é parte de um dos setenários de Apocalipse, a saber, o setenário das trombetas. Nesta visão, uma cena introdutória do templo (8:2–6) é seguido pelo som de seis trombetas (8:7–9:21). Antes da última trombeta ser soprada, uma espécie de interlúdio aparece, abrangendo Apocalipse 10:1–11:14. Termina com a descrição da atividade das duas testemunhas. Preferimos chamar esta seção de uma expansão da sexta trombeta—também conhecida como o segundo ai—e, de fato, 11:14 contém um resumo da declaração designando o fim do segundo ai e o início do terceiro ai, a sétima trombeta. Considerando que a sétima trombeta retrata a vinda do reino de Deus e se refere ao juízo final, Apocalipse 10–11a foca sobre o tempo que precede os eventos finais da história do mundo.

2. Apocalipse 9–11. Apocalipse 10 e 11 estão conectados de diversas maneiras, especialmente por meio do conceito de profecia.2 Em Apocalipse 10, João recebe a ordem para profetizar.3 Em Apocalipse 11a, as duas testemunhas funcionam como profetas. Seu ministério e destino são descritos, assim como os efeitos sobre a humanidade.

Não são apenas Apocalipse 10 e 11 estão conectados, mas, também, Apocalipse 9 e 10–11a. A frase ἐκ τῶν στομάτων αὐτῶν ἐκπορεύεται πῦρ ([ek tōn stomátōn ekporéuetai pyr] “de suas bocas saía fogo” [ACF]) em 9:17 também aparece em 11:5, embora em ordem invertida e com στόμα ([stóma] “boca”) no singular. Não aparece em outra parte. As duas testemunhas têm pelo menos uma das mesmas habilidades que os estranhos cavalos têm. Poderes negativos e positivos são contrastados.

A sexta trombeta é negativa. Os sobreviventes nem mesmo se arrependem se suas obras. Contudo, Apocalipse10–11a adiciona uma nota positiva. Há João, o profeta. Há duas testemunhas, ou profetas. Embora mortos, eles são ressuscitados e levados para o céu. E, interessantemente, há, finalmente, pessoas que glorificam a Deus.4 Nem tudo está perdido. Como com os dois profetas, como, também, com João: seu ministério não será em vão e não ficará sem um efeito positivo. Algumas pessoas arrepender-se-ão.

3. Apocalipse 11a. As principais personagens de Apocalipse 11:1–14 são João, as duas testemunhas, uma besta, os habitantes da terra e uma voz do céu. A falta de um elemento visão/audição no início de Apocalipse 11 pode apontar para o fato de que Apocalipse 11 não deve ser separado de Apocalipse 10.5 Visão, audição e ação continuam acontecendo, mesmo quando novas cenas surgem.6

Apocalipse 10 termina com o ordem para profetizar direcionada a João. Apocalipse 11 começa com João. É a segunda ação simbólica que ele tem que executar após ter comido o livro. Ele recebe uma vara de medir e—em discurso direto—a tarefa de medir o templo.7

Uma mudança ocorre com Apocalipse 11:3. Embora o discurso direto continue, não é mais João quem recebe ordens. Em vez disso, encontra-se um relato sobre duas testemunhas. As duas seções estão ligadas pelo mesmo elemento de tempo, os 42 meses, os 1260 dias,8 o verbo “dar”9 e o conceito de uma cidade.10 Assim, toda a expansão da sexta trombeta deve ser vista como uma unidade maior. No entanto, somos levados a observar uma cena em particular—tal como aquela lidando com as duas testemunhas—desde que não negligenciemos as conexões com o material precedente.

II. Observações em Apocalipse 11:3–13

As duas testemunhas têm a função de profetizar (11:3, 6), são chamadas de as duas oliveiras, os dois candeeiros (11:4) e os dois profetas (11:10). Com esta profecia, um conceito importante de Apocalipse aparece.

Apocalipse 11:3–13 parece estar estruturado por elementos de tempo. O ministério das duas testemunhas é introduzido e os 1260 dias de sua atividade são retratados. Uma mudança ocorre em Ap 11:7, que descreve o tempo para o fim de ou após elas terem terminado o seu ministério. Ainda, outro elemento de tempo é introduzido em Apocalipse 11:9, os três dias e meio de sua morte. Uma mudança ocorre novamente: μετὰ τὰς τρεῖς ἡμέρας καὶ ἥμισυ ([meta tas treis hēméras kai hḗmisu] “depois dos três dias e meio,” [11:11]), e a ressurreição e a ascensão das testemunhas são relatados (Ap 11:11–12). A descrição de sua ressurreição e de sua ascensão também inclui um relato sobre os efeitos desses eventos e a reação de seus inimigos. A frase καὶ ἐν ἐκείνῃ τῇ ὥρᾳ ([kai em ekéinē tē hóra] “e na hora”), em Apocalipse 11:13, conecta este versículo com o versículo anterior, descrevendo a ascensão das duas testemunhas.

Podemos, agora, diagramar Apocalipse 11:1–13:

As Duas Testemunhas (3–13)

(1) A atividade das duas testemunhas (3–6)

(a) Profetizando por 1260 dias (3)

(b) Permanecendo diante do Senhor como oliveiras e candeeiros (4)

(c) Sua autoridade e poder (5–6)

(2) O fim de seu testemunho (7–10)

(a) A besta—3 afirmações (7)

(b) Os cadáveres—3 1/2 dias (8–9)

(c) Os que habitam sobre a terra—3 instruções (10)

(3) Após os 3 1/2 dias (11–13)

(a) Ressurreição e efeito sobre aqueles que veem (11)

(b) Ascensão, vista pelos inimigos (12)

(c) Terremoto destruindo a cidade, matando pessoas e levando outros a glorificar a Deus (13)

III. Características das Duas Testemunhas

Embora algumas características das duas testemunhas já foram mencionadas, é necessário elaborar sobre elas a fim de obter uma imagem mais clara do que a passagem aborda.

1. Eles São Chamadas de As Duas Testemunhas. A família de palavras μaρτ- (mart-) é importante em Apocalipse. Aparece com dois substantivos, a saber, o “testemunho” como uma pessoa (μάρτυς [mártys]) e a “testemunha” ou “testemunho” como a mensagem proclamada por uma testemunha (μαρτυρία [martyría]), e um verbo, a saber, “testemunhar” (μαρτυρέω [martyréō]). Os dois substantivos são usados com as duas testemunhas (11:3) que terminam o seu testemunho (11:7).

O substantivo μάρτυς (mártys) aparece cinco vezes em Apocalipse. Jesus (1:5; 3:14) e seus seguidores (2:13; 17:6), bem como as duas entidades mencionadas em nossa passagem (11:3), são testemunhas.

Aqueles que testemunham (μαρτυρέω [martyréō]) são João (1:2), o anjo enviado por Jesus (22:16) e o próprio Jesus (22:18, 20). Do que se trata o testemunho deles? João, tendo recebido a Revelação de Jesus Cristo por meio de um anjo, “atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo o que viu” (1:2). A mesma ideia encontra-se no fim de Apocalipse, “Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas às igrejas” (22:16), referindo-se ao livro neotestamentário de Apocalipse. O próprio Jesus também chama a atenção para a Escritura conforme expressado no Livro de Apocalipse. “Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; e, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro. Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus!” (22:18–20).

Na maioria das vezes, o termo μαρτυρία [martyría] é usado.11 Uma vez é empregado para designar o santuário celestial: “tabernáculo do Testemunho.” Em 12:11, o povo de Deus vence Satanás “por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram.” Aqui já podemos encontrar dois elementos. Outro conjunto de dois é encontrado em 12:17, quando ouvimos sobre os mandamentos de Jesus e o testemunho de Jesus, que em 19:10 é identificado como o espírito de profecia. Entretanto, a combinação mais comum é “a palavra de Deus e o testemunho (de Jesus)” (1:2, 9; 6:9; 20:4).12 Em 11:7 a duas testemunhas concluem o seu testemunho.

Percebemos que, em Apocalipse, o termo mais importante da família de palavras μαρτ- (mart-) é o termo μαρτυρία (martyría). Aparece, repetidas vezes, ligado a uma outra expressão, predominantemente a “palavra de Deus.” Μαρτυρία (martyría) não é tanto o que os crentes proclamam, mas o que eles têm. Μαρτυρία (martyría) tem a ver com profecia. E, de fato, o texto paralelo ao verso 19:10 substitui a expressão “testemunho de Jesus” com “profetas” (22:9). O verbo (μαρτυρέω [martyréō]) é usado para apontar para a Escritura, a palavra de Deus e o testemunho de Jesus; o último estando refletido no Livro de Apocalipse. Assim, a família de palavras μαρτ- (mart-), em Apocalipse, tem uma forte afinidade com as Escrituras.

Por que duas testemunhas? O número dois é importante porque, de acordo com a lei do AT, duas ou três testemunhas são necessárias para levar um caso ao tribunal (Dt 19:15).13 Este princípio também é usado no NT. Jesus aplicou a si mesmo diversas vezes.14

2. Elas São As Duas Oliveiras. Enquanto a família de palavras μαρτ- (mart-) ocorre com frequência, a frase “as duas oliveiras” é encontrada uma única vez em Apocalipse. Todavia, seu contexto veterotestamentário é claramente Zacarias 4:1–10. Encontramos, ali, um candeeiro e, junto com ele, duas oliveiras que fornecem óleo para o candeeiro. Kenneth Strand tem mostrado que a interpretação comum desta passagem é equivocada.

Porventura, a interpretação mais comum da passagem de Zacarias, como aparece nos comentários, é que as duas oliveiras representam os dois líderes hebreus exilados que retornaram após o cativeiro babilônico—normalmente considerado ser Josué e Zorobabel. O que é geralmente negligenciado nesta interpretação do simbolismo do capítulo 4 é que, contextualmente, o capítulo lida somente com o líder Zorobabel, assim como o capítulo 3 lida somente com o outro líder Josué.15

No entanto, o texto claramente conecta as duas oliveiras com a obra do Espírito Santo.16 O candeeiro representa Zorobabel. Enquanto o número de candeeiros em Apocalipse aumentou de um para dois, há duas oliveiras tanto em Zacarias quanto em Apocalipse. Strand tem argumentado que, em virtude desta continuidade das oliveiras, o seu significado deve permanecer constante em ambos os livros bíblicos “referindo-se à obra do Espírito,” isto é, “ao papel do Espírito Santo em prover a palavra de Deus tanto nos aspectos do AT quanto no NT.”17

3. Estes São Os Dois Candeeiros. Candeeiros são mencionados sete vezes em Apocalipse. Seis dessas ocorrências são encontradas na seção epistolar de Apocalipse; neste caso em Apocalipse 1 e 2.18 Elas retratam os sete candeeiros de ouro, e estes são identificados com as sete igrejas (1:20). O único outro lugar onde candeeiros ocorre é 11:4. Estudiosos têm argumentado que as duas testemunhas de Apocalipse 11 devem se referir à igreja, desde que os sete candeeiros estão claramente identificados como igrejas. Um emprego consistente dos termos em Apocalipse tem sido sugerido e necessário. Alguns têm proposto que as duas igrejas sem defeitos de Apocalipse 2–3, Esmirna e Filadélfia, são as duas testemunhas de Apocalipse 11.19

Embora os termos sejam normalmente utilizados com o mesmo significado em todo o Livro de Apocalipse, há exceções. Os sete anjos das sete igrejas (Ap 1–3) são diferentes dos quatro anjos em Apocalipse 7, e, também, dos sete anjos tocando as sete trombetas em Apocalipse 8-11. Algumas vezes, em Apocalipse, eles representam seres humanos, em outras instâncias criaturas celestiais. Um termo relacionado aos candeeiros (λυχνίαι [lychníai]) é a palavra “lâmpada” (λύχνος [lýchnos]). Enquanto em 22:5 ouvimos sobre a luz da lâmpada e a luz do sol, em 21:23, Jesus, o Cordeiro, é a lâmpada. Uma mudança de significado pode ocorrer também com os candeeiros. Em Apocalipse 11, eles estão identificados com as duas oliveiras, as duas testemunhas e os dois profetas. Há, também, uma diferença no que diz respeito à localização. Considerando que Jesus Cristo anda entre os sete candeeiros na terra (2:1), os dois candeeiros de Apocalipse 11 estão em pé diante do Senhor da terra, podendo estar conectados com o seu santuário celestial.20

João usa expressões e alusões veterotestamentárias de forma criativa. Ele também combina diferentes cenas e textos. Esse fenômeno deve ser levado em conta ao interpretar Apocalipse. “O único candelabro [Zc 4] torna-se dois, estes, por sua vez, são ditos ser sinônimos com as duas oliveiras.”21 Deve-se ter, também, em mente que o tema dos candeeiros não é o tema predominante em Apocalipse 11. Mais importantes são os temas do testemunho e da profecia. Novamente, a obra do Espírito Santo é enfatizada. De fato, a palavra de Deus é chamada de lâmpada em Salmo 119:105.

4. Eles São Os Dois Profetas e Profetizam. As duas testemunhas profetizam (11:3), elas são os dois profetas (11:10) e profecia lhes é conferida (11:6). A família de palavras προφητ- (profēt-) é muito importante em Apocalipse, especialmente no capítulo 11. Consiste do verbo “profetizar” (προφητεύω [profetéuō]), do substantivo “profecia” (προφητείας [profetéias]), do substantivo “profeta” (προφήτης [profḗtēs]), do substantivo “profetisa” (προφῆτις [profḗtis]) e do substantivo “falso profeta” (ψευδοπροφήτης [pseudoprofḗtēs]). Estes dois últimos não são relevantes para a nossa investigação.22

“Profetizar” é usado apenas em 10:11 e 11:3, que é o mesmo contexto ampliado. João o apóstolo deve profetizar, bem como as duas testemunhas.

O termo “profeta” em Apocalipse descreve apenas os profetas genuínos e as duas testemunhas.23 Os profetas são chamados de servos de Deus (10:7; 11:18) e distinguem-se dos outros crentes chamados de santos (16:6) e dos apóstolos (18:10). Parece que este termo descreve apenas as pessoas que têm o dom específico de profecia, estando distintas de outros crentes. O termo não é usado vagamente no sentido que hoje chamaríamos de “ministério profético de um pastor ou da igreja.”

O termo “profecia” aparece sete vezes no Apocalipse. Em 19:10, ouvimos sobre o Espírito de profecia. As duas testemunhas estão ativas durante “os dias em que profetizam.” Todos os outros textos se referem ao livro de Apocalipse. Uma bem-aventurança é proferida em prol daqueles que leem e ouvem “as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas” (1:3). Isto se repete em 22:7: “Bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro.” A mesma formulação aparece em 22:10, 18, e, em ordem inversa, em 22:19: “das palavras do livro desta profecia.”

Assim, a família de palavras προφητ- (profēt-) se concentra na profecia genuína no sentido estrito e no produto desta profecia como se encontra no Livro de Apocalipse e, portanto, na sagrada Escritura. É significativo que, no contexto das duas testemunhas, todos os três termos cruciais da família de palavras προφητ- (profēt-) são utilizados. Na verdade, as duas testemunhas são a única entidade descrita com todos os três principais termos desta família de palavras. Segue-se que a profecia é a característica mais importante das duas testemunhas. A ligação estreita desta família de palavras com a dom de profecia genuíno, e com as Escrituras, aponta para um entendimento específico das duas testemunhas.

5. Elas Estão Relacionadas com o Senhor. As duas testemunhas estão em relação próxima com o Senhor. Elas se acham em pé diante do Senhor da terra (11:4). Elas pertencem ao Senhor, servem-no e são protegidas e fortalecidas pelo Senhor. A frase pode apontar para a “origem celestial” delas. “Achar-se em pé” é usado quatro vezes em Apocalipse. Em 7:9, a grande multidão acha-se “em pé diante do trono e diante do Cordeiro.” Em 8:2, sete anjos, com sete trombetas, “se acham em pé diante de Deus.” Em 11:4, os dois candeeiros “se acham em pé diante do Senhor da terra.” Em todos esses casos, um grupo que está próximo e em harmonia com Deus é retratado e goza de um relacionamento especial com e próximo a Deus. No entanto, em 20:12, após o Milênio, os não salvos mortos estão postos em pé diante do trono e são julgados. Este grupo é claramente negativo. Enquanto aqueles que pertencem a Deus são abençoados na presença de Deus, seus inimigos não podem permanecer em Sua presença. Beale declara:24

A natureza forense do testemunho é intensificada pela posição das testemunhas que dão o seu testemunho em um tribunal nunca visto ‘em pé diante do Senhor da terra.’ O Senhor é o juiz onisciente da terra porque ‘Seus olhos . . . percorrem toda a terra’ (cp. Zc 4:10, 14; Ap 5:6). Esta proximidade com o Senhor também enfatiza a inspiração divina direta das testemunhas e da comissão. Embora elas vivam em um mundo perigoso, elas nunca se afastam da presença soberana do Senhor. Nada pode separá-las do seu relacionamento seguro com Ele.25

Obviamente, as duas testemunhas compartilham o destino de seu Senhor. Em 11:8, encontramos seus cadáveres. Elas participam da morte de seu Senhor que fora crucificado.26 Mas, após três dias e meio, elas também compartilham sua ressurreição e ascensão.

6. Elas Encontrarão Dificuldade, Enfrentarão Inimigos e Serão Vencidas Temporariamente. As duas testemunhas profetizam durante 1260 dias vestidas com pano de saco.

Ocasionalmente, o pano de saco era o traje de profetas (Zc 13:4). Indicava também pranto (Jr 4:8) e penitência (Mt 11:21).27 Considerando que o ministério profético nem sempre é fácil, e pode causar hostilidade e rejeição por parte daqueles que não se arrependem, a vestimenta de pano de saco pode ser um indicador da natureza da mensagem que as testemunhas propagam. A proclamação do evangelho também contém um elemento de julgamento.

As duas testemunhas têm de enfrentar uma série de poderes malignos: “Muitos dentre os povos, tribos, línguas e nações” (11:9), “Os que habitam sobre a terra” (11:10), e, especialmente, “a besta que surge do abismo” (11:7). A expressão “os que habitam sobre a terra” é um termo negativo em Apocalipse, designando os inimigos de Deus e Seu povo na terra. Eles têm experienciado tormento psicológico devido às suas consciências serem despertadas pela mensagem das duas testemunhas, mas ainda não decidiram se arrepender. Após a morte das duas testemunhas, eles se regozijam apenas para sentir grande terror quando as duas testemunhas voltarem, novamente, à vida.

A besta do abismo parece ser Satanás trabalhando por meio de um poder secular. O termo “abismo” aparece sete vezes em Apocalipse. A “estrela caída do céu na terra” (9:1–2), que tem a chave do abismo e realmente abre o abismo, é Satanás. Ele traz desastres à humanidade. O rei dos gafanhotos em 9:11, também chamado de anjo do abismo, Apoliom, e Abadom, o destruidor, parece ser a estrela caída, Satanás e seu exército demoníaco invade a terra. Todavia, em 20:1–3, ocorre uma reversão. O poder de Satanás é retirado dele. Ele está preso no abismo por 1000 anos. Isto pode estar aludido em 17:8, onde uma besta carrega uma meretriz. Esta besta, que era e não é, surge do abismo e caminha para a destruição. A besta, em nosso texto (11:7), peleja, vence e mata as duas testemunhas. O ser associado em Apocalipse com o abismo parece ser Satanás, muitas vezes trabalhando por meio de poderes políticos.28

A frase “pelejar contra” aparece várias vezes em Apocalipse. Uma frase semelhante é empregada em 12:17 e 13:7. Nestes dois textos é idêntica, a única exceção sendo que o grupo contra o qual a peleja é travada é uma vez chamado de remanescente e uma vez de santos.29 Outra frase similar aparece em 19:19. No entanto, neste caso, a guerra não é direcionada contra entidades na terra, mas contra Jesus, o cavaleiro sobre o cavalo branco, e, contra o Seu exército.30 A ordem dos termos difere levemente em 11:7. O verbo não é usado como um infinitivo, e o grupo afetado, a saber, as duas testemunhas, é chamado apenas de “eles.”31 Obviamente, o mesmo conceito é usado para apontar para uma guerra entre Satanás e os grupos que pertencem a Deus. No entanto, a diferença na terminologia pode indicar que as duas testemunhas não podem ser identificadas com o remanescente ou com os santos. De fato, em 11:13, o remanescente que aparece reage a experiência das duas testemunhas.

Após as duas testemunhas serem mortas, é-lhes negado sepultamento (11:9). “Seu cadáver ficará estirado na praça da grande cidade que, espiritualmente, se chama Sodoma e Egito, onde também o seu Senhor foi crucificado” (11:8). “Do ponto de vista oriental, ser privado de um funeral era um ato de grande indignidade.”32

O termo “grande cidade” aparece oito vezes em Apocalipse. 33Em razão de todos os outros textos estarem claramente se referindo a Babilônia, 11:8 também parece descrever Babilônia. Alguns expositores entendem 11:8 como uma alusão à antiga Jerusalém.34

Entretanto, deve-se ter em mente que Apocalipse conhece pelo nome apenas a Nova Jerusalém. Se esta última interpretação for escolhida, o verso pode expressar que, por crucificar Jesus, a antiga Jerusalém tornou-se Babilônia.35 Outra possibilidade seria que a Babilônia do primeiro século, Roma, fora a responsável pela morte de Jesus; em razão disso, esta última Babilônia seria a responsável pela morte das duas testemunhas. “A inclusão de uma referência à crucificação não é identificar uma localização geográfica, mas ilustrar a resposta do paganismo à justiça . . . Sodoma refere-se às profundezas da degradação moral (cp. Gn 19:4–11) e o Egito é um símbolo de opressão e escravidão.”36 A cidade de 11:13, cuja décima parte caiu, parece se referir a 11:8 e também parece representar Babilônia. Um contraste é feito com 11:2, onde a santa cidade é mencionada. Esta santa cidade, o povo de Deus e o predecessor da cidade santa, a Nova Jerusalém de Apocalipse 21, serão pisoteados por 42 meses. Durante o mesmo período de tempo, as duas testemunhas profetizam até serem mortas. A grande cidade é o lugar onde o assassinato acontece. A cidade santa é pisoteada.37

7. Elas Têm Poder. As duas testemunhas são poderosas. Fogo sai de suas bocas e devora os seus inimigos. Elas são capazes de matar (11:5). Muitos estudiosos sugerem Elias como o contexto veterotestamentário.38 Em 9:17–18, fogo sai das bocas dos estranhos cavalos, um exército demoníaco. Apocalipse 11 provê a contrapartida vitoriosa. As duas testemunhas também são capazes de fazer fogo sair de suas bocas (singular no grego) e matar seus inimigos.

Ademais, as duas testemunhas têm poder para fechar o céu para que não chova e tem o poder para transformar a água em sangue e trazer diferentes tipos de pragas. Isso pode nos lembrar de Elias em 1 Reis 17 e Moisés trazendo a terceira praga no Egito (Êx 7:17–19). As pragas em 9:18, 20 têm uma contrapartida em 11:6. Assim, as duas testemunhas são muito ativas durante os 1260 dias. O período deve ser entendido de acordo com o princípio dia-ano.

O poder das duas testemunhas não é apenas evidente antes de sua morte, mas, também, no contexto de sua ressurreição. Os efeitos de sua ascensão são tremendos, indo do medo à morte.

IV. Igreja ou Escrituras?

À primeira vista, parece que esta passagem altamente simbólica sobre as duas testemunhas pode ser entendida de ambas as maneiras, representando a igreja ou as Sagradas Escrituras. Como mencionado acima, a maioria dos estudiosos prefere igreja. Contudo, quando olha mais atentamente, uma série de fatores parece militar contra essa interpretação.

Kenneth Strand tem argumentado em favor da mensagem do AT e do testemunho do NT. “Essas duas testemunhas são, a saber, ‘palavra de Deus’ e ‘o testemunho de Jesus Cristo,’ ou o que hoje chamaríamos de a mensagem profética do AT e o testemunho apostólico do NT.”39 Ele chegou a essa conclusão ao perceber que (1) as duas testemunhas “não funcionam como duas entidades individuais, mas como apenas uma entidade, sempre em unidade e em absoluta união;”40 (2) “as duas testemunhas constituem um simbolismo elaborado a partir de diversos contextos proféticos, além das alusões óbvias a Moisés e a Elias, assim como em 11:8 ‘a grande cidade’ também engloba uma mistura de referências simbólicas . . .;”41 e (3) Apocalipse contém uma extensiva teologia das duas testemunhas.42

Analisaremos, agora, alguns argumentos favorecendo a identificação das duas testemunhas com as Escrituras.

1. A Unidade das Duas Testemunhas. A observação de Strand de que as duas testemunhas funcionam como uma única entidade está correta. O que quer que elas façam, e o que quer que aconteça com elas, elas são inseparáveis. Mas, em adição a sua ação e destino comum, o texto fornece um outro detalhe interessante e importante. Os substantivos que são empregados em conexão com as duas testemunhas, muitas vezes, estão no singular em vez do plural. Esta alteração do plural para o singular enfatiza que as duas testemunhas sempre andam juntas.

(1) Enquanto em 9:18, 20 o fogo sai das bocas (plural) dos estranhos cavalos, em 11:5 o fogo sai da boca (singular) das duas testemunhas. Embora haja duas testemunhas, elas têm apenas uma boca.

(2) Embora sejam duas, elas têm uma profecia (11:6) e um testemunho (11:7).

(3) A palavra “cadáver/corpo” aparece três vezes em 11:3–13. Seu cadáver (singular) fica estirado na rua da grande cidade (11:8).43 As pessoas veem o seu cadáver (singular) por três dias e meio (11:9), e seus cadáveres (plural) não são sepultados (11:9).

(4) Uma sepultura (singular) não está acessível a elas (11:9).

Parece que a mudança para o singular foi feita intencionalmente para enfatizar a unidade das duas testemunhas. O uso tanto do singular quanto do plural no mesmo verso pode apontar para a unidade na dualidade. Esta característica se encaixa melhor com a interpretação das duas testemunhas como Escrituras.

2. Fogo Saindo de Sua Boca. Apesar do fogo nos lembrar de Elias, a ideia de fogo saindo de uma boca não é encontrada em conexão com ele. Este fato é reconhecido por David Aune: “O tema de fogo emanando da boca de uma pessoa foi usado como uma metáfora para proferir a palavra de Deus, geralmente em situações de repreensão e de condenação . . .”44 Em 2 Sm 22:9, fogo sai da boca de Yahweh. Jeremias 5:14 pode ser o contexto principal para Apocalipse 11:5. A Palavra de Deus se torna um fogo na boca de Jeremias: “Eis que converterei em fogo as minhas palavras na tua boca e a este povo, em lenha, e eles serão consumidos.” A ênfase está na Palavra de Deus que vem a Jeremias e é proclamada por ele. Esta palavra é confiável e é diferente da palavra dos falsos profetas. “O poder da palavra de Deus é expresso em diferentes formas também, tais como a chuva que faz a semente germinar (Is 55:11) e outras metáforas (Isa 9:8; 11:4).”45 As duas testemunhas estão ligadas à Escritura.

3. Profecia. Nós já investigamos profecia em Apocalipse e visto seu papel importante não só em Apocalipse como um todo, mas, especialmente, na visão da trombeta. Charles H. Giblin afirma:

No contexto mais amplo dos três ais, Apocalipse 11:1–13 deve ser considerado parte integral do segundo ai . . . Proporciona um entendimento sólido concernente a um tema central a Apocalipse como um todo: ministério profético estando essencialmente ligado com a mensagem de juízo, salvação e necessidade de arrependimento.46

Obviamente, a profecia em Apocalipse não é usada em um sentido mais amplo. Os profetas são profetas reais. Profecia também está ligada à Escritura. Portanto, é melhor entender as duas testemunhas que são chamados de os dois profetas como Escrituras, em vez de igreja. Elas têm o mesmo destino de Jesus e dos profetas do AT, e morrem simbolicamente na cidade onde o seu Senhor foi crucificado, a saber, em uma Jerusalém, que se tornou Babilônia “porque não se espera que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lc 13:33).47

4. O Testemunho. O que tem sido dito sobre a profecia também é válido para o testemunho. “O substantivo ‘testemunho’ é usado aqui como um equivalente do verbo “profetizar” no v. 3 e ao substantivo “profecia” no v. 6.”48 A família de palavras μaρτ- (mart-) está ligada à Escritura. O substantivo “testemunho” aparece, mais frequentemente, em uma forma que Strand chama de “a teologia das duas testemunhas.” Ele sustenta que as duas testemunhas correspondem a tão falada teologia das duas testemunhas, por exemplo, “a palavra de Deus e o testemunho de Jesus” (1:2, 9; 20:4).49 Esta teologia também é encontrada fora de Apocalipse.50 Strand resume as suas conclusões:

. . . o livro do Apocalipse coloca uma ênfase holística nas ‘duas testemunhas’ que constituem uma unidade em sua atividade divina, a saber, a ‘palavra de Deus’ e ‘o testemunho de Jesus Cristo’. . . . Além disso, no ‘interlúdio’ em Apocalipse que contém a apresentação das duas testemunhas, encontra-se definido (em Ap 10:7) o mesmo conceito do testemunho unido pelos profetas do AT e pela mensagem do NT.51

5. O Conceito de Cidade. Babilônia, a grande cidade, aparece em Apocalipse 11:8. Babilônia é retratada como uma mulher, como uma meretriz e como uma cidade.52 Ela tem uma contraparte na história, a mulher de Apocalipse 12 que dá a luz ao Messias e que representa a verdadeira igreja de Deus. Ela também tem uma contraparte escatológica retratada como uma mulher e de uma cidade, a saber, a Nova Jerusalém, a cidade santa e amada, a noiva do cordeiro.53

Enquanto Babilônia parece estar descrita em Apocalipse 11:8 e 13, Apocalipse 11:2 menciona a cidade santa. Ela é pisoteada por 42 meses. Este é o mesmo período de tempo o qual a mulher de Apocalipse 12 fica no deserto. Em outras palavras, a cidade santa de Apocalipse 11:2 e a mulher de Apocalipse 12 parecem ser a mesma entidade, a verdadeira igreja através dos séculos, passando por momentos difíceis. A igreja é a cidade santa. Assim é a Nova Jerusalém que descerá do céu e tem uma predecessora e uma oponente no tempo presente. A predecessora é a cidade santa em Apocalipse 11:2 e em Apocalipse 12. A oponente é a meretriz Babilônia.

Obviamente, essas duas cidades encontradas em 11:1–13 estão em contraste. Mas se a cidade santa, de fato, representa a igreja, então não é muito provável que as duas testemunhas apontem para ela novamente. É melhor entender as duas testemunhas como as Sagradas Escrituras.

6. O Período de Tempo. Os 1260 dias/anos ocorrem em Apocalipse em formas diferentes, a saber, 1260 dias, 42 meses, e três tempos e meio. Este período de tempo é encontrado duas vezes em Daniel e cinco vezes em Apocalipse. Normalmente refere-se ao tempo de angústia o qual a igreja de Deus enfrentará. Embora o mesmo período seja usado em relação às duas testemunhas, a ênfase parece ser um pouco diferente. Enquanto Daniel 7:25 e 12:7, assim como o Apocalipse 11:2, 12:6, 14, e 13:5 parecem centrar-se no período de tempo como um todo, Apocalipse 11:3–13, aparentemente, está preocupado com o fim do período de tempo. Considerando que a igreja é libertada no fim dos 1260 anos, as duas testemunhas são mortas. Portanto, as duas testemunhas não podem representar a igreja.

7. Os Candeeiros. Os sete candeeiros de Apocalipse 1–2 e os dois candeeiros de Apocalipse 11:4 não podem ser idênticos. Eles são encontrados em locais diferentes. Apesar de ambos os grupos manterem uma certa relação com o Senhor, o fato de os dois candeeiros se acharem diante do Senhor da terra destaca-lhes e dá-lhes especial atenção. Enquanto cinco dos sete candeeiros de Apocalipse 2–3 são repreendidos, e dois deles não recebem qualquer louvor, nenhuma declaração negativa é feita acerca dos dois candeeiros em Apocalipse 11. É possível argumentar que os dois candeeiros de Apocalipse 2–3 são encontrados nos dois candeeiros de Apocalipse 11. Todavia, os candeeiros de Esmirna e Filadélfia são localmente restritos, mas os dois candeeiros de Apocalipse 11 obviamente não. Esmirna e Filadélfia também estão restritas no tempo, caso entenda-se como períodos de tempo na história da igreja, enquanto os candeeiros de Apocalipse 12 abrange os 1260 anos e mais. Assim, não somos forçados a entender os candeeiros de Apocalipse 11 como igreja ou como entidades similares.

8. O Tema do Juízo. Beale afirma: “Os dois profetas pregaram não apenas que a salvação está em Cristo, mas, também, que a rejeição de Cristo equivale a idolatria e será castigada pelo juízo . . .”54 Isso pode ser indicado pelas vestimentas de pano de saco.55 O juízo parece desempenhar um papel fundamental no ministério das duas testemunhas. Fogo da boca das testemunhas que devora e mata os inimigos, falta de chuva, transformar as águas em sangue e trazer todos os tipos de pragas é uma linguagem forte. Embora esta seja uma descrição simbólica, a ideia do juízo é claramente empregada. O juízo continua mesmo após a ressurreição das testemunhas. Os habitantes da terra ficam horrorizados, e, provavelmente, novamente atormentados. Um terremoto destrói um décimo da cidade e mata mais de 7000 pessoas. Este não é o terremoto escatológico descrito em 6:14 e 16:18-20, mas, de qualquer forma, é juízo. Mesmo o arrependimento ainda é possível.

Apocalipse 13:3–13 se encaixa no contexto geral das trombetas como juízos intencionados a levar a humanidade ao arrependimento. Beale, novamente, declara:

A natureza das pragas e o tormento são provavelmente os mesmos experienciados pelos ímpios desde as primeiras seis trombetas, especialmente os dois primeiros ais . . . Isto é apontado pelos seguintes paralelos lexicais e conceituais: (1) Ambos são referidos como ‘pragas’ (. . . 8:12; 9:20; 11:6) (2) direcionados contra os ‘moradores da terra’ (. . . 8:13; 11:10) (3) por seres cujas as boca foram ‘autorizadas’ a proferir juízos (. . . 9:3, 10, 19; 11:6). (4) As pragas incluem condições de fome (cp. 8:8-9; gafanhotos em 9:7-10; 11:6a), (5) ‘matar’ . . . 9:15; 18, 20; 11:5), e (6) ‘causar danos’ (. . . 9:10, 19; 11:5) (7) ‘fogo que saía da boca’ dos executores (. . . 9:17–18; 11:5; cp. 16:8–9), (8) água se tornando ‘sangue’ (. . . 8:8; 11:6), e (9) efeitos no e do ‘céu’ (8:10; 9:1; 11:6; cp. 8:12). (10) As pragas também têm o efeito de ‘atormentar’ a mente dos incrédulos, lembrando-lhes de seu dilema espiritual sem esperança, o que resulta em formas de depressão (. . . 9:5–6; 11:10). (11) Tanto as narrativas das seis primeiras trombetas quanto das testemunhas concluem com uma porcentagem específica dos incrédulos sendo mortos . . .56

Remanescentes/sobreviventes são encontrados em 9:20 e 11:13. Enquanto as trombetas envolvem mais apropriadamente poderes malignos, o juízo mediante as duas testemunhas aponta para um outro lado e pode enfatizar mais claramente o envolvimento direto de Deus.

Retornando a nossa questão se as duas testemunhas representam a igreja ou as Escrituras, percebemos que a linguagem—embora simbólica—aponta para um envolvimento direto no juízo por parte das duas testemunhas. De acordo com as Escrituras, a igreja proclama a mensagem do Evangelho, mas não executa o juízo. Mas, de acordo com Hebreus 4:12, a Escritura tem uma função: “Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.” Portanto, pode ser melhor considerar as duas testemunhas como as Escrituras do AT e o NT.

9. Deliberações Estruturais. O Livro do Apocalipse contém três interlúdios, ou expansões, importantes: Apocalipse 7, Apocalipse 10–11a e Apocalipse 14a. Apocalipse 7 lida com um aspecto da igreja, os 144.000 e a grande multidão. Apocalipse 14a enfatiza os 144.000, mas também a mensagem que deve ser proclamada. Em Apocalipse 10, João, como um representante da igreja, passa por uma doce e amarga experiência por comer um rolo, parte da Palavra de Deus. Assim, Apocalipse 10 contém tanto a igreja quanto as Escrituras. Em Apocalipse 11, o mesmo modelo pode estar presente. A igreja é a cidade santa. As duas testemunhas representam as Escrituras.

Conclusão

Nossa investigação tem nos apontado na direção de entender as duas testemunhas como as Escrituras do AT e do NT. Ellen G. White, ao comentar sobre esta passagem, fez a seguinte declaração: “As duas testemunhas representam as Escrituras do Antigo e Novo Testamentos.”57 Temos encontrado diversas referências às Escrituras, especialmente os termos profecia, testemunho, fogo, o uso do singular para ambas as testemunhas, declarações duais se referindo à Palavra de Deus e ao testemunho de Jesus, e outras. Elas confirmam a nossa sugestão de que as duas testemunhas formam a Escritura como vem a nós: AT e NT. Mais estudos sobre esta passagem difícil pode ser benéfico.


Notas

1 Para mais detalhes, ver David E. Aune, Revelation 6–16, Word Biblical Commentary 52 B (Nashville: Thomas Nelson, 1998), pp. 598–603. Cp., também, Leon Morris, The Book of Revelation, Tyndale New Testament Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), p. 143.

2 Para uma discussão sobre o inter-relacionamento das diferentes partes da visão da trombeta, ver Ekkehardt Müller, Microstructural Analysis of Revelation 4–11, Andrews University Seminary Doctoral Dissertation Series, Volume 21 (Berrien Springs: Andrews UP, 1996), pp. 377–382.

3 O grupo de palavras προφητεία/προφητεύω/προφήτης (profētéia/profētéuō/profētēs) aparece duas vezes em Apocalipse 10 e três vezes em Apocalipse 11a. Sobre profecia, ver, por exemplo, Gerhard A. Krodel, Revelation, Augsburg Commentary on the New Testament (Minneapolis: Augsburg, 1989), p. 212; S. Minear, I Saw a New Earth: An Introduction to the Visions of the Apocalypse (Washington: Corpus, 1968), p. 96; Pierre Prigent, L’Apocalypse de Saint Jean, 2ª e.r., Commentaire du Nouveau Testament, 2d series, vol. 14 (Paris: Delachaux & Niestlé, 1981), pp. 149–150. Jürgen Roloff, The Revelation of John: A Continental Commentary (Minneapolis: Fortress, 1993), p. 122, defende: “Uma chave para o foco temático como um todo desta seção é encontrado na obervação que alusões a profetas e discursos proféticos passam como um fio de escarlate (10:7, 11; 11:3, 11; cp., também, 11:18).” Similarmente, Kenneth A. Strand, em “The ‘Spotlight-On-Last-Events’ Sections in the Book of Revelation,” Andrews University Seminary Studies 27 (1989): 208–209, entende o interlúdio como duplo. Ele declara: “O tema da proclamação profética que é tão básico e central para o capítulo 10 continua, com um cenário diferente, no capítulo 11: a saber, o cenário de um estabelecimento do templo. Encontramos, aqui, . . . uma cena de medição de templo . . . seguida pela perícope concernente às duas testemunhas proféticas (vv. 3–13) que são introduzidas em termos do cenário do templo e das duas oliveiras que são, também, dois candeeiros (vv. 3–4)” (208).

4 U. B. Müller, Die Offenbarung des Johannes, Ökumenischer Taschenbuchkommentar zum Neuen Testament, vol. 19 (Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus Gerd Mohn, 1984), pp. 215–216, levanta uma questão quando ele afirma que a estrutura de Apocalipse 11:13 corresponde com a de Apocalipse 9:14–21: (1) descrição de uma praga (9:14–17 e 11:13ab), (2) número de pessoas mortas (9:18 e 11:13c), e (3) reação dos restantes (9:20–21 and 11:13d).

5 O termo ἤκουσαν ([ḗkousan] “ouviram”) em Ap 11:12 refere-se às duas testemunhas e não tem uma função estruturante.

6 Ver Richard C. Lenski, The Interpretation of St. John’s Revelation (Minneapolis: Augsburg, 1963), p. 326.

7 Krodel, pp. 217–218, afirma que Apocalipse 11 é uma continuação de Apocalipse 10. “A ação simbólica de comer o livrinho, A (10:8–10), é seguida pela comissão, B (10:11), e por uma nova ação profética de medir o templo, A’ (11:1–2).”

8 Ambas as expressões denotam o mesmo período, pois quarenta e dois meses de trinta dias cada um são 1260 dias.

9 No início e no final do primeiro parágrafo, ἐδόθη é usado. Ver, também, James Moffat, “The Revelation of St. John the Divine,” em The Expositor’s Greek Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1961), 5:414, que argumenta em prol da unidade de Apocalipse 11:1–2 e Apocalipse 11:3–13 e, em defesa de sua interpretação, menciona (1) o mesmo período de tempo, (2) a “estranha construção δίδωμι- (dídōmi-) . . . and (3) a inversão entre objeto e verbo” que é comum a ambas as seções (11:2, 5, 6, 9, 10). A missão profética encontra sua contrapartida na punição. Em Apocalipse 11:3, o futuro do indicativo do mesmo verbo é empregado. J. P. M. Sweet, Revelation, Westminster Pelican Commentaries (Philadelphia: Westminster, 1979), p. 184, menciona que as frases “Darei às minhas duas testemunhas que profetizem por mil duzentos e sessenta dias” (11:13) e “foi ele dado aos gentios; estes, por quarenta e dois meses, calcarão aos pés a cidade santa.” (11:2) é um paralelismo intencional descrevendo o que Deus permite e o que Ele comissiona, “dois lados da mesma moeda.”

10 No v. 2, a cidade santa é mencionada. No v. 8, uma grande cidade aparece. Uma cidade aparece novamente em 11:13, remetendo-se à grande cidade.

11 Aparece dez vezes em nove versos.

12 Em 6:9, a referência direta a Jesus está faltando. “As almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que sustentavam.” Em 20:4, a palavra de Deus e o testemunho de Jesus estão em ordem inversa.

13 Cp., Beale, p. 581; Morris, p. 143.

14 Ver, por exemplo, João 8:17–18. Cp., Beale, p. 575;

15 Kenneth A. Strand, “The Two Olive Trees of Zechariah 4 and Revelation 11,” Andrews University Seminary Studies 20 (1982): 257.

16 Cp., Beale, pp. 577–578; Morris, p. 144.

17 Strand, “The Two Olive Trees,” p. 260.

18 Os textos são 1:12, 13, 20 (duas vezes); 2:1, 5.

19 Cp., Beale, p. 577;

20 Aune, p. 613.

21 Mounce, p. 218.

22 A falsa profetisa aparece em 2:20. Jezabel chama a si mesmo de profetisa. Um falso profeta surge em 16:13; 19:20; 20:10.

23 Apocalipse 10:7; 11:10, 18; 16:6; 18:10, 24; 22:6, 9.

24 Aune, p. 613.

25 Beale, p. 576.

26 Cp., Aune, p. 587.

27 Cp., Aune, p. 611. Mounce, p. 217.

28 As outras bestas saem do mar e da terra.

29 A frase é ποιῆσαι πόλεμον μετὰ τῶν λοιπῶν (poiēsai pólemon meta tōn loupōn) em 12:17 e ποιῆσαι πόλεμον μετὰ τῶν ἁγίων (poiēsai pólemon meta tōn agíōn) em 13:7. Ver, Ekkehardt Mueller, “Os 144.000 e a Grande Multidão” (manuscrito não publicado). O contexto veterotestamentário é Daniel 7:21. Cp., Beale, p. 588;

30 ποιῆσαι τὸν πόλεμον μετὰ τοῦ καθημένου ἐπὶ τοῦ ἵππου ([poiēsai ton pólemon meta tou kathēménou epi tou íppou] Ap 19:19).

31 A frase em 11:7 é ποιήσει μετ αὐτῶν πόλεμον (poiḗsei met áutōn pólemon).

32 Mounce, p. 220.

33 Apocalipse 11:8; 16:19; 17:18; 18:10, 16, 18, 19, 21.

34 Cp., Henry Barclay Swete, The Apocalypse of St. John: The Greek Text with Introduction Notes and Indices (London: Macmillan, 1917), pp. 137–138. Todavia, Philip Edgcumbe Hughes, The Book of Revelation: A Commentary (Grand Rapids: Eerdmans, 1990), pp. 127–128, discorda enfatizando que Jesus foi crucificado fora de Jerusalém e não no centro. Portanto, Jerusalém não é mencionada. Cp., também, Morris, p. 146.

35 Cp., Beale, p. 591.

36 Mounce, p. 221.

37 Richard Bauckham, The Theology of the Book of Revelation, New Testament Theology (Cambridge: Cambridge UP, 1993), 127, writes: “A cidade santa pisada pelos gentios é justamente onde as testemunhas caem mortas na rua da grande cidade (11:8).”

38 Cp., por exemplo, Mounce, pp. 218–219. Eles sugere 2 Reis 1 como contexto veterotestamentário.

39 Kenneth A. Strand, “The Two Witnesses of Rev 11:3–12,” Andrews University Seminary Studies 19 (1981): 134.

40 Ibid., p. 130.

41 Ibid.

42 Cp., ibid., pp. 131–134; e idem, “The Two Olive Trees,” pp. 259–260.

43 Morris, p. 145, observa: “Corpos é realmente singular, ‘corpo’, que pode apontar para uma unidade próxima entre os dois.”

44 Aune, p. 61.

45 Aune, p. 614. Poderia a chuva mencionada em 11:6 também ser uma alusão à palavra de Deus? Isaías 55:10-11 usa esta metáfora e, além disso, fala sobre a boca Deus: “Porque, assim como descem a chuva e a neve dos céus e para lá não tornam, sem que primeiro reguem a terra, e a fecundem, e a façam brotar, para dar semente ao semeador e pão ao que come, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei.” A diferença entre Isaías e Apocalipse 11 é que Isaías a metáfora é positiva, apesar de chamar as pessoas para retornar ao Senhor (Is 55:7), enquanto em Apocalipse 11 encontramos um contexto de juízo com a intenção de trazer arrependimento (Ap 9:21; 11:13).

46 Charles Homer Giblin, “Revelation 11.1–13: Its Form, Function, and Contextual Integration,” New Testament Studies 30 (1984): 454.

47 Ver a discussão acima.

48 Aune, p. 616.

49 Para uma discussão do termo “testemunho de Jesus,” ver Gerhard Pfandl, “The Remnant Church and the Spirit of Prophecy,” em Symposium on Revelation—Book II, Daniel & Revelation Committee Series, Volume 7, e. Frank B. Holbrook (Silver Spring: Biblical Research Institute, General Conference of Seventh-day Adventists, 1992), pp. 295–333. Nas páginas pp. 321–322 ele resume os resultados importantes:

(1) No Novo Testamento, o termo μαρτυρία (testemunho) é usado principalmente por John.

(2) Fora do Livro de Apocalipse, μαρτυρία (testemunho) usado em construção genitiva, é sempre um genitivus subjectivus.

(3) Em Apocalipse, todas as referências a μαρτυρία (testemunho) podem ser interpretadas como um genitivus subjectivus.

(4) O paralelismo em 1:2, 9 e 20:4, entre a “palavra de Deus” e o “testemunho de Jesus,” torna evidente que o “testemunho de Jesus” é o testemunho que o próprio Jesus dá, assim como a “palavra de Deus” é a palavra que Deus fala. Isto aplica-se também ao paralelismo em 12:17 entre os “mandamentos de Deus” e o “testemunho de Jesus.”

(5) Em 12:17, o remanescente “tem” o “testemunho de Jesus.” Isto não encaixa a ideia de dar testemunho acerca de Jesus

(6) O contexto do Novo Testamento torna necessário interpretar o conteúdo do “testemunho de Jesus” como o próprio Jesus. O testemunho de Jesus é a própria revelação de Cristo por meio dos profetas. É o Seu testemunho, e não o testemunho do crente sobre Ele.

(7) O paralelismo entre 19:10 e 22:8-9 indica que aquele que tem o “testemunho de Jesus” tem o dom da profecia. O “testemunho de Jesus” é o Espírito Santo que inspira os profetas.

50 Strand, “The Two Witnesses,” p. 132, refere-se, e.g., a 1 Pe 1:10–12, Lc 24:27 e Jo 5:46.

51 Ibid., p. 134.

52 Ver Apocalipse 17 e 18.

53 Ver Apocalipse 21 e 22, especialmente 20:9 e 21:9–10.

54 Beale, p. 596.

55 Cp. Amós 8:10.

56 Beale, pp. 585–586.

57 Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 267.

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