A Bíblia e O Manifesto Comunista

A Bíblia e O Manifesto Comunista


Hugo Martins, fundador do Estudos Adventistas, é Bacharel em Teologia pela Universidade Adventista de São Paulo, diretor da Comunidade Judaico-Adventista de Campinas e estudante do Período do Judaísmo do Segundo Templo.


A Bíblia e O Manifesto Comunista

O objetivo deste ensaio é contrapor apenas alguns dos conceitos apresentados no Manifesto Comunista com a Bíblia; e refletir, então, se tais ideias poderiam “ocupar” um espaço de influência na hermenêutica bíblico-adventista, e judaico-cristã em geral.

O Manifesto

O Manifesto Comunista, lançado em 1848, obra assinada por Karl Marx e Friedrich Engels, é considerado um dos textos mais influenciadores do século 19, influência tal que atravessou o século 20, continuando forte no século 21. O Manifesto Comunista inspirou e continua inspirando diversas revoluções de caráter comunista ao longo do tempo, como a Revolução Russa, a Revolução Cubana, a fracassada Intentona Comunista no Brasil, etc.

Embora diversos princípios apresentados no Manifesto Comunista já fossem conhecidos e empregados ao longo da história, este texto foi o primeiro, sistematizado, a alcançar uma influência de escala mundial significativa. Para efeitos de comparação, podemos dizer que o Manifesto Comunista foi para o comunismo o que A Origem da Espécies, de Charles Darwin, foi para o evolucionismo.

Propriedade Privada

“Os proletários nada têm de seu a salvaguardar; sua missão é destruir todas as garantias e seguranças da propriedade privada até aqui existentes” (M.C., p. 25).

A Bíblia trata a propriedade privada como sagrada. O oitavo mandamento diz “Não furtarás.” Compartilhando o pensamento de Lucas Dantas, cito suas três considerações quanto a este mandamento: 1) Se algo pode ser roubado, significa ele pertence a alguém; 2) O direito de propriedade não pode ser violado; 3) A violação da propriedade de alguém é uma atitude que deve ser condenada.1

Há implicações muito profundas nisto. A propriedade é tratada como sagrada por Deus, inserida no mesmo decálogo que diz “Não tomarás em vão o nome do Senhor,” “Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo,” “Não adulterarás,” para citar alguns.

O próprio Deus concede propriedade a quem deseja: “Toda a terra de Canaã, onde agora você é estrangeiro, darei como propriedade perpétua a você e a seus descendentes; e serei o Deus deles” (Gn 17:8); “O Senhor abençoou o final da vida de Jó mais do que o início. Ele teve catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de boi e mil jumentos” (Jó 42:12); “Também lhe darei o que você não pediu: riquezas e fama, de forma que não haverá rei igual a você durante toda a sua vida” (1 Rs 3:13).

Logo, a propriedade é um bem divino, não uma mal em si, como considera o marxismo. O seu uso, como qualquer recurso material, ou imaterial, é que se mostrará benéfico ou maléfico.2

Família

“Abolição da família! Até os mais radicais ficam indignados diante desse desígnio infame dos comunistas. Sobre que fundamento repousa a família atual, a família burguesa? No capital, no ganho individual. A família, na sua plenitude, só existe para a burguesia, mas encontra seu complemento na supressão forçada da família para o proletário e na prostituição pública” (M.C., p. 36).

A família é a obra-prima da criação de Deus. É o lugar onde, quando Deus habita, se manifesta mais fortemente a Sua influência e o Seu poder em nossas vidas. Os adventistas, reconhecendo a sua importância dada por Deus, a tem como uma de suas 28 doutrinas fundamentais. O livro Nisto Cremos, ao tratar desta doutrina, traz estas palavras:

“O lar representa a moldura primária para a restauração da imagem de Deus em homens e mulheres. . . . Aqui se estabelece a identidade e se desenvolvem os sentimentos de valor pessoal. O lar é também o lugar em que, pela graça de Deus, os princípios do genuíno cristianismo são postos em prática, e seus valores são transmitidos de uma geração para a seguinte.”3

Em O Lar Adventista, Ellen G. White diz:

“A sociedade compõe-se de famílias, e é o que a façam os chefes de família. Do coração ‘procedem as saídas da vida’ (Prov. 4:23), e o coração da sociedade, da igreja e da nação, é o lar. A felicidade da sociedade, o êxito da igreja, a prosperidade da nação, dependem das influências domésticas.”4

Como o “coração da sociedade,” não é em vão que esta instituição divina seja vista, por parte de muitos comunistas, como um empecilho para a “transformação social”, a “revolução do proletariado”, “desconstrução do pensamento conservador/burguês”, etc.

Para termos ideia da gravidade, Marilena Chauí, Professora de Filosofia da USP, e reconhecida militante esquerdista, disse, em uma palestra para adolescentes em uma escola, que a família é “uma invenção do capitalismo no século 18 e 19” e que quem a defende como “uma instituição natural, eterna, sagrada são umas bestas!”5 Deborah Duprat, procuradora do Ministério Público Federal, defendendo que a criança pertence ao estado, disse: “não se pode aceitar essa percepção equivocada de que a criança pertence à família, que a família tem o poder absoluto sobre a criança.”6

Então, atacar a família, a entidade mais sagrada de Deus, é certamente provocar a ira divina agora e no juízo final, é permitir que o pior que exista venha a se propagar com isso, uma prática não permitida àquele que serve a Deus.

Liberdade Religiosa

“As ideias de liberdade religiosa e de liberdade de consciência não fizeram mais que proclamar o império da livre concorrência no domínio do conhecimento. . . . Além disso, há verdades eternas, como a liberdade, a justiça, etc., que são comuns a todos os regimes sociais. Mas o comunismo quer abolir estas verdades eternas, quer abolir a religião e a moral, em lugar de lhes dar uma nova forma, e isso contradiz todo o desenvolvimento histórico anterior” (M.C., p.40).

O princípio da liberdade religiosa é tão antigo quanto a própria criação. Deus criou os seres humanos livres, para escolher segui-lo, e suas instruções, ou não. A humanidade não foi privada de escolha na criação, Deus deixou a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal como prova da liberdade concedida à sua criação.

A Bíblia está repleta com exemplos do princípio da liberdade religiosa. Em seus momentos finais com Israel, disse Moisés:

“Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam, e para que vocês amem o Senhor, o seu Deus, ouçam a sua voz e se apeguem firmemente a ele” (Dt 30:19, 20).

Josué, bem como Moisés, em seus últimos dias disse:

“Se, porém, não lhes agrada servir ao Senhor, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas, eu e a minha família serviremos ao Senhor” (Js 25:15).

Em sua carta aos romanos, Paulo diz:

“Deus ‘retribuirá a cada um conforme o seu procedimento.’ Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça” (Rm 2:6–8).

Como exemplificado, a Bíblia tem a liberdade religiosa como essência. E a Igreja Adventista do Sétima Dia, procurando seguir os princípios bíblicos, tem dado, desde cedo, grande importância à propagação da liberdade religiosa.

“Em 1889, durante uma assembleia no tabernáculo de Battle Creek, 110 líderes adventistas decidiram estabelecer uma nova Associação para promover e defender a liberdade religiosa. . . . Ela recebeu o nome de Associação Nacional de Liberdade Religiosa. . . . em 1893, a entidade originalmente nacional, converteu-se em uma Associação Internacional de Liberdade Religiosa (IRLA, em inglês).”7

A IASD adota, como definição de liberdade religiosa, o Artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos:

“Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.”8

Ir na direção contrária da promoção da liberdade religiosa, é contraditório com os princípios bíblicos, uma atitude rebelde que traz consequências negativas, como dor, sofrimento e perseguição ao redor do mundo.

Uso da Violência9

“Os comunistas não se rebaixam a dissimular suas opiniões e seus fins. Proclamam abertamente que seus objetivos só podem ser alcançados pela derrubada violenta de toda a ordem social existente” (M.C., p. 36).

De forma geral, a Bíblia condena o uso da violência como prática usual de resolução de conflitos e interesses. Quando os irmãos de Diná, Simeão e Levi, mataram os siquemitas, e

“passando pelos corpos, saquearam a cidade onde sua irmã tinha sido desonrada. Apoderaram-se das ovelhas, dos bois e dos jumentos, e de tudo o que havia na cidade e no campo. Levaram as mulheres e as crianças, e saquearam todos os bens e tudo o que havia nas casas” (Gn 36:27–29),

Jacó os repreendera dizendo:

“Vocês me puseram em grandes apuros, atraindo sobre mim o ódio dos cananeus e dos ferezeus, habitantes desta terra. Somos poucos, e se eles juntarem suas forças e nos atacarem, eu e a minha família seremos destruídos” (Gn 36:30).

Quando Caim matou Abel, o Senhor se aproximara dele e, condenando seu ato violento, lhe disse:

“O que foi que você fez? Escute! Da terra o sangue do seu irmão está clamando. Agora amaldiçoado é você pela terra, que abriu a boca para receber da sua mão o sangue do seu irmão” (Gn 4:10, 11).

A Bíblia apresenta conselhos e repreensões quanto ao uso da violência. O livro de Provérbios faz uma ilustração singular: “O violento recruta o seu próximo e o leva por um caminho ruim” (Pv 16:29). Quando Pedro cortou a orelha do soldado, Jesus o repreendera dizendo:

“Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão. Você acha que eu não posso pedir a meu Pai, e ele não colocaria imediatamente à minha disposição mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26:52, 53).

Em revelação a Zacarias, em palavra dirigida a Zorobabel, governador de Judá, o “Senhor dos Exércitos” apela ao Seu povo volte o seu coração a Ele enfatizando: “Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito” (Zc 4:6).

Conclusões

O Manifesto Comunista é uma obra em contradição direta com a Bíblia. Seus princípios e métodos são contrários às Escrituras Sagradas, e não condizem com o ideal e o estilo de vida cristão.

Propriedade, família, liberdade religiosa e a não violência são princípios sacramentados, cláusulas pétreas, na Palavra de Deus; devendo o crente defender tais princípios, é inconsistente que o cristão adote pensamentos e atitudes derivados do kernel Manifesto Comunista.

Aqueles que estão vivenciando, e/ou admirando tal filosofia prejudicial, estão pondo as suas almas em perigo, já que tais conceitos comunistas são um ataque direto a Revelação dada por Deus para a nossa salvação.

As “supostas boas intenções” contidas nesta obra, como preocupação com os pobres e os oprimidos, escondes práticas maléficas ao estilo de vida cristão. Ademais, a genuinidade de tais preocupações já se encontra na Bíblia, junto com todas as diretrizes para exercer tal finalidade, e exaltar a Deus.

O Manifesto Comunista é incompatível com a Bíblia, e o cristão deve abandonar tudo que se deriva de tal obra.


Notas:

1 Lucas Dantas, O Que A Bíblia Fala sobre A Propriedade. Disponível em: <https://cristaoscontraomundo.wordpress.com/2014/12/10/o-que-a-biblia-fala-sobre-a-propriedade/>. Acessado em: 29 de setembro de 2018.

“Está profundamente equivocado quem hoje pensar que a propriedade privada é maligna. Os males que ele tem em mente procedem não da propriedade privada em si mesma, mas dos abusos da propriedade privada” (Johannes G. Vos, Calvinismo, Socialismo e Propriedade Privada. Disponível em: <http://www.eismeaqui.com.br/teologia-sob-medida/calvinismo-socialismo-e-propriedade-privada-2/>. Acessado em 29 de setembro de 2018).

“Matrimônio e Família” em Nisto Cremos: As 28 Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Tatuí, SP: CPB, 2008), pp. 366–367.

4 Ellen G. White, O Lar Adventista, p. 15

5 Jovem Pan, Marilena Chauí afirma que quem defende a família é uma “besta”. Disponível em <http://jovempan.uol.com.br/programas/radioatividade/marilena-chaui-afirma-que-quem-defende-familia-e-uma-besta.html/>. Acessado em 30 de setembro de 2018.

6 Jurandir Dias, Por que o socialismo odeia a família? Disponível em <https://ipco.org.br/por-que-o-socialismo-odeia-a-familia/>. Acessado em 30 de setembro de 2018.

7 Manual Prático para Diretores e Liberdade Religiosa de Igreja Local, Helio Carnassale e., (Brasília, DSA, 2017), p. 5.

8 Ibidem.

9 Não trataremos aqui do uso da força, o que difere em partes de violência, para propósito de defesa individual e coletiva, nem de episódios específicos em que Deus permitiu que seu povo guerreasse.

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